Geografia física.

Estas diferentes regiões estão longe de constituir uma unidade geográfica. A montanha de Betel é o prolongamento da de Hebron. O vale de Jezrael liga-se a Galiléia. Quanto ao Carmelo, não é mais do que o esporão ocidental dos montes de Guilboa. Contudo, como estas regiões viriam a tornar-se a base territorial do reino do Norte, após o cisma que se seguiu à morte de Salomão, pareceu-nos mais lógico agrupá-las sob o mesmo titulo. Tal como já observamos a propósito da Galiléia. Israel nem sempre controlou o território situado a norte do vale de Jezrael. Em contrapartida, até a sua destruição final, em 721 a.C., praticamente nunca deixou de exercer a sua autoridade sobre a maior parte da montanha de Betel e da Samaria. Um estudo global destas regiões permite, por outro lado, pôr em evidencia algumas diferenças fundamentais entre o território do reino de Judá e o do reino de Israel.

Vimos já que o território de Judá constituía um conjunto bastante austero. O deserto da Judéia oferecia apenas pastagens para ovelhas, ao passo que a agricultura na montanha de Hebron e na Sefela era, sobretudo tributária do regime das chuvas. Apesar dos contrafortes ocidentais mais amplos, que se prolongavam até a planície costeira, e das vertentes mais abruptas a leste, do lado da depressão do Jordão, a montanha de Betel apresenta muitos pontos comuns com a de Hebron. Quanto à montanha de Samaria, oferece uma paisagem de colinas entrecortadas de vales e o numero de pequenas planícies aumenta à medida que se progride para norte, até atingir as planícies mais importantes de Sanur e de Arraba (o vale de Dotam). Não longe daí encontra se a cidade de Jenin (Bet-Há-Gan), à entrada do vale de Jezrael, com 20 quilômetros de largura, que separa a Baixa Galiléia da Samaria.

Nos tempos bíblicos, a montanha de Betel nunca atraiu muito as populações. O solo que recobria o envasamento calcário das colinas era impróprio para a agricultura, e as escassas aldeias que tinham conseguido implantar-se se apoiavam no flanco da colina, junto aos cursos de água. A ajuizar pelas localizações de habitações do 2.° milênio, parece que a região era arborizada. Assim, no centro do maciço montanhoso pode notar-se que as aldeias se tinham estabelecido essencialmente nas vertentes leste e oeste. A região era dificilmente penetrável. Os vales profundos cavados pelos rios nem sempre comunicam entre si, o que tornou impossível o aparecimento de estradas importantes. A separação natural entre a montanha de Betel e a baixa de Jerusalém constituía, nos tempos bíblicos, a fronteira que separava Benjamim, a sul, e Efraim, a norte.

No sul, a montanha de Samaria começa a partir de uma linha oeste-leste que segue o curso dos uádis Deir Balut, el-Kub e Seilun para o vale do Naal Silo. A norte, os seus últimos contrafortes vêm perder-se no vale de Arraba, na planície de Jezrael ou no monte Guilboa. A montanha de Samaria é dividida em duas partes quase iguais por uma linha sul-norte, que acompanha o Emec Há-Macmetat até Tubas. A Samaria oriental caracteriza-se por uma cadeia central cujos pontos culminantes são o monte Garizim (881 metros) e o monte Ebal (941 metros), separados um do outro pelo vale do uádi Nablus (Naal Siquém). É na parte sul que a cadeia central é mais largo, marcado por vales profundos recortados na rocha dura. O sul calcário é impróprio para a agricultura notadamente nas proximidades da planície costeira. É, sem dúvida, isso que explica que, no 2.° milênio antes de Cristo, a população muito disseminada, se tenha instalado das nascentes ou junto dos cursos de água.

A norte do uádi Nablus, as colinas de greda ligam-se umas às outras, isoladas por bacias (Deir Saraf, Atara-Rama) ou vales (Sanur, Arraba). Esta região conheceu numerosíssimos pontos de povoamento durante o 2.° milênio, tano à volta das Bacias como ao longo dos vales bastante importantes recortados pelas ribeiras na montanha gredosa. A norte do vale de Arraba (vale de Dotain) levanta-se monte Carmelo.

A Samaria oriental, com a sua cadeia montanhosa e os seus cumes comparáveis aos da parte ocidental, termina em fratura ao longo da depressão do Jordão. A paisagem das falésias abruptas e dos vales apertados atraiu apenas uma população muito dispersa durante o 2.° milênio, a ponto de a zona setentrional estar praticamente desabitada. Na zona sul, as raras aldeias existentes tinham-se agrupado ao longo do uádi faria e nas orlas leste e oeste dos contrafortes montanhosos.

A cadeia do Carmelo divide-se em três partes. A parte setentrional levanta-se como um muro ao longo da margem meridional do Naal Quison, onde forma um bloco homogêneo, que culmina a 548 metros na sua extremidade sul. A oeste da linha de crista e da bacia do Naal Oren, a montanha desce em encosta suave para a planície costeira, marcada por certo número de pequenos rios que escoam a água pluvial para o Mediterrâneo. Na extremidade sudeste desta parte do Carmelo, encontra-se o “chifre do Carmelo”, o lugar em que a tradição localiza a confrontação entre Elias e os profetas de Baal (1 Reis 18). É um promontório, Muraca, situada a 482 metros de altitude, donde se abrange um panorama único.

A segunda parte do Carmelo – as colinas de Menasé – é constituída por calcário mole e rochas gredosas. Com 18 quilômetros de comprimento e 12 quilômetros de largura, ergue-se em encosta suave para sul. Desde sempre, como o atesta a importância da população local a partir do 2.° milênio, esta parte do Carmelo mostrou-se, muito mais do que as outras duas, favorável à agricultura. Na sua orla sul, correndo ao longo do vale do Naal Iron, passava uma das principais estradas internacionais da época bíblica. Era a “estrada do Mar”, que ligava a planície costeira ao vale de Jezrael, cuja entrada era dominada por Meguido. A sul do Naal (vale de Dotain) levanta-se as colinas de Iron. Foi na orla norte do vale de Arraba que as aldeias foram mais numerosas no 2.° milênio.

A montanha de Guilboa, situada no prolongamento do Carmelo, vem à orla sudeste do vale de Jezrael. Revestindo a forma de um arco, a sua espinha dorsal é constituída por um encadeamento rochoso que culmina a 538 metros. A norte e a leste, a montanha cai em declive abrupto para os vales de Harod e de Bet-San, cujo nível se encontra a 100 metros Abaixo do nível do Mediterrâneo. A oeste, o nível diminui gradualmente em plataformas sucessivas para fundir-se no vale de Jezrael e na montanha de Samaria. Na Antiguidade, as únicas zonas povoadas eram as franjas leste e norte, muito mais ricas em nascentes.

