A Bíblia, diz-se, é o menos lido de todos os Best-sellers. É o livro cujas traduções estão mais espalhadas pelo mundo, no maior número de línguas. A sua tiragem, sob o impulso das sociedades bíblicas, atingem uma média anual de 11 milhões de exemplares da versão integral, 12 milhões de novos testamentos, 400 milhões de brochuras contendo extratos do texto original. É verdade que estes números só podem ser obtidos graças aos modernos processos de impressão e de distribuição. No entanto, mesmo antes de a imprensa ter feito o seu aparecimento no ocidente no século XV, a difusão da Bíblia ultrapassava já de muito longe a de qualquer outra obra. O povo hebraico, do qual a Bíblia é originária, sempre manifestou tal apego pelas suas tradições escritas que mereceu, de fato, ser chamado o Povo do Livro. A este título convém acrescentar um outro, diretamente relacionado com o presente atlas: os hebreus eram igualmente o povo da terra da Bíblia. Estes dois elementos, o livro e a terra, estão intimamente ligados e um dos nossos objetivos é precisamente tornar o livro mais compreensível, permitindo ao leitor familiarizar-se com a terra.

A composição da Bíblia.

O uso da escrita remonta às imediações do 4.° milênio antes de Cristo. De início, os homens serviam-se de signos rudimentares que, pouco a pouco, foram ganhando a forma de símbolos que representavam sílabas. Não era ainda um sistema alfabético em que Cada letra correspondia a um som distinto. Como esta escrita silábica tornava necessário o emprego de 300 a 600 signos, somente alguns profissionais eram capazes de utilizá-la. Os alfabetos, tais como os conhecemos, datam apenas da segunda metade do 2.° milênio antes de Cristo, isto é, em termos aproximativos, do presumível período em que Moisés fez sair os israelitas do Egito. 

Embora a cronologia relativa a Abraão, Isaac e Jacó permaneça incerta (situam-se tradicionalmente ente 1750 e 1500 a.C.), os feitos destes patriarcas foram, originariamente, conservados e transmitidos de geração em geração pela tradição oral. O mesmo se passou, provavelmente, com o conjunto da história de Israel até a chegada do rei Davi (1000 a.C.). Isto não aplica de modo nenhum que os hebreus não utilizassem a escrita antes desta data, mas antes que as narrativas relatadas por livros como o Gênesis, o Êxodo, os Juízes ou 1 Samuel foram transmitidas oralmente de terem sido consignadas por escrito numa época mais recente. Por outro lado, a Antiguidade deixou-nos complicações de leis cuja redação remonta a um período nitidamente mais longínquo que o do Antigo Testamento, e, tendo em conta a importância que elas revestem para uma comunidade, não é impossível que as leis tenham precisamente figurado entre os primeiros textos retidos pela tradição escrita de Israel.

O acesso de Davi ao trono, e depois de Salomão, trouxe consigo condições favoráveis ao desabrochar de uma grande atividade literária. Foi, pois, a partir do século X que se começaram a reunir os elementos escritos e orais, transmitidos pela tradição, em ordem à composição do Pentateuco (do Gênesis ao Deuteronômio), assim como os primeiros profetas (de Josué ao 2 Reis). No século VIII, a chegada dos Profetas “clássicos” viria dar um novo impulso a esta tarefa de redação. Pesquisas recentes parecem indicar que as palavras dos profetas eram recolhidas, consignadas por escrito e conservadas pelos seus discípulos, que se reuniam em escolas proféticas. É assim que Jeremias nos informa que Baruc, o escriba, escrevia diretamente sob a inspiração do seu mestre.

