Geografia física

Já tivemos ocasião de precisar que a região de Jerusalém forma uma espécie de baixa (depressão) entre a montanha de Hebron, a sul, e a de Betel, a norte: os seus cumes dominam-na de fato, a mais de 200 metros. Na sua parte setentrional, esta depressão ganha à forma de um planalto onde os israelitas instalaram um aeroporto. A maioria dos rios da região corre para oeste, em direção à planície costeira, na qual deságuam depois de terem escavado amplos vales através da Sefela. O mais notável desses vales é o de Aialon. Este sistema hidrográfico teve como conseqüência proporcionar importantes vias de passagem oeste-leste, que desembocam na baixa de Jerusalém. Por outro lado, como esta se encontrava mais ou menos à mesma latitude que o mar Morto, constitui a encruzilhada praticamente obrigatória das grandes estradas de leste, notadamente do vale do Jordão, muito mais facilmente acessível por Jerusalém do que por Hebron.

O estudo dos locais de habitação do 2.° milênio revela importantes implantações humanas entre Jerusalém e Betel, principalmente na franja ocidental dos relevos que impendem sobre os vales. Com efeito, tudo leva a crer que estas colinas eram arborizadas, pelo menos no inicio dos tempos bíblicos. É, em todo o caso, o que parece indicar o nome de certas localidades, tais como Quiriatiarim que etimologicamente significa “cidade dos bosques”. Por outro lado, sabemos que, quando se deu uma batalha contra os filisteus no vale dos Refaim (Gigantes), a sudeste de Jerusalém, Davi lançou o seu ataque do “lado das amoreiras”. Embora o texto não precise a variedade exata dessas árvores, não deixa de confirmar a sua presença. Ficamos igualmente sabendo que, quando perseguiam os filisteus, a norte de Jerusalém, Saul e os seus homens penetraram “numa floresta” (1 Samuel 14, 25). Quanto a Eliseu, que tinha amaldiçoado os patifes insolente por ele encontrados na estrada de Jericó a Betel, viu sair “da floresta dois ursos que despedaçaram quarenta e dois daqueles rapazes” (2 Reis 2, 24).

Nos nossos dias, salvo nos locais onde foi recentemente levado a cabo o reflorestamento, estas colinas estão praticamente despidas de vegetação. Já o estavam no século XI d.C., quando os cruzados cercaram Jerusalém. Runciman escreve a este propósito: “Era ainda necessário encontrar madeira para construir as maquinas de assedio. Como não havia arvores nas elevações desertas à volta de Jerusalém, os cruzados foram obrigados a organizar expedições em ordem a consegui-las. Só depois de Tancredo, Robert d’Artois e os seus homens terem descoberto as florestas da Samaria e de lá terem regressado carregados de troncos e de grossas tábuas [...] só então puderam, finalmente iniciar-se os trabalhos.”

A desarborização da região na época bíblica pode explicar-se, numa certa medida, pela considerável quantidade de lenha necessária aos inúmeros holocaustos oferecidos em Jerusalém e em outros santuários. Quando se considera que Salomão ofereceu 1.000 vitimas em holocaustos em Gabaon (1 Reis 3, 4) – e o texto hebraico dá a entender que tal gesto foi repetido várias vezes – , seria interessante calcular o numero de árvores que foi necessário abater para assegurar a sua combustão. Se tivermos igualmente em conta o sacrifício ritual que, durante 900 anos, se tinha desenrolado diariamente no templo, não é de surpreender que o potencial florestal da região tenha com isso ficado diminuído.

A cidade de Jerusalém esta situada na borda oriental da aludida baixa. O deserto da Judéia, de clima árido, começa apenas a alguns quilômetros a leste. No plano estratégico, Jerusalém estava longe de poder rivalizar com Láquis ou Meguido e se Davi não tivesse mantido como uma pequena povoação no cruzamento das estradas norte-sul e leste-oeste. Por outro lado, Jerusalém é dominada por colinas a leste; a oeste, na época de Davi, uma colina dominava o esporão rochoso que ele tinha tomado aos jebuseus. Era, talvez, esta aparente insignificância que incitava o salmista (Salmos 68, 16) a interrogar as montanhas de Basan:

Montanha de Deus, a montanha de Basan!

Montanha de altos picos, a montanha de Basan!

Ó montes escarpados, porque invejais a montanha

Que o Senhor elegeu para a sua morada?

O Senhor habitara nela eternamente!

Antes de abordar o estudo pormenorizado de Jerusalém, que se impõe, poderia ser interessante determo-nos um momento na região de que ela é o centro.

A narrativa bíblica

Convém, antes de mais, precisar que, embora por lá nunca se detivessem em Jerusalém para rezar. As cidades a que o seu nome se mantém ligado são essencialmente Siquém, Betel e Hebron, em que foram sepultados. O Gênesis (14, 18) assinala, entretanto, o encontro entre Abraão e Melquisedeque, rei de Salém. Identificar, como geralmente se faz, esta última cidade como Jerusalém é o único meio de ligar os patriarcas à capital de Davi.

As colinas de Jerusalém são mencionadas pela primeira vez em Josué 9, 3-27, a propósito de uma habilidade a que os homens de Gabaon tinham recorrido para que as cidades fossem poupadas no momento da conquista. Tinham conseguido concluir um tratado de aliança com Josué, fazendo-lhe crer que vinham de muito longe, quando a sua terra se encontrava penas a 30 quilômetros. Quando o logro foi descoberto, os gabaonitas lembraram a Josué que estavam ligados por um acordo. Entretanto, este acordo entre os hebreus e os gabaonitas, que foi firmado após a derrota de Ai, não podia deixar de inquietar o rei de Jerusalém, porque “Gabaon era, de fato, uma grande cidade, uma cidade real, muito maior que Ai, e todos os seus habitantes eram valorosos” (Josué 10, 2). Constitui, portanto, uma coligação para castigar os gabaonitas, coligação em que participam outros soberanos que, como o de Jerusalém, controlava as estradas da Judéia e da Sefela. Mas Josué foi a auxilio de Gabaon e venceu os reis.

Quando se deu a partilha do território entre as tribos, a fronteira setentrional de Judá, que seguia o curso do Naal Kesalon e do Naal Sorec, e englobava Quiriatiarim (Josué 15, 9), contornava Jerusalém pelo sul. Assim. A cidade encontrava-se, de inicio, fora do território de Judá, cujos homens não tinham podido desalojar os jebuseus que a ocupavam (Josué 15, 63). O traçado desta fronteira é confirmado por Josué 18, 11-28, que situa “Jebus, que é Jerusalém”, em território benjaminitas, do mesmo modo que Quiriatiarim, que, no entanto, é anteriormente designada como uma “cidade dos filhos de Judá”. É provável que estas discordâncias apenas reflitam as modificações de fronteira consecutivas às vicissitudes das relações entre Benjamim e Judá.

Foram, finalmente, os homens de Judá que se apoderaram de Jerusalém e a incendiaram (juízes 1, 8), mas os benjaminitas não expulsaram a população local: “Os filhos de Benjamin não expulsaram os jebuseus, que habitavam em Jerusalém, os quais, até hoje, têm habitado com os filhos de Benjamim” (juízes 1, 21). Estes acontecimentos parecem indicar que as duas tribos tinham decidido, por meios diferentes, restringir o controle exercido pelos jebuseus sobre a estrada norte-sul: Judá saqueando Jerusalém sem ocupá-la, Benjamim concluindo um acordo pacifico com os primeiros habitantes.

O capitulo 3 do livro dos Juízes relata as proezas de Aod, o benjaminita canhoto que libertou Israel depois de Eglon,  rei de Moab, ter ocupado a “cidade das palmeiras” (Jericó). Em hebraico, o termo que designa um canhoto subentende igualmente uma deformação congênita, mas no caso de Aod é precisamente essa particularidade que lhe permite dissimular uma espada de que ele se serviu para matar Eglon. Na seqüência deste assassínio, que verossimilmente ocorreu em Jericó, Aod reuniu os israelitas à volta dos vaus do Jordão, onde massacraram todos os moabitas que tentavam atravessar o rio. Juízes 18, 12 alude à cidade de Quiriatiarim, por ocasião do êxodo dos homens de Dan para o Norte do território. O texto precisa que os danitas levantaram as suas tendas em “Quiriatiarim, de Judá”, que fica a oeste da cidade, num lugar que denominaram Maané-Dan.

Os últimos capítulos do livro dos juízes são consagrados a um grave incidente e suas conseqüências que tiveram como teatro a região de Jerusalém. A personagem centra é um levita que vivia na montanha de Efraim. Como a sua concubina tivesse regressado há quatro meses para casa de seu pai, em Belém, ele resolveu ir procurá-la. Tendo a viagem de regresso começado à tarde o levita recusou-se a passar a noite em Jerusalém. Declarou ele: “Não entrarei numa cidade estrangeira que não é dos filhos de Israel. Iremos até Guibeá” (juízes 19, 12). Guibeá, que corresponde, provavelmente, à atual Tel el-Ful, encontrava-se a alguns quilômetros a norte de Jerusalém. O levita e os seus foram albergados durante a noite em asa de um velho, originário de Efraim, tal como ele. A noite, pessoas da cidade – israelitas, entre os quais o levita quisera precisamente albergar-se, preferindo-os aos estrangeiros – apresentaram-se em casa do velho. Parece que estariam animados de intenções homossexuais em relação ao levita. O hospedeiro desembaraçou-se deles entregando-lhes a concubina do seu convidado. Depois de terem abusado dela durante toda a noite, abandonaram-na morta na manhã seguinte. O levita recolheu o corpo da jovem mulher dentro de casa e depois o cortou em doze pedaços, que enviou a todo o território de Israel, a fim de reclamar justiça contra os homens de Guibeá.

Todas as cidades de Israel, à exceção de Jabes de Galaad, enviaram os seus representantes à assembléia que se reuniu em Mispá. Daí se dirigiu a Betel, a fim de consultar Deus. Depois de os israelitas se terem colocado em ordem de batalha, os benjaminitas, que se tinham levantado em massa para defender Guibeá, infligiram-lhes pesadas baixas. No terceiro dia, na seqüência de uma armadilha de guerra, os israelitas atraíram os benjaminitas a uma emboscada e apoderaram-se da cidade, que saquearam. O massacre foi tal que no fim dos combates apenas restaram 600 homens da tribo de benjamim. A fim de que esta tribo não desaparecesse, e também porque os outros israelitas se tinham comprometido a não darem suas filhas aos benjaminitas, foi decidido organizar uma expedição contra Jabes de Galaad, a única cidade que não tinha participado na operação punitiva. Aí, toda a população foi passada a fio de espada, à exceção das jovens que foram dadas como esposas aos sobreviventes de Benjamim. Subseqüentemente, 200 outras jovens foram raptadas com o mesmo objetivo, entre as que dançavam na festa anual de Silo.

