O melhor meio para se representar o país da Bíblia é imaginar seis faixas justapostas orientadas de norte a sul. A primeira dessas faixas é constituída pela planície costeira. Esta começa 20 quilômetros a norte de Aco, onde a sua largura não ultrapassa 5 quilômetros, para atingir gradualmente 13 quilômetros por alturas da baía de Haifa. Aí é cortada pelo monte Carmelo, a sul do qual é retomada, com uma largura de 4 quilômetros, num comprimento de 30 quilômetros. A sul do Naal Tanimim, a planície costeira alarga-se de novo para atingir 20 quilômetros na intersecção do vale do Aialon, que constitui uma via de penetração para a zona interior montanhosa. Mais a sul, na orla oriental, confunde-se pouco a pouco com a segunda faixa constituída pela Sefela. A sul de Gaza é com o Negueb que ela acaba por confundir-se.

Na época bíblica, o litoral da baía de Haifa ficava mais para trás relativamente ao que ele é nos nossos dias, rodeado de pântanos nas extremidades norte e sul. A sul do Carmelo, a zona costeira era formada por praias e lagunas, mas podiam lá instalar-se aldeias, notadamente na foz dos rios e dos uádis. A sul de Naal Tanimim, a terra era arborizada com carvalhos de folhas caducas e alfarrobeiras, e habitado na sua parte oriental no sopé das colinas.

A segunda faixa, a Sefela, proporciona uma transição entre a planície costeira e as montanhas do centro. Inclui uma sucessão de outeiros e de vales que ligam a planície à montanha. Outros vales orientados de norte a sul, ao mesmo tempo em que abrem vias de passagem, separam esta região em duas partes, ocidental e oriental.

A terceira faixa é constituída por uma longa aresta montanhosa. A norte, a Alta Galiléia é um maciço compacto, bastante e elevado, com alturas superiores a 1.000 metros e afloramentos complexos na sua vertente oriental. As passagens são raras e as pistas antigas evitaram esta região. Na Baixa Galiléia, o relevo é menos acentuados e numerosos vales, orientados de oeste para leste, ligam a planície costeira ao litoral do mar da Galiléia.

O maciço montanhoso do centro é cortado pelo vale de Jesrael, uma vasta planície triangular com quase 25 quilômetros de largura que, de noroeste para sudeste, une a planície costeira ao vale do Jordão. No sul, e relevo acentua-se progressivamente entrecortado por pequenos vales até os montes da Samaria, que culminam a 900 metros. A sul de Naplusa, um longo vale estreito desce de norte para sul até os montes de Betel, no centro do maciço. Os vales rareiam aqui e a estrada principal inclui numerosos ziguezagues. A aresta central prossegue pela depressão de Jerusalém, constituída a norte por uma estreita peneplanície e de leste para oeste por uma serie de pequenos vales que facilitaram a passagem. A sul de Belém, o relevo acentua-se para atingir um altitude média de 1.000 metros, antes de decrescer gradualmente à aproximação do Negueb.

A quarta faixa consiste numa fenda longa e profunda que constitui, de fato, a extremidade norte da depressão siro-africana. Esta depressão começa no mar da Galiléia, cujo nível se situa a- 200 metros. Quanto a mar Morto, situado mais a sul e com 400 metros de profundidade máxima, o seu nível é de – 400 metros. Excetuando as proximidades imediatas do Jordão, trata-se de uma região desértica ou semidesértica.

A quinta faixa é representada pela zona montanhosa que se levanta a leste da depressão. A nordeste do mar da Galiléia, o relevo atinge 1.100 metros antes de formar um planalto que se estende até Damasco. No sul encontra-se um maciço acidentado semelhante aos montes da Samaria e de Betel, que desemboca em altos planaltos de 800 metros a 900 metros de altitude. Em toda a região, os rios escavaram profundos vales. Na sua orla oriental, esta quinta faixa confunde-se com a sexta, constituída pelo deserto da Síria.