A queda de Jerusalém e exílio na Babilônia, de 597 e 587 (o templo foi destruído em 587), iriam trazer consigo uma crise de consciência: Israel não podia deixar de interrogar-se sobre as causas do desastre. Foi nesta época que ele se tornou verdadeiramente o Povo do Livro. Foi provavelmente nesta mesma época (o exílio durou de 587 a 539 a.C.) que os livros dos primeiros profetas (isto é, a história de Israel desde a conquista de Canaã até o exílio), tal como o Pentateuco, foram redigidos sob uma forma próxima da que lhes conhecemos atualmente. Os livros proféticos (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze “pequenos” profetas) estavam também eles, praticamente terminados nos fins do século vi. Quanto aos livros sapienciais, se é verdade que incluem elementos muito antigos, tais como certo número de salinos e de provérbios, nem por isso deixam de conter os textos mais recentes do Antigo Testamento. É, Notadamente, o caso das Crônicas, de Ester e de Daniel. O mesmo se passa com poemas de amor reunidos sob título de “Cânticos dos Cânticos” e com as meditações sobre a luta interior do homem presa da dúvida e da incerteza, que constituem o essencial de Jó e do Eclesiastes.

Nos fins do século II a.C., a composição do Antigo Testamento, tal conto ele se apresenta nas nossas bíblias atuais, estava virtualmente terminada (embora a ordem de classificação dos livros fosse um tanto diferente). Estes livros eram redigidos em rolos de pergaminho: de fato, o termo que significa “livro”, no hebraico moderno, designava um “rolo”, em hebraico bíblico. Na época em que o cristianismo fez o seu aparecimento, o Antigo Testamento existia não apenas no seu texto hebraico mais também numa versão grega destinada aos judeus que residiam no Egito. Havia também uma versão grega particular em uso entre os samaritanos que viviam nas regiões montanhosas do norte do país. Embora escrita em hebraico, esta versão limitava-se ao Pentateuco. Por outro Lado, incluía certo número de variantes significativas, a maioria das quais tinha como objetivo reforçar a tese samaritana segundo a qual o lugar privilegiado, santificado por Deus, era o monte Garizim, e não Jerusalém. A versão grega apresentava também ela, variantes relativamente às que utilizamos hoje. Assim, o livro de Jeremias era muito mais curto do que o que figura nas nossas bíblias atuais diretamente traduzidas do texto hebraico tradicional.

A descoberta dos manuscritos de Qumran – os famosos manuscritos do mar morto – permitiu, ela também, verificar que existiam numerosas versões do Antigo Testamento no início da era cristã. Tal fato fica igualmente patenteado através de certas citações que se encontram no novo testamento e cujo texto não corresponde a nenhuma versão conhecida do Antigo testamento. Não parece, pelo menos no que se refere à Qumran, que os antigos escribas se tenham cingido sempre a fornecer cópias rigorosamente conformes aos modelos originais. Na nossa época de progressos técnicos, em que a imprensa permite reproduzir um número ilimitado de exemplares rigorosamente idênticos, é difícil de imaginar o que poderia ser a vida nessas comunidades em que tudo era escrito à mão.

As variantes nos textos eram então consideradas como ago de perfeitamente normal. Convém, no entanto, precisar que importantes fragmentos do texto tradicional da Bíblia hebraica foram igualmente descobertos em Qumran.

A igreja primitiva adotara a versão grega do Antigo Testamento. Esta continha certos livros que o cânon Hebraico não reteve e que os protestantes consideram como “apócrifos”. Tal como para o Antigo Testamento, seriam tradições e relações orais que iriam servir de base ao Novo Testamento. É, designadamente, esse o caso da narração da Paixão e dos feitos de Jesus. A partir do ano 50 d.C., as Igrejas começaram a conservar as cartas que recebiam dos seus chefes espirituais e, muito particularmente, as de Paulo. Essas foram seguidamente retinidas numa complicação que veio juntar-se aos Evangelhos e aos Atos, cuja redação, diretamente inspirada a partir de elementos escritos e orais, remonta a um período compreendido entre 70 e 90 d.C. A composição do Novo Testamento, tal como o conhecemos atualmente, estava praticamente terminada no fim do século I.

Os manuscritos da Bíblia.