O vale de Jezrael é uma planície triangular, de perto de 365 quilômetros 2, que liga a planície costeira, a norte de Haifa, à depressão do Jordão, por intermédio de pequenos vales nas suas extremidades nordeste e sudoeste:  constitui a área de alimentação do Naal Quison, cujas cheias era temíveis antes da implantação de um eficaz sistema de drenagem. Como iremos ver, o vale foi teatro de batalhas importantes. A disposição dos locais de habitação deixa, entretanto, supor que os pântanos que ocupavam a região no tempo dos romanos já existiam na época bíblica. É isso que explica a localização das aldeias antigas no contorno do vale, notadamente nas proximidades das colinas de Menasé.

É provável que, à exceção do vale de Jezrael e das bacias da Samaria ocidental, toda esta região fosse arborizada na época bíblica. Restam ainda alguns vestígios de florestas de pinheiros ou de azinheiras no maciço do Carmelo. Quanto às colinas de Menasé, tudo leva a crer que eram outrora domínio dos carvalhos do Tabor. Thomson, que parece identificar erradamente a “floresta de Efraim”, teatro do confronto entre os exércitos de Davi e de Absalão (2 Samuel 18, 6-7), com bosques situados na margem ocidental do Jordão, nem por isso deixa de fazer uma sua interessante descrição: “O lugar da batalha continua a ser muito arborizado; é a ‘floresta de Efraim’, com os seus carvalhos frondosos, as suas densas moitas e os seus silvados que recobrem os rochedos de formas recortadas [...].”

A narrativa bíblica.

A Bíblia menciona esta região pela primeira vez em Gênesis 12, 6, onde se vê Abraão parar em Siquém, sob os “carvalhos de Moré”. É à sua disposição geográfica que Siquém (Tel Balata) deve a sua importância. Situada no vale apertado do uádi Nablus, a igual distância dos montes Ebal e Garizim, dominava a encruzilhada das estradas norte-sul e leste-oeste numa época em que as vias de comunicação eram raras e muito afastadas umas das outras. Foi em Siquém, donde precisamente podia ter acesso à maioria das regiões, que Abraão recebeu a promessa de que a terra de Canaã lhe seria dada (Gênesis 12, 7). No seu regresso do exílio, Jacó deteve-se, também ele, em Siquém (Gênesis33, 18-20), onde comprou uma terra e ergueu um altar ao Deus de Israel.

 Gênesis 34 narra o modo como Simeão e Levi, filhos de Jacó, mataram a população masculina de Siquém para vingar a honra da sua irmã Diria. Esta tinha sido raptada pelo filho do rei da cidade, que manifestou posteriormente a intenção de desposá-la. Mas os filhos de Jacó exigiram como condição prévia, que todos os homens da cidade fossem circuncidados. Os siquemitas aceitaram, mas, aproveitando a circunstancia de eles não estarem ainda refeitos dos efeitos da circuncisão, Simeão e Levi vieram massacrá-los sem seu pai saber. Alguns exegetas quiseram ver neste incidente uma primeira etapa da conquista do país, anterior ao Êxodo. Com efeito, o livro de Josué, embora não apresente nenhum pormenor sobre a ocupação da região de Siquém, não deixa, no entanto, de precisar, no capitulo 24, que foi nesta última cidade que velho chefe reuniu o conjunto das tribos pela ultima vez. Isso pareceria confirmar a hipótese segundo a qual Josué e os seus guerreiros não teriam tido de conquistar Siquém, onde já se encontravam israelitas cujos antepassados não tinham descido ao Egito.

O Deuteronômio 27 lembra a ordem dada por Moisés aos israelitas de levantarem, logo que entrasse em terra de Canaã, um altar no monte Ebal, onde os dez mandamentos seriam gravados em pedras. Esta ordem precisava igualmente que seis tribos permaneceriam no monte Ebal e outras seis no Garizim, ao mesmo tempo em que os Levitas procederiam à renovação da Aliança em Siquém. Josué 8, 30-35 confirma que a vontade assim expressa por Moisés de fato cumprida.

Quando se deu a partilha da terra entre as tribos, a Galiléia e a Samaria couberam essencialmente a Efraim e a Manassés (Josué 17, 7-18), ficando esta ultima com a maior fatia. Estas duas tribos nem por isso deixaram de exprimir o seu descontentamento pela voz dos seus chefes, que declaram: “Amontanha não nos é suficiente: todos os cananeus que habitam a planície possuem carros de ferro, tanto os de BEt-San e suas cidades dependentes como os que vivem no vale de Jezrael” (Josué 17, 16). A resposta de Josué é muito significativa: “Tu és um povo numeroso e a tua fé é muita; não terás só uma parte, antes terás a montanha, cuja floresta desbravará e os seus limites pertencer-te-ão. Expulsarás os cananeus, apesar dos seus carros de ferro e as sua força” (Josué 17, 1-18). O último capitulo do Livro de Josué relata o discurso que este pronunciou em Siquém na presença de todas as tribos e dos seus chefes, discurso durante o qual os exortou a submeterem-se sem reserva ao Deus de Israel: “E se vos desagrada servi-Lo, então escolhei hoje aquele a quem quereis servir: ou aos deuses, a quem serviram os vossos pais do outro lado do rio, ou aos deuses dos amorreus, cuja terra ocupastes. Porque eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24, 15).

Período dos juízes.

Durante este período, o vale de Jezrael foi teatro de duas importantes batalhas. Uma delas, de que já tivemos ocasião de falar, desenrolou-se não longo do monte Tabor, contra uma coligação Cananéia. Um primeiro relato (Juízes 4) indica que o exercito de Israel era exclusivamente composto por homens das tribos de Zabulão e Neftali, ao passo que um segundo texto (Juízes 5), de caráter poético, deixa entender que contingentes de Manassés (Maquie), Efraim e Benjamim participaram igualmente nos combates (Juízes 5, 14).

Esta vitória de Débora e de Barac sobre os cananeus teve como efeito criar um vazio político que foi explorado por outros inimigos de Israel, os madianitas e os amalecitas. Tinha sido, provavelmente, a seca que tinha empurrado esses povos do Negueb, onde habitualmente viviam. (Tinham então subido em direção ao norte, quer ao longo da planície costeira, por Gaza Quizes 6, 4), quer seguindo o vale do Jordão, antes de se meterem pela planície de Jezrael e pelos vales de Bet-San e de Harod, quer ainda atravessando o Jordão, a sul do mar da Galiléia, a fim de evitar os territórios de Edom e Moab.