O país bíblico é uma terra de contrastes. Cada uma das “faixas” apresenta características que lhe são próprias e quando se percorrem de oeste para leste surgem impressionantes diferenças de relevo. O Nível da planície costeira quase não ultrapassa o do mar. Depois, a aresta central eleva-se a uma altitude de 1.00 metros, modulada no sul pelos vales da Sefela, antes de se lançar bruscamente na depressão oriental, cujo nível mais baixo se situa a – 400 metros. Finalmente, a montanha surge de novo a uma altitude de 1.100 metros antes de se perder no deserto. Outro traço marcante desta paisagem acidentada é o fato de a planície costeira e a espinha central serem cortadas de oeste para leste, uma pelo monte Carmelo e a outra pelo vale de Jesrael.

As variações de temperaturas são consideráveis. A este respeito, os contrastes mais notáveis manifestam-se na margem ocidental do Jordão, entre os montes da Judéia e o litoral do mar morto. Não é de espantar que, desde sempre, os privilegiados da fortuna tenham optado por passar o inverno nas margens do mar Morto e o verão nas regiões montanhosas do Centro. A leste, no planalto da Transjordânia, o clima muda de novo: os verões são temperados por brisas refrescantes e os invernos são mais rudes do que na Judéia.

As diferenças podem ser muito consideráveis dentro de uma mesma faixa. É, designadamente, esse o caso da Judéia, onde as condições de vida e de circulação se acham, por vezes, consideravelmente afetadas. O contraste mais marcante verifica-se quando, partindo de Jerusalém, nos deslocamos para os montes de Betel e da Samaria. Depois de termos seguido por uma estrada praticamente retilínea, metemo-nos bruscamente numa interminável serie de ziguezagues montanhosos para alcançar, de súbito, uma região em que impressionantes pequenos vales vêm intercalar-se entre os outeiros.

A paisagem Bíblica.

O turismo que visita atualmente Israel e Transjordânia não pode deixar de comprovar a vastidão das transformações ocorridas desde há 60 anos na paisagem de certas regiões do país. Essas transformações são particularmente evidentes ao longo da planície costeira, a sul do mar da Galiléia e em redor de Jerusalém. Mesmo depois de ter deixado essas regiões marcadas pela indústria, pela urbanização e pela agricultura intensiva, será que o visitante atual vê de fato o país tal como ele era nos tempos da Bíblia? Por exemplo, quando sobe os montes de Betel ou os da Judéia, a sul de Belém, ou a montanha da Alta Galiléia, terá realmente sob os seus olhos paisagens “bíblicas”?

Antes de mais, convém precisar que o período bíblico durou cerca de 1.300 anos, desde a conquista de Canaã pelos israelitas até o fim do século I da era cristã. Esse período pode ser mais longo ainda se admitirmos que os patriarcas (Abraão, Isaac e Jacó) viveram a tradição, entre 1750 e 1500 a.C. É verdade que durante todos esses séculos, notadamente na seqüência dos grandes trabalhos empreendidos nos reinados de Davi e Salomão, a paisagem se tinha já modificado um tanto. Nem por isso se deixa de afirmar correntemente que no início dos tempos bíblicos a terra devia assemelhar-se aquilo que atualmente vemos quando contemplamos essas montanhas despidas de vegetação ou essas colinas cobertas de culturas em socalcos ou cheias de arbustos selvagens.

É indiscutível que o país da bíblia já não apresenta nos nossos dias o aspecto que podia ter 4.00 anos antes da era cristã. Nessa época, a espinha montanhosa que se estende ao longo da margem ocidental do Jordão estava coberta de diferentes variedades de azinheiras, ao passo que carvalhos do Tabor (Quercus Ithaburensis) cresciam ao longo da planície costeira e no monte Carmelo. É igualmente indiscutível que foi o desaparecimento dessas árvores que permitiu a erosão crônica dos solos, ainda patente nos nossos dias nas zonas que não foram rearborizadas. A estação das chuvas, que dura, em principio, de outubro a abril, é caracterizada por violentas chuvas. As árvores de folhas persistentes têm como efeito quebrar o impacte da chuva. Quanto às raízes, afrouxam o escoamento da água. Uma vez desaparecidas as árvores, já nada impede que a água arraste consigo a terra das colinas para os vales. No que se refere ao clima propriamente dito, não parece que ele tenha mudado muito desde os tempos bíblicos.