O fato de um tão grande número de antigos manuscritos de a Bíblia ter chegado até nós é particularmente notável. O nosso conhecimento do teatro, da história ou dos filósofos da Grécia antiga apóia-se, por vezes, apenas num número muito reduzido de manuscritos que datam de várias centenas de anos após a morte dos seus autores.

Pelo contrário, no que se refere à Bíblia, e, sobretudo ao Novo Testamento, dispomos de milhares de manuscritos. O mais antigo testemunho que conhecemos do Novo Testamento é o fragmento do Rylands do Evangelho de João, que data, verossimilmente, de 150 d.C.

Foram igualmente encontradas outras passagens importantes deste evangelho e das cópias das epístolas de Paulo, que remontam ao fim do século II. Trata-se de papiros que foram descobertos no Egito, onde as condições climáticas favoreceram a sua conservação.

Foi no século IV que foram compostos os grandes manuscritos em uncial (letras maiúsculas), contendo o essencial do Antigo e do Novo Testamento em grego. Os mais célebres desses manuscritos são o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus. O Vaticanus deve o seu nome ao fato de se encontrar na Biblioteca Vaticana, em Roma. Quanto ao Sinaiticus, foi descoberto no século XIX, no mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai. Está atualmente exposto no British Museum. Todos estes manuscritos se apresentam sob a forma de volumes encadernados (é esse o sentido de Codex). Parece, de fato, que a Igreja cristã tenha escolhido esta forma para os seus livros, ao passo que a comunidade judaica optara, desde há muito tempo, pelos rolos.

O único modo de reprodução dos textos era a cópia manuscrita, e erros acabavam, inevitavelmente, por introduzir-se nos manuscritos. A este Respeito, o pai-nosso constitui um exemplo particularmente significativo. A versão que ele é apresentado por Lucas (11, 2-4) é mais curta do que a que encontramos em Mateus (6, 9-13). Sendo a oração geralmente recitada segundo o texto relatado por Mateus, os escribas podiam ser tentados, quer por preocupação de semelhança, quer por inadvertência, recopiando-a sob esta forma quando trabalhavam sobre o Evangelho de Lucas.

O relato da Ceia oferece-nos um exemplo análogo, notadamente no que se refere às palavras pronunciadas por Jesus. A extensão do discurso não é a mesma em todos os manuscritos de Lucas. Na versão mais curta (Lucas 22, 17-19), Jesus abençoa o cálice e depois o pão. A versão mais Longa (versículos 19b-20), por seu turno, insiste mais na benção do cálice, sem dúvida com o objetivo de alinhar o relato pelo de Marcos e de Mateus e também por preocupação de conformidade com a liturgia da igreja relativa ao rito da eucaristia. A criação dos grandes centros de estudos teológicos, tais como os de Alexandria, de Cesaréia e de Antioquia, permitiu, verossimilmente, proceder à harmonização dos diferentes textos do Novo Testamento. Daí iria pouco a pouco resultar a composição de certo número de versões regionais. Entre os manuscritos mais significativos desta época convém citar o Codex Bezae, que se encontra atualmente na biblioteca da Universidade de Cambridge. Distingue-se por variantes e omissões características no texto de Lucas e dos Atos.

Seja como for, desde o início do século V, a tradução latina da Bíblia por Jerônimo deu à Igreja do Ocidente uma versão do Novo Testamento que, apesar de certas imperfeições, iria fazer autoridade durante séculos. A invenção da imprensa deu um impulso extraordinário à difusão dos livros bíblicos, na tradução latina ou na língua original. Quanto à Reforma, ela constituiu como seu objetivo colocar a Bíblia em língua vulgar à disposição de todos.

É a Lefévre d’Etaples que se deve a primeira edição integral da Bíblia em francês (1523-1530). A hostilidade da Sorbonne obrigou-o a publicar a sua obra em Antuérpia. No século seguinte, a tradução de Le Maistre de Sacy, também ela inicialmente proibida, foi publicada em Mons (1667). Estas versões conheceram numerosas revisões e reedições ao longo dos séculos seguintes.

A escrita na Antiguidade.