Gedeão, o herói de Israel contra os madianitas e os amalecitas, pertencia de Manassés. Tinha nascido em Ofra, uma localidade que a tradição identifica com Afula, no vale de Jezrael. Em ordem ao combate, Gedeão fez apelo às tribos vizinhas: Manassés, Aser, Zabulão e Neftali, excluindo talves Issacar, que não é mencionada (juízes 6, 35). Os madianitas tinham entrado na planície de Jezrael e acampavam em Moré (Juízes 7, 1). Durante este tempo, Gedeão reagrupava as suas forças na fonte de Harod (Ein Harod). De fato, ele acabou por conservar apenas um grupo de 300 homens, que selecionou observando o modo como eles se mantinham alerta, ao mesmo tempo em que bebiam na ribeira (Juízes 7, 4-7). Mas foi uma manha que permitiu a Gedeão obter a vitória. Durante a noite, aproximou-se com os seus guerreiros do campo dos invasores. Depois, a um sinal combinado, todos agitaram tochas acesas que tinham até então dissimulado em ânforas. Os inimigos, tomados de pânico, julgaram-se cercados por um poderoso exercito (juízes 7, 15-23).

Na debandada que se seguiram os madianitas fugiram em direção ao vale do Jordão e tentaram passar para Transjordânia. Mas Gedeão perseguiu-os e fez-lhes cortar a retirada pelos homens de Efraim, que guardavam os sítios onde o rio se podia passar a vau, para os quais eles tinham, provavelmente, descido passando pelo vale de Silo. A proeza de Gedeão teve tal eco que ela é feita menção em outros livros da Bíblia. É a vitória, assim como à de Débora e de Barac, que alude o Salmo 83, 10-13.

Tratai-os como a Mádian e a Sísara,

Como a Jobin na torrente de Cison.

Foram destruídos em Em-Daar,

E serviram de adubo para a terra.

Tratai os seus príncipes como a Oreb e a Zeeb,

E a todos os seus chefes, como a Zeba e a Salmuná.

Os quais tinham afirmado: “Tomemos, como nossos,

Os campos de Eloim.”

(ver Juízes 7, 25 e 8, 15.)

O caso é de novo evocado em Isaías 9, 3, quando o profeta anuncia a vinda do Messias:

Quebrastes o jugo que pesava sobre ele,

A vara que lhe as espáduas

E o bastão do exator,

Como fizestes na jornada de Mádian.

Após a morte de Gedeão, foi seu filho Abimelec que se proclamou rei em Siquém. O seu reinado foi movimentado e durou apenas três anos Juízes 9). Abimelec era filho que Gedeão tinha tido de uma concubina que vivia em Siquém (Juízes 8, 31). Segundo alguns especialistas, este pormenor permitiria pôr em dúvida a identificação de Ofra com Afula. Com efeito, Siquém encontra-se a uma grande distancia de Afula e pode parecer estranho que Gedeão tenha podido ter uma concubina tão longe de sua casa. A menos que se admita que em virtude do seu grande prestígio, que poderia ter-lhe valido a coroa (Juízes 8, 23) ele dispunha de uma espécie de harém disperso através do país.

Quanto à Abimelec parece que Ra originário de Aruma, a sudeste de Siquém (Juízes 9, 41). Depois de ter-se feito proclamar rei em Siquém (Juízes 9, 6), contratou sicários para mandar assassinar os outros filhos de Gedeão (juízes 9, 4-5). Só Jotam escapou à morte; fugiu para o monte Garizim, onde contou a sua célebre parábola (Juízes 9, 7-20). Entretendo, as relações entre Abimelec e Siquém não tardaram a envenenar-se. Na seqüência de uma revolta da população, Abimelec mandou arrasar a cidade e espalhou sal sobre ela (Juízes 9, 45). Os últimos sobreviventes foram queimados vivos no incêndio do torreão (juízes 9, 46-49). Por fim, o próprio Abimelec encontrou a morte ao sitiar Tebes (Juízes 9, 50-56), que alguns identificaram com Tubas e outros com Tirsa (Tel el-Fará): “Havia no meio da cidade uma torre, na qual se tinham refugiado todos os habitantes, homens e mulheres. Trancando bem a porta, subiram ao terraço da torre. Abimelec, chegando ao pé da torre, aproximou-se da porta para incendiá-la. Então uma mulher, lançando de cima um pedaço de mó, feriu-o na cabeça,fraturando-lhe o crânio. Abimelec disse ao seu escudeiro: “Tira a tua espada e dá-me o golpe de misericórdia, para que se não diga que fui morto por uma mulher!”O escudeiro, executando a ordem, acabou de matá-lo. Morto Abimelec, todos os israelitas voltaram para as suas casas.

Nem por isso Siquém deixou de continuar a desempenhar um papel de primeiro plano na historia de Israel, durante muito tempo após o período dos juízes. Entre as outras cidades importantes da região, convem citar Silo (atualmente Kirbet Seilun), que foi um dos grandes santuários da região durante a época pré-monárquica. Silo está situada na orla de uma pequena planície que permite ter acesso ao vale do Jordão pelo uádi Faisal ou pelo uádi el-Humr. Esta disposição permite que se façam grandes ajuntamentos. Fora lá que, vindo de Guilgal, perto de Jericó (Josué 4, 19-20), as sete tribos do Oeste tinham procedido ao loteamento dos territórios que lhes cabiam (Josué 18, 1 ss.).  Fora lá também que os israelitas tinham levantado o tabernáculo (Josué 18, 1) e celebrado uma festa anual (Juízes 21, 19). Contudo, pelo menos de inicio, a Arca da Aliança não se encontrava em Silo, mas em Betel, outro santuário importante (Juízes 20, 27). A festa anual de silo oferecia assim aos benjaminitas, cuja tribo tinha falta de mulheres, a oportunidade de raptar raparigas da cidade, das quais faziam suas esposas (juízes 21, 16-24).