Tais processos não podem deixar de surpreender. Embora as manifestações coletivas deste gênero pareçam ter sido relativamente raras no tempo dos juízes, alguns especialistas quiseram ver, nesta reação unânime das tribos, o indicio de uma organização político-militar de caráter anfictiônico. Seja como for, é evidente que nesta ocorrência a violação e a morte de uma mulher indefesa puderam apresentar-se como suficientemente odiosos aos olhos dos israelitas para incitá-los a desencadear uma operação concertada contra os culpados e aqueles que tinham tomado o seu partido.

A época real

Tal como nos últimos capítulos do livro dos juízes, os principais acontecimentos da primeira metade de 1 Samuel desenrolam-se à volta de Jerusalém. A sua personagem principal é Samuel, o último dos juízes e o iniciador da monarquia. Nascido em Silo, onde viveu durante toda a sua infância, Samuel exerceu a maior parte do seu ministério, em território benjaminita. Residia em Ramá (1 Samuel 7, 17) e as suas funções levavam-no com regularidade a Betel, Guilgal e Mispá. Em 1 Samuel 7, 5-14, o poder da sua intervenção espiritual e o raio enviado por Deus permitiram aos israelitas vencer os filisteus. Os anciãos do povo nem por isso deixaram de pedir ao profeta que lhes desse um rei “para nos governar, tal como se faz em todas as outras nações” (1 Samuel 8, 5). Foi em Ramá que eles lhe dirigiram esta petição. Foi também para lá que eles os remeteram, depois de lhes ter censurado por quererem um soberano terrestre. Foi finalmente, em Mispá que ele os reuniu de novo (1 Samuel 10, 17) para fazer aclamar Saul, designado como rei por respeito.

A maneira como Saul entra em cena situa-se num contexto geográfico mal definido. Saul andava à procura das jumentas de seu pai e só mais à frente, em 1 Samuel 10, 26, é que ficamos a saber que ele vinha de Guibeá. Tendo partido das colinas de Efraim, Saul percorreu as terras de Salisa, de Saalim e de Benjamim antes de chegar à de Suf. É provável que estas “terras” não fossem mais do que propriedades pertencentes a famílias efraimitas. Neste caso, se Baal-Salisa (2 Reis 4, 42) corresponde, de fato, a uma localidade que se encontra a leste de Kafr Malik, Saul  teria percorrido uns 20 quilômetros a nordeste de Guibeá, antes de fazer meia-volta em direção a Ramá (1 Samuel 9, 5-10). Com efeito, podemos supor que a terra de Suf e Ramá é uma e a mesma localidade, na medida em que sabemos, por outro lado, que o pai de Samuel era originário de Ramataim-Sofim (1 Samuel 1, 1), localidade cujo nome poderia significar a Ramá da família sufitas. Se esta hipótese é exata, Saul teria então percorrido um trajeto em forma de elipse, cuja chegada se teria encontrado a 4 quilômetros do ponto de partida. A verdade é que em Ramá, Saul, que não tinha ainda encontrado as suas jumentas, não estava à espera de ser recebido de braços abertos pelo profeta Samuel, que ele não conhecia, nem que este o ungisse “chefe” de Isael, segundo as instruções de Deus (1 Samuel 10, 1).

Samuel anunciou então a Saul que os dois homens viriam ao seu encontro, perto do tumulo de Raquel, para preveni-lo de que as suas jumentas tinham sido reencontradas. Esta alusão ao tumulo de Raquel levanta uma questão das mais interessantes. Os visitantes atuais podem contemplar o presumível local dessa sepultura em Belém, na estrada de Jerusalém, pouco após a bifurcação de Beit Jala. Esta localização tradicional funda-se nos textos do Gênesis 35, 19-20 e 48, 7: “Então Raquel morreu e foi enterrada no caminho de Efrata, que é Belém. Jacó levantou um monumento sobre o tumulo; é o monumento do tumulo de Raquel, que ainda hoje subsiste.” E ainda: “Sepultei-a ali, no caminho de Efrata, que é Belém.” Esta identificação de Belém em Efrata encontra-se na célebre passagem de Miquéias 5, 1:

Mas tu, Bet-Eafrata,

Tão pequena entre as

Famílias de Judá

É de ti que há de sair

Aquele que governará em Israel.

Esta tradição não deixa, no entanto, de ser contrariada pelo texto de 1 Samuel 10, 2, que situa o tumulo de Raquel em Selsa. Embora nos faltem informações para definir esse lugar com precisão, não é impossível de determinar a região na qual ele se encontrava. Samuel tinha dito a Saul, que fosse ao tumulo de Raquel em Guibeá-Eloim, onde havia uma guarnição filistéia (1 Samuel 10, 5). No caso de esta localidade poder ser identificada com Guibeá de Benjamim, onde também havia um posto militar filisteu (1 Samuel 13, 3), o tumulo de Raquel ter-se-ia encontrado na estrada de Ramá a Gaba. Quando 1 Samuel 10, 10 descreve Saul, a entrar em “Guibeá”, na companhia do grupo de profetas, tratar-se-ia ainda de Gaba. Depois, o texto o relato começado em 1 Samuel 8, 4-22. Vemos aí Samuel convocar os israelitas em Mispá, adverti-los contra os perigos da realeza e depois lançar as sortes que designarão Saul como primeiro rei. Este, depois de ter sido aclamado pelo povo, regressou a Guibeá.

Segundo 1 Samuel 11, Saul regressava dos campos à sua cidade de Guibeá quando mensageiros vieram anunciar-lhe que Jabes de Galaad estava diretamente ameaçada pelos exércitos de Naás, rei de Amon. De imediato, Saul cortou os seus bois em doze pedaços, que enviou através de todo o país, a fim de solicitar o auxilio do conjunto das tribos. É o contrario da situação descrita em Juízes 19, em que a violação e a morte da concubina do levita tinham tido como efeito reunir todos os israelitas contra Benjamim. Desta vez, era em auxilio, de Benjamim que Saul convocava todo o povo. Pôde assim obter uma brilhante vitória, na seqüência da qual foi proclamado rei em Guilgal. É difícil estabelecer uma ligação lógica entre a entronização de Saul em Guilgal, a sua eleição em Mispá e a sua unção em Ramá (para ser “chefe”, e não rei, admitindo que não tenha havido uma diferença entre os dois termos).

A historia do reinado de Saul começa, em 1 Samuel 13, pela evocação de acontecimentos que se verificaram nas colinas de Jerusalém. Desde o inicio, Saul selecionou os 3.000 melhores soldados de Israel, a fim de construir um exército permanente. Um contingente de 2.00 homens permaneceu com ele em Micmas, ao passo que os outros 1.00 eram colocados, sob as ordens de seu filho Jônatas, em Guibeá. Foi a partir daí que o príncipe atacou Gaba, ocupada pelos filisteus. Estes últimos, decididos a reagir (1 Samuel 13, 3-7), estabeleceram o seu acampamento “em Micmas, a oriente de Bet-Aven”, onde juntaram 30.00 carros de guerra e a infantaria de apoio, enquanto Saul recuava para Guilgal, no vale do Jordão. Parece que os filisteus terão, sobretudo, querido fazer uma demonstração de força. Esta teve como efeito a partida de Saul de Micmas, mas a sua nova posição, no vale do Jordão, permitia-lhe, se fosse caso disso, retirar-se para a Transjordânia. Na realidade, é muito pouco provável que os filisteus tenham podido reunir tais efetivos em Micmas: não tinham meios materiais para tal e o ligar não se prestava a uma movimentação tão considerável. Os números apresentados parecem, portanto, muito exagerados. Nem por isso deixa de depreender-se que eles tinham assumido o controle da estrada norte-sul, retirando assim a Saul toda a possibilidade de regresso ofensivo sobre Micmas ou colinas vizinhas. Como conseqüência desta intervenção do exército filisteu, os “israelitas [...] ocultaram-se nas cavernas, nos matos, nos rochedos, nas grutas e nas cisternas. Vários deles atravessaram o Jordão e foram para a terra de Gad e de Galaad” (1 Samuel 13, 6-7).

É neste ponto do relato que o texto lembra que, quando tinha sagrado Saul em Ramá (ver 1 Samuel 10, 8 e 13, 8), Samuel recomendara-lhe que o esperasse durante sete dias em Guilgal. 1 Samuel 13 apresenta-nos, portanto, Saul à espera do profeta, mas como este tardasse a chegar e como, por outro lado, os israelitas começavam a debandar, o novo rei assumiu a incumbência de oferecer o holocausto, o que lhe valeu, seguidamente, violentas censuras da parte do profeta. Parece, de fato, que a relação assim estabelecida entre estes dois acontecimentos tem, sobretudo como objetivo pôr em evidência a desobediência de Saul a apenas sete dias de reinado e, conseqüentemente, o bom fundamento da exprobração de Deus a seu respeito. Caso contrário, o fato de Saul ter decidido apresentar ele próprio o sacrifício poderia perfeitamente justificar-se pelo desejo de unir as suas trompas e de invocar o auxilio divino.

A seqüência da narrativa é obscura, pelo menos no texto hebraico, que relata o regresso de Samuel a Guibeá (Gaba, no texto hebraico), onde Saul parece tê-lo precedido, sem que se saiba em que circunstancia ele se dirigiu para lá. A este respeito, o sentido da frase clarifica-se quando se admite o fato de uma parte desta, conservada no texto grego, ter desaparecido do manuscrito hebraico. Daí resulta que, nas traduções, em 1 Samuel retirou-se, subindo de Guilgal [e prosseguiu o seu aminho. Acompanhando Saul, o resto do povo subiu de Guilgal e foi juntar-se ao exercito] a Guibeá de Benjamim. “E Saul, passando revista à gente que estava com ele, achou que havia cerca de seiscentos homens.” (A passagem entre colchetes representa a lacuna verificada no texto hebraico). Seja como for, parece que, apesar de duas forças reduzidas a 600 homens, Saul terá conseguido regressar a Guibeá. Nem por isso deixava de estar em situação de inferioridade, dado que já não controlava Micmas, de onde os filisteus estavam em condições de efetuar incursões em três direções, em ordem a obter os viveres necessários.