A invenção da escrita constitui um dos acontecimentos primordiais da história da Humanidade. Pode comparar-se à revolução criada, no nosso tempo, pela introdução da informática que permite a transmissão universal e instantânea de dados. Os primeiros sistemas de escrita, no IV milênio a.C., eram silábicos. As silabas eram materializadas por desenhos que representavam objetos familiares, como se, em Francês, um sinal esboçando a silhueta de um gato (chat) representasse de fato a silaba “cha”, ou um sinal figurando um vaso (pot) a silaba “pó”, servindo a sua justaposição para escrever a palavra chapeau (chapéu). Estes desenhos não tardaram a tornar-se sinais puramente convencionais. Entretanto, na época em que os hebreus começaram a redigir os textos da Bíblia, o sistema de escrita silábica, que precisava de nada menos que trezentos sinais, tinha dado lugar ao alfabeto, que utiliza dez vezes menos. A simplificação trazida pela introdução deste sistema, na segunda metade do II milênio a.C., aumentava a possibilidade de difusão da leitura e da escrita. Os não iniciados ficam por vezes surpreendidos ao saber que o hebraico se escreve essencialmente à base de consoantes. Com efeito, a leitura de um texto cujas vogais estão ausentes não comporta dificuldades intransponíveis. De resto, desde os primeiros séculos da nossa era, essas vogais fizeram o seu aparecimento na Bíblia hebraica sob a forma de um sistema de pontos e de traços que acompanham as consoantes tradicionais.

O Codex Sinaiticus.

Este manuscrito do século Iv, redigido em “uncial bíblica” (letras maiúsculas), contém passagens do Antigo Testamento, o texto integral do Novo Testamento e, além disso, a epístola de Barnabé e uma parte do Pastor de Hermas. O professor Tischendorf descobriu-o em 1844, no mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai, mas só pode adquirir-lo quinze anos mais tarde. Oferecido inicialmente ao czar Alexandre 11 da Rússia, o manuscrito foi em seguida comprado pela Grã-Bretanha para ser exposto no British Museum. O Texto apresenta-se disposto em quatro colunas por páginas, com correções que datam dos séculos IV, I e VII.

Martinho Lutero, reformador e tradutor.

Em finais de abril de 1521, quando regressava de Worms, onde tinha ido defender a sua causa na presença do imperador, Lutero foi “raptado” na estrada de Winttenberg. O objetivo desse “rapto” era subtraí-lo aos seus inimigos . Deixou crescer a Barba, adotou um traje civil (ele era monge) e passou a chamar-se Junker (cavaleiro) Georg. Viveu assim na clandestinidade no Castelo de Wartburg, perto de Eisenach. Foi aí que, em dezembro de 1521, começou a traduzir o Novo Testamento em Alemão, a fim de pô-lo à disposição de todos os que sabiam ler. Em onze semanas, lapso de tempo prodigiosamente curto, obra ficou concluída. Foi Publicada e setembro de 1522, ilustrada por Lucas Cranach e seus discípulos. Uma segunda edição apareceu em dezembro de 1522, seguida de outras doze ao longo do ano seguinte.

A tradução do Antigo Testamento ocupou Lutero durante doze anos, de 1522 a 1534. Terminou o Pentateuco em 1523 e, ano após ano, publicou, um a um, todos os livros do cânon bíblico. Finalmente, em 1534, fez publicar uma edição completa da Bíblia em alemão, cujo texto não deixou de aperfeiçoar até a sua morte, em 1546. Esta empresa, que proporcionava a todos a possibilidade de conhecer as Escrituras, desempenhou um papel determinante na Reforma. Através dos seus sermões, os reformadores convidavam os fiéis a fundamentarem  a sua fé e a sua esperança nos textos bíblicos, de preferências a procurarem um exemplo a seguir na vida dos santos.

O exemplo foi seguido, no que se refere à língua francesa, por Olivétan e Castellion. O século XVI pode ser considerado como uma idade de ouro para a tradução e a publicação da Bíblia.

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