Foi igualmente em Silo que Ana, que era estéril, suplicou a Deus que lhe concedesse um filho, formulando ao mesmo tempo o voto de, se fosse atendida, lho consagrar (1 Samuel 1). O rapaz que nasceu na seqüência deste voto foi Samuel, que viria a ser educado no santuário. Uma noite, quando ainda era criança, ouviu uma voz que o chamava. Era a voz de Deus que Samuel tomou, de inicio, como sendo a de Heli, o soberano sacrificador (1 Samuel 3). A sombria mensagem que Deus queria comunicar-lhes relacionava-se o julgamento que iria atingir a casa de Heli (1 Samuel 3, 10-14), por causa do comportamento indigno de seus filhos (1 Samuel 2, 12-17). O julgamento predito concretizou-se quando os filisteus, depois de terem vencidos os israelitas em Afec, se apoderaram da Arca da Aliança e matara os dois filhos de Heli. Parece que num primeiro tempo, os filisteus terão poupado Silo, na seqüência da sua vitoria. É, pelo menos, o que ressalta do texto de 1 Samuel 4, 17 ss., que relata que Heli se encontrava na cidade quando vieram anunciar-lhe a morte de seus filhos e a perda da Arca. No entanto ao evocar este acontecimento, no fim do século VII, Jeremias dá a entender que Silo tinha sido destruído (Jeremias 7, 12). Isso poderia significar que os filisteus, depois da vitória de Afec, pressionaram até Silo para destruir a cidade e o seu santuário; seria uma coisa lógica, tendo em conta as situações geográficas de Silo e de Afec. Esta ultima dominava uma das raras estradas leste-oeste da Samaria.

A verdade é que a Arca foi arrebatada em Afec (1 Samuel 4, 1-4) e que Silo deixará praticamente de ser mencionada no Antigo Testamento. Mais tarde, após a destruição de Jerusalém (587 a.C) e o assassínio do governador Godolias (c. 582 a.C.), homens vindos de Silo, da Samaria e de Siquém (Jeremias 41, 5) dirigiam-se a Mispá, sede do governo, a fim de apresentarem ofertas no templo. Os infelizes foram degolados pelos assassinos de Godolias, que pretendiam assim assegurar o seu silêncio (Jeremias 41, 4-8).

Com o advento de Davi e a transferência da capital para Jerusalém, todas as outras cidades (Bersabéia, Hebron, Siquém, Betel, que até então tinham desempenhado um papel importante) passaram para segundo plano. Após a morte de Salomão, as tribos do Norte estavam determinadas a tudo fazer para aliviar o peso dos impostos que as oprimiam. Reuniram-se, pois, em Siquém, a fim de apresentarem as suas queixas a Roboão, filho de Salomão, quando ele viesse proclamar-se rei de Israel (1 Reis 12, 1-11).

Esta atitude da parte de Roboão não deixa de surpreender. Davi tinha sido coroado rei de Israel em Hebron e Salomão em Jerusalém (1 Reis 1, 38-40). A escolha feita pelo seu sucessor parece implicar que, apesar de tudo, Siquém tinha conservado uma parte do seu prestigio e da sua importância. A verdade é que, tendo-se Roboão recusado a aceitar a sua petição, as tribos do norte revoltam-se sob o impulso de Jeroboão (1 Reis 12, 16-24). Este se sentia apoiado na sua ação pelo gesto do profeta Aías de Silo, que, depois de ter rasgado o seu manto em doze pedaços, lhe tinha dado dez (1 Reis 11, 26-32). Jeroboão fixou de inicio a capital do reino do norte em Siquém (1 Reis 11, 25), depois a transferiu para Fanuel, no vale do Jordão, provavelmente na seqüência da invasão conduzida pelo faraó Sheshonk (924 a.C.). Após estes acontecimentos, Siquém deixa praticamente de ser mencionada no Antigo Testamento.

O santuário de Betel.

Uma das decisões marcantes por Jeroboão consistiu em fazer Betel um dos principais santuários religiosos do seu reino (1 Reis 12, 29), Betel (a atual Beitin) estava situada na encruzilhada das estradas leste-oeste e norte-sul, na extremidade meridional do maciço montanhoso que tem o seu nome. A cidade era difícil de defender, mas beneficiava da existência de numerosas fontes.

Fora em Betel que Abraão se detivera para construir um altar quando se dirigia se Siquém para o Egito (Gênesis 12, 8) e lá voltara após a sua breve estada junto do faraó (Gênesis 13, 1-4). Também tinha sido lá que se separara de Lot. As colinas arborizadas da região eram demasiado pobres em pastagens os rebanhos dos dois homens. Em contrapartida, do alto destas colinas pode ver-se, lá embaixo, no vale do Jordão que Lot escolheu para instalar-se, essa terra “irrigada… como o jardim do Senhor” (Gênesis 13, 10).

Foi também em Betel que Jacó teve o sonho da escada cujo topo chegava ao céu e pela qual os anjos subiam e desciam (Gênesis 28, 10-22). O local, com aqueles estranhos rochedos que se erguem a norte da aldeia, foi descrito com talento, em 1904, pelo pesquisador americano J. P. Peters: “No sul, ao longe, avisa-se Jerusalém. Por detrás de uma sucessão de colinas e da vasta e profunda depressão do Jordão, advinha-se Galaad e a terra de Moab [...], mas aqui, precisamente em frente, encontramo-nos na presença de um desses caprichos da natureza, tão estranho que nos interrogamos se não se tratará de obra do homem. Dir-se-ia que alguém quis levantar pilares de nove a dez pés de altura, amontoando blocos de pedra uns sobre os outros [...]. Quando, sobretudo ao pôr do Sol, no mantemos assim sobre a colina por cima de Betel, não podemos deixar de compreender melhor a história de Jacó – esse momento fascinante em que, surpreendido em plena fuga pela noite, perto deste cume que lhe parecia o lugar da região mais próximo do céu, ele viu ‘a escada’.” Esta descrição concorda com o texto bíblico, que precisa que, de manhã, Jacó erigiu uma estela sobre a qual derramou azeite.

O rei de Betel figura na lista dos soberanos vencidos durante a conquista (Josué 12, 16), embora a tomada da cidade só seja mencionada em Juízes 1, 22-25. Não longe de Betel encontrava-se Ai (hoje Kirbet el-Tel), a cidade que repeliu o primeiro assalto de Josué (Josué 7, 2-5). Ai é atualmente objeto de discussões apaixonadas. Escavações arqueológicas revelaram que o local tinha sido abandonado entre 2400 e 1220 a.C. A cidade não podia, portanto, ser habitada na altura da conquista. Diferentes hipóteses foram avançadas para justificar o texto bíblico. Para uns, Ai terá podido ser um posto avançado de Betel (ver Josué 8, 17). Para outros, como Ai significa também “ruína” em hebraico, o relato daquele fracasso dos israelitas diante de uma cidade fantasma poderia implicar uma conotação irônica.

