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	<title>Viagem à terra santa</title>
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		<title>Transjordânia</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Aug 2011 11:48:53 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Do norte ao sul, a Transjordânia divide-se em cinco partes. A mais setentrional dessas zonas, limitada a oeste pela cadeia do monte Hermon, é um vasto planalto que se estende do Jarmuk as imediações de Damasco, situada a nordeste. Imediatamente a norte do Jarmuk encontra-se uma região muito fértil, que o Antigo Testamento denomina a terra de Basan ou, mais simplesmente, Basan, ou seja, a “terra lisa”, portanto rica e sem pedras. Para além desta conotação geográfica, o termo “bashân” evoca boa alimentação, abundancia e força. Quando faz alusão aos inimigos que o assaltam de todos os lados, o salmista<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/transjordania/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Do norte ao sul, a Transjordânia divide-se em cinco partes. A mais setentrional dessas zonas, limitada a oeste pela cadeia do monte Hermon, é um vasto planalto que se estende do Jarmuk as imediações de Damasco, situada a nordeste. Imediatamente a norte do Jarmuk encontra-se uma região muito fértil, que o Antigo Testamento denomina a terra de Basan ou, mais simplesmente, Basan, ou seja, a “terra lisa”, portanto rica e sem pedras. Para além desta conotação geográfica, o termo <em>“bashân”</em> evoca boa alimentação, abundancia e força. Quando faz alusão aos inimigos que o assaltam de todos os lados, o salmista compara-os aos “touros de Basan” (Salmos 22, 13), ao passo que Amós chama “vacas de Basan” às mulheres afortunadas da Samaria que se abandonam ao luxo e à ociosidade (Amós 4, 1).</p>
<p>Um pouco mais a sul, entre o Jarmuk e o uádi Zarqa (Jaboq), encontra-se a, terra de Galaad. No Antigo Testamento, acontece, por vezes, que esta denominação seja atribuída a um território mais vasto, tanto para norte como para sul, onde desce então até o uádi Mujib (Arnon). Por razões de precisão geográfica, parece, entretanto, preferível atermo-nos à primeira definição da região. Assim delimitada, a terra de Galaad apresentava características físicas análogas às do montes arborizados de Guilboa e da Samaria setentrional. É isso que explica que os israelitas, que se tinham estabelecido lá, tenham podido manter-se, ao passo que os outros povos viram na impossibilidade de resistir às pressões das nações vizinhas. Ramot de Galaad situa a leste da massa montanhosa, nem por isso deixou de permanecer, no século IX, um objeto de litígio entre Israel e a Síria. Foi teatro de, pelo menos, duas grandes batalhas (1 Reis 22, 1-3; 2 Reis 8, 28).</p>
<p>A terceira parte da Transjordânia, compreendida entre o Zarqa (Jaboq) e o uádi Mujib (Arnon), corresponde à terra de Amon. Também aqui se trata de uma simplificação geográfica, porque, em certos períodos, os amonitas invadiram territórios situados mais a norte. Anteriormente, esta região, atribuída a Rúben, tinha pertencido a Seon, rei dos Amorreus, que foi vencido pelos israelitas sob o comando de Moisés (Números 21, 21-30). Foi no tempo do rei Mesa (Século IX a.C.), um soberano enérgico e poderoso, que os amorreus puderam estender a sua fronteira para norte. Com efeito, esta fronteira era muito instável, e, ao longo dos séculos, o território delimitado pelo Zarqa e pelo uádi Mujib mudou de nome varias vezes. A verdade é que esta região apresenta uma paisagem de falésias recortadas e de ravinas, tendo ao centro um planalto particularmente fértil.</p>
<p>A quarta parte da Transjordânia, entre o uádi Mujib (Arnon) e o uádi Hasa (Zered), constitui o essencial da antiga terra de Moab. Dominado por um planalto que culmina a 1.000 metros, tem 56 quilômetros de comprimento e 40 quilômetros de largura. Abundantemente irrigada pelas torrentes das montanhas, esta zona é tão fértil na época em que o seu soberano era vassalo dos reis de Israel, no século IX, pagava-lhe um tributo anual de “cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros” (2 Reis 3, 4). Na historia de Rute, diz-se que a fome que grassava na região de Belém de Judá tinha incitado Elimelec e a sua família a refugiar-se entre os moabitas (Rute 1, 1-2). Embora situada mais a leste do que as colinas de Hebron e de Belém, a terra de Moab, assim como o conjunto da Transjordânia, conhece invernos frios marcadas por quedas de neve e geadas, assim como Estios caracterizados por manhãs brumosas e nebulosas.</p>
<p>A sul do uádi Hasa (Zered), o território que se estende até o golfo de Acaba, corresponde ao Antigo território de Edom, cuja espinha montanhosa culmina a 1700 metros. A leste desta cadeia encontra-se um planalto, cuja altitude varia entre 1.000 metros e 1100 metros. Os invernos são rudes, com períodos de nevadas e geadas que podem persistir até meados de março ou inicio de abril. G. A. Smith relata os comentários de viajantes que tinham ficado impressionados pela semelhança de paisagens entre este planalto e certas regiões da Europa. Sublinha, notadamente, uma observação de Doughty para quem “a charneca calcaria, a tal altitude, lembra a Europa; há bacias recobertas de carvalhos verdes que parecem parques”. No mapa onde figuram os vários tipos de vegetação que existiam em Israel nos tempos bíblicos, pode ver-se que, enquanto a oeste do Jordão a floresta mediterrânica pára a alguns quilômetros a norte de Bersabéia, a leste, no planalto de Edom, ela desce até cerca de 150 quilômetros mais a sul.</p>
<p><strong>A narrativa bíblica.</strong></p>
<p>No Antigo testamento, a Transjordânia é mencionada pela primeira vez a propósito da historia de Jacó e de Esaú. É a este último que a Bíblia atribui à fundação de Edom (Gênesis 36, 6-8). Quando Jacó regressou a Canaã, depois de ter fugido de casa de Labão, seu sogro, que vivia em Harran (Gênesis 29-31), passou pela Transjordânia, talvez na intenção de reconciliar-se com o seu irmão. Lobão alcançou-o na montanha de Galaad, provavelmente entre o Jarmuk e o uádi Zarqa (Jaboq), onde os dois homens concluíram uma aliança (Gênesis 31, 43-54). Depois, Jacó prosseguiu a sua viagem e para o sul. Foi no vau do Jaboq que, durante toda uma noite, ele lutou com uma misteriosa personagem, combate a seguir ao qual ficou, a saber, que doravante ficaria a chamar-se Israel (Gênesis 32, 22-32). Se tiver em conta a ordem segundo a qual os acontecimentos são relatados pelo texto bíblico, parece que Jacó se terá reconciliado com Esaú pouco tempo depois da travessia do Jaboq, porque voltou em seguida para Sucot, perto da confluência deste rio com o Jordão (Gênesis 33, 17). Por fim, foi estabelecer-se em Siquém (Gênesis 33, 18), depois de ter atravessado o Jordão e seguido o curso do uádi Faria.</p>
<p>A Transjordânia é de novo mencionada na última parte dos Números, onde se diz que, de Cades, Moisés enviou emissários ao rei de Edom, a fim de lhe pedir autorização para tomar a “estrada real” que atravessava os seus estados (Números 20, 17). Tendo sido rejeitada tal petição, os israelitas tiveram de contornar o território pelo sul, antes de obliquar para o norte, a fim de passar a leste da linha de fortificações que balizavam a fronteira oriental de Edom (Números 21, 4 e 10-13).</p>
<p>Entretanto, Números 33, 41-49, que recapitula as etapas percorridas pelos israelitas desde a sua saída do Egito, diz que estes teriam atravessado livremente o território de Edom. Alguns críticos sugeriram que esta passagem podia aludir a uma migração parcial que se teria verificado antes do século XIII, numa época em que a Transjordânia era ainda muito pouco habitada, a menos que se tratasse de uma peregrinação comemorativa que teria tido lugar, ulteriormente, numa altura em que as relações com Edom e Moab eram amigáveis. Seja como for, infirmando certas teorias anteriores, as descobertas arqueológicas efetuadas durante os últimos vinte anos tendem a provar que estes dois reinos existiam antes do século XIII. Sob o comando de Moisés, os israelitas atingiram “o vale que está nos campos de Moab, no cimo do Fasga, que domina o deserto” (Números 21, 20). Foi daí que foi enviada a mensagem a Seon, rei dos amorreus (o termo “amorreu” talves seja um sinônimo de “cananeu”), a fim de que ele permitisse que os israelitas passassem pela estrada real. Não apenas Seon recusou como reuniu o seu exército em Jasa, onde foi vencido pelos hebreus, que ocuparam o território desde o Arnon até ao Jaboq. Embora numerosos autores situem o Fasga a oeste do território de Ámon, a noroeste de Madaba, não foi possível localizar Jasa, nem o lugar exato onde estes acontecimentos se desenrolaram. Tentou-se situar Jasa nas proximidades de Dibon, a 25 quilômetros a sul de Madaba, mas parece mais lógico pensar que os israelitas atacaram Seon pelo Oeste. Seja como for, a verdade é que, na seqüência desta vitória, os hebreus retomaram a estrada do Norte e derrotou Og, rei de Basan (Números 21, 33-35). Estes dois feitos de armas tiveram tal ressonância na memória coletiva de Israel que acabaram, juntamente com alguns outros combates gloriosos, por simbolizar aquelas batalhas durante as quais Deus triunfava pelo seu povo. É assim que Salmos 135, 10-11 evoca como Deus</p>
<p><em>[...] derrotou grandes nações</em></p>
<p><em>E suprimiu reis poderosos:</em></p>
<p><em>Seon, rei dos amoritas,</em></p>
<p><em>E Og, rei de Basan.</em></p>
<p>Depois Israel levantou as suas tendas naquilo a que números 22, 1 chamam as “estepes de Moab”, provavelmente no vale do Jordão, em frente de Jericó. Esta situação inquietou Balac, rei de Moab, a ponto de ter mandado procurar o adivinho Balaão, a fim de que ele pronunciasse o anátema contra os israelitas. No plano topográfico, convem precisar que estes tinham estabelecido o seu acampamento a 40 quilômetros a norte do Arnon, que marcava a fronteira setentrional do território de Moab (ver Números 22, 36). O episodio da missão de Balaão e da sua jumenta que falava não deixou de suscitar animadas controvérsias sobre a maneira como convem interpretar os acontecimentos sobrenaturais relatados pela Bíblia. A verdade é que, para grande desengano de Balac, o adivinho o abençoou o povo cuja maldição lhe tinha sido encomendada:</p>
<p><em>Como são formosas as tuas tendas, ó Jacó!</em></p>
<p><em>As tuas moradas, ó Israel!</em></p>
<p><em>Estendem-se como os vales,</em></p>
<p><em>Como pomares ao longo de um rio;</em></p>
<p><em>Deus plantou-as como aloés,</em></p>
<p><em>Como cedros nas margens das águas.</em><em></em></p>
<p>(Números 24, 5-6)</p>
<p>E Balaão concluiu amaldiçoando Moab e anunciando que ele seria tal como Edom, submetido a Israel (Números 24, 17-18).</p>
