Geografia física

Os gráficos dividem a montanha da Judéia em três zonas distintas: as colunas de Hebron, que se estendem por 40 quilômetros, do Naal Bersabéia ao sul de Belém: a depressão de Jerusalém, que prolonga o relevo até uma dúzia de quilômetros a sul de Ramalá, e a montanha de Betel, que se desdobra até o uádi Sereda. O capitulo presente é essencialmente consagrado à descrição e à historia das colinas de Hebron e de Belém. Jerusalém e as colinas do norte constituirão o objeto de um estudo particular.

As colinas de Hebron são rodeadas, a oeste, pelo vale que as separa da Sefela oriental: a sul, são delimitadas pela bacia de Bersabéia, ao passo que a leste dominam o árido deserto da Judéia, que pende sobre o mar Morto. A configuração deste deserto é das mais complexas e o seu estudos revela-se particularmente interessante quando se pretende aprofundar o estudo de certos acontecimentos que a Bíblia situa nesta região.

Do ponto de vista da flora, as colinas de Hebron dividem-se em duas partes. Uma, que se estende de Belém até uma dezena de quilômetros a sul de Hebron, estava outrora coberta de florestas de azinheiras, entre as quais se intercalavam, provavelmente, alguns bosques de pinheiros-de-alepo. A outra, mais a sul, era o domínio da “semi-estepe” mediterrânica, marcada por algumas pequenas matas isoladas. A média anual das chuvas varia entre 700 milímetros na parte norte, 450 milímetros em Hebron propriamente ditos e 300 milímetros na extremidade meridional, mais árida.

A implantação dos locais de habitação é muito significativa. No 2.° milênio, a maior parte das aldeias estava instalada, quer ao longo da estrada de Belém a Bersabéia, via Hebron, próximo de fontes ou do uádi el-Halil, quer nas franjas ocidental e oriental dos relevos. Duas exceções, no entanto: Jatir e Anim encontravam-se a montante de dois vales. As localidades construídas após a conquista pela tribo de Judá nada viriam a mudar quanto ao aspecto fundamental dos locais. É verossímil que na época bíblica toda esta zona fosse arborizada, pelo menos até uma dezena de quilômetros a sul de Hebron. Pode-se supor que as aldeias se tinham estabelecido nas clareiras e nas vertentes das colinas talhadas em socalcos para fins agrícolas, notadamente em ordem à cultura da vinha. As vinhas de Judá são celebradas no Gênesis 49. 11-12:

Então atar-se-á à vide o seu jumentinho,

e à parreira o filho da sua jumenta.

Lavar-se-á seu vestuário em vinho,

e a sua túnica no sangue das uvas.

Os olhos cintilar-se-ão de vinho,

e os dentes serão brancos de leite.

A bíblia diz-nos igualmente que os espiões enviados por Josué para reconhecer a região trouxeram um sarmento de videira com um cacho de uvas (Números 13, 21-24).

A economia rural de Judá compreendia igualmente a criação de ovelhas. Amós, que vivia em Técua, na orla oriental, a sul de Belém, era pastor e fazia também a colheita dos furtos do Sicômoro (Amos 7, 14). Em 1 Samuel 25 podemos ler a história de Nabal – se é que era esse o seu verdadeiro nome, porque esta palavra, que significa “insensato” em hebraico, correspondia mais ao seu comportamento (1 Samuel 25, 25). A verdade é que este homem, originário de Maon, possuía 3000 ovelhas e 1000 cabras cujo comércio fazia em Carmelo, a sudeste de Hebron.

A criação de gado ovino era florescente nesta região, onde as colinas desciam em degraus para o deserto da Judéia e o mar Morto. Na seqüência do regime das chuvas, os rebanhos passavam o inverno na parte inferior para subirem de novo a vertente no verão. A historia de José (Gênesis 37, 12-17) diz-nos que os filhos de Jacó tinham conduzido as ovelhas de Hebron para Siquém (cerca de 75 quilômetros) e depois para Dotam (35 quilômetros). É provável que a estação seca, que prevalecia então no deserto da Judéia, a leste de Hebron, os tenha incitado a procurar as pastagens mais verdejantes das colinas setentrionais. A ausência de chuva pode igualmente fornecer uma explicação para o fato de a cisterna na qual José foi lançado pelos seus irmãos, em Dotain, estar “vazia e sem água” (Gênesis 37, 24).

As colinas de Hebron constituem um conjunto homogêneo e economicamente autônomo. É por isso que elas puderam manter-se como domínio de uma única tribo – a de Judá -, ao passo que as outras foram instalar-se em ordem muito mais dispersa nas regiões setentrionais. Esta configuração geográfica permite igualmente compreender porque é que, na altura do cisma entre os dois reinos, a tribo de Judá se manteve unida à de Benjamim, que a partilhava com ela a baixa de Jerusalém, para formar com ela o reino do sul.