É ao prestigio que a rodeava que Betel deve ter o servido de refugio à Arca da Aliança durante todo o período dos juízes (juízes 20, 27). É também por esta mesma razão que Jeroboão fez dela um dos grandes santuários do seu reino. O desafio que este santuário representava para Jerusalém não deixaria de atormentar os cronistas bíblicos ao longo dos três séculos que se seguiram à sua criação. Mas, desde o inicio, um desses cronistas relataria o oráculo pronunciado por um profeta desconhecido diante do altar de Betel: “Altar! Altar! Isto diz o Senhor: Nascerá um filho na casa de Davi que se chamará Josias, o qual degolará sobre ti os sacerdotes dos lugares altos, que agora queimam sobre ti o incenso e queimar-se-ão sobre ti ossos humanos” (1 Reis 13, 2). Com efeito, enquanto o reino do Norte substitui até o cumprimento desta profecia (2 Reis 23, 15-20), os soberanos de Israel foram amaldiçoados e considerados como “fazendo o mal”, porque seguiam o exemplo de Jeroboão.

Por razões aparentemente diferentes, o profeta Amós formulou por sua vez, violentas criticas contra o culto de Betel. Os cronistas do Livro dos Reis tinham condenado este culto, porque transgredia o preceito segundo o qual um sacrifício só podia ser oferecido a Deus num lugar escolhido por ele próprio (Deuteronômio 12, 13-14). Amós, por seu turno, denunciava aquele culto como uma ofensa a Deus, porque censurava, sobretudo aos seus adeptos o não praticarem a justiça, notadamente no domínio social. E o profeta anuncia mesmo: “No dia em que Eu punir Israel por causa das suas transgressões, punirei também os altares de Betel: as pontas do altar serão partidas e cairão por terra” (Amós 3, 14). Convidava depois os fieis de modo irônico: “Ide a Betel e prevaricai!” (Amós 4, 4), antes de profetizar: “Betel será reduzida a nada.” (Amós 5, 5) “Nada”, que em hebraico se diz aven, o que talvez fosse também uma alusão a Bet-Aven, implicando assim que Betel iria tornar-se tão insignificante como aquele aldeota (Oséias 5, 8).

As criticas de Amós acabaram por atrair a atenção de Amasias, o sacerdote de Betel, que lhe declarou: “Sai daqui vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão profetizando. Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e a corte real” (Amós 7, 12-13).  Só lhe importava a missão que Deus lhe tinha confiado: “Eu não sou profeta, nem filho de profeta. Sou o pastor e cultivo frutos de sicômoros. O senhor pegou em mim quando eu andava atrás do meu rebanho e disse-me: Vai, e profetiza ao Meu povo de Israel!” (Amós 7, 14-15).

Samaria capital.

Amós viveu em meados do século VIII. Naquela altura havia um pouco mais de 100 anos que a capital do reino do norte tinha sido transferida para a Samaria. A decisão dessa transferência tinha sido tomada por Omri (c. 882-871 a.C.), general que se tinha apoderado do poder após um golpe de Estado e uma guerra civil (1 Reis 16, 15-22). É bem possível que a idéia lhe tenha vindo durante os combates que precederam o seu acesso ao trono, quando sitiava Tirsa, a antiga capital, onde se tinha entrincheirado um dos seus rivais. Desde o tempo de Jeroboão, Tirsa (hoje Tel el-Fará?), depois de Siquém e Fanuel, tinha sido a capital de Israel.

A cidade de Samaria encontrava-se no meio da montanha, a noroeste de Siquém, nas proximidades da planície do Deir Saraf. Construída sobre uma colina de 463 metros de altura e isolada, exceto a leste, do conjunto do maciço, dominava a estrada do uádi Nablus para a planície costeira. A sua estratégica tinha sido tão bem escolhida que ela permaneceu até o momento da destruição de Israel (722/1), depois de ter agüentado um cerco de três anos contra os exércitos de assírios (2 Reis 17, 5).

Embora o reinado de Omri tenha ficado assinalado por incontestáveis êxitos políticos e econômicos, a narrativa bíblica concede-lhe apenas catorze versículos. Em contrapartida, consagra vários capítulos ao reinado de seu filho Acab e de sua nora Jezabel, contra os quais Elias e os “filhos dos profetas” tiveram de travar um encarniçado combate a fim de manter o culto do Deus de Israel. Elias começa por anunciar um longo período de seca, cujas conseqüências foram tais que ao fim de três anos Acab se viu obrigado a suplicar ao seu intendente: “Percorre o país, vai a todas as torrentes; talves encontremos erva para conservar a vida dos cavalos e dos burros, a fim de que não morram todos os nossos animais” (1 Reis 18, 5).

Houve seguidamente a famosa cena do monte Carmelo, onde Elias se viu confrontado com os profetas de Baal. A tradição situa o acontecimento no “chifre do Carmelo”, um promontório com a altura de 482 metros, na extremidade sul do maciço, no ponto de junção de duas linhas de crista. Atualmente, o lugar esta ocupado por um mosteiro de Carmelitas. Lá se encontrava igualmente um poço, em plano ligeiramente inferior. Embora não se disponha de qualquer prova que certifique que foi efetivamente ali que o confronto se verificou, não há dúvida de que o lugar é suficientemente imponente para poder ter servido de suporte a um altar.

O confronto entre Elias e os profetas de Baal tinha sido organizado de tal maneira que cada um dos protagonistas devia implorar ao seu próprio deus que viesse consumir o sacrifício que lhe era oferecido. Elias estava sozinho contra 450 profetas de Baal, que, apesar das suas danças e das incisões que a si próprios infligiram com golpes de espadas e de lanças, não conseguiram fazer incendiar a sua oferenda. Mas a partir do momento em que Elias invocou o nome do Deus de Israel, o fogo do céu – provavelmente um raio – incendiou o holocausto, o altar e mesmo a água que o rodeava. Reconhecidos culpados de impostura, os profetas de Baal foram conduzidos até o Quison e executados. Talvez tivessem seguido a vereda que desce do chifre do Carmelo para o vale de Jezrael e o leito do Quison. No fim do confronto, o servo de Elias viu elevar-se do mar uma pequena nuvem e de repente o céu tornou-se escuro. O profeta aconselhou então Acab a regressar a casa sem tardar, não fosse a chuva impedi-lo. O rei tinha de percorrer 30 quilômetros para se dirigir à sua residência de inverno, que se encontrava do outro lado do vale de Jezrael. A cheia do Quison e a inundação do vale, que se terá seguido, teriam podido constituir um grave perigo para ele. Acab pôs-se, portanto, a caminho, mas Elias passou-lhe à frente e acolheu-o à porta da cidade (1 Reis 18, 41-46). O monte Carmelo foi igualmente um dos lugares de estada preferidos de Eliseu. Foi lá que a sunamita foi encontrá-lo quando se deu conta de que seu filho tinha morrido (2 Reis 4, 25). Foi lá que ele se deteve ao dirigir-se de Betel a Samaria (2 Reis 2, 25).