<p>Naquele caso, Balaão agira como um verdadeiro profeta, pois que apenas pronunciara palavras ditadas pelo Deus de Israel. Mas, seguidamente, como os israelitas se entregaram ao deboche com mulheres de Moab e adoraram Baal-Fegor, o deus local (Números 25, 1-5), foi Balaão que foi responsabilizado pelo fato: “foram elas que, instigadas por Balaão, arrastaram os filhos de Israel a trair o Senhor com Baal-Fegor” (Números 31, 16). Esta apostasia de Israel viria a ser muito severamente julgada pela tradição bíblica, notadamente pelo salmista:</p>
<p><em>Ligaram-se a Baal-Fegor</em></p>
<p><em>E participaram nos sacrifícios a mortos.</em></p>
<p><em>Irritaram-n’O com os seus crimes,</em></p>
<p><em>Por isso, a peste irrompeu no meio deles.</em></p>
<p>(Salmos 106, 28-29)</p>
<p>Balaão déia conservar essa má reputação na literatura judaica do mesmo modo que no Novo Testamento, onde os falsos profetas e os seus discípulos são condenados nestes termos pelo apostolo Pedro: “Abandonaram o caminho reto e extraviaram-se Np caminho de Balaão&#8230; que amou o salário da iniqüidade.” (2 Pedro 2, 15). Assim, os acontecimentos das estepes de Moab marcaram profundamente o simbolismo religioso, tanto judaico como cristão.</p>
<p>Foi desta região, do cimo do monte Nebo, que Moisés pôde avisar a Terra Prometida, cuja entrada lhes estava proibida (Deuteronômio 34, 6). Quando se deu a partilha do território (Josué 13), parece que a tribo de Manassés terá recebido a terra de Galaad e de Basan, ao passo que Rúben e Gad partilharam entre si a região situada entre o Arnon e Jaboq. Convem, todavia, notar que a fronteira setentrional de Gad ia “até os confins do mar de Quineret” (Josué 13, 27). Quanto a Rúben e a Gad, verifica-se que sentiram grandes dificuldades em resistir à pressão das nações vizinhas. Gênesis 49, 19 declara o contexto das “Bênçãos de Jacó”:</p>
<p><em>Gad será assaltado pelo inimigo,</em></p>
<p><em>Mas ele assaltá-los-á por sua vez.</em></p>
<p>E em Deuteronômio 33, 6 é Moisés quem declara:</p>
<p><em>Que Rúben viva e seja imortal;</em></p>
<p><em>Que a sua descendência seja inumerável!</em></p>
<p>Com efeito, sobre tudo em Galaad que os israelitas conseguiram manter-se por mais tempo.</p>
<p>Jefté, um dos grandes juízes em Israel (juízes 11, 1-12, 6), nasceu nesta região. Era galaadita e tinha sido expulso de sua casa. Refugiado na terra de Tob, a nordeste da Transjordânia, torna-se chefe de bando. Quando os amonitas atacaram Galaad, os seus concidadãos suplicaram-lhe que viesse em seu auxilio e colocaram-se sob o seu comando. Durante a batalha que travou contra os amonitas, Jefté formulou o voto imprudente de oferecer em holocausto, se saísse vitorioso, a primeira pessoa que viesse ao seu encontro na altura do seu regresso. Ora, aconteceu que essa pessoa foi a sua própria filha única. Durante as conversações que tinham precedido os combates, ele tinha lembrado ao rei dos amonitas, que reivindicava o território compreendido entre o Arnon e o Jaboq, a maneira como os israelitas tinham vencido Seon e os seus amorreus. Depois de ter vencido os amonitas, Jefté organizou uma expedição punitiva contra os Efraimitas, que, embora residindo em Galaad, não tinham participado, por razões que permaneceram obscuras, na luta contra o inimigo comum.</p>
<p>Durante o reinado de Saul, os amonitas tentaram de novo invadir os territórios israelitas da Transjordânia. Naãs, o seu rei, cercava Jabes de Galaad (1 Samuel 11), uma cidade que se encontrava provavelmente no local atual de Tel el-Maglub, à beira do uàdi Jabis (o curso de Carit). A posição que ele ocupava a norte do Jaboq, no centro de Galaad, permite pensar que Naás tinha já ocupado todo o Sul do território ou que o seu exercito, subindo o vale do Jordão, e depois o do uádi Jabis, dispunha-se a fazê-lo. A brilhante intervenção de Saul salvou a cidade e granjeou-lhe o reconhecimento da população. Esse reconhecimento viria a manifestar-se quando os habitantes de Jabes de Galaad, atravessando o Jordão, foram procurar o cadáver mutilado de Saul que os filisteus tinham pendurado nos muros de Bet-San (1 Samuel 31, 11-13).</p>
<p>Foi, de resto, para esta parte da Transjordânia que Abner, chefe do exercito de Israel, se retirou após a derrota e a morte de Saul em Guilboa. Foi lá, na cidade de Maanaim, mesmo junto do Jaboq, que ele proclamou Isboset, filho de Saul “rei de Galaad, de Aser, de Jezrael, de Efraim, de Benjamim e de todo o Israel” (2 Samuel 2, 9). Não há duvida de que essa realeza, pelo menos no que se refere à parte ocidental do território, era puramente teórica. A verdade é que o reinado de Isboset terminou com o seu assassínio, que sobreveio pouco tempo depois de Joab ter matado Abner em Hebron. Mais tarde, quando Davi quebrou o poder filisteu, assegurou o controle do conjunto da Transjordânia, desde Damasco a norte até Edom a sul. Na altura da revolta de Absalão, optou também ele, por refugiar-se em Maanaim. É provável que contasse com a lealdade da população local, que ele libertara da opressão dos estados vizinhos. A batalha decisiva entre o exército de Davi e o de Absalão desenrolou-se na floresta de Efraim. Contrariamente ao que se poderiam pensar, estas floresta não se encontrava, verossimilmente, a oeste, mas a leste do Jordão. Ela devia, sem duvida, o seu nome à presença dos Efraimitas, que se tinham instalado em Galaad, exatamente aqueles que tinham entrado em conflito com Jefté.</p>
<p>O reinado de Salomão terminou com o estilhaçar do próprio reino. Não apenas Edom e Damasco se tinham revoltado (1 Reis 11, 14-25), como, depois do cisma, os sírios fizeram aliança com Judá e invadiram o norte da Galiléia. Sob o reinado de Omri e da maior parte do de Acab (primeira metade do século IX a.C.), Moab ficou submetido a Israel. Esta situação é confirmada pelas inscrições da “Pedra de Moab”, descoberta em 1868, em Diban, a antiga Dibon (Números 21, 30). Trata-se de uma estela cujo texto, atribuído a Mesa, rei de Moab, nos diz que Omri oprimiu durante muito tempo esta terra, porque Camos, o deus local, estava irritado contra os seus fiéis. Estas indicações concordam com as de 2 Reis 3, 4, que precisam que Moab pagava a Israel um tributo anual, sob forma de lã e de cordeiros. Informam-nos igualmente de que Mesa se revoltara contra Acab e devastara as cidades de Atarot e de Nebo. Por outro lado, estas inscrições confirmam a presença dos Gaditas a norte do Arnon: “E os homens de Gad habitavam a terra de Atarot desde os tempos mais antigos”. Foi, sem duvida, com o objetivo de restaurar a autoridade perdida por seu pai que Joram, filho de Acab, fez aliança com os reis de Judá e de Edom contra Moab. Os seus exércitos contornaram então a extremidade meridional do mar Morto, a fim de atacar os moabitas pelo leste. Contrariamente às fronteiras do Norte e do Sul, protegidas pelos profundos vales do Arnon e do Zered, a de leste, apesar das fortificações de que provavelmente estaria guarnecida, não estava ao abrigo de uma ofensiva proveniente do deserto que não constituía, rigorosamente falando, um obstáculo natural intransponível. Quando os exércitos coligados vieram a sofrer da falta de água, Eliseu ordenou, depois de longamente instalado, que se escavassem valas. No dia seguinte, de manhã, estas estavam cheias de água que os reflexos do sol-nascente tingiam de uma coloração semelhante à do sangue. Convencidos de que os assaltantes se tinham matado entre si durante a noite, os moabitas lançaram-se a assalto, mas os aliados estavam prontos para o combate e infligiram-lhes uma pesada derrota. Os moabitas refugiaram-se então em Qui-Haroset, onde o seu rei, cercado por todos os lados, escapou ao desastre total oferecendo seu filho mais velho em holocausto. Impressionados por este sacrifício e temendo as conseqüências que daí poderia advir para eles, os israelitas retiraram-se para além do Jordão.</p>
<p>A Transjordânia é muitas vezes mencionada sob, o reinado dos soberanos da casa de Omri. Por outro lado, Galaad era a terra natal de Elias, inimigo jurado de Acab (1 Reis 17, 1), e foi na torrente de Carit, na margem leste do Jordão, que os corvos vieram alimentar o profeta durante a seca. Por outro lado, esta região foi o teatro de varias campanhas conduzido por Acab contra Damasco para o controle de Ramot de Galaad, situada na orla oriental do planalto central. Foi durante a morte (1 Reis 22). Quanto a seu filho Joram, foi ferido ao tomar a cidade aos sírios. Enquanto se recompunha dos seus ferimentos em Jezrael, um dos discípulos de Eliseu dirigiu-se a Ramot de Galaad e conferiu a unção real a Jeú, o chefe dos exércitos. Esta iniciativa marca precisamente o inicio da revolta dos profetas, que viria a terminar com o massacre de todos os membros da dinastia de Omri e de Acab.</p>
<p>Entre os outros acontecimentos que se desenrolaram na Transjordânia, após o cisma, convem nota essa campanha conduzida por Amasias, rei de Judá, durante a qual “derrotou dez mil edomitas no vale do Sal. Conquistou a cidade de Sela e deu-lhe o nome de Joteel, nome que conserva ainda hoje” (2 Reis 14, 7). A respeito de certas objeções, identificou-se Sela com Petra. Ambos os nomes significam “rochedo” e a cidade encontrava-se ao fundo de uma garganta estreita, o Siq. Tendo em conta a configuração do terreno, não é de espantar que Amasias tenha tido de tomá-la de assalto (literalmente “pelas armas”), o que constituía uma proeza notável. 2 Crônicas 25, 12 que relata igualmente o acontecimento, contenta-se com precisar que os judeus conduziram 10.000 edomitas ao cimo do rochedo, donde os precipitaram no vazio. Atualmente, Petra PE, sobretudo, conhecida pelas fachadas dos seus monumentos, que os artistas esculpiram entre o Século IV e o século II a.C., nas próprias falésias de arenito vermelho. Esta cidade foi à capital dos monarcas nabateus até o século I d.C., e o apostolo Paulo residiu lá durante vários anos.</p>
<p>Na primeira metade do século VIII a.C., Judá e Israel conheceram várias décadas de prosperidade, durante as quais reforçam a sua presença na Transjordânia. Os amonitas pagavam um tributo a Ozias (2 Crônicas 26, 8), ao passo que Jeroboão II controlava um território que se estendia para além de Damasco (2 Reis 14, 23-28). Entretanto, o poderio assírio desenvolvia-se e, em 733/2, Tiglate-Pileser III apoderou-se de Galaad e do Norte da Galiléia. Em 588, quando Nabucodonosor marchou contra o reino de Judá, numerosos judeus foram refugiar-se nas terras de Ámon, de Moab e de Edon (Jeremias 40, 11). Após a queda de Jerusalém, regressaram à sua terra para apoiar a ação do governador Godolias. Mas este foi assassinado, verossimilmente por ordem de Baalis, rei dos amonitas (Jeremias 40, 14), e os edomitas tiraram partido desta situação de crise para se apoderarem de uma parte do território de Judá. Foi este reino de Edom, que se tornou a Iduméia, que João Hircano (135-104) converteu à força ao judaísmo. Herodes, o Grande, descendia de uma dessas famílias iduméias às quais tinha sido imposta a conversão.</p>
<p><strong>A Transjordânia no tempo de Jesus.</strong></p>