O relato prossegue com a proeza de Jônatas e do seu escudeiro contra a guarnição de Micmas. A despeito do caráter lacônico do texto, parece que os dois homens terão penetrado no vale alcantilado do uádi Suwenit com o objetivo de alcançar o posto filisteu (Micmas encontra-se a 1 quilometro da saída noroeste do desfiladeiro). Embora haja opiniões divergentes no que se refere à localização de Boses e Sene, os dois “altos rochedos denteados” (1 Samuel 14, 4-5), é provável que se encontrassem não longe desta saída do desfiladeiro. Jônatas e o seu escudeiro tinham-se colocado bem em evidencia, decididos a só passar à ação se os filisteus os provocassem. Ora, a partir do momento em que eles se aperceberam, estes os interpelaram troçando deles: “Eis os hebreus eu saem das cavernas onde se tinham escondido!” (1 Samuel 14, 11). Depois os desafiaram a subir até junto deles. Nada prova que os dois homens tenham iniciado imediatamente o combate. O fato de eles terem rastejado pelos rochedos, recorrendo às mãos e os pés, deixa supor que eles contornaram o posto de guarda, a fim de o tomarem de costas no momento em que os inimigos já os não esperassem. O seu ataque fulgurante provocou tal pânico entre estes últimos que as sentinelas de Guibeá se deram contra disso e informaram Saul. Este juntou então as suas forças e lançou um assalto geral contra Micmas, na seqüência do qual perseguiu os filisteus em debandada até o vale de Aialon. No momento de travar batalha, Saul tinha feito jurar a seus homens que não tomariam o mínimo alimento antes de terem obtido a vitoria. Assim, como tivessem entrado num bosque “onde havia mel à superfície do solo”, os soldados abstiveram-se de comer, à exceção de Jônatas, que ignorava por completo o juramento que os outros tinham feito. Daí se seguiu que Deus se recusou a responder ás perguntas postas por Saul, enquanto o “pecado” de Jônatas não fosse denunciado (1 Samuel 14, 24-30 w 36-46). A este respeito, convém precisar que o texto hebraico não permite afirmar com segurança que o episodio do mel se tenha desenrolado numa floresta. O resto da historia de Saul em Guibeá é dominado pelos seus ciúmes mortíferos que o incitaram a tentar matar Davi com a lança (1 Samuel 18, 11). Este se refugiou junto de Samuel em Ramá, para onde Saul enviou vários destacamentos para o capturarem. Perante o reiterado fracasso dos seus guardas, Saul resolveu dirigir-se ele próprio a Ramá, onde se deixou seduzir pela comunidade dos profetas, pondo-se a profetizar juntamente com eles (1 Samuel 19, 18-24). Davi fugiu em seguida para Nob, talves hoje a aldeia de El-Isawiya, a sudeste do monte Scopus. Foi lá que se deu um incidente a que Jesus viria a aludir. Aimelec, o sacerdote local, deu os pães consagrados a Davi e aos seus homens, porque não dispunha de mais nada para alimentá-los (1 Samuel 21, 3-6). O sacerdote tinha-se permitido agir daquele modo porque os fugitivos não podiam resistir mais e, segundo as leis da guerra, não tinham tido relações com as suas mulheres. Seria durante uma controvérsia a propósito da observância do sábado que Jesus viria a invocar o episodio dos Paes consagrados comidos por Davi e pelos seus homens, a fim de fazer compreender aos seus discípulos que as instituições religiosas tinham sido criadas para o homem e não o homem para essas instituições (Marcos 2, 23-28). Quando Saul soube o que Aimelec tinha feito, mandou massacrar todos os sacerdotes de Nov, assim como suas famílias, só Abiatar conseguiu escapar e refugiar-se junto de Davi.

Saul é de novo mencionado, de maneira muito significativa, no fim de 2 Samuel, quando Deus explica a Davi que a fome que por lá grassava há três anos era “por causa de Saul e da sua causa sanguinária, porque matou os gabaonitas” (2 Samuel 21, 1). A narrativa precisa que, no seu zelo religioso, “Saul procurara eliminar” os gabaonitas, que, apesar de não serem israelitas, não deixavam de ser seus aliados desde a época da conquista. No entanto, Saul decidira não respeitar essa aliança. O massacre de que este povo tinha sido então vitima pode ter sido ditado por considerações religiosas ou políticas, que com a intenção de eliminar um enclave não israelita do seio do reino, que com o objetivo de suprimir um aliado potencial dos filisteus. Também não é impossível que Saul tenha querido abalar o poder de Gabaon, que era “uma grande cidade, uma cidade real” (Josué 10, 2), susceptível de tornar-se uma temível rival para a Guibeá, a sua cidade natal. Por outro lado, o texto bíblico (2 Samuel 21, 6 e 9) parece implicar que havia uma “montanha do Senhor” em Gabaon. Enfim, esta apresentava certa relação com Quiriatiarim (Josué 9, 17) onde a Arca da Aliança tinha sido guardada antes de Davi a mandar transferir para Jerusalém (1 Samuel 7, 2). Estes diferentes elementos poderiam dar a entender que estas duas cidades teriam sido os centros de certa forma de culto ao Deus de Israel. Tão-pouco é inconcebível que também, neste caso, Saul tenha agido por pura inveja. A verdade é que Davi decidiu a titulo de reparação, entregar aos gabaonitas sete filhos e netos de Saul, a fim de serem enforcados “diante do Senhor em Gabaon, no monte do Senhor”. É impossível que este “monte do Senhor” seja o impressionante Nabi Samwil, que se ergue a 2 quilômetros a sudoeste de Gabaon.

Gabaon foi teatro de uma batalha entre o exercito de Davi e o de Isboset, filho de Saul, pouco tempo após a morte deste (2 Samuel 2, 12-17). É provável que nesta altura Davi fosse ainda vassalo dos filisteus. Estes lhe permitiam, de fato, conduzir operações de manutenção da ordem nas colinas de Jerusalém contra as forças de Isboset, cuja base operacional se encontrava em Maanaim, no vale do Jordão. Os dois exércitos, comandados, respectivamente, por Joab e Abner, encontravam-se “perto da piscina de Gabaon”, onde uma grande cisterna foi encontrada em 1956-1957. Tal como por ocasião do combate de Davi e de Golias, os dois contendores escolheram campeões, doze de cada lado, que se confrontaram em campo fechado. Depois ambos os exércitos se lançaram um contra o outro. Abner foi vencido, mas, enquanto batia em retirada, matou Asael, irmão de Joab. Este se vingou a seguir apunhalando Abner em Hebron, onde tinha vindo negociar com Davi.

A cidade de Davi

Depois da morte de Abner e de Isboset, Davi foi proclamado rei pelas tribos do Norte (2 Samuel 5, 1-5). Decidiu então transferir a sua capital de Hebron, situada demasiado a sul, para Jerusalém, que se encontrava na fronteira setentrional de Judá. Estava assim em condições de controlar o Norte do seu novo reino, sem ter de perder o contato com a sua própria tribo. Por outro lado, Jerusalém, que controlava as grandes estradas da região, não estava ainda habitada por israelitas, o que evitara que aumentassem os sentimentos de inveja que opunham o Norte ao Sul do país.

Como já assinalamos, a posição estratégica de Jerusalém deixava a desejar sob muitos aspectos. É verdade que o esporão rochoso sobre o qual os jebuseus tinham construído a sua cidade estava protegido em três lados por profundas ravinas. Mas, a norte, estava ligado às colinas que sobre ele pendiam. Por outro lado, a leste e a oeste, o local era dominado por um anfiteatro montanhoso. Os recursos aqüíferos, se bem que abundantes, não era inesgotáveis. Entretanto, os jebuseus tinham fortificado de tal modo a cidade que quando Davi a sitiou julgou poder desafiá-lo nestes termos: “Não entrarás aqui, pois serás repelido por egos e coxos.” (2 Samuel 5, 6). A tática adotada por Davi para apoderar-se da cidade é mal conhecida, em virtude das dificuldades de tradução apresentadas pelo texto de 2 Samuel 5, 8, onde se diz que os israelitas passaram pelo sinnor. O sentido deste termo é obscuro. Para uns, tratar-se-ia de um “canal”, para outros, de um “conduto de água” subterrânea.

Seja como for, Davi estabeleceu-se em Jerusalém, “cercou-a de muralhas, de Milo para dentro (2 Samuel 5, 9). Este “Milo” coloca, igualmente, um problema de tradução. Esta palavra deriva de um verbo hebraico que significa “encher” ou “entulhar”. Neste caso, poderia tratar-se de entulhos destinados a alargar a superfície do promontório rochoso.

Dividem-se as opiniões no que se refere à cronologia exata dos acontecimentos relatados por 2 Samuel 5. O texto parece sugerir que Davi se apoderou primeiro de Jerusalém e depois travou dois combates vitoriosos contra os filisteus. Entretanto, alguns especialistas avançaram que Davi só terá podido apodera-se da cidade após essas duas vitorias. A sua teoria apóia-se no texto de 2 Samuel 5, 17, que precisa que “os filisteus se puseram todos em campanha para ir contra ele. Informado disto, Davi desceu à fortaleza”. Pode, de fato, pôr-se a questão de saber que fortaleza seria essa e donde é que vinha Davi quando para lá desceu. Essa fortaleza bem poderia ser Adulam, onde ele já se tinha refugiado no templo de Saul.

Em contrapartida, os fatos de os filisteus se terem estendido pelo vale dos Refaim (Gigantes) permite supor que eles procuravam bloqueá-lo em Jerusalém, dado que este vale é uma via de passagem da estrada leste-oeste que corre ao longo dos acessos meridionais da cidade. Se, como alguns afirmam, o quartel-general de Davi se encontrasse ainda em Hebron, poderemos interrogar-nos sobre as razões táticas que teriam levado os filisteus a tomar posição a 20 quilômetros desta cidade. Parecia mais lógico adiantar que os filisteus esperavam encontrar Davi em Jerusalém, mas este se entrincheirara, sem eles saberem, a sul, com o objetivo de atacá-los pelas costas. De resto, a ordem que ele recebe de Deus, em 2 Samuel 5, 23-24, é muito explicita a tal respeito: “Não vás ao encontro deles, mas dá volta por detrás e ataca-os do lado das amoreiras. Quando ouvires um rumor de passos, então começaras o combate.” Alguns exegetas sugeriam que os homens de Davi terão podido manobrar de noite e de o rumor nas árvores poderá ter sido o da brisa matinal. Tendo em conta o fato de os israelitas acreditarem que as forças da Natureza faziam parte dos exércitos celestes, podemos também imaginar que aquele “rumor de passos junto às amoreiras” significativo que o braço de Deus ia preceder Davi no combate que se preparava.

A dimensão religiosa de Jerusalém

A partir do momento em que se apoderou de Jerusalém, Davi mandou transportar para lá a Arca da Aliança (2 Samuel 6), que foi colocada num tabernáculo. Mandou igualmente levantar “um altar na eira do jebuseus Arauna” (2 Samuel 24, 18-25). Entretanto, o grande santuário da região continuava a ser Gabaon. Seria lá que Salomão viria a oferecer os seus sacrifícios antes de empreender a construção do templo de Jerusalém, “porque esse era o lugar alto mais importante” (1 Reis 3, 4). Foi lá igualmente que ele teve aquele sonho durante o qual, entre tudo o que Deus lhe propunha, escolheu a sabedoria (1 Reis 3, 5-9).

Só depois da construção do templo é que Jerusalém se tornou verdadeiramente a capital dos israelitas. De futuro, embora outras cidades, como Betes, tenham pretendido para si esse privilegio, Jerusalém viria a ser considerada na Bíblia não apenas como o centro político e religioso da nação, mas também como o símbolo do advento do reino de Deus.