Em contrapartida, não sabemos se as árvores já tinham desaparecido nem em que medida a erosão já tinha começado a sua ação na época bíblica (por volta de 1200 a.C.). A questão merece ser tomada em consideração, mesmo que só possamos responder por hipóteses. Nem por isso ela deixa de revestir uma importância capital quando se trata de determinar as condições da chegada dos israelitas a Canaã, assim como as suas estruturas sociais. Com efeito, é mais fácil a um povo fixar-se numa região em que a erosão abriu vias de acesso ás montanhas afastadas das cidades do que instalar-se numa zona florestal em que a implantação sedentária tem de ser precedida de um trabalho sistemático de desarborização e de arroteamento. Tal tarefa exige um esforço coletivo que implica uma organização social mais complexa que no caso de um tribo que vagueia à procura de pastagens. Numerosos autores contemporâneos aventaram a hipótese de os primeiros israelitas serem pastores nômades que constituíam um grupo social no qual o exercício do poder era partilhado entre os chefes das diferentes famílias. Entretanto, é igualmente verossímil supor que, por escolha ou por necessidade em virtude da natureza do terreno, esses homens se tenham tornado agricultores e se tenham instalado nas regiões arborizadas, onde constituíram uma sociedade na quais indivíduos dispunham do poder de organizar trabalhos coletivos. Atualmente, os problemas relativos à ecologia, os meios de subsistência, a importância da população e o habitat no início da idade do ferro (1200 a.C.) tornaram-se outros tantos temas de pesquisas e de discussões que parecem destinados a entrar, em larga medida, no quadro dos estudos bíblicos durantes os próximos anos. Neste estádio preliminar dos debates, para além dos objetivos principais que são os seus, o presente atlas pretende trazer a sua modesta contribuição, avançando algumas hipóteses no que se refere à extensão das florestas por volta de 1200 a.C.

Na altura da preparação dos mapas destinados a este atlas, passamos em revista todos os principais locais de habitações conhecidos que datam do 2.° milênio antes de cristo. De fato, alguns deles parecem ter sido ocupados desde o início do 3.° milênio. Por outro lado, pode acontecer que esses locais não tenham sido sempre utilizados de modo permanente. Finalmente, verifica-se que o habitat conheceu importantes modificações ao longo deste período.  O essencial, no que se refere à nossa pesquisa, e que esses locais nos permitem determinar os pontos onde era possível instalar-se nessa época, mesmo que por um tempo limitado. Ora verifica-se, apenas com algumas exceções, que esses locais encontravam na orla das zonas montanhosas, em colinas sobrepujando vales ou no sopé das montanhas. Os maciços montanhosos e as vastas regiões acidentadas estavam desabitados, não apenas porque os recursos de água eram insuficientes e o terreno não se prestava à agricultura, mas também – pelo menos é o que supomos – porque eles estavam cobertos de florestas. Trata-se de um ponto a que nos propomos voltar de novo à medida que abordamos cada uma das regiões.

O turismo que visita hoje o país da bíblia não pode deixar de maravilhar-se à medida que vai descobrindo tal variedade de paisagens num quadro tão reduzido. Todavia, terá também de ter em conta o fato de os homens e as mulheres cujos nomes o texto bíblico reteve vivido numa terra em que as regiões arborizadas eram muito mais numerosas do que nos nossos dias. Essas florestas eram o refúgio das feras: leões, leopardos, ursos, para apenas citar os mais temíveis. Constituíam também o domínio do mistério e do medo, o antro das forças do caos e da dúvida que se encarniçavam contra o homem e as suas boas intenções. Embora, pelo menos neste ponto, estejamos reduzidos a hipóteses, o leitor da bíblia poderá medir, fazendo apelo à sua sensibilidade e à sua cultura, até que o ponto a vizinhança destas florestas infestadas de feras pôde influenciar a vida e o simbolismo literário ao longo desta época.