<p>Durante os séculos que precederam o nascimento de Jesus, a Transjordânia tinha importantes modificações políticas. Entre o Arnon e o Jaboq, e provavelmente até o Jarmuk, estendia-se a Peréia, a “terra de além”, segundo a sua etimologia grega. A parte meridional desta região estava essencialmente povoada por judeus que se tinham instalado ao mesmo tempo em que a família dos Tobíades. Embora situada a leste do Jordão, a Peréia constituía, para os judeus, uma ligação territorial entre a Judéia e a Galiléia. Permitia, assim, aos habitantes de Jerusalém visitar os seus correligionários do Norte, sem ter de passar pela Samaria. Bastava-lhes tomar a estrada da margem oriental.</p>
<p>A norte da Peréia encontrava-se a Decápole, cujo nome provinha das dez cidades fundadas pelos gregos a partir do fim do século IV a.C. (<em>deka poleis </em>significa “dez cidades”, em grego). As mais célebres dessas cidades eram Filadélfia (no local de Raba dos amonitas, atualmente Amã, capital da Jordânia), Gerasa (a moderna Jerash, que conservou magníficos vestígios romanos), Pela (onde os cristãos se refugiaram antes da destruição de Jerusalém no ano 70), Gadara (local provável da cura de “Legião”) e Scytópolis (a Bet-San da Bíblia, e também a única cidade da Decápole na margem ocidental do Jordão). Damasco fazia igualmente parte desta liga de dez cidades. A maior parte desta região, que tinha sido submetida pelos soberanos Asmoneus (século II e I a.C.), escapou ao controle de Jerusalém após a conquista romana, em 63 a.C., e, sobretudo após a morte de Herodes, o Grande, no ano 4 a.C. Apesar da presença de comunidades judaicas, as cidades da Decápole eram essencialmente cosmopolitas e helenísticas de cultura e de região.</p>
<p>A exceção da região de Gadara e de Hipos, que tinham sido ligadas à Síria, todo o território situado a norte do Jarmuk viria a constituir, entre 4 a.C. e 34 d.C., a província governada pelo tetrarca Filipe. Era nesta província que se encontrava Cesaréia de Filipe, assim denominada para distingui-las da Cesaréia mediterrânica. A cidade tinha sido constituída perto de uma das nascentes do Jordão, no local onde existia uma gruta dedicada ao “deus Pã e às ninfas”. Antes de se chamar Cesaréia, tinha o nome de Panéias, denominação que parece ter sido conservada sob a forma de Banias, que designa a localidade atual. A leste da Peréia, da Decápole e da tetrarquia de Filipe, a vasta zona que englobava o território de Edom, a sul, e se estendia para norte até damasco, era domínio dos nabateus. Estes povos do deserto, cuja implantação em Edom tinha, provavelmente, começado a partir do século VI a.C., viria a desempenhar um papel preponderante na Transjordânia, notadamente sob o reinado do seu rei Aretas IV (9 a.C. &#8211; 40 d.C.).</p>
<p>Se nos ativermos à estrita cronologia dos fatos, a Transjordânia foi o teatro do ministério de João Batista, antes de ser o Jesus. Segundo Marcos 1, 14, Jesus só começou a pregar depois da prisão de João. Se bem que os Evangelhos não digam nada sobre o lugar do seu encarceramento, Flávio Josefo situa-o em Maqueronte, uma fortaleza reconstruída por Herodes, que, em ordem de importância, vinha imediatamente depois de Massada. Dominado o mar Morto, a 14 quilômetros do Arnon, este palácio fortificado erguia-se na orla oeste da montanha, donde, em tempo claro, se pode avistar o monte das Oliveiras e uma parte de Jerusalém. O episodio célebre da dança de Salomé (cujo nome não figura nos Evangelhos), na seqüência da qual a jovem mulher reclamou a cabeça de João Batista (Marcos 6, 14-29), deu-se num banquete que Herodes Antipas oferecera aos seus e às autoridades civis e militares da Galiléia. Podemos pensar que Herodes, que reinava ao mesmo tempo sobre a Peréia e a Galiléia, ou terá organizado a sua recepção em Maqueronte ou então terá mandado trazer a cabeça de João Batista para Galiléia, para o local onde se desenrolavam as festividades (talvez Tiberíades).</p>
<p>Se excetuarem as “grandes multidões, vindas [...] da Decápole” (Mateus 4, 25), o primeiro acontecimento marcante do ministério de Jesus na Transjordânia foi à cura do endemoninhado denominado “Legião”. O local exato onde foi feito o exorcismo é incerto. Mateus 8, 28, que alude a dois homens possuídos pelos demônios, situa-o na região dos gadarenos, ao passo que Marcos 5, 1 e Lucas 8, 26 o colocam na dos gesarenos. Este ultimo lugar não pode se identificado. Em contrapartida. Gadara encontra-se a 10 quilômetros a sul do mar da Galiléia, não longe do Jarmuk. Seja como for, é verossímil que o incidente se tenha desenrolado na Decápole, quanto mais não seja porque, a partir do momento em que se viu liberto dos seus demônios, o homem “retirou-se e começou a apregoar na Decápole o que Jesus fizera por ele” (Marcos 5, 20). Por outro lado, é provável que o local fosse habitado por gentios, porquanto, depois de terem deixado o endemoninhado, os espíritos impuros foram refugiar-se numa vara de porcos, animais que os judeus abominavam.</p>
<p>Cesaréia de Filipe viria a ser testemunha de um dos momentos capitais do ministério de Jesus. Foi lá que ele perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que Eu sou:” (Marcos 8, 27). E os discípulos responderam que o tomavam por João batista, Elias ou um dos profetas. Como Jesus insistisse, Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Cristo. Tempos depois ao dirigir-se de Cafarnaum para Jerusalém, Jesus entrou na região “para além do Jordão” (Marcos 10, 1), isto é, na Peréia, para lá ensinar.</p>
<p>Depois do dia do pentecostes, o acontecimento mais significativo para a Igreja nascente foi, sem duvida, a conversão de Saulo de Tarso, mais conhecido sob o nome de Paulo. A visão fulgurante que o cegou, mudando há mesmo tempo o curso da sua vida e a sorte da igreja, aconteceu quando ele se aproximava de Damasco (Atos 9, 3), onde se dirigia com a intenção de prender os judeus que se tinham convertido ao cristianismo. Atingido pela cegueira, teve de ser conduzido à cidade, onde ficou nesse estado até que Ananias, um cristão de origem judaica, veio ter com ele e o acolheu nestes Termos: “Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo”. (Atos 9, 17). O entusiasmo com que Pulo se pôs então a anunciar o Evangelho em Damasco confundiu todos os que tinham conhecido na época em que ele se encarniçava contra os cristãos. Decidiram então matá-lo. Mas ele fugiu de Damasco, descendo de noite num cesto pela muralha abaixo (Atos 9, 25). Mais tarde, numa das suas epistolas, Paulo viria a evocar ele próprio essa aventura: “Em Damasco, o etnarca do rei Arestas mandou guardar a cidade para me prender; então, desceram-me num cesto, por uma janela da muralha, e assim escapei às suas mãos” (2 Crônicas 11, 32-33). De fato, esta evocação pode igualmente referir-se a uma situação similar que se teria apresentado após o seu regresso da “Arábia”, onde se tinha refugiado (Gálatas 1, 17). Trata-se, na realidade, do reino de Nabatéia, para onde Paulo se retirou, talvez para meditar na solidão sobre a sua nova vida. Pode também suceder que ele tenha levado a sua pregação junto dos judeus de Nabatéia, atraindo assim a animosidade do rei Aretas, que teria procurado mandá-lo prender. A verdade é que nos faltam informações quanto à extensão dos poderes de Aretas em Damasco.</p>
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		<title>Os impérios vizinhos de Israel</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Aug 2011 12:02:43 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Durante toda a época bíblica, a história do povo de Israel nunca deixou de ser influenciada pela presença de poderosos vizinhos, tanto a sul como a nordeste. Na sua fronteira meridional, ora aliado, ora hostil, o império Egípcio constituía um fator permanente de preocupações. Em nenhum lado o caráter imprevisível das relações com o Egito é mais bem ilustrado do que nos episódios contratados da instalação de José e do êxodo: em primeiro lugar, José, depois de ter sido vendido pelos irmãos, acaba por tomar-se uma das personagens mais importantes do país, onde a sua família é acolhida de braços<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/os-imperios-vizinhos-de-israel/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Durante toda a época bíblica, a história do povo de Israel nunca deixou de ser influenciada pela presença de poderosos vizinhos, tanto a sul como a nordeste. Na sua fronteira meridional, ora aliado, ora hostil, o império Egípcio constituía um fator permanente de preocupações. Em nenhum lado o caráter imprevisível das relações com o Egito é mais bem ilustrado do que nos episódios contratados da instalação de José e do êxodo: em primeiro lugar, José, depois de ter sido vendido pelos irmãos, acaba por tomar-se uma das personagens mais importantes do país, onde a sua família é acolhida de braços abertos (Gênesis 37 e 39-40); em seguida, os descendentes desta família, os israelitas, são reduzidos à escravatura e arrastam-se atrás de um libertador (Êxodo 1-14). De novo, sob o reinado de Salomão, o Egito, que é oficialmente seu aliado, nem por isso deixa de oferecer asilo aos que conspiram contra ele (1 Reis 9, 16; 11, 17-22 e 40). As mudanças de dinastias não trouxeram nenhuma modificação notável a esta situação. Quer os seus soberanos sejam de origem local ou núbia, que pertençam à família dos Ptolomeus, o Egito sempre procurou dominar Israel quando a oportunidade se lhe apresentava, tal como se apresentou a apoiá-lo, se necessário, para fazer dele um talude de proteção contra os poderosos impérios do norte que ameaçavam a sua própria segurança.</p>
<p>A nordeste, foi a assíria que, até 605 a.C., procurou dominar todos os povos da região. Este império, cujo apogeu foi alcançado nos séculos IX e VIII, dispunha de um exercito temível, famoso pela sua crueldade para com os inimigos vencidos. No Século VIII, os assírios adotaram uma política que consistia em deportar os povos submetidos e substituí-los por colonos que lhes eram devotados. Foi nestas condições que, em 721 a.C., puseram à independência do reino de Israel. Este só viria a recuperar a sua liberdade quando à dominação dos assírios sucedeu a dos babilônios. Na realidade, embora fossem ao que parece menos sanguinário que os predecessores, os babilônios revelaram-se igualmente impiedosos para com as nações vassalas que tentavam libertar-se do seu jugo. Assim, entre 57 e 587, deportaram a maior parte da população de Judá. Contudo, depois de ter vencido a Babilônia, Ciro, rei dos persas, publicou um decreto que autorizava os exilados a regressarem à sua terra (Esdras 1, 1-4) e durante os séculos seguintes os seus descendentes apoiaram a obra de restauração judaica empreendida por Esdras e Neemias (Esdras 7; Neemias 2, 1-8). Em 333 a.C., as conquistas de Alexandre submeteram de novo o povo de Judá a um regime estrangeiro, que, após certo período de tolerância, acabou também ele, por mostrar-se dominador e repressivo. Na época do Novo Testamento, era Roma quem impunha o seu poder ao mundo mediterrânico. Os romanos não vinham nem do Sul, nem do Nordeste de Israel, mas, tendo vencido o Egito e a maior parte das nações vizinhas, puseram fim, durante certo tempo, às ameaças de invasão provenientes dessas regiões.</p>