No plano místico, este primado conferido a Jerusalém marca inicio de uma nova etapa, na medida em que o período em que se realizou corresponde à introdução de uma simbologia nova derivada das grandes correntes religiosas que atravessam então o Médio Oriente. A fé encontrou aí novos meios de expressão, nova imagens como podem comprovar com o modo com o salmista evoca a transferência do santuário de Deus do monte Sinai para Jerusalém. Esta transferência apresenta-se como a conclusão de uma serie de vitórias conseguidas por Deus sobre os seus inimigos: “Subis às alturas; capturais prisioneiros, recebeis os homens como tributo, ó Deus; até os rebeldes habitam na Vossa morada, Senhor!” (Salmos 68, 19). Segundo Efésios 4, 8, este versículo prefigura a Ascensão de Cristo. A presença de Deus em Jerusalém tinha-se tornado tal certeza que o Salmo 46, 4, não hesita em proclamar: “O Senhor dos exércitos está conosco, fortaleza para nós o Deus de Jacó!” E quando, no versículo seguinte, este mesmo salmo evoca “um rio cujos canais alegram a cidade de Deus”, alude, sem duvida, às duas fontes de Jerusalém, Gion e Em-Rogel, apresentadas como ressurgências do rio do paraíso, que, no Oriente antigo, se supunha correr sob as montanhas sagradas. Um simbolismo análogo encontra-se na visão de Ezequiel, em que um rio surgido do templo restaurado vem irrigar i deserto da Judéia e as proximidades do mais Morto (Ezequiel 47, 1-12). Quando os profetas anunciam o advento do reino de Deus, vêem-no sob o aspecto de uma Jerusalém idealizada:

Acontecerá no fim dos tempos:

O monte da casa do Senhor

Será estabelecido nó cimo dos montes,

Esse elevará sobre as colinas.

Os povos concorrerão a ele.

E numerosas nações ali afluirão, dizendo:

“Vinde, subamos ao monte do Senhor,

À casa do Deus de Jacó…

(Miquéias 4, 1-12; ver Isaías 2, 2-3.)

Paralelamente, desenvolveu-se uma concepção quase mística do papel do monarca, que fazia deste o ungido de Deus, colocado à cabeça do seu povo para fazer reinar a paz e a justiça e proteger os pobres e os fracos. É o salmo 2, 7 quem assegura ao rei que acaba de ser sagrado: “Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei.” Quanto ao salmo 110, 4, apresenta o soberano como o herdeiro dos direitos e dos privilégios dos sumos-sacerdotes de Jerusalém: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.

O Novo Testamento quis ver uma prefiguração de Cristo nestas duas passagens relativas à dignidade real: o primeiro, por ocasião do batismo de Jesus (Marcos 1, 11), e o segundo (Epistola aos hebreus 5, 6), no quadro da definição do caráter sacerdotal da sua missão.

Nada permite afirmar que esta concepção idealiza da Cidade Santa e do papel do rei já existia no tempo de Davi e de Salomão. Falaremos de novo disso quando abordamos a descrição do templo. A verdade é que, quando se medem as suas conseqüências espirituais, a transferência da capital de Hebron para Jerusalém apresenta-se como um dos acontecimentos mais significativos da Bíblia.

A derrota dos filisteus e a tomada de Jerusalém, longe de assegurarem à paz a prosperidade ao país, foram seguidas de um período de guerras, a mais cruel das quais foi, sem dúvida, a rebelião de Absalão. Foi em Hebron que este filho de Davi levantou o estandarte da revolta (2 Samuel 15). Apesar dos meios defensivos de que Jerusalém dispunha, o rei preferiu pôr-se em fuga quando soube a noticia: “Fujamos depressa, porque, de outro modo, não podemos escapar a Absalão! Apressemo-nos a sair, não suceda que ele nos surpreenda, se lance sobre nós e passe a cidade a fio de espada” (2 Samuel 15, 14). É provável que Davi temesse não poder agüentar um longo assédio contra todo um povo revoltado. Por outro lado, ao retirar-se assim de Jerusalém, Davi podia muito rapidamente retirar-se para o vale do Jordão antes de Absalão, que partira de Hebron, estar em condições de cortar-lhe a retirada. Esta facilidade de acesso para leste pode também explicar a decisão inicial de Davi de transferir a sua capital de Hebron para Jerusalém.

Davi deixou, pois, Jerusalém seguindo o vale do Cedron. Depois, “subiu, chorando, o monte das Oliveiras, com a cabeça coberta e os pés nus” (2 Samuel 15, 30). É interessante notar que o cume do monte das Oliveiras é apresentado como “o lugar onde se adora Deus” (2 Samuel 15, 32). A este respeito, o texto bíblico precisa que quando Josias reformou o culto (c. 622 a.C.), “profanou [...] os lugares altos situados em frente de Jerusalém” (2 Reis 23, 13). Esta medida permite supor que se celebravam então duas formas de culto, uma oficial e nacional, no templo de Jerusalém, e outra, mais simples e destinada às pessoas comuns, no monte das Oliveiras. Era lá que se encontrava a aldeia de Baurin, onde Davi sofreu os ultrajes de Semei, um membro do Clã de Saul (2 Samuel 16, 5). Foi também lá que Jônatas e Aimaás se dissimularam para observar os movimentos de Absalão e recolher informações que uma criada vinha comunicar-lhes em Em-Rogel (2 Samuel 17, 17-20).

A revolta fracassou e Absalão foi morto. Mas Davi teve de enfrentar outro levantamento, o de Seba e das tribos do Norte, que chegou ao fim na cidade setentrional de Abel-Bet-Maacá. Gabaon foi igualmente chamada a desempenhar um papel nesta questão. Davi retirara o comando das topas a Joab, a quem censurava o ter matado Absalão, para confiá-lo a Amasa, a quem perdoara a sua participação na rebelião de seu filho. Quando estalou a revolta de Seba, Davi ordenou-lhe que tivesse as tropas prontas num prazo de três dias (2 Samuel 20, 4). Por razões que permanecem obscuras, Amasa não se apresentou a tempo. Davi enviou então a sua guarda pessoal, conduzida por Abisai, em perseguição dos rebeldes. Joab e os seus homens, que se tinham também juntado à operação, encontraram-se com Amasa na grande pedra de Gabaon. Se o exercito não estava ainda em pé de guerra, a presença deste nesse lugar dificilmente se explicava. No caso contrario, explicava-se ainda menos. Quanto a Joab, que tinha tantas razões para detestar Amasa por ter ocupado o seu lugar como para pôr em duvida a sua lealdade para com o rei, aproximou-se dele, sob pretexto de abraçá-lo, e apunhalou-o. Depois foi dar o seu forte apoio à guarda real, empenhada no combate com os rebeldes do Norte.

Quando Davi envelheceu, Adonias, um dos dois filhos que lhe restavam, tentou, por sua vez, apossar-se do poder (1 Reis 1). À semelhança de Absalão, seu irmão mais velho, começou por afirmar as suas pretensões ao trono adquirindo um carro de guerra e cavalos, com uma escolta de 50 homens. Num dia convidou os seus partidários para uma cerimônia secreta, na fonte de Em-Rogel. Sacrificou carneiros e bois e em seguida os convidados gritaram: “Viva o rei Adonias” (1 Reis 1, 25). Mas os adeptos de Salomão reagiram de imediato, apoiando por Davi, que fez conduzir o seu segundo filho, montando na sua mula, à fonte de Gion. Aí recebeu a unção real das mãos do sacerdote Sadoc e do profeta Natan. As trombetas começaram a tocar e povo gritou: “Viva o rei Salomão!” (1 Reis 1, 39). A partir do momento em que teve conhecimento disso, Adonias, compreendeu que tinha perdido a partida e refugiou-se junto do altar. Salomão concedeu-lhe o seu perdão, mas nem por isso deixou de mandar matá-lo, depois, por sua falta. As pessoas que ouvem Sadoc, o sacerdote, o grandioso “hino de coroação”, de Handel, sem conhecerem a passagem bíblica que inspirou o seu argumento, ficariam, por certo, muito surpreendidas ao saberem que a sagração de Salomão se deu por perto de uma fonte, durante uma cerimônia improvisada, à pressa, em ordem a contrariar o projeto sedicioso de Adonias.

A partilha do reino

O primeiro templo de Jerusalém foi edificado durante o reinado de Salomão. Quanto ao reino unido, criado por Davi, não sobreviveu a Salomão. Os grandes trabalhos empreendidos por este tinham custado muito caro e o descontentamento popular custado grande. A fim de facilitar a cobrança dos impostos e a organização dos trabalhos públicos, as tribos do norte tinham sido divididas em doze circunscrições administrativas, cuja gestão tinha sido confiada a Jeroboão.  Um dia em que este saia de Jerusalém, encontrou o profeta Aias de Silo, que rasgou o seu manto em doze pedaços e lhe entregou dez, prefigurando assim a cisão do reino (1 Reis 11, 29-39). Pode pôr-se a questão de saber por que é que Jeroboão recebeu apenas dez pedaços do manto, e não onze. De fato, o reino do sul, que permaneceu fiel à casa de Davi, compreendia não apenas a tribo de Judá, mas também a de Benjamim. É isso que explica que, quando Roboão, filho de Salomão, tentou abater as tribos secessionistas do Norte, “reuniu toda a casa de Judá e a tribo de Benjamim” (1 Reis 12, 21). A aliança entre estas duas tribos era normal, se considerarmos a sua situação geográfica. Benjamim estava implantado a norte das colinas de Jerusalém e nenhuma fronteira natural a separava de Judá, que ocupava a parte sul. Em contrapartida, entre o norte destas colinas e a montanha de Betel essa fronteira natural existia de fato; ela correspondia, aproximadamente, ao limite setentrional do conjunto constituído pelos territórios de Judá e de Benjamim.

Logo depois de o cisma entre o reino do norte e o do sul se ter costumado, ambos tiveram de suportar; por volta de 924 a.C., uma invasão egípcia conduzida pelo faraó Sheshonk. A tradição bíblica reteve o acontecimento nestes termos: “No quinto ano do reinado de Roboão, Sesac, rei do Egito, marchou contra Jerusalém e tomaram os tesouros do templo do Senhor, os do palácio real, roubou tudo, até os escudos de ouro que Salomão tinha feito” (1 Reis 14, 25-26). Não é impossível que este texto seja um extrato dos arquivos do templo relativo ao estado dos objetos sacerdotais. Isso explicaria a razão pela qual ele apenas menciona Jerusalém, dando a entender que ela foi tomada pelos egípcios. Ora, a capital de Judá não figura na lista das cidades cuja captura Sheshonk reivindica. Em contrapartida, esta lista permite reconstituir a campanha do faraó que parece ter tido por objetivo principal as cidades fortificadas do Negueb, da planície costeira, da Samaria e dos vales do Jordão e de Jezrael. Nas proximidades de Jerusalém atacou Guezer, Aialon, Quiriatiarim, Bet-Horon, assim como Gabaon, à qual, provavelmente, exigiu um tributo, a menos que Roboão lho tenha vindo oferecer espontaneamente, a fim de incitá-lo a prosseguir as suas operações mais para norte.

