Geografia física

Em hebraico, a palavra Shephéla significa “terras baixas”. Encontra-se com freqüência no Antigo Testamento. Em Josué 15, 20-63, este termo designa uma região que não é nem o “extremo sul” (negeb em hebraico, versículo 21), nem a “montanha” (harem hebraico, versículo 48). O texto apresenta uma lista de cidades da “Terra Baixa”, às quais juntas cidades habitualmente localizadas na “planície costeira” (versículos 45-47).

É difícil definir com precisão os confrontos da Sefela. A Norte é limitada pelo vale de Aialon, uma fenda geológica que vai dar à planície de Lod. Na orla oriental, é rodeada por uma serie de vales orientados de norte para sul até a Tarcumia (Iftá), antes de obliquar para sudoeste. Estes valores, assim como o contraste que eles proporcionam com os contrafortes montanhosos de leste, inspiram brilhantes descrições a G.A. Smith. A sul, o limite é representado pelo Naal Sicma e, a oeste, pela planície costeira. É este último limite que é o mais difícil de determinar, na medida em que esta planície tem muitas vezes tendência a confundir-se com os pequenos vales de Sefela. O conjunto da região constitui uma faixa de cerca de 45 quilômetros de comprimentos por 15 quilômetros de largura.

Na parte ocidental da Sefela, as colinas, com uma altura de 120 metros a 350 metros, são formadas de calcário mole e de greda. Uma serie de pequenos vales, orientados de norte para sul e desembocado no centro da região, separa as colinas de oeste e as de leste. Mais altas, estão últimas estão recobertas por uma camada de calcário duro, com a espessura de 1 metro a 2 metros. De forma mais arredondada que na parte ocidental, são também menos propícias à agricultura.

A freqüência das chuvas diminui à medida que se desce para sul. De 500 milímetros a norte, a média anual passa para 350 milímetros no centro da região, para cair para 250 milímetros na extremidade meridional. Estas variações do regime das chuvas se refletem, obviamente, na distribuição das localidades, muito mais numerosas a norte do que na parte sul.

No 2.° milênio a.C., os locais habitados estavam implantados junto da orla leste de Sefela – Adulam, Queia, Eglon (?) -, assim como ao longo de uma linha que corresponde ao limite entre as partes oriental e ocidental: Best-Semes, Jarmut,Moreset-Gat (?), Maresa, Láquis. A parte oriental parece ter sido muito pouco habitada, exceto nas suas franjas leste e oeste e nos vales que a recortam. Daí podemos razoavelmente deduzir que na época bíblica esta parte da Sefela estava coberta, a leste, de espessas florestas de azinheiras e, a oeste, de lentiscos e alfarrobeiras.

Não temos informações no que se refere à vegetação da Sefela ocidental. A verdade é que os solos destes vales continuam a ser muito rico e a agricultura era então muito próspera.  O Antigo Testamento precisa que Salomão tinha tornado os cedros “tão numeroso como os sicômoros da Sefela” (1 Reis 10, 27). Este Sicômoro era, verossimilmente, uma variedade local da figueira. Em 1 Crônicas 27-28, podemos ler que, no reinado de Davi, Baal-Hanan foi colocado à frente das “oliveiras e dos sicômoros da Sefela”. Não é, portanto, impossível que algumas partes da vertente ocidental tenham sido consagradas à cultura da oliveira, da figueira e da vinha (juízes 14, 5).

Nos tempos bíblicos, as principais estradas seguiam os diferentes vales orientados de leste para oeste e de norte para sul que quadriculam a Sefela. É assim que Láquis se encontrava na encruzilhada de duas estradas, uma orientada de norte para sul, provindo de Bet-Semes, e a outra, de leste para oeste, que corria ao longo do Naal Láquis em direção a Hebron. Foi provavelmente essa ultima estrada que Sansão tomou quando percorreu 70 quilômetros transportando as portas de Gaza até Hebron (juízes 16, 1-3).

A posição estratégica de Láquis, tal como a sua magnífica localização natural, devia fazer dela a segunda cidade de Judá. A sua conquista pelo rei assírio Senaqueribe, em 701 a.C., foi imortalizada por um baixo-relevo que se encontra atualmente no British Museum.

A narrativa bíblica

A Sefela é mencionada pela primeira vez em Josué 10. O rei de Jerusalém, alarmado pela aliança concluída entre a cidade de Gabaon e os israelitas, pediu a ajuda dos reis de Hebron, Jarmut, Láquis e Eglon (Josué 10, 3). É interessante notar a posição estratégica destas cidades. Hebron controlava a estrada do Sul, que ligava Jerusalém ao Negueb. Láquis e Jarinut encontravam-se na que atravessa a Sefela no sentido norte-sul. Quanto a Eglon, se trata, de fato, da Eglon da Judéia, atualmente Tel Eton (?), levantava-se na estrada que corre ao longo dos contrafortes montanhosos do Leste. Não é impossível que a aliança entre estes reis tenha, por outro lado, implicado um acordo mútuo em ordem a impor um direito de pedágio nestas que eles controlavam.