<p>Um atlas da bíblia tem, necessariamente, de incluir uma cartografia do Egito, da Mesopotâmia e do mundo Greco-romano. É de fato, indispensável conhecer a situação e a natureza geográfica de todos esses impérios que exerceram tal influencia sobre a vida dos habitantes da terra da Bíblia. A presente obra propõe certo número de mapas. Não deixa de ser verdade, no entanto, que o simples exame desses mapas apenas dá uma idéia muito incompleta daquilo que esses impérios podiam representar, durante a Antiguidade, no espírito dos autores e dos leitores da Bíblia. Até o advento do império Romano, as viagens eram lentas e perigosas nesta região do Mundo. Antes da dispersão, consecutiva das várias vagas de deportação, rara era os israelitas que conheciam o Egito ou a Mesopotâmia tais como eles eram na realidade. É precisamente essa idéia, essa representação, que os autores bíblicos e os seus leitores da época tinham desses impérios, que vamos agora esforçar-nos por determinar através dos textos da Bíblia que lhes são consagrados.</p>
<p><strong>O Egito.</strong></p>
<p>O império dos faraós era uma terra mais fértil do que Israel. Mais do que uma vez, nas épocas de fome, os habitantes de Canaã foram levados a dirigir-se para lá, quer para aí se estabelecerem, quer para obterem viveres. Foi o que aconteceu co Abraão (Gênesis 12, 10). Foi também esse o motivo que levou os filhos de Jacó a irem procurar trigo ao Egito, do qual o seu irmão José se tornara um dos principais administradores. Os israelitas sabiam que a prosperidade do país dependia do Nilo. Esta situação tinha sido posta em evidencia pelo próprio José, quando interpretou o sonho do soberano, que tinha visto as vacas gordas e as vacas magras surgir do rio. Quanto a Jeremias (46, 7-8), comparava as cheias anuais do Nilo ao comportamento marcial dos egípcios, que, também ele, se manifestava periodicamente:</p>
<p><em>Quem é este que sobe como o Nilo,</em></p>
<p><em>Como um rio de águas encapeladas?</em></p>
<p><em>É o Egito que sobe como o Nilo,</em></p>
<p><em>Como um rio de águas encapeladas.</em></p>
<p><em>E diz: “Inundarei a terra,</em></p>
<p><em>Destruirei as cidades e os seus habitantes.”</em><em></em></p>
<p>Por seu lado, numa passagem onde preconiza uma aliança entre Judá e a Alta Núbia (Cus), contra um inimigo comum, vindo do setentrião, Isaías (18, 1-2) invoca a importância da navegação para o país:</p>
<p><em>Ai da terra do zumbido das asas,</em></p>
<p><em>Além dos rios da Etiópia,</em></p>
<p><em>A qual envia mensageiros por mar,</em></p>
<p><em>Em barcos de junco sobre as águas!</em></p>
<p><em>Correi, mensageiros velozes,</em></p>
<p><em>A um povo esbelto temido,</em></p>
<p><em>A uma nação poderosa e longínqua,</em></p>
<p><em>Cuja terra sulcam os canais.</em></p>
<p>O texto bíblico alude à divisão do país em Alto e Baixo Egito e menciona certo número de cidades importantes. Ezequiel 30, 13-19 cita, pelo menos, oito, entre as quais figuram Tebas, Mênfis, Pelúsio e Heliópolis.</p>
<p>A inconstância do Egito como aliado é várias vezes sublinhadas. O juízo mais duro a este respeito é atribuído ao comandante-chefe dos exércitos assírios que sitiavam Jerusalém em 70 a.C., quando manda dizer a Ezequias: “Pões a tua esperança no Egito, esse caniço rachado que fere e trespassa a mão de quem nele se apóia? (2 Reis 18, 21). Esta condenação é confirmada por Isaías 30, 7: “O socorro do Egito é ineficaz e nulo; por isso eu o chamo: Monstro que nada pode’.” Mesmo sendo o Egito um aliado extremamente incerto, o texto bíblico nem por isso deixa de reconhecer a sua grande cultura e o seu sentido da administração. Elogia a sabedoria de Salomão afirmando que ela ultrapassava a dos egípcios. Quanto a Davi, é provável que se tenha inspirado nos seus métodos pra organizar a gestão do seu império. Estudos recentes permitiram estabelecer uma estreita semelhança entre os livros sapienciais do Antigo Testamento e certos escritos egípcios de idêntica inspiração. É assim que a “Sabedoria” de Amenemopé lembra, estranhamente os capítulos 22 e 23 dos Provérbios. Assim, para o redatores como para os leitores da Bíblia, o Egito constituía um símbolo ambivalente. Com as suas cidades suntuosas a riqueza, a fertilidade e o poder, a sabedoria e o saber. Era o país donde Israel surgiria na seqüência do êxodo, uma nação cuja ajuda podia solicitar – ainda que os seus apelos permanecessem, por vezes, sem resposta – e um lugar onde o seu povo podia sempre refugiar-se em caso de perigo. Era também um mundo de exotismo, sobretudo depois de os israelitas terem descoberto os núbios, cuja alta estatura e pele negra os enchia de espanto. Mas para os profetas, o Egito era também um objeto de maldição, notadamente para Ezequiel quando proclamava: “Tornarei secos os Nilos e entregarei o país a salteadores” (Ezequiel 30, 12).</p>
<p><strong>A assíria.</strong></p>
<p>O antigo testamento menciona a Assíria muito mais raramente do que o Egito e não parece que os seus autores tenham tido uma idéia muito precisa da realidade deste país. Esta ignorância é tanto mais surpreendente quanto aos antepassados dos hebreus eram originários da Mesopotâmia (Gênesis 11, 27-30). Eles sabiam, sem duvida, que a região era atravessada pelo Tigre e pelo Eufrates, mas os seus textos citam apenas muito poucos nomes de localidades. Quanto aos livros proféticos, contem nitidamente menos oráculos conta a Assíria do que contra o Egito ou a Babilônia. Dois profetas menos aludem, de fato, a Nínive, uma das mais importantes cidades assírias, sem que nada prove, no entanto, que lá se tenham dirigido. Mesmo no Livro de Jonas, um de cujos temas centrais são o apelo ao arrependimento de Nínive, quando o profeta anuncia a destruição iminente da cidade, não dá nenhum pormenor. Contenta-se com dizer que “era uma grande cidade diante de Deus, que distava três dias de caminho” (Jonas 3, 3). Acrescenta, entretanto, que abriga a uma população de 120.000 habitantes (Jonas 4, 11).</p>
<p>O livro de Naum, que trata igualmente de Nínive, acaba por não ser mais revelador a este respeito: Os carros andam furiosamente pelas ruas, saltando através das praças&#8230; Ele lembra-se dos seus guerreiros valentes; mas estes tropeçam na sua marcha. Precipitam-se sobre os muros e preparam as defesas. (Naum 2, 5-6). Mas tais alusões não carecem de um conhecimento pessoal dos locais. Em contrapartida, Naum mostra-se mais explicito quando evoca os métodos de guerra dos assírios. O terror que eles inspiram só pode comparar-se com o que se evidencia pela leitura de Isaías 5, 27-29:</p>
<p><em>Ninguém de entre eles se sente cansado</em></p>
<p><em>Ou vacilante,</em></p>
<p><em>Ninguém repousa nem dormita;</em></p>
<p><em>Ninguém desata o cinto dos seus rins,</em></p>
<p><em>Nem desperta a correia dos sapatos.</em></p>
<p><em>As suas flechas são agudas</em></p>
<p><em>E todos os seus arcos estão retesados.</em></p>
<p><em>Os cascos dos seus cavalos são como pederneira,</em></p>
<p><em>E as rodas dos seus carros assemelham-se</em></p>
<p><em>Ao furacão.</em></p>
<p><em>O seu rugido é de leão,</em></p>
<p><em>Rosna como um leãozinho.</em></p>
<p><em>Ele brame, agarra a sua presa,</em></p>
<p><em>E leva-a, sem haver quem lha arrebate.</em></p>
<p><strong>A Babilônia.</strong></p>
<p>Em 597 e em 587, uma parte da população de Judá tinha sido deportada para babilônia. Como posteriormente certo numero de judeus regressou à pátria de seus pais, pareceria lógico encontrar, nos textos bíblicos, alusões aos pais de exílio. Contudo, estes textos comportam muito menos referencias à babilônia do que ao Egito. Os raros pormenores relativos às cidades e aos costumes locais limitam-se a generalidades que poderiam muito bem corresponder a qualquer outro estado da região. A passagem mais significativa sobre o exílio encontra-se no inicio do Salmo 137:</p>
<p><em>Junto dos rios da Babilônia</em></p>
<p><em>Estávamos sentados e chorando,</em></p>
<p><em>Lembrando-nos de Sião.</em></p>
<p><em>Ali, sobre os salgueiros,</em></p>
<p><em>Suspendemos as nossas harpas.</em></p>
<p>Esses rios eram, de fato, os canais que atravessavam a cidade da Babilônia e os campos vizinhos canais que desempenhavam um papel predominante, tanto no domínio das comunicações como no da irrigação. Foi à borda de um desses canais, o Cabar, que Ezequiel teve a sua primeira visão sobre a gloria de Deus e a sua onipresença junto do seu povo no exílio (Ezequiel 1, 1).</p>
<p>Nos textos bíblicos, os pormenores relativos à Babilônia referem-se mais à própria cidade do que ao país. Mas também aí as alusões nem sempre são claras e carecem de explicações complementares. É, notadamente, o caso daquela procissão de deuses cujas imagens eram passeadas na cidade, montadas em carros. Sabemos hoje que ela constituía um dos grandes acontecimentos anuais da vida religiosa na Babilônia. Ora, é precisamente a essa manifestação que Isaías 46, 1-2 se refere, quando o profeta ironiza sobre aqueles ídolos que precisam ser puxados por animais, ao passo que o Deus de Israel é capaz de sustentar o seu povo eleito:</p>
<p><em>Bel cai, Nebo é abatido.</em></p>
<p><em>As suas estatuas são postas sobre animais</em></p>
<p><em>E bestas de carga,</em></p>
<p><em>Carregadas e levadas como se fossem</em></p>
<p><em>Feixes esmagadores.</em></p>
<p>O mesmo sucede no que se refere às portas e aos muros da cidade, mencionados em Isaías 45, 2:</p>
<p><em>Irei diante de ti,</em></p>
<p><em>Aplanarei os caminhos pedregosos,</em></p>
<p><em>Arrombarei os ferrolhos de bronze,</em></p>
<p><em>Quebrarei as trancas de ferro.</em></p>
<p>Quanto aos cinco primeiros capítulos de Daniel, cuja ação se desenrola na Babilônia, também apenas apresentam muito poucos pormenores sobre a cidade.</p>
<p>Numa certa medida, esta falta de informações pode explicar-se. Na altura em que chegaram aos lugares de exílio, não há duvida de que os deportados ficaram deslumbrados com o que viram. No inicio do século VI, a Babilônia era uma das maravilhas do mundo antigo. Podemos fazer uma idéia de o seu esplender quando, nos nossos dias, nos encontramos em presença das suntuosas reconstituições da via processional e da Porta de Ishtar expostas no Vorde-rasiatisches Museum de Berlim. Mas, fosse qual fossem o entusiasmo dos judeus, os profetas, esses permaneceram insensíveis a tais magnificências. Para eles a Babilônia era, a cidade de tudo, o país da idolatria, dos astrólogos e das vãs riquezas. A mudança de atitude de Jerusalém é significativa a este respeito. Babilônia, que tinha sido designada por Deus para castigar o povo eleito, tornou-se pouco a pouco num objeto de opróbrio votado à destruição. Nada ilustra melhor esta atitude e o sentimento que o profeta queria comunicar aos seus leitores do que as condenações (Jeremias 50, 36-38) contidas neste oráculo:</p>