Embora a invasão de Sheshonk tenha enfraquecido consideravelmente os dois reinos, estes últimos nem por isso deixaram de continuar a confrontar-se durante várias gerações, notadamente na região de Jerusalém. Foi assim que Abias (911-908), filho de Roboão, conseguiu alargar a sua fronteira setentrional para além de Betel (2 crônicas 13, 19-20). Em contrapartida, Baasa, rei de Israel (906-883), invertendo a situação, ocupou territórios a sul do seu país e “fortificou Ramá, a fim de impedir todas as suas comunicações com Asa, rei de Judá” (1 Reis 15, 17). O controle que exercia sobre a estrada norte-sul era tal que o reino do sul já não dispunha de nenhum meio de acesso em direção ao Norte. Foi em ordem a forçar este bloqueio que Asa (908-867) julgou dever pagar um tributo a Bem-Hadad, rei da Síria a fim de incitá-lo a atacar as cidades setentrionais de Israel. Para fazer face a este novo perigo, Baasa foi obrigado a evacuar os territórios ocupados no sul. Asa pôde então estabilizar a sua fronteira do norte, fortificando Mispá e Gaba, o que permitiu a Judá conservar o território de Benjamim até a sua destruição final.

As invasões de Assur e de Babel

Em 701 a.C., a região de Jerusalém foi invadida por Senaqueribe, ao mesmo tempo em que todo o território de Judá, cujo trono era então ocupado por Ezequias (727-698). Este mundo imprudente tinha conduzido uma política hostil à Assíria, da qual seu pai, Acaz tinha sido vassalo. Por outro lado, os assírios tinham esmagado o reino do Norte em 721. A rebelião de Ezequias, em 701, teve como resultado provocar uma intervenção assíria, desastrosa para Judá, que Isaías 1, 7 descreve assim:

A vossa terra esta deserta,

As vossas cidades incendiadas.

Os inimigos devastam diante de vós

O vosso país.

Foi durante esta campanha que Senaqueribe se apoderou de Láquis, proeza que foi imortalizada por um baixo-relevo. Isaias interpretou este desastre como um justo castigo de Deus pelos pecados do seu povo. Entretanto, uma parte da nação foi ocupada, pois que Jerusalém permaneceu inviolada, se bem que também ela não estivesse isenta de corrupção. No que se refere a estes acontecimentos, o relato bíblico não se harmoniza com a narrativa assíria e daí resultou toda uma serie de apaixonadas controvérsias entre especialistas, seja como for, o objetivo deste atlas não é determinar a historicidade dos fatos relatados pela bíblia, mas antes ilustrá-los no contexto do relato tal como ele no chegou. É por isso que temos por adquirido que Senaqueribe, depois de ter exigido um pesado tributo, foi obrigado a levantar o cervo de Jerusalém (2 Reis 18, 13-16). Em contrapartida, pode ser interessante determo-nos um instante sobre a maneira como o rei Ezequias organizou a defesa da sua capital.

Os preparativos de Ezequias são descritos em 2 Crônicas 32, 3-5: “Ele resolveu, de acordo com os seus chefes e oficiais, obstruir as águas das nascentes que se encontravam fora da cidade… Ezequias cheio de energia, reparou a muralha em ruína, levantou as torres, construiu um segundo muro exterior.” Ficamos igualmente sabendo que “foi Ezequias quem fechou a saída superior das águas do Gion, e dirigiu-as para as extremidades, a oeste da cidade de Davi” (2 Crônicas 32, 30). Este sistema adotado por Ezequias, que consistia em assegurar um abastecimento de água, ao mesmo tempo em que o inviabilizava ao inimigo, foi retomado, mais tarde, pelos defensores muçulmanos de Jerusalém, quando ela foi cercada pelos cruzados, em 1099. Runciman escreve: “A partir do momento em que soube que os francos se aproximavam, [Iftikar] tomou a preocupação de obstruir ou de envenenar os poços exteriores à cidade [...]. Os cruzados [...] ao tardaram a ficar à míngua de água… A única fonte de água potável à disposição dos sitiantes era o reservatório inferior de Siloé, situado sob a muralha sul e diretamente exposto ao tiro dos defensores. Para se abastecerem de água, tinham de percorrer mais de 10 quilômetros.” Foi em 701 a.C. que, no quadro dos trabalhos defensivos, Ezequias decidiu perfurar o canal de Siloé.

Com um comprimento de 535 metros, este canal, que passa sob a cidade, conduz a água da nascente de Gion ao reservatório superior de Siloé. Por razões indeterminadas, a canalização segue um traçado irregular. A perfuração foi efetuada por duas equipas, que partiram de cada uma das extremidades e acabaram por encontrar-se, guiadas pelo ruído das ferramentas, num ponto facilmente reconhecível nas ultimas correções de trajetória que precederam a junção final. Os homens que exploraram o canal, no século XIX, encontraram-no cheio de lodo. Em alguns locais, era preciso rastejar sob um teto, com a altura de 56 centímetros, dentro de uma água com a profundidade de 30 centímetros. Atualmente, o teto nunca desce mais baixo que 152 centímetros e os visitantes podem deslocar-se sem demasiadas dificuldades. Uma das questões que se põem refere-se à localização da muralha na época de Ezequias. Os resultados de algumas escavações deixam supor que o reservatório de Siloé se encontrava então no exterior da cidade, do lado oeste, e que tinham sido tomadas disposições para dissimular o deposito de água. Se fosse o caso, “o outro muro” a que alude 2 Crônicas 32, 5 teria tio por objetivo englobar o reservatório na cidade, o que permitiria, ao mesmo tempo, compreender melhor as razões pelas quais Ezequias mandou perfurar o canal subterrâneo.

Apesar da heróica resistência de Jerusalém, o reino de Judá não conseguiu liberta-se da dominação dos assírios, dos quais Manassés (698-642), filho de Ezequias, se manteve vassalo durante longos anos. Foi apenas sob o reinado de Josias, cuja entronização, em 640, com a idade de oito anos, coincidiu com o inicio do declínio assírio, que Judá recuperou a sua plena independência. A descoberta do “Livro da Lei”, em 621, marcou o inicio de uma reforma religiosa. Todos os lugares de culto exteriores a Jerusalém foram eliminados. Alguns desses “lugares altos” eram, verossimilmente, santuários locais freqüentados por israelitas. Outros datavam do reinado de Salomão, que os tinha consagrado às divindades das suas esposas estrangeiras (2 Reis 23, 13). Também se fizeram desaparecer todos os objetos desses cultos idolátricos. Quanto aos seus sacerdotes foram destituídos.

Foi sob o reinado de Josias que o profeta Jeremias começou o seu ministério. A bíblia apresenta-o como “filho de Helquias, um dos sacerdotes que viviam em Anatot, terra de Benjamim” (Jeremias 1, 1). Anatot, sem dúvida a atual Anata, encontrava-se a 3quilometros a nordeste de Jerusalém. Embora esta aldeia dependesse do reino de Judá desde o cisma, continuava, assim, a ser vista como situada “na terra de Benjamim”. Quanto aos sacerdotes de Anatot, talvez fossem descendentes de Abiatar, aquele sacerdote de Davi que apoiou a causa de Adonias contra Salomão, na altura da luta pela sucessão ao trono. Fora essa tomada de posição política que lhe valera, seguidamente, ser exilado para Anatot (1 reis 2, 26-27). O livro de Jeremias coloca numerosos problemas de interpretação, cujas soluções propostas são com freqüência objeto de controvérsias. Embora nos faltem informações a tal respeito, temos boas razões para pensar que o profeta não reservou um acolhimento caloroso às medidas religiosas tomadas por Josias. Com efeito, eles limitavam-se a reformas puramente formais, sem qualquer incidência sobre a vida espiritual. Também nada sabemos acerca das conseqüências dessas medidas sobre o estatuto e o modo de vida dos sacerdotes de Anatot, tal como ignoramos se na sua qualidade de benjaminita, Jeremias teria alguma razão de queixa relativamente aos soberanos de Judá. Seja como for, ele desempenhou um papel primordial antes e depois da destruição de Jerusalém em 587 a.C.

Em 597, Nabucodonosor, rei da babilônia, apoderou-se de Jerusalém e deportou o rei Joaquim, os dignitários, os oficiais de guerra e os operários qualificados, ou seja, cerca de 10.000 pessoas. Depois colocou no trono Sedecias, tio de Joaquim (2 Reis 24, 17), Hananias, um profeta originário de Gabaon, afirmava que o exílio não duraria mais de dois anos (Jeremias 28, 1-4). Jeremias, por seu turno, estava convencido do contrario e escrevia aos deportados: “Edificai casas e habitai-as; plantai pomares e comei os seus frutos. Tomai mulher, gerai filhos e filhas, daí mulheres aos vossos filhos, daí maridos a vossas filhas para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos em vez de diminuir” (Jeremias 29, 5-6).

Em 588, Sedecias revoltou-se e Nabucodonosor veio sitiar Jerusalém. Jeremias anunciou que a cidade ia cair, porque Deus não combatia do seu lado, pelo que a melhor solução era render-se. Acusado de traição e ameaçado de morte, Jeremias foi então preso. Todavia, se ele pensava que Jerusalém seria destruída, acreditava igualmente na renovação de Israel. Assim, depois de ter comprado, em Anatot, o campo de seu primo, procedeu à legalização do ato de aquisição e declarou: “[...] eis o que diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: Ainda se hão de comprar casas e vinhas desta terra” (Jeremias 32, 15).

Após a queda de Jerusalém, em 587, os babilônicos constituíram Godolias governador de Judá. A sua residência era em Mispá (Jeremias 40, 1-6). As opiniões divergem quanto à localização desta povoação. Algumas referencias bíblicas permitem situá-la em Tel Nazba, cerca de 11 quilômetros a norte de Jerusalém. Contudo, várias alusões contidas em Jeremias 40 e 41 permitem supor que havia outra cidade com o mesmo nome. Antes de mais, depois de Jeremias ter sido libertado em Ramá (Jeremias 40, 1), os babilônios disseram-lhe que “regressasse” para junto de Godolias. Como Ramá se encontra a sul de Tel Nazba, compreende-se mal esse “regresso” a uma cidade onde ele ainda não tinha estado. Por outro lado, após o assassínio de Godolias e dos seus partidários, Ismael, fugindo das represálias, decidiu atravessar o Jordão para procurar refugio entre os amonitas (Jeremias 41, 10). Foi então, perante a noticia do crime, que Joanan e os seus homens se lançaram na perseguição de Ismael, que alcançaram perto do grande lago de Gabaon (Jeremias 41, 12). Ora, esta cidade, situada a 5 quilômetros a sudoeste de Tel Nazba, parece bastante afastada da estrada de leste que o fugitivo deveria, logicamente, ter tomado para alcançar o Jordão. Donde essa hipótese plausível de a cidade de Mispá, onde Godolias tinha estabelecido a sua residência, encontrar-se, talvez, situada em Nabi Shemu’el. Tal eventualidade permitiria, pelo menos, compreender melhor certas referencias geográficas de Jeremias 40 e 41.