Samaria foi o teatro de certo numero de outros acontecimentos contemporâneos do ministério de Elias e de Eliseu, sob o reinado de Omri, e depois sob o de Acab. Assim, Bem-Hadad, rei da Síria, sitiou a cidade com um forte contingente de cavalaria e um grande numero de carros (1 Reis 20). Tudo leva a crer que Bem-Hadad e o seu exercito tinham vindo pelo vale de Jezrael e pela planície costeira, antes de enveredarem pelo pequeno vale de Doram, em ordem a evitar Meguido, onde Acab tinha concentrado poderosas reservas. É provável que os sírios tenham implantado o seu acampamento na planície de Deir Saraf.

Os sírios foram vencidos (1 Reis 20, 16-21). Eles explicaram a sua derrota nestes termos: “O seu Deus é um Deus dos montes; por isso nos venceram. Mas, se os atacarmos na planície, venceremos nós” (1 Reis 20, 23). Com o fim da estação das chuvas, as estradas tornaram-se de novo praticáveis os campos ficaram cheios de erva para os cavalos e de trigo para homens. Desta vez, o reencontro ocorreu em Afec, na planície costeira, que tinha sido outrora o teatro de uma vitória decisiva dos filisteus sobre Israel. De novo os sírios foram vencidos. Mas Acab poupou Bem-Hadad, desobedecendo assim à ordem de Deus. Este ato de insubordinação valeu-lhe vivas censuras da parte de um dos seus profetas, ilustradas pela historieta do homem atingido por um leão por se ter recusado a obedecer a uma ordem aparentemente cruel (1 Reis 20, 35-43). O leão refugiava-se, sem duvida, nas florestas da Samaria ou nos montes de Betel.

Foi na cidade de Samaria que Acab se reuniu em conselho com Josafá, rei da Judá, antes de travar combate em Ramot de Galaad, aonde viria a encontra a morte (1 Reis 22). Durante este encontro, um profeta, Miquéias, filho de Jemla, levantou-se sozinho contra 400 outros profetas que tinham anunciado uma vitória total a Acab. Depois contou a visão que tinha tido. Tinha visto Deus, rodeado de todo o exército celeste, do qual tinha saído um espírito de mentira na boca dos outros profetas.

O rei de Israel foi morto durante a batalha. Os cronistas bíblicos quiseram ver nisso um castigo pelo assassínio legalizado de Nabot (1 Reis 21). Este possuía uma vinha perto do palácio do soberano, em Jezrael. Como recusasse vender-lha, Jezrael tinha-o mandado lapidar, a pretexto de uma falsa acusação de blasfêmia. Este crime denunciado por Elias que predisse que os cães lamberiam o sangue de Acab exatamente no mesmo local em que tinham lambido o de Nabot. A este respeito não podemos deixar de verificar certa discordância entre a profecia e o seu cumprimento. Fora na porta de Jezrael que Nabot tinha sido lapidado (1 Reis 21, 13), ao passo que foram os cães de Samaria, para onde tinha sido transportado o corpo de Acab, para ser sepultado, que lamberam o sangue real (1 Reis 22, 38).

Sob o reinado de Joram, segundo filho de Acab, os sírios sitiaram de novo Samaria (2 Reis 6, 24-7, 20). A cidade estava em vias e capitular e a fome era tal que os habitantes estavam a ponto de comer os seus próprios filhos. Foi então que Eliseu predisse o fim rápido do cerco e o regresso a uma vida normal. E, de fato, os sitiantes tomados de pânico, abandonaram as suas posições. Tinham julgado compreender que vários reis, aliados de Israel, se preparavam para vir contra eles a fim de libertar Samaria.

Foi nessa altura que quatro leprosos, que se tinham aventurado até o acampamento sírio e o tinham encontrado vazio, comeram, beberam e apoderaram-se de tudo o que puderam fazer. Depois, tomados de remorsos, disseram entre si: “Não está bem o que fizemos; hoje é um dia de boas novas. Se nos calarmos e esperamos até o romper da aurora, seremos castigados. Vamos e informemos a casa do rei” (2 Reis 7, 9). Quando a noticia foi conhecida na cidade, foram enviados dois carros na pista dos fugitivos. Esta estava pejada, até o Jordão, de todo o equipamento abandonado pelos sírios em debandada. Essa pista era, provavelmente, a do uádi Faria.

O conflito entre os profetas e a casa de Omri terminou com um banho de sangue. Eliseu enviara um dos seus discípulos a Ramot de Galaad, para sagrar Jeú de Israel e ordenar-lhe que aniquilasse a dinastia reinante (2 Reis 9, 1-10). O rei Joram, filho de Acab, encontrava-se em Jezrael, onde se recompunha dos ferimentos recebidos durante os combates. Conduzindo o seu carro toda a velocidade, a fim de chegar ao palácio real antes da noticia da sua sagração, Jéu surpreendeu Jorain na companhia de Ocozias, rei de Judá. Com uma flecha abateu Joram, lançando-se depois na perseguição de Ocozias, que tentava fugir para Bet-Hagan Uenin. Não tardou a alcançá-lo nas colinas da Samaria e feriu-o mortalmente. Restava apenas a Jéu eliminar a rainha Jezabel, esposa de Acab e os 70 príncipes da família real. As suas cabeças cortadas, transportadas para Jezrael pelos anciões de Samaria, foram então expostas dois montes das portas da cidade.

Não parece que este golpe de Estado, inspirado por Elias e Eliseu e executado por Jeú, tenha tido como efeito cio século VIII, os profetas não cessaram de denunciar a idolatria e a injustiça de que Samaria continuava a tornar-se culpada. É Oséias quem condena a “Malicia de Samaria” (7, 1) e anuncia: “Serão, pois, despedaçados os bezerros de Samaria” (8, 6), ates de concluir que “Samaria está aniquilada, o seu rei é como espuma sobre a superfície da água” (10, 7). Por seu lado, Amós acusa (4, 1):

Vacas de Basan,

Que viveis na montanha de Samaria,

Vós que oprimis os fracos e vexais os pobres,

Vós que dizeis a vossos maridos:

“Trazei, e bebamos!”

Quanto a Miquéias, considera Samaria como a causa essencial da corrupção de Israel (1, 5-6):

Qual é a infidelidade de Jacó?