Na batalha que se seguiu, os cinco reis foram vencidos. Foi nesta altura que Josué pediu a Deus que tratasse o pôr do Sol a fim de que ele pudesse obter uma vitória total (10, 12-14). Os inimigos derrotados puseram-se em fuga ao longo do uádi Miquetli (Naal Bet-Horon) e no vale de Aialon. Depois tentaram, verossimilmente, chegar de novo a Láquis pelos vales do Nason, do Meir e do Sorec, passando por Bet-Semes. No caminho apanharam tal chuvarada de granizo entre Bet-Horon e Azeca que aí morreu um maior número de inimigos do que os que tinham perecido sob a espada dos israelitas (Josué 10, 11).

Seguidamente, Josué atacou as cidades cujos reis acabavam de vencer. O seu objetivo era assegurar o controle dos eixos de comunicação. Tendo submetido Libna (Josué 10, 29-30) – provavelmente a atual Hobat Lavnin, que se encontrava a 7 quilômetros a sudeste de Azeca -, apoderou-se de Láquis, que sucumbiu apesar dos reforços vindos de Guezer, situada a mais de 35 quilômetros, a norte (Josué 10, 31-33). Depois marchou sobre Eglon (Josué 10, 34-35). Se esta Localidade corresponde, de fato, à atual Tel Eton, é provável que Josué se tenha dirigido para sudeste, ao longo do Naal Láquis, para apanhar a estrada que se segue os contrafortes montanhosos, antes de atacar a cidade pelo leste. Uma vez assegurado o seu flanco, pôde lançar o seu exército sobre Hebron, a noroeste (Josué 10, 36-37), antes de “voltar-se” (Josué 10, 38) contra Debir (quer seja Tel Beit Mirsim que Horbat Rabud). O texto bíblico relato que Hebron e Debir foram igualmente tomadas por Caleb (Josué 15, 13-17). Pode tratar-se da mesma operação que é evocada em Josué 10, 36-39, ao longo da qual os israelitas beneficiaram do apoio dos calebitas, a menos que seja feita alusão a combates posteriores. Estes acontecimentos são igualmente relatados em Juízes 1, 10-13.

Faz-se de novo menção à Sefela no relato das proezas de Sansão. (O território da tribo de Dan compreendia dezessete cidades algumas das quais situadas ao longo da costa a sul da foz do Naal Jarcon Josué 19, 45). Tratava-se, notadamente, de Bené-Berac (Givat-há-Radar?) e de Gat-Rimon (Tel Gerisa?). As outras se encontravam no amplo vale do Naal Sorec. Foi aí, em Saréia, que nasceu Sansão (Juízes 13, 2).

O primeiro relato que se refere a Sansão adulto tem como quadro Timna (Juízes 14, 1), onde se vê o herói apaixonado por uma filistéia. Esta referência à presença dos filisteus naquela cidade israelita (ver Josué 19, 43) é significativa. Confirma que eles tinham subido de novo pelo vale do Sorec e se tinham instalado em terra. Esta jovem mulher, que Sansão desposara, é a mesma que lhes revelar a chave do enigma sobre o mel e o leão (juízes 14, 5-20). O desentendimento entre Sansão e a família de sua esposa incitou-o a incendiar as searas e os olivais nas imediações de Timna (juízes 15, 1-8).

Foi na seqüência deste incidente que os filisteus subiram até Leí, em Judá (Juízes 15, 9-20). Embora ignoremos tudo a respeito da localização desta povoação, o fato nem por isso é menos revelador do poderio crescente dos filisteus e da pressão que eles exerciam continuamente sobre a tribo de Dan. Os danitas já tinham sido expulsos de uma grande parte do território que lhes tinha sido atribuído por Josué (Josué 19, 40-46). O texto de juízes 18, 2 deixa entender que na época de Sansão Dan já só controlava duas cidades, Saréia e Estaol, antes do seu êxodo para o Norte e da sua instalação em Lais, perto da nascente do Jordão (Juízes 19, 27-29). Quanto à história  de Sansão e Dalila, o texto bíblico contenta-se em assinalar que ela se desenrolou no “vale do Sorec” (Juízes 16, 4).