Durante perto de 50 anos, Jerusalém permaneceu como uma cidade em ruínas. No entanto, continuaram-se, ao que parece oferecer sacrifícios no mesmo local do santuário destruído (Jeremias 41, 4-5). Em 540, um édito de Ciro, rei dos persas, autorizou os judeus a regressar a Jerusalém e a reconstruir o templo (Esdras 1, 1-4). A este respeito, alguns críticos emitiram a hipótese segundo a qual os seis primeiros capítulos do livro de Esdras, notadamente as cartas (Esdras 4, 11-16 e 17, 22), teriam sido redigidos um século após o regresso do exílio. É precisamente esse regresso, sob a direção de Sassabaçar, que é descrito nesta parte do livro, que relata, por outro lado, os inícios dos trabalhos de reconstrução do templo e das muralhas, a interrupção momentânea desses trabalhos, como conseqüência da oposição dos samaritanos, e a sua retomada definitiva quando o decreto de Ciro foi confirmado. A restauração do templo foi concluída por Zorobabel, que celebrou a sua dedicação em 516 (Esdras 6, 15).

Nada sabemos acerca dos acontecimentos que ocorrem em Jerusalém entre esta data e a chegada de Esdras (458) e de Neemias (445). Também a este respeito foram emitidas duvidas no que se refere à época em que os livros atribuídos a estes dois homens foram escritos, assim como à ordem cronológica em que foram compostos. Seja como for, quando Neemias, vindo de Susa, visitou Jerusalém, encontrou a cidade num triste estado: “Saí à noite pela porta do Vale, e dirigi-me à fonte do Dragão e à porta da Estrumeira, e contemplei as muralhas de Jerusalém arruinadas e as suas portas consumidas pelo fogo. Passei, depois, pela porta da fonte e pela piscina do rei, mas não havia ali caminho para passar com a minha montanha. Subi então, à noite, pela torrente e examinei a muralha. Dei a volta, voltarei a entrar pela porta do Vele, e regressei” (Neemias 2, 13-15). Esta descrição, tal como o relato dos trabalhos de reconstrução (Neemias 3), permitem fazer uma idéia geral de Jerusalém do século V a.C. A cidade de Davi ainda era habitada, embora escavações tenham revelado que a muralha oriental passava no cimo da cumeada, e não já na vertente, o que reduzia a sua superfície. Em contrapartida, a norte, a cidade estendia-se em direção às colinas, para além do templo. A reconstrução das muralhas por Neemias, proclamação da Lei por Esdras, assim como a restauração do culto em Jerusalém, iriam constituir as bases de um novo futuro para o povo judeu. A Jerusalém de Esdras e de Neemias era, sob muitos, aspectos, diferente da do Novo Testamento. As primeiras modificações verificaram-se por volta de 17 a.C. À face do mundo antigo tinha sido mudada pelas conquistas de Alexandre Magno (334-323). A partir de 332, o território dos antigos reinos de Israel e de Judá iria ficar submetido a diversos déspotas gregos. Por volta de 175, judeus helenizados mandaram construir um ginásio em Jerusalém. Antioco IV estabeleceu um sumo sacerdote partidário da helenização dos usos e costumes. O cúmulo foi atingido em 167, quando este soberano profanou o Templo, consagrando-o a Zeus. Foi também nesta época que se constituiu uma cidade grega na colina ocidental, situada em frente da cidade de Davi. A fim de assegurar a proteção dessa cidade e dos deuses habitantes, partidários da helenização, foi erigida uma cidade (a Akra), cuja localização permanece hipotética. Durante os 26 anos que se seguiram, os filhos do sacerdote Matariam os Macabeus, travaram um encarniçado combate contra os dirigentes gregos e os judeus helenizados. Retomaram o templo e purificaram-no em 164, mas tiveram de esperar o ano de 141 para tomar e arrasar a cidadela que defendia a cidade grega. Após esta data, os Macabeus constituíram a volta de Jerusalém as Muralhas que lhe deram um aspecto próximo do que ela iria ter no inicio da era cristã.

O Templo de Herodes

Foi Herodes, o Grande, que deu a Jerusalém o aspecto que Jesus lhe conheceu. Foi ele que reconstruiu o Templo, alargando a sua esplanada para as dimensões que conservou até os nossos dias. Quando Jesus declarou que podia reedificar o Templo em três dias, recebeu uma resposta que continha uma referencia a esses trabalhos de Herodes: “Foram precisos quarenta e seis anos para edificar este santuário e Tu reedificá-lo-ás em três dias?” (João 2, 20).  Herodes mandou igualmente construir um palácio real na falda oeste da colina ocidental que dominava a cidade de Davi, assim como uma fortaleza a que chamou “Antônia”, em honra de Marco Antonio. Melhorou consideravelmente o sistema de condução de água, permitindo assim à cidade acolher uma população, potencial de 70.000 habitantes.

O templo é mencionado pela primeira vez, no Evangelho de Lucas, por ocasião da visita de Zacarias. O edifício era constituído por um conjunto de esplanadas e de recintos fechados. De um pátio exterior tinha-se acesso através de degraus e três portas a um pátio interior, o vestíbulo das mulheres, donde uma nova serie de degraus e a Porta Bela (ou porta Nicanor) permitiam penetrar no vestíbulo de Israel, cuja entrada só era autorizada aos homens em estado de pureza. No eixo da porta Bela encontrava-se o vestíbulo dos sacerdotes com o altar. Para além dele levantavam-se, sob o mesmo teto, o santuário e o Santo dos Santos, separados um do outro por um véu.

O Evangelho de Lucas (1, 5-22) relata as circunstancias em que Zacarias, tendo sido designado por sorteio para queimar o incenso no altar do santuário, teve a visão do anjo Gabriel, que lhe anunciou o próximo nascimento de um filho. Depois foi atacado de mutismo, estado que iria durar até o nascimento da criança. Quando saiu do santuário Zacarias privado de fala, explicou por sinais o que lhe tinha acontecido, à multidão reunida no vestíbulo das Mulheres. O relato prossegue com a viagem de Maria de Nazaré para uma “cidade de Judá”, para visitar Isabel, a esposa de Zacarias. Embora Lucas não dê qualquer precisão sobre essa localidade, ou seja, sobre a cidade natal de João Batista, a tradição situa-a em Ein Kerem, uma pequena aldeia a alguns quilômetros a sudoeste de Jerusalém. É igualmente no templo que Lucas situa a cerimônia da apresentação de Jesus, bem como o encontro que ele teve, aos doze anos, com os doutores da Lei (Lucas 2, 22-52). Essa apresentação a Deus do filho mais velho era uma obrigação ritual (Êxodo 13, 2). Era precedida, para a mãe, de um período de purificação, imposta pela Lei depois de cada nascimento, que devia ser acompanhado de sacrifícios (Levítico 12, 2-8). Na altura da apresentação, José e Maria trouxeram a oferta prescrita para os pobres, que tinham adquirido no vestíbulo exterior (a oblação normal era um cordeiro de um ano e uma orla ou um pombo). É provável que o encontro de Jesus com os doutores da Lei tenha também tido lugar neste vestíbulo exterior.

A narrativa evangélica alude de novo ao templo na altura da tentação de Jesus, quando o diabo o conduziu a Jerusalém, o colocou no pináculo do santuário e lhe disse: “Se tu és o filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a Teu respeito ordens aos anjos; eles suster-Te-ão em suas mãos para que os Teus pés não se firam nalguma pedra” (Mateus 4, 6; Lucas 4, 10-11). O ponto mais elevado do Templo era o edifício do santuário e do Santo dos Santos. Quanto ao “pináculo”, tratava-se provavelmente, do frontão que sobrepujava a fachada. Após a destruição do Templo, em 70 a.C., o ponto mais elevado do que restava da esplanada era o ângulo sudeste, que a tradição acabou por considerar como o “pináculo” do Templo.

Jesus em Jerusalém

Salvo os acontecimentos que marcou a última semana da vida de Jesus, os três primeiros Evangelhos não fazem nenhuma alusão à sua presença na região de Jerusalém, ao passo que João, por seu turno, assinala várias estadas. É, notadamente, o caso daquele durante o qual Jesus expulsou os cambistas e os negociantes do Templo (João 2, 13-22). Faltam as informações no que se refere à localização exata dos balcões daqueles comerciantes. A verdade é que o seu negocio era imprescindível ao bom funcionamento do serviço quotidiano. Na sua ausência, os fiéis se veriam obrigados a arranjar, pelos seus próprios meios, os animais destinados às oblações. Quanto aos cambistas, a sua presença justificava-se, na medida em que as oferendas em espécies só podiam ser adquiridas em moeda judaica. É evidente que essas pessoas obtinham algum lucro das suas atividades e que as autoridades religiosas deviam ficar com uma parte dele. Não era, pois, de condenar por isso. O fato de Jesus ter purificado o Templo, expulsando-os, deve ser considerado numa perspectiva essencialmente espiritual. O seu gesto tinha por objetivo proclamar a finalidade do seu ministério, anunciando ao mesmo tempo a instituição de relações diferentes entre Deus e os homens. Porque, não apenas o seu advento teria por efeito tornar inúteis esses sacrifícios rituais, mas ai igualmente criar uma ordem nova. O Evangelho de João nada diz do local onde Jesus ficava, nem quando se deu o incidente do templo, nem por ocasião da visita noturna de Nicodentos (João 3). Durante as suas outras estadas em Jerusalém, sabemos que ficava em Betânia.

O Evangelho de João menciona igualmente esta visita a Jerusalém, durante a qual Jesus curou um paralítico na piscina de Bethesda. O nome desta piscina varia com os diversos manuscritos: Bezetha em uns, torna-se Betsaida ou Bethesda em outros. Um dos rolos encontrados em Qumran, consagrado aos “tesouros escondidos”, fala de um local cujo nome alguns autores transcreveram sob a forma de Beth-esh-daitan, “lugar (casa) dos dois derramamentos”, o que corresponderia bastante bem a Bethesda. Entretanto, o texto é difícil de decifrar, e parece, em definitivo, que seria melhor ler Beth-esh-daitan, ou seja, “casa dos dois tanques”. Poderia, portanto, tratar-se efetivamente da piscina do milagre, o que deixa, no entanto, por resolver a questão do nome exato do local.

A suposta localização dessa piscina encontra-se na cerca da Basílica de Santa Ana, perto da Porta de Santo Estevão, onde escavações permitiram trazer à luz dois tanques, em parte escavados na rocha, assim como um santuário que data de cerca de 135 a.C. Alguns pormenores da narrativa evangélica permanecem obscuros e nada prova que um desses tanques corresponda, verdadeiramente, àquele de que falava o paralítico quando dizia: “Senhor [...], não tenho ninguém que me lance na piscina, quando a água começa a agitar-se; e, quando eu vou descer, desce outro antes de mim” (João 5, 5). Não há duvida de que a ação se desenrolou junto de um tanque, mas este poderia muito bem encontrar-se mais a leste numa serie de grutas que, durante o século II, dependiam de um santuário famoso pelas suas virtudes curativas. Entretanto, tal como é apresentado por João, neste milagre é significativo de um elemento novo na mensagem de Jesus. Põe em evidencia a fraqueza do homem, assim como a sua incapacidade para descer para a piscina na altura em que a água se agita. Para consegui-lo, falta-lhe precisamente o que só a cura poderia dar-lhe: a força e a mobilidade. De fato, o incidente simboliza a condição humana: só no instante em que Jesus se debruça sobre o infeliz é que ele reencontra ao mesmo tempo a saúde e a esperança.