Não é Samaria?…

Tornarei Samaria

Como um montão de pedras no campo.

Um terreno próprio para plantar vinhas.

Farei rolar as suas pedras no fundo do vale,

Descobrirei os seus fundamentos.

Estas profecias só cessaram com a queda de Samaria, mas a cidade nem por isso desapareceu da narrativa bíblica. Por outro lado, ela conhecera apenas ações sangrentas.

Enquanto Eliseu se encontrava em Dotais (2 Reis 6, 8-23), o rei da Síria quis mandá-lo prender, por que o seu poder profético lhe permitia revelar ao rei de Israel as intenções e os movimentos dos inimigos. Numa manhã, como o seu servo tivesse vindo anunciar-lhe que um exercito tinha cercado a cidade para capturá-lo, Elias tranqüilizou-o pronunciando estas palavras que ficaram célebres: “Não temas, os que estão conosco são mais numeroso do que os que estão com eles” (2 Reis 6, 16). Depois, rezou para que o seu servo pudesse ver, no alto da montanha, os carros de fogo que estavam prontos a protegê-lo. Por fim, o profeta feriu de cegueira temporária todos os soldados sírios, conduzindo-os a Samaria, onde os entregou ao rei de Israel, que lhes poupou a vida.

A queda de Samaria (722 a.C.) trouxe consigo a deportação da população local e a sua substituição por estrangeiros vindos de outras províncias de Império Assírio (2 Reis 17, 24). Como estas medidas tiveram como efeito encorajar o paganismo, Deus resolveu castigar o povo enviando leões contra ele (2 Reis 17, 25). É provável que, no estado de abandono em que o país se encontrava as feras, que tinham deixado de ser caçadas, se tenham aventurado para fora das suas florestas. Nem por isso Samaria deixou de permanecer capital de província enquanto durou a ocupação assíria.

O reinado de Josias (640-609), ou, mais exatamente, as circunstancias da sua morte, não fazem mais do que confirmar a importância de Meguido. Embora muito raramente mencionada na bíblia, esta cidade ocupava uma posição estratégica de eleição. Situada na ponta nordeste das colinas de Manassés, dominava o vale de Jezrael e controlava o desfiladeiro, que, através da montanha, chega ate à planície costeira. Segundo Josué 12, 21, o seu rei teria sido morto durante a conquista, embora juízes 1, 27 precisem que os homens de Manassés não expulsaram a população local. Seja como for, Meguido encontrava-se nas mãos dos israelitas no tempo de Salomão e escavações recentes permitiram trazer à luz imensas cavalariças que datam de Omri e de Acab. Mas, no Antigo Testamento, Meguido é, sobretudo, a cidade diante da qual Josias encontrou a morte em 609 a.C. Verifica-se que a sua intenção terá sido barrar o caminho ao egípcio Necau II, que tinha vindo ajudar o rei da Assíria na guerra contra Aram. A este respeito, o texto hebraico de 2 Reis 23, 29 parece antes indicar que o faraó tinha subido contra o rei da Assíria. A verdade é que Josias, ele próprio inimigo dos assírios e dos seus aliados potenciais, potenciais, travou batalha e perdeu a vida. Meguido é também a cidade onde morreu Ocozias, depois de ter sido ferido de morte por Jeú (2 Reis 9, 27).

Apesar da implantação de um grande número de colonos estrangeiros na seqüência da queda de Samaria, muitos israelitas, que tinham ficado no reino do Norte, permaneceram fiéis à religião dos seus antepassados. Já mencionamos essa passagem de Jeremias (41, 5), que precisa que, por volta de 582 a.C., 80 homens de Samaria, Siquém e Silo se tinham apresentando no centro governamental de Mispá. Por seu turno, Esdras 4, 1-3 assinala que na altura da reconstrução do templo de Jerusalém, sob Zorobabel (c. 520 a.C.), homens considerados como “inimigos de Judá e Benjamim” tinham vindo propor a sua ajuda argumentando com o fato de que “nós honramos o vosso Deus e oferecemos-lhe sacrifícios desde que Assaradon, rei de assíria, nos trouxe para aqui”. Zorobabel rejeitou a sua petição. No tempo de Neemias (c. 445 a.C.), sanabalat, governador da Samaria, apôs-se à reconstrução da muralha de Jerusalém, o que parece confirmar que nesta época a Judéia dependia administrativamente de Samaria e que estava em condições de impor a sua vontade a Jerusalém, a sua antiga rival da época do cisma.

Estes acontecimentos, entre tantos outro, não fazem mais do que pôr em evidência a persistência, no antigo território do reino do norte, de uma população que se reclamava do Deus de Israel e da sua herança espiritual. Faltam-nos informações sobre as origens desta comunidade samaritana. Não é impossível, entretanto, que ela tenha aparecido em fins do século IV, consagrando assim a ruptura religiosa entre o Norte e o Sul. Os samaritanos possuíam um templo no monte Garizim. Tinham também os seus sacerdotes e os seus ritos próprios. Quando, provavelmente entre 128 e 107, João Hircano anexou a Samaria à Judéia e destruiu Siquém e o templo do monte Garizim, os samaritanos não deixaram de conservar o seu particularismo religioso.

A narrativa do Novo Testamento.

Na época em que se desenrolava a maior parte dos acontecimentos relatados pelo Novo Testamento, isto é, a partir do ano 6 a.C., a Samaria, tal como a Judéia, eram administradas por procuradores romanos. A principal cidade da região era Sebasta, a Antiga Samaria, reedifica e assim denominada por Herodes em honra de augusto (sebasté significa “augusto” em grego). Quanto a Siquém, que estava periclitante desde que tinha sido destruída por João Hircano, viria a ser reconstruída por Vespasiano, em 72 a.C. Deu-lhe o nome de Neápolis, que se transformou, subseqüentemente, em Naplusa. Era nesta região, entre Judéia e a Galiléia, que os samaritanos se tinham estabelecido. Os seus livros sagrados limitam-se ao Pentateuco e eles criam, entre outras coisas, que o monte Garizim era o lugar onde Deus desejava ser adorado pelo seu povo.

Os samaritanos desempenharam um papel importante no ministério de Jesus. Nessa época, as relações entre judeus e samaritanos eram particularmente delicadas. Quando não se deslocavam em grupos, por ocasião de uma festa ou de qualquer outra manifestação popular, os judeus que se dirigiam para a Galiléia seguiam sempre pelo vale do Jordão, a fim de evitar passar pela Samaria. Depois da visita de Jesus, então com doze anos, e de seus pais a Jerusalém (Lucas 2, 41-51), ficamos sabendo que estes caminhavam havia um dia na estrada da Galiléia, quando se deram conta de que seu filho não estava com eles. Segundo uma antiga tradição, a etapa das caravanas a que eles tinham chegado, a um dia de caminho de Jerusalém, era El-Birá, um povoado próximo de Ramalá, onde a água era abundante.