Tendo em conta a posição que ela ocupa, é normal que Hebron se tenha tornado a capital da região. Situada num pequeno vale, constitui uma encruzilhada natural, Hebron dominava a estrada norte-sul que ligava Jerusalém a Bersabéia. A oeste tinha um acesso fácil à Sefela e à planície costeira pelo Naal Láquis. A leste, uma rede de torrentes tributaria do uádi El-Gar abria a estrada do deserto da Judéia e de Em-Gadi no mar Morto.

A narrativa bíblica

Seria em Hebron que Abraão viria a instalar-se no seu regresso do Egito, depois de ter partilhado as suas terras com Lot (Gênesis  13, 8-13). Foi lá que ele preparou a sua expedição contra os quatro reis (Gênesis 14, 1-13) e que recebeu a visita dos três misteriosos emissários vindos para anunciar-lhe o próximo nascimento de seu filho. Foi igualmente em Hebron que ele suplicou a Deus para que poupasse Sodoma e Gomorra (Gênesis 18, 1-15; 22-33). Foi lá que sua esposa morreu e que ele enterrou numa caverna perto de Efron (Gênesis 23, 1-20), caverna que iria, mais tarde, tornar-se a sua própria sepultura (Gênesis 25, 7-10) e depois a de Isaac (Gênesis (49, 29-33). Por outro lado, parece que Jacó terá passado uma grande parte da sua vida em Hebron. Foi de lá que ele enviou José junto de seus irmãos (Gênesis 37,14) e que na altura da fome os seus outros filhos foram ao Egito para comprar trigo (Gênesis 42-44). Convém, no entanto, precisar que o texto relativo à história de José se contenta em indicar que Jacó vivia na “terra de Canaã” (ver Gênesis 42, 29). Foi aí (Gênesis 42, 33) que ele esperou com Benjamim o regresso dos filhos que tinham ido ao Egito.foi daí que no fim da segunda viagem (Gênesis 45, 25), depois de Jose se ter feito reconhecer pelos seus irmãos, o próprio Jacó tomou o caminho do Egito.

Hebron é de novo mencionado durante a estada israelitas no deserto. Foi desta cidade que os espiões trouxeram um sarmento de videira com um cacho de uvas (Números 13, 21-24). Na narração relativa à conquista de Canaã, o rei de Hebron é um dos cinco soberanos contra os quais Josué travou combate (Josué 10, 3-5). Tal como já assinalamos pode suceder que as três versões da tomada de Hebron por Josué (Josué 10, 36-37) e por Caleb (Josué 15, 14; juízes 1, 9-10) sejam apenas, de fato, relatos diferentes de um mesmo acontecimento. Por outro lado, em Josué 21, 12, lemos que Hebron “com as suas aldeias” foi atribuído a Caleb. Esta precisão comporta uma conotação econômica e social interessante, esclarecida pelas descrições feitas por Y. Karmon da organização desta região. A sua tese apóia-se na verificação de que só grandes cidades instaladas em posições de fácil defesa podiam garantir a segurança dos seus habitantes. Ora, a natureza muitas vezes pouco fértil do solo implicava uma dispersão considerável das parcelas cultivadas. Era, portanto, necessário criar residências temporárias à volta das localidades importantes.

Após o fim trágico de Saul (1 Samuel 31), foi em Hebron que Davi, quando ainda era vassalo dos filisteus, se fez sagrar rei de Judá (2 Samuel 2, 1-4). Foi dá que ele enviou as suas tropas contra os sobreviventes do exército de Saul, comandados por Abner (2 Samuel 2, 8 ss). Foi também em Hebron que Joab assassinou Abner para vingar a morte de seu irmão (2 Samuel, 2, 18-23; 3, 22-30). O desaparecimento de Abner iria desviar definitivamente as tribos do norte da casa de Saul. Os anciãos de Israel vieram então a Hebron, onde Davi reinava há mais de sete anos (2 Samuel 5, 5), para lhe proporem que reinasse também sobre Israel (2 Samuel 5, 1-5). Entretanto o exercício da soberania sobre as tribos do norte implicava a escolha de uma capital que estivesse menos descentralizada que Hebron, cuja localização, demasiado a sul, não permitia a Davi controlar o conjunto do país. Foi isso que o incitou a apoderar-se de Jerusalém, que não apenas se tornou a capital do novo reino unido como continuou a ser a capital de Judá após o cisma que se seguiu à morte de Salomão, arrastando consigo a constituição de dois reinos rivais (2 Samuel 5, 6-10).

Após a transferência da capital para Jerusalém, Hebron perdeu muito da sua importância para os cronistas bíblicos. Praticamente o seu nome só reaparece por ocasião da rebelião de Absalão (2 Samuel 15, 1-12). Ao escolher Hebron, para levantar o estandarte da revolta contra seu pai, Absalão esperava criar um choque psicológico. Os seus habitantes não tinham aceitado de bom grado que a sua cidade tivesse perdido o seu antigo em prol de Jerusalém. Tinham saudades do tempo em que Davi mantinha a sua corte em Hebron, antes de empreender a conquista das terras vizinhas, conquista essa que tinha tido como efeito transformar a vida social e econômica dos seus súbditos, tanto em Judá como em Israel.