Depois de ter escrito Jesus ensinado no Templo, o Evangelho de João relata outro milagre que se deu em Jerusalém. Trata-se da cura do cego de nascença, ao qual Jesus ordena que se dirija à piscina na de Siloé, a fim de lá lavar os seus olhos sobre os quais eles aplicara a lama (João 9, 6-7). Já sabemos que a água dessa piscina provinha da nascente de Gion através do túnel perfurado no tempo de Ezequias (701 a.C). Na época de Jesus, a piscina estava recoberta por um teto, aberto ao meio e sustentado por dezesseis colunas, cujas, bases mergulhavam na água. É provável que um pequeno muro de pedra dividisse a piscina em dois tanques, o primeiro dos quais, mais elevado, vertia para o segundo. Esta piscina já existia, provavelmente, na altura em que o rei Ezequias mandou perfurar o seu túnel. Situada a sudeste da cidade de Davi, era então alimentada por um canal escavado no flanco da colina que conduzia a água da nascente de Gion. Por razões evidentes, este canal, que podia ser utilizado por um eventual sitiante, foi atulhado por Ezequias em 701. Por outro lado, Lucas 13, 4 alude a uma torre de Siloé que se teria desmoronado, matando dezoito pessoas. Foram, provavelmente, os restos desse edifício, que a data dos Macabeus, que foram encontrados no vale do Cedron.

A estrada de Jerusalém a Jericó

Desde os tempos mais remotos, a estrada de Jerusalém a Jericó constituiu a passagem obrigatória de uma das mais importantes vias de comunicação oeste-leste que liga a planície costeira ao vale do Jordão. Atravessa o anfiteatro montanhoso, que se levanta a leste da cidade, onde, por um estreito desfiladeiro que a erosão escavou na argilosa e no arenito vermelho, desce bruscamente de uma altitude de 720 metros para atingir os 260 metros, 20 quilômetros mais adiante. Foi à colaboração vistosa do seu aspecto que lhe valeu o nome de Ma’ale Adummin (“a subida vermelha”) sob o qual já era designada em Josué 15, 7 e 18, 17. Entre as descrições, mas impressivas que dela foram feitas, convem citar a de H. B. Tristam: “Desde a saída da pobre aldeia de Betânia, que tínhamos deixado à nossa esquerda, a descida tornou-se cada vez, mas rápida, ao longo dos degraus rochosos que, em várias centenas de pés, fazem de estrada [...]. Durante três horas, seguimos a vereda sinuosa que se lança para os vales – se é que se podem designar sob este nome as gargantas das torrentes de inverno que sulcam os flancos dos inúmeros cabeços do deserto da Judéia. “Ao fundo desta descida, a paisagem muda de aspecto: “Afim de evitar ferir os pés no meio dos penedos que enchem o leito das torrentes, contornamos a garganta vertiginosa do uádi Qelt, cujas margens bordadas de juncos e de espirradeiras avistávamos às vezes [...]. Num meandro do caminho, duas milhas antes de chegar à planície, a garganta alarga-se bruscamente, e o viajante, dominado por uma falésia abrupta e recortado, encontra-se à beira de um precipício de 500 pés de profundidade, cuja parede é perfurada por numerosas grutas de anacoretas [...]. Foi da base destas falésias, donde a estrada serpenteia até o fundo do vale, que pudemos contemplar um dos mais belos panoramas da Palestina do Sul. A nossos pés estendia-se uma floresta verdejante, depois uma vasta planície acastanhada, e, por fim, o Jordão, cujo traçado se adivinhava pela longa linha verde que assinalava o seu curso.”

É neste cenário, familiar aos ouvintes de Jesus, que se situa a parábola que começa por estas palavras: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em poder dos salteadores…” (Lucas 10, 30). Nesse dia, Jesus estava precisamente a subir essa estrada para se dirigir a Betânia, a casa de Marta, Maria e Lázaro. Contudo, provavelmente não terá seguido pela estrada tomada por Tristram porque, para ir para Betânia, tinha de virar à esquerda, um pouco antes do monte das Oliveiras. Nos nossos dias, é possível visitar o “tumulo de Lazaro” em El Azarié. A cova encontra-se numa zona da aldeia que provavelmente já existia na época do Novo Testamento, mas nada prova que tenha sido, de fato, ela que abrigou os despojos do amigo de Jesus.

Os quatro Evangelhos são unânimes em situar em Jerusalém os últimos dias da vida de Jesus. Durante a sua ultima visita, na altura da Páscoa, ficou alojado em Betânia (Marcos 11, 11; João 12, 1). João precisa que ele se dirigiu para lá seis dias antes da celebração da festa, ao passo que os outros evangelistas de que ele fez a sua entrada na cidade, a cavalo num jumento, vindo diretamente de Jericó. Seja como for, não é impossível que, de uma maneira ou de outra, ele tenha passado primeiro por Betânia, quanto mais não fosse para arranjar uma montada em ordem àquela entrada triunfal. Por outro lado, por ocasião da Páscoa, Betânia era considerada como fazendo parte integrante de Jerusalém, a fim de permitir aos peregrinos, vindos para a circunstância, serem lá albergados segundo as prescrições da Lei. João 12, 1-8 situa a cena da unção de Jesus por Maria na casa de Marta e Maria, ao passo que Marcos 14, 3-9 fala de uma mulher desconhecida, que veio encontrar Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso. O primeiro coloca o acontecimento antes da entrada triunfal, ao passo que o segundo o menciona já depois.

No que se refere à própria entrada triunfal, Mateus 21, 1 a faz começar em Betfagé, mas Marcos 11, 1 e Lucas 19, 29, sem darem outros pormenores, aludem igualmente a Betânia. Quanto a João 12, 12, não indica nenhum lugar preciso, embora o contexto pareça implicar uma passagem por Betânia. Betfagé encontrava-se, provavelmente, no cimo do monte das Oliveiras, no local da atual aldeia de El-Taur. O cortejo atravessou-a, sem duvida, antes de descer para o vale do Cedron e de Subir para Jerusalém, penetrando nela pelo lugar da Porta de Santo Estevão. Seja como for, Mateus e João Sublinham o simbolismo do acontecimento ao citar Zacarias 9, 9: “Dizei à filha de Sião: Aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho, filho duma jumenta.

A semana Santa

Os acontecimentos que marcaram os últimos dias da vida de Jesus põem consideráveis problemas de localização. Conhecida em alguns casos, esta permanece puramente hipotética em outros. Assim, sabemos que Jesus ensinou no Templo e depois no monte das Oliveiras, onde anunciou a destruição de Jerusalém e os fins últimos (Marcos 13), antes de se retirar para o horto de Getsêmani, onde foi preso. Ainda que não seja possível determinar com exatidão o local do Templo onde ele falava, nem o do monte das Oliveiras onde ele fez o seu discurso escatológico, nem mesmo o lugar preciso do horto de Getsêmani, pelo menos tem uma idéia do enquadramento em que estes acontecimentos se verificaram. Em contrapartida, estamos reduzidos às conjecturas que se refere à localização exata da sala onde se desenrolou a Ceia, da casa de Caifás, onde se reuniu o sinédrio, da colina da Crucifixão e da gruta da Ressurreição. É verdade que, nos nossos dias, se pode visitar o Cenáculo, naquele que é erradamente denominado o monte Sião e onde a tradição situa a casa onde decorreu a última Ceia. Acontece o mesmo no que se refere à Getsêmani, arbitrariamente colocado no sopé do monte das Oliveiras, à sala do sinédrio, em cujo presumível lugar se ergue a Igreja de São Pedro in Galli Cantu, bem como à tradicional via-sacra, que se desenrola entre o local da torre Antônia e a Igreja do Santo Sepulcro. É evidente que esta via-sacra permite uma reconstituição dos acontecimentos que ocorreram entre a última Ceia e a Ressurreição. É assim que em São Pedro in Galli Cantu se pode admirar uma magnífica cisterna que podia servir de prisão. Vale a pena ser visitada, mesmo que nunca tenha sido calabouço em que Jesus foi encerrado antes, ou depois, do seu comparecimento perante o sinédrio.

A via-sacra tradicional foi estabelecida com base na hipótese segundo a qual Pilatos teria residido na Fortaleza Antônia, no ângulo noroeste do pavimento exterior do Templo. Ora, os críticos modernos têm tendência para colocar a residência do procurador romano no palácio de Herodes, que se levantava no lugar atual da cidadela, perto da Porta de Jafa. “Nesse caso, e na condição de a Igreja do Santo Sepulcro assinalar, de fato, o lugar da Crucifixão e da Ressurreição, esta via-sacra acusaria um desvio de 90 graus” Nem por isso fica resolvida a Questão de saber se a Igreja do Santo Sepulcro se encontra efetivamente no lugar do suplicio e da sepultura de Jesus. A tradição que identifica o tumulo a volta do qual se edificou esta igreja, com o de Cristo, remonta à sua “descoberta”, em 325, no reinado de Constantino. Parece, de fato, que antes de 135 este local era já considerado como sendo o da Ressurreição. Por outro lado, convem precisar que este lugar era, efetivamente, um lugar de sepultura no tempo de Jesus.

Dois elementos, pelo menos, contribuem para pôr em duvida a autenticidade das bases sobre as quais a tradição se fundamenta. Antes de mais, persiste uma ligeira incerteza quanto ao traçado exato do segundo muro setentrional da cidade, embora seja geralmente admitido que ele passava a sul da atual implantação da Igreja do Santo Sepulcro, o que teria como resultado deixar o lugar tradicional da crucifixão no exterior da muralha. Por outro lado, faltam-nos informações no que se refere a distancia real que separava o local do suplicio do da sepultura. João 19, 41 precisa, de fato, que “no lugar em que Ele tinha sido crucificado, havia um horto e, no horto, um tumulo novo, no qual ninguém fora ainda depositado”. Os outros evangelistas, porem, nada dizem a este respeito. Ora, na Igreja do Santo Sepulcro, o Calvário situa-se apenas a 38 metros do tumulo. Podemos, pois, perguntar-se, admitindo que o relato de João não tenha incorrido em erro, se será plausível que um horto, tratado por um hortelão (João 20, 15), se encontrasse tão perto de um lugar de execuções publicas. Pode-se argumentar, é certo, que Jesus e os dois ladrões poderão ter sido mortos num local diferente. Mas poderá de igual modo perguntar-se porque é que os romanos teriam feito uma exceção no caso de Jesus. Parece, de fato, que a tradição, que localiza a crucifixão no Calvário da Igreja do Santo Sepulcro, se apresenta como muito menos convincente do que a que identifica o tumulo com o da Ressurreição. A questão mantém-se de pé, tanto mais Constantino ignoravam, pouco após 325, o lugar real do calvário. Seja como for, se admite o que o tumulo da Igreja do Santo Sepulcro não esta, provavelmente, muito afastado do local onde Jesus ressuscitou, é difícil mostrarmo-nos tão afirmativos no que se refere à capela do calvário.