<p><em>Espada contra os seus adivinhos mentirosos,</em></p>
<p><em>Para que enlouqueçam!</em></p>
<p><em>Espada contra os seus guerreiros,</em></p>
<p><em>Para que dele se apodere o terror!</em></p>
<p><em>Espada contra os seus cavalos, contra os seus carros</em></p>
<p><em>E contra toda a massa do povo que nela se encontra,</em></p>
<p><em>A fim de que se tornem como mulheres!</em></p>
<p><em>Espada contra os seus tesouros,</em></p>
<p><em>Que serão saqueadas!</em></p>
<p><em>Espadas contra as suas águas,</em></p>
<p><em>Que secarão!</em></p>
<p><em>Porque é um país de ídolos</em></p>
<p><em>Que se gloria dos seus espantalhos!</em></p>
<p><strong>A Pérsia.</strong></p>
<p>Os judeus permaneceram sob a dependência dos persas de 540 a 333 a.C. Os livros que se referem mais a este período são os de Esdras, Neemias e Ester. Embora este último relate acontecimentos que se desenrolaram em Susa, dá apenas muito poucos pormenores sobre a cidade. Contenta-se com assinalar que esta incluía uma grande praça e que, no jardim do palácio real, havia “cortinas brancas, de púrpura e azul, pendente das colunas de mármores por cordões brancos, e de púrpura e anéis de prata, canapé de ouro e prata sobre um pavimento de pórfiro, de mármore branco, de nácar e pedra preta” (Ester 1, 6).</p>
<p>Os únicos elementos significativos relativos a este país referem-se essencialmente ao seu sistema de governo. O texto bíblico apresenta a Pérsia como um vasto território regido por jurisconsultos. Ester 9 precisa que este império, que se estendia da índia à Etiópia, compreendia 127 províncias geridas por Sá trapas, príncipes e governadores. As comunicações, particularmente bem organizadas, eram asseguradas por correios rápidos, montados em cavalos de raça, provenientes das coudelarias reais. As cartas oficiais, a que Esdras alude, implicam da parte das autoridades centrais uma preocupação constante pelos mínimos pormenores políticos e administrativos até nas paragens mais recônditas do império.</p>
<p><strong>A Grécia e Roma.</strong></p>
<p>À exceção do livro de Daniel, o Antigo Testamento parece desinteressar-se da conquista do médio Oriente pelos gregos, na seqüência da batalha de Isso (333 a.C.). É verdade que Daniel alude, em termos velados, ao impulso vitorioso de Alexandre Magno, à partilha do seu império pelos seus generais e aos conflitos que viriam a pôr frente a frente os seus descendentes. Por outro lado, Daniel 7 evoca simbolicamente as perseguições de que os judeus seriam objeto sob Antíoco IV. Mas não encontramos em lado nenhum a mínima descrição do mundo grego na Bíblia hebraica.</p>
<p>Não sucede o mesmo no Novo Testamento, notadamente nos Atos dos Apóstolos e no Apocalipse, onde várias cidades gregas são mencionadas. É o caso de Antioquia, centro principal da Evangelização dos gentios, de Éfeso, cujo templo era dedicado a Artemisa, de Atenas, em cujo Areópago Paulo se dirigiu aos filósofos, de corinto, donde o apostolo se deteve durante dezoito meses.</p>
<p>É nos três primeiros capítulos do Apocalipse que encontramos as alusões mais significativas. Todavia, para captar todo o seu alcance, convem conhecer a situação e algumas das particularidades de várias das sete cidades a que o texto se refere. Assim, a garantia dada à Igreja de Filadélfia de fazer do “vencedor&#8230; uma coluna no templo do meu Deus” poderia estar em relação direta com os sismos que devastavam periodicamente a região, o que deixara entender que esse pilar, puramente simbólico, representava, de fato, uma promessa de segurança. O mesmo se passa no que se refere à Laodicéia, à qual se censura o não ser nem fria nem quente, mas muito simplesmente morna. Esta acusação inspira-se na sua formulação, na presença na cidade de fontes de água quente e de água fria.</p>
<p>A cidade de Roma só aparece no último capitulo dos Atos dos Apóstolos, onde se alude ao Foro de Ápio e ás, três Tabernas (Atos 28, 15). Na realidade, Roma é onipresente no Novo Testamento. Os judeus da Judéia estavam em contato permanente com os soldados de ocupação. Tinham de pagar impostos a César, cuja efígie figurava nas moedas. As comunicações através do Império nunca tinham sido tão rápidas, nem as estradas tão seguras. À semelhança de Saulo de Tarso, um judeu era susceptível de beneficiar da cidadania romana. Contudo, o Novo Testamento manifesta no que se refere a Roma, uma ambivalência de sentimentos análoga à que, no Antigo Testamento, se exprimia a respeito dos impérios anteriores. Assim, quando Paulo pedia aos fiéis que se submetessem ás autoridades imperiais, que, na sua opinião, tinham sido instituídas por Deus (Romanos 13, 1), não há duvida de que ele pensava no respeito da ordem e da justiça que aquelas autoridades encarnavam. Em contrapartida, no Apocalipse, este mesmo Império Romano, que decidira perseguir os cristãos, é apresentado como uma entidade diabólica que o autor assemelha a Babilônia.</p>
<p>Com efeito, do primeiro ao ultimo livro da Bíblia, as nações são, sobretudo consideradas como símbolos. Neste contexto, a terra da Bíblia simbolizava a aliança de Deus com o seu povo e a rejeição dessa aliança por esse mesmo povo. Não é por pura coincidência que a bíblia descreve o fim do Exílio em termos que lembram a própria deambulação no deserto, na época do Êxodo. Quanto às nações vizinhas de Israel, constituem também elas, poderosos símbolos. O fato de elas se ter recusado a reconhecer o Deus de Israel, ao mesmo tempo em que ameaçavam constantemente a própria existência do seu povo, confere lhes um papel primordial na manifestação da soberania divina. Deus servia-se dessas nações para castigar o seu povo, mas nem por isso deixava de deter nas mãos o seu destino, e, no momento oportuno, castigava-os por sua vez. Assim, seja qual for a sua importância, o simples conhecimento do contexto geográfico que rodeava o povo de Israel PE insuficiente para compreender o significado profundo do mundo em que este povo viveu. Na Bíblia, a geografia é inseparável da teologia.</p>
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		<title>O deserto da Judéia</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Aug 2011 12:01:01 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O deserto da Judéia está compreendido entre a franja ocidental da montanha da Judéia e a depressão constituída pelo mar Morto e pelo vale do Jordão. O presente capitulo refere-se apenas à parte desta região que se estende a sul de Belém. A este respeito, convém precisar que o “deserto” da Judéia, no seu conjunto oferece apenas uma semelhança muito longínqua com um deserto como o Sara e os seus vastos espaços de areia se estendem a perder de vista. Se for verdade que esta região inclui zonas semidesérticas, notadamente nas proximidades do mar Morto, nem por isso deixa de<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/o-deserto-da-judeia/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O deserto da Judéia está compreendido entre a franja ocidental da montanha da Judéia e a depressão constituída pelo mar Morto e pelo vale do Jordão. O presente capitulo refere-se apenas à parte desta região que se estende a sul de Belém. A este respeito, convém precisar que o “deserto” da Judéia, no seu conjunto oferece apenas uma semelhança muito longínqua com um deserto como o Sara e os seus vastos espaços de areia se estendem a perder de vista. Se for verdade que esta região inclui zonas semidesérticas, notadamente nas proximidades do mar Morto, nem por isso deixa de apresentar numerosas pastagens utilizáveis durante uma parte do ano.</p>
<p>A altitude do deserto da Judéia vai diminuindo gradualmente, de 1000 metros na sua franja ocidental até – 400 metros na sua extremidade oriental. De igual modo, a media anual das chuvas varia de 700 milímetros na sua parte oeste até 150 milímetros nas proximidades do mar Morto. O relevo é constituído por uma sucessão de planaltos em degraus, de 2quilometros a 3 quilômetros de largura, que descem de oeste para leste e terminam em falésias, por vezes com a altura de 100 metros a 200 metros, ao longo do litoral do mar Morto. Estas falésias áridas são entrecortadas por canhões que absorvem uma parte das águas de escoamento provenientes das águas do oeste. E isso que explica a presença das pastagens do inverno na base dessas falésias e dos planaltos inferiores.</p>
<p>Apesar das condições favoráveis nas imediações de Em-Gadi, onde foram encontrados vestígios de um templo cananeu, não parece que a região tenha sido habituada no 2.° milênio. Depois da conquista, a maior parte do deserto da Judéia coube a Judá. Incluía seis cidades com as suas aldeias (juízes 15, 61). Uma de entre era indiscutivelmente Em-Gadi; a identificação das outras continua a ser um pouco menos certa.</p>
<p>Em-Gadi (Tel Goren) encontra-se nas proximidades da foz do Naal Davi, num oásis irrigado por várias fontes. G.A.Smith sublinha o contraste entre “uma das regiões mais áridas e mais hostis do nosso planeta” e este oásis que lhe apareceu 400 pés mais abaixo, quando se encontrava à beira de um precipício, diante do mar morto, Foi pra ele como que “um rio de verdura surgido do rochedo e, depois de uma falésia com a altura de 300 pés, uma explosão de caniços, de arbustos, de arvores e de pomares ao longo da praia e do mar Azul”. No Antigo Testamento, Em-Gadi é famosa pelas suas palmeiras (2 Cr 20, 2), pelos seus cachos de hena e pelas suas vinhas (Cântico dos Cânticos 1, 14).</p>
<p><strong>Narrativa bíblica.</strong></p>
<p>Quando Davi se esforçava por escapar a Saul, encontrou refugio nas “elevações” e no “deserto” de Em-Gadi (1 Samuel 24, 1-2). Estas “elevações” são provavelmente a gruta no fundo da qual Davi e os seus homens estavam escondidos quando Saul veio satisfazer as suas necessidades (1 Samuel 24, 3). Davi aproveitou a circunstância para cortar sub-repticiamente um pedaço do monte do rei (1 Samuel 24, 1-7). Era a primeira vez que ele se recusava a matar Saul quando este estava perfeitamente à sua mercê. A alusão ao “rochedo dos cabritos” (1 Samuel 24, 3) parece confirmar a presença de rebanhos nesta parte do deserto da Judéia. É verossímil que os pastores fossem passar a noite em Em-Gadi, onde a temperatura era mais suave, depois de terem encerrado os seus rebanhos em cercas formadas por rochedos.</p>
<p>A sul de Em-Gadi encontra-se a célebre fortaleza de Massada. Levanta-se sobre um planalto de encostas abruptas a 410 metros acima do nível do mar Morto, muito próximo. O Próprio planalto, com 600 metros de comprimento por 320 metros de largura, é praticamente inexpugnável, mas a ausência de recursos naturais em água dificilmente lhe permite agüentar um longo assédio.</p>