O lugar do encontro entre Davi e Golias, o gigante filisteus, só pode determinar-se de modo aproximativo. Segundo 1 Samuel 17, 1-3, os inimigos de Israel tinham instalado o seu acampamento em Efes-Da-mim, um local não identificado entre Socó e Azeca. Como estas localidades se encontram, tanto uma como a outra, do mesmo lado do Naal ha-Ela, é provável que ambos os exércitos se tenham entrincheirado nas elevações de um lado e do outro da torrente. Essa posição permitia-lhes estar de atalaia contra todo o ataque imprevisto, ao mesmo tempo em que lhes dava a possibilidade de assistir ao combate que os seus campeões iriam travar no vale. Após a derrota de Golias, os israelitas perseguiram os filisteus, ao longo do Naal há-Ela, até Gat e Acaron (1 Samuel 17, 52).

Encontramos novas alusões às cidades da Sefela por ocasião da fuga de Davi, perseguido pela loucura mortífera de Saul. Segundo 1 Samuel 22, 1, o herói fugitivo reuniu um grupo de 400 marginalizados na “caverna de Adulam”. Adulam uma antiga cidade Cananéia (Josué 12, 15) na estrada que ligava a Sefela às montanhas do centro. Encontra-se junto do Naal ha-Ela, cujo vale se orienta de leste para oeste. Parece que Davi terá escolhido aquele lugar de refugio, não apenas por se encontrar numa encruzilhada, mas também porque as florestas próximas lhe ofereciam um abrigo suplementar em caso de necessidade.

Em 2 Samuel 23, 13-17, tomamos conhecimento de que Davi enviou três guerreiros de Adulam até Belém, ocupada pelos filisteus, para de lá trazerem água: Este texto implica que na altura da fuga de Davi os filisteus tinham estendido o seu domínio até o centro da terra de Judá. Também é verdade que se os homens de Davi tivessem tomado a estrada mais direta para se dirigirem a Belém teria seguido o vale do Naal ha-Ela antes de se meterem por um vale, menor, que os teria levado ao destino. Mas é provável que essa estrada estivesse guardada e que os guerreiros de Davi, que conheciam a região muito melhor que os filisteus, tenham preferido infiltrar-se por caminhos ocultos. Numa outra altura, quando os filisteus pilhavam Queila (1 Samuel 23, 2), Davi acorreu em defesa desta cidade, que se encontrava não longe de Adulam, na estrada que separava a parte oriental da Sefela das montanhas do centro.

Sefela é de novo mencionada nos textos relativos ao reinado de Roboão (928-911 a.C.). Este rei, neto de Davi, fortificou algumas regiões de Judá e, muito particularmente, a Sefela, onde os seus arquitetos militares se interessaram por cidades tais como Socó, Adulam, Gat Maresa, Láquis, Azeca, Saréia e Aialon (2 Crônicas 11, 6-10). Na realidade, ele transformou a estrada norte-sul, que atravessa a Sefela, numa fronteira fortificada. Entretanto, estes trabalhos revelaram-se insuficientes para as tropas egípcias de Sheshonk I (945-924), que invadiram o país em 924 a.C. Embora 1 Reis 14, 25-27 só faça alusão à tomada de Jerusalém, os textos egípcios dão a entender que o faraó lançou os seus exércitos ao longo da estrada norte-sul, a oeste da linha fortificada, e depois desencadeou uma operação em tenaz na direção de Jerusalém, situada a leste. Não parece que Sheshonk em pessoa se tenha dirigido a Jerusalém; contentou-se em cobrar um tributo a Gabaon, antes de ir atacar as cidades fortes de Israel.

No início do século VIII (c. 786 a.C), Bet-Semes, na Sefela, foi teatro de uma dura batalha entre Amasias, rei de Judá, e Joás, rei de Israel (2 Reis 14, 8-14). Vencedor dos edomitas (2 Reis 14, 7) e desejoso de assegurar a supremacia na região, Amasias desafiara Joás. Este lhe respondera por meio de uma parábola que viria a ficar célebre: “O espinho do Líbano mandou dizer ao cedro do Líbano: ‘Dá a tua filha por esposa a meu filho. ’ Mas os animais selvagens do Líbano passaram e pisaram o espinho.” (2 Reis 14, 9.) Amasias não quis compreender e os dois exércitos encontraram-se frente a frente em Bet-Seroes. Pode-se pôr a questão de saber que é que o rei de Israel, cuja capital, Samaria, estava situada a norte de Jerusalém, desceu até Bet-Seroes para enfrentar o rei de Judá. Com efeito, parece que se tratou de um combate de cavalaria e de carros cujos movimentos se tornavam mais fáceis na vasta planície, que se encontrava num nível inferior à cidade. Tudo leva a crer que, depois de tê-las feitos percorrer a estrada do litoral, o rei de Israel reagrupou as suas forças em Bet-Seroes, pondo assim um delicado problema tático ao seu rival. Se Amasias não o atacasse, Joás poderia então flagelar as cidades da estrada de Bet-Seroes a Láquis. Se, pelo contrário, travasse batalha, poderia ser vencido, abrindo assim a Joás o vale do Naal Refaim e a estrada de Jerusalém. Foi o que aconteceu. “Amasias foi batido e Joás apoderou-se de Jerusalém, em cujas muralhas fez uma brecha de 400 côvados” (2 Reis 14, 13).