Não discutiremos aqui cerca dessa outra hipótese segundo a qual o sepulcro de Cristo teria podido encontrar-se no jardim do Tumulo, situado na estrada de Naplusa. O local merece, no entanto, uma visita, tal como os túmulos da família de Herodes, não longe do Hotel King Davi, e o hipogeu da rainha Helena de Adiabene (o “tumulo dos Reis”), perto da casa da Catedral de são Jorge. Poder-se-á assim fazer uma idéia dessas sepulturas do século I, cujo encerramento era assegurado por uma grossa pedra rolante.

O local onde os discípulos se instalaram em Jerusalém, entre o dia da Crucifixão e o do Pentecostes, foi fixado pela tradição onde está implantada a Igreja da Dormição. Foi lá que Cristo ressuscitado lhes apareceu e que o Espírito Santo desceu sobre eles. A localização de Emaús suscita também ela, um interessante problema. Era para essa cidade que os dois discípulos caminhavam, no domingo de Páscoa, na companhia de Jesus ressuscitado, que eles só reconheceram na altura em que ele partiu o pão (Lucas 24, 13-35), acontecimento a seguir ao qual regressaram de imediato a Jerusalém para dele darem testemunho aos seus amigos.

A partir do século IV, a primeira presumível localização de Emaús foi Nicópolis, que se encontrava no lugar atual da aldeia abandonada de Amwas, a 31 quilômetros de Jerusalém. Parece, entanto, difícil de admitir que depois de terem percorrido todo este caminho uma primeira vez e de terem dito a Jesus: “Fica conosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso” (Lucas 24, 29), os dois homens tenham podido fazer de novo os 31 quilômetros que os separavam de Jerusalém e encontrar lá os outros discípulos ainda reunidos. No tempo das Cruzadas, foram propostas Qubeiba, e depois Abu Gosh: estas localidades estão situadas a 11 quilômetros de Jerusalém, distancia que corresponde aos 60 estádios indicados por Lucas 24, 13. O autor desta obra fez o percurso de Qubeiba a Jerusalém, na companhia dos seus alunos mais resistentes, e, para surpresa geral, precisaram de perto de três horas para chegar ao destino. Entre os outros sítios propostos com hipótese, convém mencionar Moza, na estrada principal que conduz de Jerusalém à planície costeira. Desta cidade, cujo nome hebraico transcrito em grego pôde dar Ammaús, o trajeto a pé é mais fácil, mas representa cerca de 6 quilômetros mais, o que não quadra com as indicações de Lucas 24, 13.

A tradição situa a Ascensão, último acontecimento conhecido da vida de Jesus, no monte das Oliveira. Contudo, Lucas 24, 50 relata que Jesus “Se separou deles” em Betânia. Quanto aos atos dos apóstolos (1, 9-12), sem dar precisões sobre o lugar da Ascensão, assinalaram, a propósito dos discípulos, que”desceram então do monte chamado das Oliveiras, situado perto de Jerusalém, à distancia de uma caminhada de sábado, e foram para Jerusalém”.justapondo estas duas passagens razoavelmente deduzir que Jesus se separou dos seus discípulos em Betânia e que estes regressaram de lá passado pelo monte das Oliveiras.

No livro dos Atos dos Apóstolos, Jerusalém aparece como o berço do cristianismo nascente. Todavia, alguns elementos permanecem vagos ou carecem de maior precisão. Assim, “quando chegou o dia do Pentecostes”, o autor não nos diz onde é que os discípulos “se encontravam todos reunidos” (Atos 2, 1), nem em que local os estrangeiros vindos a Jerusalém nos ouviram falar nas suas próprias línguas, nem em que lugar Pedro pronunciou o seu famoso discurso. Sem que seja provável que as primeiras pregações tenham tido como quadro o Templo (Atos 3, 1-4, 4), a casa do Conselho (Atos 4, 5-22; 6, 9-7, 53) ou a prisão onde alguns discípulos foram encerrados (Atos 4,1-4; 4, 17-20).

A tradição bizantina situou a lapidação de Estêvão a norte da Porta de Damasco, que viria a ser depois, a Porta de Santo Estêvão, junto da qual se construiu uma igreja com o mesmo nome. As perseguições que se seguiram ao martírio de Estêvão dispersaram os primeiros cristãos. Em Atos 9, 36-10, 8, diz-se que Pedro se refugiou em Jafa (Jopé), mas não tardou a regressar a Jerusalém, onde se justificou da sua ação evangélica junto dos gentios (Atos 11). Foi lá que ele foi preso por Herodes Antipas (Atos 12, 1-17). “Foi também lá que o concilio apostólico teve de pronunciar-se sobre as obrigações dos pagãos convertidos para com a Lei: longe de “importunar os pagãos convertidos a Deus”, apenas se lhes pediria que se abstivessem sufocadas e da impudicícia” (Atos 15).

Jerusalém é mencionada uma última vez em Atos 21, 17-23, 35, quando Paulo, regressado da sua terceira viagem missionária, se dirigiu ao Templo com quatro homens, a fim de cumprir um voto. Esta diligencia provocou uma violenta reação dos judeus contra ele, que foi acusado de ter introduzido gregos no Templo (Atos 21, 27-29). O apóstolo foi então salvo de uma morte certa pela intervenção de um tribuno que ficou surpreendido ao saber que ele era cidadão romano. Tudo o que Paulo possa ter dito aos que tinham querido atentar contra a sua vida não obteve qualquer efeito. Tentaram de novo, matá-lo, mas a conjura foi frustrada pelo seu sobrinho. Os romanos decidiram então transferi-lo de noite para Cesaréia.

A Jerusalém do Antigo Testamento

A Jerusalém antiga distingue-se dos outeiros e elevações descritos até agora. A cidade de que Davi se apoderara encontrava-se, de fato, num promontório rochoso ligado a norte a uma colina e dominado a leste e a oeste por colinas mais altas. A partir do reinado de Salomão, Jerusalém iria, pouco a pouco, expandir-se para norte e para oeste. Posição estratégica nas estradas norte-sul e leste-oeste, a sua escolha como centro administrativo do país podia parecer discutível. Gabaon parecia mais indicada para desempenhar essas funções. Nem por isso Davi deixou de optar por estabelecer a sua capital em Jerusalém. Ao obedecer à ordem divina de construir um altar sobre a “eira do Jebuseus Araúna” (2 Samuel 24, 18-25), Davi consagrava o local do futuro Templo e dava inicio ao processo que faria desta colina um lugar sagrado para as três grandes religiões monoteístas.

O templo de Herodes em Jerusalém

Os historiadores têm o habito de referir-se aos períodos do primeiro Templo (c. 955-587 a.C.) e do segundo Templo (515 a.C.- 70 d.C.). Este último monumento, construído por Zorobabel em fins do Século VI a.C., foi consideravelmente modificado e aumentado por Herodes, o Grande, a partir do ano 20 a.C. Originariamente, o templo de Salomão era um santuário real essencialmente consagrado às cerimônias oficiais. O povo humilde, por seu turno, manifestava a sua piedade nos lugares altos locais. Foi à reforma de Josias (622 a.C.) que conferiu ao Templo o seu caráter nacional que iria conservar, após o regresso da Babilônia, quando Jerusalém se tornou o único santuário do conjunto do povo judeu.

Jerusalém, no tempo de Jesus

Á primeira vista, restam poucas coisas da Jerusalém que Jesus conheceu. É verdade que a descoberta de várias seções de um calçamento da época de Herodes fez ressurgir um passado que se julgava perdido. Por outro lado, verificou-se que o traçado de algumas das ruas da cidade velha correspondia ao que elas seguiam na altura do Novo Testamento. Não deixa de ser verdade, no entanto, que a cidade onde nasceu o cristianismo desapareceu, no seu conjunto, sob os escombros e as reconstruções ulteriores. O monte do Templo, atualmente ocupado pela Cúpula do Rochedo, dominava então os bairros do Nordeste. A cidade de Davi estava ainda dentro da cintura de muralhas. O promontório sobre o qual ela se encontrava, bem como a colina que se eleva a oeste, abrigava uma população muito mais densa do que atualmente. Escadarias permitiam a escalada dos flancos. Apesar da sua aparente prosperidade e dos trabalhos de embelezamento que Herodes acabava de concluir, a cidade não estava a durar (Lucas 21, 20-24). Flávio Josefo, que foi testemunha do cerco de Jerusalém por parte de Roma, apenas uma geração mais tarde, deixou um quadro impressionante da destruição a que se entregarem os soldados de Tiro. Tudo foi arrasado, à exceção de três torres de uma parte do muro ocidental.

Entretanto, com algumas indicações apropriadas e um pouco de paciência e de imaginação, o visitante moderno é perfeitamente capaz de reencontrar, sob a realidade atual, as grandes linhas da Jerusalém do século I da nossa era.

O itinerário da Paixão

A localização dos acontecimentos que marcaram a Paixão e a Ressurreição de Jesus constitui um tema de fundamental preocupação para todos os cristãos. A destruição de Jerusalém, em 70, e o estabelecimento no seu local da implantação da colônia romana de Aelia capitolina, em 135, fizeram, de fato, desaparecer a cidade que Jesus tinha conhecido. Com efeito, a partir da conversão de Constantino, no inicio do século IV d.C., foram empreendidas pesquisas em ordem a identificar os diversos lugares mencionados pela narrativa evangélica. A partir dessa época, uma igreja – substituída mais tarde pela do Santo Espírito – iria coroar o presumível local do tumulo da Ressurreição, ponto culminante da Paixão. A localização dos outros sítios ilustrados pelo ultimo ato do ministério de Jesus foi, por vezes, objeto de modificações ao longo dos séculos. Assim, o itinerário tradicional da via-sacra só foi estabelecido no século XIII, com base na hipótese segundo a qual o processo de Jesus se teria desenrolado na Fortaleza Antônia. Quanto às catorze estações da Via Dolorosa, que se escalonam do Convento franciscano da Flagelação à Igreja do Santo Sepulcro, só foi definitivamente fixado em meados do século XIX, ainda que algumas de entre ela já fossem veneradas pelos fiéis desde o século XIII. Entretanto, é cada vez mais verossímil que Pilatos estivesse instalado no palácio de Herodes quando pronunciou a condenação de Jesus. Admitindo que o lugar da Crucifixão se encontrava, de fato, nas proximidades da localização atual da Igreja do Santo Sepulcro, daí resultaria que a verdadeira via-sacra foi mais curta do que a tradição definiu. Por outro lado, se temos boas razões para pensar que os locais do horto de Getsêmani e da sala do Sinédrio foram corretamente identificados, persiste a dúvida no que se refere à localização da sala onde decorreu a última Ceia e da casa de Caifás.

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