<p> Massada não é explicitamente mencionada no Antigo Testamento. Todavia, não é impossível que Davi aí tenha procurado refugio na altura na sua fuga. Em hebraico, a palavra “<em>mesada</em>” significa “fortaleza”. Se bem que Massada só apareça sob este nome no ano 50 a.C., é razoável pensar que, na Antiguidade, todo o fugitivo que lá viesse esconder-se lhe tivesse chamado <em>mesada </em>isto é, “fortaleza”. Ora, no texto hebraico relativo à fuga de Davi as palavras “<em>mesada</em>” aparecem várias vezes. É designadamente, esse o caso em 1 Samuel 23, 14, onde vemos o herói fugitivo refugiar-se nas “fortalezas” (<em>mesadot</em>) do deserto.</p>
<p>Em 1 Samuel 22,4-5, lemos que Davi “apresentou os seus pais ao rei de Moab, e ficaram com ele durante todo o tempo Davi permaneceu naquela fortaleza. Mas o profeta Gad disse a Davi: “Não fiques na fortaleza, Parte e vai para a terra de Judá.” Davi partiu e veio para o bosque de Haret”. Tem-se o costume de situar em Adulam a fortaleza mencionada nesta passagem, por outro lado, porque 1 Samuel 22, 1, que o serve de introdução a este acontecimento, alude à “gruta de Adulam”,e, por outro lado, porque, em 2 Samuel 23, 13-14, o texto hebraico apresenta esta gruta como uma “fortaleza” (<em>mesuda</em>). Estudando a situação mais de perto, verifica-se que estava ainda no fortim quando lhe foi dada a ordem de se dirigir a terra de Judá, onde precisamente se encontrava Adulam. Por outro lado, segundo os pormenores geográficos do texto de 1samuel 22, 15 e 24, 8-22, parece de fato que este fortim estava situado nas proximidades do mar Morto. Na primeira dessas passagens, vemos Davi refugiar-se no fortim depois de ter conduzido os seus pais até Moab. Ora, Massada ergue-se não longe da estrada principal que liga o deserto da Judéia ao território de Moab, contornando a ponta sul do mar Morto. Na segunda passagem precisa-se que, depois de ter poupado Saul, Davi e os seus homens regressaram de novo ao seu refugio habitual, que, com toda a evidencia, se encontrava na região de Em-Gadi.</p>
<p>É verdade que nada prova que o “fortim” que servia de refugio a Davi era, de fato, Massada. No entanto, seria surpreendente que ele não tivesse conhecido e nunca lá tivesse ido. Se a fortaleza para qual Davi se retirou depois de ter posto os seus pais em segurança era efetivamente Massada, então a ordem expressa do profeta, impondo &#8211; lhe que deixasse aquele local para dirigir-se para o território de Judá, ganharia uma dimensão nova. O que constituía a força de Massada fazia também a sua fraqueza. O local era bem visível, fácil de localizar e de cercar na condição de se dispor de forças suficientes. Um grupo de homens assim sitiado era encontrado as maiores dificuldades em quebrar o cerco. Já numa primeira ocasião, Davi por pouco não foi capturado por Saul quando se entrincheira “no rochedo&#8230; no deserto de Maon” (1 Samuel 23, 24-27). Ao convidar Davi a abandonar Massada (se se tratava dessa “fortaleza”), é provável que o profeta quisesse evitar que ele caísse de novo na armadilha, na seqüência de uma traição.</p>
<p>Seja como for, restos de cerâmica encontrados em Massada indicam que o local era ocupado entre o século X e o século VII a.C. Construída pelo rei asmoneu Alexandre Janeu por volta de 100 a.C., a fortaleza foi inteiramente remodelada por Herodes, o Grande, que fez dela uma faustosa residência real. Mas Massada viria a ficar na historia como o ultimo refugio, em 73 a.C., dos judeus que se tinham revoltado contra Roma. Entre outros arranjos, Herodes tinha mandado talhar várias cisternas na rocha, a fim de captar as águas de escoamento provenientes das chuvas de inverno. Com efeito, durante as campanhas de escavações de 1963 a 1965 as violentas chuvaradas que caíram sobre Massada teriam podido encher essas cisternas em algumas horas se as condutas de água tivessem permanecido intactas.</p>
<p>Segundo Josué 15, 61, verifica-se que, além de Em-Gadi, Judá possuía cinco outras cidades no deserto: Bet-Arabá Medin, Sacacá, Nebsan e Ir-Hamela (cidade do Sal). Durante muito tempo, identificou-se esta cidade do sal com Qumran e as outras cidades locais das proximidades. Entretanto, segundo uma hipótese recente, parece que estas cinco localidades se teriam situado nas imediações de fontes, no litoral do mar Morto, a norte de Em-Gadi. Assim, a cidade do sal corresponderia a Ein ET-Turaba, Nebsn e Em El-Guveir, Sacacá a Qumran e Bet-Arabá a Ruim El-Bar. Foram lá descobertos vestígios de fortificações israelitas datando do século VIII ao século VI a.C., assim como a prova da passagem de João Hircano (134-104 a.C.). Não é impossível que estas cidades tenham feito então parte de uma linha de defesa destinada a proteger a fronteira oriental de Judá.</p>
<p>O mais conhecido desses locais é Qumran, em cujas proximidades foram descobertos os manuscritos do mar Morto, em 1947. A localidade de Qumran não é mencionada na Bíblia, pelo menos com este nome. Quanto à comunidade que aí se tinha instalado, e que está certamente na origem dos célebres manuscritos, parece que terá permanecido lá de 4 a.C. a 68 d.C. Este período corresponde ao da vida de Jesus e aos inícios da Igreja cristã. Embora a região do deserto da Judéia na qual os Evangelhos assinalaram a presença de João Batista (Lucas 1, 80) e de Jesus (Marcos 1, 12-13) corresponda ás proximidades de Jericó, não é inútil determo-nos um pouco sobre as semelhanças e diferenças que os ensinamentos da comunidade de Qumran poderiam apresentar relativamente aos de João Batista e de Jesus.</p>
<p>Nada sabemos sobre os inícios da comunidade do mar Morto, a não ser que ela era, provavelmente, constituída por essênios. As suas origens tanto podem remontar ao exílio da babilônia (587 a.C.) como à deposição do grande sacerdote Onias III (175 a.C), ou ao reinado do Macabeus Jônatas (160-143) ou Simão (143-134). Ocupada entre 160 e 134, parece que Qumran foi abandonada antes de ser de novo habitada sob João Hircano (134-104). Destruído por um tremor de terra em 31 a.C., o local viria a ser reocupado por volta do ano 4 a.C.</p>
<p>Os membros da comunidade definiam-se como os filhos da luz, titulo que Deus lhes tinha concedido ao escolhê-los para servi-lo e conduzi o combate contra os filhos das trevas. A sua doutrina religiosa era fundamentalmente dualista. Estavam convencidos de que Deus tinha momentaneamente entregado o mundo às forças do mal, mas que no fim dos tempos o Espírito de Verdade, atrás do qual se tinham enfileirado os Filhos da Luz, acabaria por triunfar sobre o Anjo das Trevas. Os membros da seita punham todos os seus bens em comum após um período de iniciação. Viviam em grupos de dez ou doze e tomavam as suas refeições em conjunto. Consideravam que a sua comunidade era uma resposta ao apelo de Isaías 40, 3: “Preparai no deserto um caminho para o Senhor.”</p>
<p>Os preceitos religiosos da comunidade de Qumran apresentam interessantes analogias com os de João Batista e de Jesus. É assim que, segundo Marcos 1, 3, João se apresenta como o precursor anunciado por Isaías 40, 3. Quanto a Jesus, viria a reunir um grupo de doze discípulos que tomavam as suas refeições em comum. O seu ensino dá a entender que os tempos presentes são dominados pelas forças do mal, notadamente quando exclama: “Eu via Satanás cair do céu como um raio” (Lucas 10, 18). Por outro lado, este ensino implica certo dualismo, em particular João 1, 5 e 8, 12, 2 Coríntios 6, 14 e 7, 1, e, sobretudo em Efésios 6, 12, onde se precisa que “temos de lutar [...] contra os Principados, Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares”.</p>
<p>É grande a tentação de procurar laços de parentesco espiritual entre a comunidade de Qumran e o cristianismo. Foi-se mesmo ao ponto de afirmar que Jesus e João Batista eram essênios. No entanto, as semelhanças entre os dois movimentos não devem encobrir as diferenças, que são igualmente importantes. Não encontramos nada nas regras de Qumran que lembre o batismo de arrependimento administrado uma vez por todas por João. Por outro lado, ao passo que os membros da comunidade eram puros que tinham o dever de amar os filhos da luz e de odiar os filhos das trevas, Jesus ensinava o amor dos inimigos (Mateus 5, 44) e não hesitava em mostrar-se em companhia de pecadores (Marcos 2, 15-17). Provavelmente não foi para encontrar-se com a seita de Qumran que Jesus se retirou para o deserto da Judéia, mas antes para lá refletir sobre os perigos de conduzir o seu rebanho numa terra hostil. Este deserto apresenta-se, de fato, como um quadro ideal para imaginar o pastor que deixa o seu rebanho protegido numa cerca a fim de ir à procura da ovelha que se tresmalhou (Lucas 15, 4).</p>
<p><strong>Massada.</strong></p>
<p>Massada é um dos lugares altos da história do povo de Israel. Foi lá que no fim da revolta de 67-73 d.C., algumas centenas de judeus opuseram uma derradeira e heróica resistência ao ocupante romano. Embora o fato não esteja especificado na Bíblia, não é impossível que Davi lá tenha encontrado refugio. Massada representa, por outro lado, uma das obras-primas arquiteturas e artísticas da Judéia da época herodiana, ao mesmo tempo em que testemunha a fria determinação dos sitiantes romanos. As escavações confirmam neste ponto o relato de Flávio Josefo (século I d.C.): Inacessibilidade do lado do mar Morto, salvo pela vereda da Serpente, e construção de uma rampa de assalto a oeste.</p>
<p><strong>Qumran.</strong></p>
<p>Qumran, tal como acontece com Massada, também não é mencionada na Bíblia, a menos que ela corresponda a Sacacá ou Ir-Hamela (cidade de Sal) Josué 15, 61-62. Contudo, tal como em Massada, descobertas feitas em Qumran a partir do fim da segunda Guerra Mundial permitiram compreender melhor certos aspectos do mundo no qual o cristianismo nasceu. A existência, no século I a.C., da seita judaica dos essênios era conhecida desde a Antiguidade. Flávio José em particular descreve o seu modo de vida e apresenta-os como uma das três grandes componentes do judaísmo da época, juntamente com os saduceus e os fariseus: os documentos e os objetos encontrados no próprio Qumran e nas grutas vizinhas não fizeram, portanto, mais do que confirmar o que já se sabia sobre esta comunidade. No número das descobertas arqueológicas figuravam importantes pedaços do Antigo Testamento em hebraico “manuscritos do mar Morto”, cuja cópia remonta ao século I a.C.</p>