A defesa de Sefela contra um inimigo vindo de oeste iria construir um grave problema estratégico para vários reis de Judá. Assim, sob o reinado de Acaz (c. 743-727), os filisteus invadiram a Sefela e a apoderaram-se de Bet-Seroes, Aialon, Gulderot, Socó e Timna (2 Crônicas 28, 18). Este desastre foi vingado pelo seu sucessor, Ezequias (c 727-698), que venceu os filisteus e os perseguiu até Gaza (2 Reis 18, 8). Mas este êxito foi de curta duração. O ataque contra os filisteus tinha sido apenas um episódio da rebelião de Ezequias contra a autoridade dos assírios, que dominavam a região desde que Acaz se tinha colocado sob a suserania de Tiglat-Pileser (2 Reis 16, 7-8). Agora tinha de enfrentar a cólera do filho e sucessor de Sargão II, Senaqueribe.

Os assírios efetuaram um movimento de tenaz. Um dos eixos do ataque, dirigido de norte contra Jerusalém, passava ao longo das montanhas do centro (ver Isaias 10, 27b-32). O outro, que se desdobrava na parte ocidental de Judá, tinha Láquis como objetivo. Após a queda desta cidade, os assírios puderam apoderar-se, sucessivamente, de Maresa, Moreset-Gat e Adulam, assim como de outras localidades da região (Miquéias 1, 10-15). A estrada de oeste iria igualmente ser utilizada por Nabucodonosor em 587 a.C., durante a sua segunda campanha contra Jerusalém. Jeremias 34, 7 dá-nos conhecimento de que só Jerusalém, Azeca e Láquis resistiram algum tempo aos assaltos assírios. O fato é confirmado pelas “cartas de Láquis”, notadamente a quarta, que evoca essa resistência: “Esforçamo-nos por captar os sinais de fogo ou de fumo de Láquis [...] porque não podemos ver Azeca.”

Após o regresso do exílio na Babilônia (597-540 a.C.), a Sefela só é mencionada uma única vez no Antigo Testamento, por Neemias (11, 29-30), por ocasião da enumeração das cidades habitadas por gentes de Judá.

Láquis

Láquis era a segunda cidade de Judá, depois de Jerusalém, mas, contrariamente a Hebron, nunca foi a capital. Nem por isso deixava de ocupar uma posição estratégica de eleição, no cruzamento das estradas norte-sul e leste-oeste. Fundada no fim do 3.° milênio antes de Cristo, viria a sucumbir, ao longo dos séculos, aos assaltos de numerosos invasores. Depois de Josué se ter apoderado dela (Josué 10, 30), tornou-se uma poderosa cidade fortificada, cujo cerco e tomada por Senaqueribe, em 701, foram imortalizados por um baixo-relevo assírio que se encontra atualmente no British Museum. Em 587, Láquis caiu nas mãos dos babilônios. De novo habitada por israelitas no regresso do exílio, tornou-se residência do governador persa da região antes de ser abandonada no século II a.C.

A guerra nos tempos bíblicos

A guerra devia constituir uma das calamidades permanentes dos tempos bíblicos. Já tinha sido pelas armas, sob o comando de Josué, que os hebreus tinham tomado posse do seu país. Seguidamente, foram necessárias todas as qualidades de estrategista do rei Davi para pôr fim à opressão devastadora dos filisteus. Por fim, ao longo de toda a sua historia, os reinos de Israel e de Judá viveram sob a ameaça constante dos seus poderosos vizinhos egípcios, assírios e babilônios, ou de outras nações de menor importância, como a Síria. Foi igualmente por meios guerreiros que os israelitas conseguiram, em certos períodos da sua historia, fazer recuar as fronteiras do seu país. Na época do Novo Testamento, os Judeus sofriam a ocupação militar de Roma, cujas legiões esmagaram impiedosamente todas as suas tentativas de revolta, notadamente em 73 e em 135 d.C. A guerra era onipresente no mundo bíblico e foi neste contexto de violência que se desenvolver a noção de povo eleito e de sacerdócio real.

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