Durante o cativeiro na babilônia, consecutivo à queda de Judá (587 a.C.), Hebron e a sua região foram atribuídos aos edomitas. Judas Macabeu reconquistou a cidade em 163 a.C. e destruiu as suas fortificações (I Macabeus 5, 65). Em 125 a.C. João Hicano anexou o sul do país das colinas ao reino judaico, obrigando a população a converter-se ao judaísmo. Em 20 a.C. Herodes, o grande, ligou de novo o local do tumulo dos patriarcas a Hebron. A cidade não é mencionada no Novo Testamento.

Depois de Hebron, a cidade da Judéia a que se alude com mais freqüência na Bíblia é Belém. Esta nunca foi uma localidade importante, provavelmente porque as nascentes da região não eram muito abundantes. A economia local baseava-se na criação de gado ovino e na cultura do trigo, mas a história de Rute dá a entender que a fome podia por lá grassar. Davi, o representante mais célebre de Belém no Antigo Testamento, tinha tido de lutar contra leões e ursos quando guardava os rebanhos de seu pai (1 Samuel 17, 34-36). Podemos supor que essas feras tinham os seus refúgios nas florestas das colinas de Hebron ou nas grutas do deserto da Judéia. Foi em Belém que Davi foi sagrado rei por Samuel (1 Samuel 16, 1-13) e foi lá que fez partir a sua família para a terra de Moab quando fugia diante de Saul (1 Samuel 22, 3-4). Após o reinado de Davi, Belém não é mais mencionada no Antigo Testamento, a não ser na lista das cidades fortificadas por Roboão (2 Crônicas 11, 6) e também como a cidade da qual, apesar do seu pequeno tamanho.

[...] há de sair para mim

Aquele que governará em Israel.

(Miquéias 5, 1)

No Novo Testamento, Belém é, primeiro que tudo, a cidade natal de Jesus (Mateus 2, 1; Lucas 2, 4-7), a da adoração dos magos (Mateus 2, 2-6), aquela também em que todos os meninos de menos de dois anos foram massacrados por ordem de Herodes, o Grande, que procurava assim eliminar o rei recém-nascido (Mateus 2, 16).

No que se refere às outras cidades da Judéia, já assinalamos Técua, a prátia de Amós, assim como Maon e Carmelo, em cujas proximidades Davi teve contas a ajustar com um rico proprietário de rebanhos (1 Samuel 25, 2-42). A bíblia alude igualmente a Zif e ao deserto que a rodeia (1 Samuel 23, 15 ss. E 26). Zif foi identificada com Tel Zif, a sudeste de Hebron. Parece que na altura da sua fuga Davi terá encontrado refugio em Horcha, no deserto de Zif (1 Samuel 23, 15-18). Foi aí que ele fez aliança com Jonatão. Entretanto, convem precisar que horsha significa igualmente “floresta” em hebraico, o que daria a entender que a região estava arborizada no tempo de Davi.

É evidente que os habitantes de Zif suportavam mal a presença de Davi. É verdade que, se ele se comportasse para com eles como o tinha feito com Nabal (1 Samuel 25, 5-8), da qual exigiria uma contribuição em viveres para eles e seus homens, pode compreender-se que os zifenses, cansados das suas exigências, o tenham traído junto de Saul. Numa primeira vez, Saul esteve quase a apoderar-se de Davi, mas um ataque inopinado dos filisteus obrigou-o a abandonar a sua perseguição acabou por ser favorável a Davi (1 Samuel 26, 1-25). Acompanhando por Abisai, o jovem Hebron penetrou de noite no acampamento dos seus perseguidores e encontrou Saul adormecido e à sua mercê. Contudo, não o matou. Pelo contrario, deu uma reprimenda às sentinelas que tinham guardado tão mal o seu rei contra o homem que ele próprio procurava eliminar. Este belo gesto não bastou, no entanto, para reconciliar os dois homens desavindos, apesar do remorso aparente de Saul.

Belém

Aldeota insignificante na época bíblica. Belém deve toda a sua reputação ao fato de ter visto nascer Davi e Jesus. Situada na orla ocidental do deserto da Judéia, a aprovação desde sempre se mostrou hospitaleira para com os viajantes. O texto bíblico indica que lá se praticava ao mesmo tempo a agricultura (Rute 2) e a criação de gado (1 Samuel 16, 11). Todavia, a historia de Rute atesta também que, em período de seca, a fome podia grassar na região. Davi, já adulto, residiu a maior parte do tempo em Hebron e em Jerusalém, mas Belém, a sua cidade natal, permaneceu, na tradição profética, aquela donde sairia outro grande rei de Israel (Miquéias 5, 1). Para o Novo Testamento, o nascimento de Jesus em Belém constitui o cumprimento desta profecia, embora também ele tenha passado a maior parte da sua vida alhures. Com a expansão do cristianismo, Belém tornou-se um centro de peregrinação e em 330 Constantino mandou lá edificar uma basílica dedicada à Natividade.

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