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		<title>Composição e transmissão da Bíblia</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Aug 2011 12:02:05 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A Bíblia, diz-se, é o menos lido de todos os Best-sellers. É o livro cujas traduções estão mais espalhadas pelo mundo, no maior número de línguas. A sua tiragem, sob o impulso das sociedades bíblicas, atingem uma média anual de 11 milhões de exemplares da versão integral, 12 milhões de novos testamentos, 400 milhões de brochuras contendo extratos do texto original. É verdade que estes números só podem ser obtidos graças aos modernos processos de impressão e de distribuição. No entanto, mesmo antes de a imprensa ter feito o seu aparecimento no ocidente no século XV, a difusão da Bíblia<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/composicao-e-transmissao-da-biblia/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Bíblia, diz-se, é o menos lido de todos os <em>Best-sellers</em>. É o livro cujas traduções estão mais espalhadas pelo mundo, no maior número de línguas. A sua tiragem, sob o impulso das sociedades bíblicas, atingem uma média anual de 11 milhões de exemplares da versão integral, 12 milhões de novos testamentos, 400 milhões de brochuras contendo extratos do texto original. É verdade que estes números só podem ser obtidos graças aos modernos processos de impressão e de distribuição. No entanto, mesmo antes de a imprensa ter feito o seu aparecimento no ocidente no século XV, a difusão da Bíblia ultrapassava já de muito longe a de qualquer outra obra. O povo hebraico, do qual a Bíblia é originária, sempre manifestou tal apego pelas suas tradições escritas que mereceu, de fato, ser chamado o Povo do Livro. A este título convém acrescentar um outro, diretamente relacionado com o presente atlas: os hebreus eram igualmente o povo da terra da Bíblia. Estes dois elementos, o livro e a terra, estão intimamente ligados e um dos nossos objetivos é precisamente tornar o livro mais compreensível, permitindo ao leitor familiarizar-se com a terra.</p>
<p><strong>A composição da Bíblia.</strong></p>
<p>O uso da escrita remonta às imediações do 4.° milênio antes de Cristo. De início, os homens serviam-se de signos rudimentares que, pouco a pouco, foram ganhando a forma de símbolos que representavam sílabas. Não era ainda um sistema alfabético em que Cada letra correspondia a um som distinto. Como esta escrita silábica tornava necessário o emprego de 300 a 600 signos, somente alguns profissionais eram capazes de utilizá-la. Os alfabetos, tais como os conhecemos, datam apenas da segunda metade do 2.° milênio antes de Cristo, isto é, em termos aproximativos, do presumível período em que Moisés fez sair os israelitas do Egito.<strong> </strong></p>
<p>Embora a cronologia relativa a Abraão, Isaac e Jacó permaneça incerta (situam-se tradicionalmente ente 1750 e 1500 a.C.), os feitos destes patriarcas foram, originariamente, conservados e transmitidos de geração em geração pela tradição oral. O mesmo se passou, provavelmente, com o conjunto da história de Israel até a chegada do rei Davi (1000 a.C.). Isto não aplica de modo nenhum que os hebreus não utilizassem a escrita antes desta data, mas antes que as narrativas relatadas por livros como o Gênesis, o Êxodo, os Juízes ou 1 Samuel foram transmitidas oralmente de terem sido consignadas por escrito numa época mais recente. Por outro lado, a Antiguidade deixou-nos complicações de leis cuja redação remonta a um período nitidamente mais longínquo que o do Antigo Testamento, e, tendo em conta a importância que elas revestem para uma comunidade, não é impossível que as leis tenham precisamente figurado entre os primeiros textos retidos pela tradição escrita de Israel.</p>
<p>O acesso de Davi ao trono, e depois de Salomão, trouxe consigo condições favoráveis ao desabrochar de uma grande atividade literária. Foi, pois, a partir do século X que se começaram a reunir os elementos escritos e orais, transmitidos pela tradição, em ordem à composição do Pentateuco (do Gênesis ao Deuteronômio), assim como os primeiros profetas (de Josué ao 2 Reis). No século VIII, a chegada dos Profetas “clássicos” viria dar um novo impulso a esta tarefa de redação. Pesquisas recentes parecem indicar que as palavras dos profetas eram recolhidas, consignadas por escrito e conservadas pelos seus discípulos, que se reuniam em escolas proféticas. É assim que Jeremias nos informa que Baruc, o escriba, escrevia diretamente sob a inspiração do seu mestre.</p>
<p>A queda de Jerusalém e exílio na Babilônia, de 597 e 587 (o templo foi destruído em 587), iriam trazer consigo uma crise de consciência: Israel não podia deixar de interrogar-se sobre as causas do desastre. Foi nesta época que ele se tornou verdadeiramente o Povo do Livro. Foi provavelmente nesta mesma época (o exílio durou de 587 a 539 a.C.) que os livros dos primeiros profetas (isto é, a história de Israel desde a conquista de Canaã até o exílio), tal como o Pentateuco, foram redigidos sob uma forma próxima da que lhes conhecemos atualmente. Os livros proféticos (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze “pequenos” profetas) estavam também eles, praticamente terminados nos fins do século vi. Quanto aos livros sapienciais, se é verdade que incluem elementos muito antigos, tais como certo número de salinos e de provérbios, nem por isso deixam de conter os textos mais recentes do Antigo Testamento. É, Notadamente, o caso das Crônicas, de Ester e de Daniel. O mesmo se passa com poemas de amor reunidos sob título de “Cânticos dos Cânticos” e com as meditações sobre a luta interior do homem presa da dúvida e da incerteza, que constituem o essencial de Jó e do Eclesiastes.</p>
<p>Nos fins do século II a.C., a composição do Antigo Testamento, tal conto ele se apresenta nas nossas bíblias atuais, estava virtualmente terminada (embora a ordem de classificação dos livros fosse um tanto diferente). Estes livros eram redigidos em rolos de pergaminho: de fato, o termo que significa “livro”, no hebraico moderno, designava um “rolo”, em hebraico bíblico. Na época em que o cristianismo fez o seu aparecimento, o Antigo Testamento existia não apenas no seu texto hebraico mais também numa versão grega destinada aos judeus que residiam no Egito. Havia também uma versão grega particular em uso entre os samaritanos que viviam nas regiões montanhosas do norte do país. Embora escrita em hebraico, esta versão limitava-se ao Pentateuco. Por outro Lado, incluía certo número de variantes significativas, a maioria das quais tinha como objetivo reforçar a tese samaritana segundo a qual o lugar privilegiado, santificado por Deus, era o monte Garizim, e não Jerusalém. A versão grega apresentava também ela, variantes relativamente às que utilizamos hoje. Assim, o livro de Jeremias era muito mais curto do que o que figura nas nossas bíblias atuais diretamente traduzidas do texto hebraico tradicional.</p>
<p>A descoberta dos manuscritos de Qumran &#8211; os famosos manuscritos do mar morto – permitiu, ela também, verificar que existiam numerosas versões do Antigo Testamento no início da era cristã. Tal fato fica igualmente patenteado através de certas citações que se encontram no novo testamento e cujo texto não corresponde a nenhuma versão conhecida do Antigo testamento. Não parece, pelo menos no que se refere à Qumran, que os antigos escribas se tenham cingido sempre a fornecer cópias rigorosamente conformes aos modelos originais. Na nossa época de progressos técnicos, em que a imprensa permite reproduzir um número ilimitado de exemplares rigorosamente idênticos, é difícil de imaginar o que poderia ser a vida nessas comunidades em que tudo era escrito à mão.</p>
<p>As variantes nos textos eram então consideradas como ago de perfeitamente normal. Convém, no entanto, precisar que importantes fragmentos do texto tradicional da Bíblia hebraica foram igualmente descobertos em Qumran.</p>
<p>A igreja primitiva adotara a versão grega do Antigo Testamento. Esta continha certos livros que o cânon Hebraico não reteve e que os protestantes consideram como “apócrifos”. Tal como para o Antigo Testamento, seriam tradições e relações orais que iriam servir de base ao Novo Testamento. É, designadamente, esse o caso da narração da Paixão e dos feitos de Jesus. A partir do ano 50 d.C., as Igrejas começaram a conservar as cartas que recebiam dos seus chefes espirituais e, muito particularmente, as de Paulo. Essas foram seguidamente retinidas numa complicação que veio juntar-se aos Evangelhos e aos Atos, cuja redação, diretamente inspirada a partir de elementos escritos e orais, remonta a um período compreendido entre 70 e 90 d.C. A composição do Novo Testamento, tal como o conhecemos atualmente, estava praticamente terminada no fim do século I.</p>
<p><strong>Os manuscritos da Bíblia.</strong></p>
<p>O fato de um tão grande número de antigos manuscritos de a Bíblia ter chegado até nós é particularmente notável. O nosso conhecimento do teatro, da história ou dos filósofos da Grécia antiga apóia-se, por vezes, apenas num número muito reduzido de manuscritos que datam de várias centenas de anos após a morte dos seus autores.</p>
<p>Pelo contrário, no que se refere à Bíblia, e, sobretudo ao Novo Testamento, dispomos de milhares de manuscritos. O mais antigo testemunho que conhecemos do Novo Testamento é o fragmento do Rylands do Evangelho de João, que data, verossimilmente, de 150 d.C.</p>
<p>Foram igualmente encontradas outras passagens importantes deste evangelho e das cópias das epístolas de Paulo, que remontam ao fim do século II. Trata-se de papiros que foram descobertos no Egito, onde as condições climáticas favoreceram a sua conservação.</p>
<p>Foi no século IV que foram compostos os grandes manuscritos em uncial (letras maiúsculas), contendo o essencial do Antigo e do Novo Testamento em grego. Os mais célebres desses manuscritos são o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus. O Vaticanus deve o seu nome ao fato de se encontrar na Biblioteca Vaticana, em Roma. Quanto ao Sinaiticus, foi descoberto no século XIX, no mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai. Está atualmente exposto no British Museum. Todos estes manuscritos se apresentam sob a forma de volumes encadernados (é esse o sentido de <em>Codex</em>). Parece, de fato, que a Igreja cristã tenha escolhido esta forma para os seus livros, ao passo que a comunidade judaica optara, desde há muito tempo, pelos rolos.</p>
<p>O único modo de reprodução dos textos era a cópia manuscrita, e erros acabavam, inevitavelmente, por introduzir-se nos manuscritos. A este Respeito, o pai-nosso constitui um exemplo particularmente significativo. A versão que ele é apresentado por Lucas (11, 2-4) é mais curta do que a que encontramos em Mateus (6, 9-13). Sendo a oração geralmente recitada segundo o texto relatado por Mateus, os escribas podiam ser tentados, quer por preocupação de semelhança, quer por inadvertência, recopiando-a sob esta forma quando trabalhavam sobre o Evangelho de Lucas.</p>
<p>O relato da Ceia oferece-nos um exemplo análogo, notadamente no que se refere às palavras pronunciadas por Jesus. A extensão do discurso não é a mesma em todos os manuscritos de Lucas. Na versão mais curta (Lucas 22, 17-19), Jesus abençoa o cálice e depois o pão. A versão mais Longa (versículos 19b-20), por seu turno, insiste mais na benção do cálice, sem dúvida com o objetivo de alinhar o relato pelo de Marcos e de Mateus e também por preocupação de conformidade com a liturgia da igreja relativa ao rito da eucaristia. A criação dos grandes centros de estudos teológicos, tais como os de Alexandria, de Cesaréia e de Antioquia, permitiu, verossimilmente, proceder à harmonização dos diferentes textos do Novo Testamento. Daí iria pouco a pouco resultar a composição de certo número de versões regionais. Entre os manuscritos mais significativos desta época convém citar o Codex Bezae, que se encontra atualmente na biblioteca da Universidade de Cambridge. Distingue-se por variantes e omissões características no texto de Lucas e dos Atos.</p>