Cartografia da Terra Santa.

De todas as regiões do mundo, a Terra Santa é, sem duvida, aquela da qual se estabeleceu o maior número de mapas. Desde o triunfo do cristianismo em Roma, no início do século IV, até a sua conquista pelo Islã. Na seqüência das cruzadas, entre os séculos X e XII, ela encontrou-se de novo, durante uma centena de anos, sob o controle da cristandade ocidental. A partir do século XIX conheceu um afluxo impressionante de peregrinos e de visitantes vindos da Europa e da América. Nunca, durante este longo período, o interesse apaixonado das comunidades judaicas por esta terra deixaria de manifestar-se. Numerosos são os peregrinos e os viajantes que publicados relatos das suas estadas na Terra Santa e em todos os seus escritos o estudo dos lugares encontra-se em estreita relação com a bíblia. A partir do século XIV, fez-se um esforço no sentido de traçar mapas do país, ou de algumas das suas regiões, notadamente de Jerusalém. Contudo, os primeiros levantamentos realizados segundo métodos científicos datam apenas do século XIX.

A fauna da Bíblia.

Numerosas passagens da Bíblia aludem a animais, cujos costumes são freqüentemente citados como exemplo. É assim que Isaias sublinha a fidelidade do boi e do burro para opô-la a ingratidão de Israel para com o seu Deus: “O boi conhece o seu possuidor, o jumento, o estábulo do seu dono; mas Israel nada conhece, o meu povo nada entende” (Isaías 1, 3). Quanto ao autor dos Provérbios, dá este conselho ao preguiçoso: “Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, observa o seu proceder e torna-te sábio” (Provérbios 6, 6). Os animais domésticos, quer se trate das ovelhas ou das cabras, dos bois ou dos jumentos, ocupavam então um lugar importante na vida quotidiana. Por outro lado, os animais selvagens, tais como os leões, os ursos ou os javalis, constituíam um perigo constantes, a que os pastores estavam muito particularmente expostos quando conduziam os seus rebanhos em pastagem isolada.

É por vezes muito difícil saber com exatidão a que tipo de animal o autor quer referir-se. As traduções nem sempre concordam de uma versão para outra. É assim que um versículo que citamos abaixo (Ezequiel 16, 10) se fala de sapatos de “pele de texugo”, segundo a Authorized Version inglesa. Mas outras propõem o golfinho, a foca, o dugongo para traduzir o hebraico tahahs, que a bíblia de Jerusalém traduz por “couro fino”, solução que aqui seguimos.

A flora da Bíblia

Tal como para os animais, a identificação das espécies vegetais citadas na Bíblia é por vezes bastante difícil. É, designadamente, esse o caso do “fruto proibido” que causou a queda de Adão e Eva. Embora as escrituras não nos dêem qualquer precisão sobre a sua natureza, a tradição sempre identificou com maçã, o que provocou doutas discussões sobre o problema de saber se esse fruto era de fato conhecido em Israel na época bíblica. O mesmo sucede no que se refere ao “lírio dos campos”, que, no fim de contas, poderia não ser a mais do que uma anêmona. A Bíblia menciona mais de uma centena de variedades de plantas, assim como o seu emprego pelos homens. A vinha permitia produzir o vinho e as oliveiras o azeite. As terebintáceas, tais como a Boswellia sacra, forneciam o incenso e diverso perfumes. O balsameiro (Commiphora gileadensis) era utilizado pelas suas virtudes curativas, e a hena (Lawsonia inermis) para a tinturaria.

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