Lucas 9, 51-56 relata que um dia os habitantes desta aldeia samaritana recusaram-se a albergar Jesus simplesmente “porque ele caminhava em direção a Jerusalém”. Quanto à reação de Tiago e João perante esta recusa, é também reveladora dos sentimentos recíprocos que animavam estas duas comunidades: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?” O mesmo se passa em João 8, 48, quando Jesus ouve a seguinte censura: “Não é com razão que nós dizemos que tu és samaritano e estás possesso do Demônio?” em Lucas 17, 11, na altura do seu encontro com os dez leprosos, ficamos sabendo que Jesus “passava nos confins da Samaria e da Galiléia”.  Esta indicação poderia implicar que, para se dirigir a Jerusalém, ele tinha decidido contornar a Samaria, escolhendo a estrada que corria ao longo dos vales de Arod, de Betsabea e do Jordão. Quanto aos dez leprosos que curara, o único que voltou para exprimir-lhe a sua gratidão era precisamente um samaritano. Donde esta observação de Jesus: “não foram dez os que ficaram limpos? Onde estão os outros nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vi. A tua fé te salvou” (Lucas 17, 17-19).

O fato de Jesus qualificar de estrangeiro o leproso que acaba de curar nada tem de pejorativo, dado que na parábola do bom samaritano, é este, e não um judeu, que é a apresentado como o verdadeiro próximo do homem que tinha sido atacado. A indignação dos ouvintes judeus, perante tais palavras, só pode conceber-se na medida em que se recoloca a ação no contexto das relações judeo-samaritanas da época.

O encontro com a samaritana no poço de Jacó (João 4, 1-42) é igualmente significativo a este respeito. Mas convém, em primeiro lugar, precisar que o Antigo testamento não faz nenhuma referência à construção desse poço pelo patriarca. Quanto a Jesus, dirigia-se da Judéia para Galiléia e “tinha de passar por Samaria”. Se a cena relatada por João 4 se situa cronologicamente na seqüência dos acontecimentos do capitulo anterior, que nos mostra Jesus no vales do Jordão, a sua presença na Samaria corresponde, no plano topográfico, a um desvio cujas razões não nos são apresentadas pelo evangelista.

Por outro lado, o lugar do encontro seria o poço de Jacó, que, segundo o relato se localizaria em Sicar, povoação, que em certa medida, poderia identificar-se com Ascar. Ora, o poço que a atribui a Jacó encontra-se em Balata, a antiga Siquém, situada a mais de um quilometro e meio de Ascar, que dispõe, alias do seu próprio poço. Que razão teria, pois, levado esta mulher a percorrer todo aquele caminho quando podia abastecer-se de água perto de sua casa? A hipótese mais verossímil seria que, dada a sua duvidosa reputação, ela teria assim, procurado evitar encontra-se com os seus concidadãos. Quando a Jesus, não é impossível que, também ele, se tenha dirigido àquele poço na intenção de não se expor à hostilidade dos samaritanos.

Se esta hipótese for exata, ainda que parcialmente, a história da samaritana colocar-nos-ia então em presença de duas pessoas totalmente diferentes uma da outra que, por motivos que lhes são próprios, evitaram o poço de Sicar. A conversa entre ambos inicia-se sobre os méritos respectivos do monte Garizim e da colina de Jerusalém, como lugares de culto escolhidos por Deus. Depois, bruscamente, o diálogo ganha uma feição mais profunda e a mulher dá se conta de que, seja qual for o seu estado degradação, o homem que lhe fala é capaz de dar-lhe uma nova razão de ter esperança e de acreditar.

Este encontro junto do monte Garizim é revelador de certo número de paradoxos da mensagem evangélica. Jesus apresenta-se como aquele que faz cair às barreiras da tradição, não apenas dirigindo a palavra à samaritana, mas também aceitando que ela lhe dê de beber. “A observação segundo a qual aos judeus não se dão com os samaritanos” (João 4, 9) lembra a sua recusa de todo o contato com estes últimos, com medo de se contaminarem. Por outro lado, embora ela seja de moralidade duvidosa, Jesus não hesita em falar à samaritana e em prometer-lhe a água “que jorrará para a vida eterna”. E, sem compreender muito bem quem é o seu interlocutor, a mulher parte a anunciar a sua vinda aos vizinhos. Quanto aos samaritanos, manifestam a sua fé em Jesus em termos que os judeus não teriam podido exprimir: “Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo” (João 4, 42).

A Samaria viria a ser, depois de Jerusalém, o teatro da fase inicial da expansão do cristianismo. A lapidação de Estêvão (Atos 7, 54-60) marcara o inicio das perseguições contra os cristãos de Jerusalém e a sua dispersão pelas terras da Judéia e da Samaria (Atos 8, 1). Só os apóstolos permaneceram então em Jerusalém. Foi nessas circunstancias que Felipe foi levado a dirigir-se a uma cidade da Samaria, onde a sua mensagem evangélica e os seus milagres atraíram novos adeptos à doutrina de Cristo. Subseqüentemente, esta cidade recebeu a visita de Pedro e de João, que impuseram as mãos aos novos convertidos, a fim de que o Espírito Santo descesse sobre eles. Em seguida, depois de ter frustrado a manobra de Simão, o mágico, que queria comprar o seu poder, os dois apóstolos regressaram a Jerusalém, pregando ao mesmo tempo nas cidades da Samaria que iam atravessando ao longo do percurso.

Meguido.

Situada num magnífico outeiro na entrada setentrional do vale de Iron, Meguido constituía uma posição estratégica de eleição dominando uma das mais importantes vias de comunicação através da cadeia montanhosa do Carmelo. A bíblia raramente a menciona, mas a arqueologia pôs em evidencia a extrema importância desta cidade, desde a sua fundação no 4.° milênio até o século VI a.C. Ao longo do 2.° milênio, esta cidade Cananéia passou, sucessivamente, para as mãos dos egípcios, dos israelitas e dos filisteus. No inicio do século X, Davi reconquistou-a e Salomão fez dela a capital de um distrito administrativo. Construiu nela fortificações e uma residência real. As cavalariças, que podiam albergar 450 cavalos, demonstram que os reis de Israel dispunham de um contingente de carros de guerra e de uma cavalaria muito poderosos para assegurar o controle do vale de Jezrael.

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