<p>Seja como for, desde o início do século V, a tradução latina da Bíblia por Jerônimo deu à Igreja do Ocidente uma versão do Novo Testamento que, apesar de certas imperfeições, iria fazer autoridade durante séculos. A invenção da imprensa deu um impulso extraordinário à difusão dos livros bíblicos, na tradução latina ou na língua original. Quanto à Reforma, ela constituiu como seu objetivo colocar a Bíblia em língua vulgar à disposição de todos.</p>
<p>É a Lefévre d’Etaples que se deve a primeira edição integral da Bíblia em francês (1523-1530). A hostilidade da Sorbonne obrigou-o a publicar a sua obra em Antuérpia. No século seguinte, a tradução de Le Maistre de Sacy, também ela inicialmente proibida, foi publicada em Mons (1667). Estas versões conheceram numerosas revisões e reedições ao longo dos séculos seguintes.</p>
<p><strong>A escrita na Antiguidade.</strong></p>
<p>A invenção da escrita constitui um dos acontecimentos primordiais da história da Humanidade. Pode comparar-se à revolução criada, no nosso tempo, pela introdução da informática que permite a transmissão universal e instantânea de dados. Os primeiros sistemas de escrita, no IV milênio a.C., eram silábicos. As silabas eram materializadas por desenhos que representavam objetos familiares, como se, em Francês, um sinal esboçando a silhueta de um gato (<em>chat</em>) representasse de fato a silaba “cha”, ou um sinal figurando um vaso (<em>pot</em>) a silaba “pó”, servindo a sua justaposição para escrever a palavra <em>chapeau (chapéu). </em>Estes desenhos não tardaram a tornar-se sinais puramente convencionais. Entretanto, na época em que os hebreus começaram a redigir os textos da Bíblia, o sistema de escrita silábica, que precisava de nada menos que trezentos sinais, tinha dado lugar ao alfabeto, que utiliza dez vezes menos. A simplificação trazida pela introdução deste sistema, na segunda metade do II milênio a.C., aumentava a possibilidade de difusão da leitura e da escrita. Os não iniciados ficam por vezes surpreendidos ao saber que o hebraico se escreve essencialmente à base de consoantes. Com efeito, a leitura de um texto cujas vogais estão ausentes não comporta dificuldades intransponíveis. De resto, desde os primeiros séculos da nossa era, essas vogais fizeram o seu aparecimento na Bíblia hebraica sob a forma de um sistema de pontos e de traços que acompanham as consoantes tradicionais.</p>
<p><strong>O Codex Sinaiticus.</strong></p>
<p>Este manuscrito do século Iv, redigido em “uncial bíblica” (letras maiúsculas), contém passagens do Antigo Testamento, o texto integral do Novo Testamento e, além disso, a epístola de Barnabé e uma parte do Pastor de Hermas. O professor Tischendorf descobriu-o em 1844, no mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai, mas só pode adquirir-lo quinze anos mais tarde. Oferecido inicialmente ao czar Alexandre 11 da Rússia, o manuscrito foi em seguida comprado pela Grã-Bretanha para ser exposto no British Museum. O Texto apresenta-se disposto em quatro colunas por páginas, com correções que datam dos séculos IV, I e VII.</p>
<p><strong>Martinho Lutero, reformador e tradutor.</strong></p>
<p>Em finais de abril de 1521, quando regressava de Worms, onde tinha ido defender a sua causa na presença do imperador, Lutero foi “raptado” na estrada de Winttenberg. O objetivo desse “rapto” era subtraí-lo aos seus inimigos . Deixou crescer a Barba, adotou um traje civil (ele era monge) e passou a chamar-se <em>Junker </em>(cavaleiro) Georg. Viveu assim na clandestinidade no Castelo de Wartburg, perto de Eisenach. Foi aí que, em dezembro de 1521, começou a traduzir o Novo Testamento em Alemão, a fim de pô-lo à disposição de todos os que sabiam ler. Em onze semanas, lapso de tempo prodigiosamente curto, obra ficou concluída. Foi Publicada e setembro de 1522, ilustrada por Lucas Cranach e seus discípulos. Uma segunda edição apareceu em dezembro de 1522, seguida de outras doze ao longo do ano seguinte.</p>
<p>A tradução do Antigo Testamento ocupou Lutero durante doze anos, de 1522 a 1534. Terminou o Pentateuco em 1523 e, ano após ano, publicou, um a um, todos os livros do cânon bíblico. Finalmente, em 1534, fez publicar uma edição completa da Bíblia em alemão, cujo texto não deixou de aperfeiçoar até a sua morte, em 1546. Esta empresa, que proporcionava a todos a possibilidade de conhecer as Escrituras, desempenhou um papel determinante na Reforma. Através dos seus sermões, os reformadores convidavam os fiéis a fundamentarem  a sua fé e a sua esperança nos textos bíblicos, de preferências a procurarem um exemplo a seguir na vida dos santos.</p>
<p>O exemplo foi seguido, no que se refere à língua francesa, por Olivétan e Castellion. O século XVI pode ser considerado como uma idade de ouro para a tradução e a publicação da Bíblia.</p>
<p><strong>Faça uma viagem  à Terra Santa  ligue:(11) 3257-9211</strong></p>
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		<title>As religiões rivais do Deus único</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Aug 2011 11:38:28 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A infidelidade do povo de Israel, que abandona o seu Deus para se voltar para outras divindades, constitui um dos temas centrais do Antigo Testamento. Em alguns casos, esta infidelidade é comparada à atitude de uma jovem esposa que traísse o seu esposo pata entregar-se à prostituição (Jeremias 3, 1-10). No entanto, não obstante as chamadas de atenção dos seus chefes espirituais, a arraia-miúda mantinha-se ligada às tradições herdadas das religiões estrangeiras, designadamente o culto da fertilidade, a inovação dos mortos e o recurso à magia e a bruxaria. Para aqueles que os praticavam, aqueles ritos representavam uma derradeira tentativa<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/as-religioes-rivais-do-deus-unico/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A infidelidade do povo de Israel, que abandona o seu Deus para se voltar para outras divindades, constitui um dos temas centrais do Antigo Testamento. Em alguns casos, esta infidelidade é comparada à atitude de uma jovem esposa que traísse o seu esposo pata entregar-se à prostituição (Jeremias 3, 1-10). No entanto, não obstante as chamadas de atenção dos seus chefes espirituais, a arraia-miúda mantinha-se ligada às tradições herdadas das religiões estrangeiras, designadamente o culto da fertilidade, a inovação dos mortos e o recurso à magia e a bruxaria. Para aqueles que os praticavam, aqueles ritos representavam uma derradeira tentativa em ordem a premunir-se contra as vicissitudes da vida quotidiana, as chuvas torrenciais ou a seca, a morte, a doença ou os acidentes inexplicáveis. Assim, a prostituição sagrada, símbolo da fecundidade, inscrevia-se num processo global que procurava restabelecer o equilíbrio das forças da natureza e, em primeiro lugar, assegurarem a fertilidade das colheitas e a multidão do gado. A inovação dos mortos apresentava-se como uma tentativa susceptível de dissipar a dor e o sentimento de frustração que um luto podia deixar na comunidade posta à prova. Quanto à magia e à bruxaria, tinham como objetivo exorcizar os demônios culpados de todos os males. Face a estas crenças populares, os profetas não se cansavam de repetir que a prosperidade material de Israel dependia essencialmente da sua vontade de conformar-se com os preceitos divinos e com os princípios de justiça social que recomendavam o respeito dos direitos do fraco e do oprimido.</p>
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		<title>As colinas de Jerusalém</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 12:55:47 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Geografia física</strong></p>
<p>Já tivemos ocasião de precisar que a região de Jerusalém forma uma espécie de baixa (depressão) entre a montanha de Hebron, a sul, e a de Betel, a norte: os seus cumes dominam-na de fato, a mais de 200 metros. Na sua parte setentrional, esta depressão ganha à forma de um planalto onde os israelitas instalaram um aeroporto. A maioria dos rios da região corre para oeste, em direção à planície costeira, na qual deságuam depois de terem escavado amplos vales através da Sefela. O mais notável desses vales é o de Aialon. Este sistema hidrográfico teve como conseqüência proporcionar importantes vias de passagem oeste-leste, que desembocam na baixa de Jerusalém. Por outro lado, como esta se encontrava mais ou menos à mesma latitude que o mar Morto, constitui a encruzilhada praticamente obrigatória das grandes estradas de leste, notadamente do vale do Jordão, muito mais facilmente acessível por Jerusalém do que por Hebron.</p>
<p>O estudo dos locais de habitação do 2.° milênio revela importantes implantações humanas entre Jerusalém e Betel, principalmente na franja ocidental dos relevos que impendem sobre os vales. Com efeito, tudo leva a crer que estas colinas eram arborizadas, pelo menos no inicio dos tempos bíblicos. É, em todo o caso, o que parece indicar o nome de certas localidades, tais como Quiriatiarim que etimologicamente significa “cidade dos bosques”. Por outro lado, sabemos que, quando se deu uma batalha contra os filisteus no vale dos Refaim (Gigantes), a sudeste de Jerusalém, Davi lançou o seu ataque do “lado das amoreiras”. Embora o texto não precise a variedade exata dessas árvores, não deixa de confirmar a sua presença. Ficamos igualmente sabendo que, quando perseguiam os filisteus, a norte de Jerusalém, Saul e os seus homens penetraram “numa floresta” (1 Samuel 14, 25). Quanto a Eliseu, que tinha amaldiçoado os patifes insolente por ele encontrados na estrada de Jericó a Betel, viu sair “da floresta dois ursos que despedaçaram quarenta e dois daqueles rapazes” (2 Reis 2, 24).</p>
<p>Nos nossos dias, salvo nos locais onde foi recentemente levado a cabo o reflorestamento, estas colinas estão praticamente despidas de vegetação. Já o estavam no século XI d.C., quando os cruzados cercaram Jerusalém. Runciman escreve a este propósito: “Era ainda necessário encontrar madeira para construir as maquinas de assedio. Como não havia arvores nas elevações desertas à volta de Jerusalém, os cruzados foram obrigados a organizar expedições em ordem a consegui-las. Só depois de Tancredo, Robert d’Artois e os seus homens terem descoberto as florestas da Samaria e de lá terem regressado carregados de troncos e de grossas tábuas [...] só então puderam, finalmente iniciar-se os trabalhos.”</p>
<p>A desarborização da região na época bíblica pode explicar-se, numa certa medida, pela considerável quantidade de lenha necessária aos inúmeros holocaustos oferecidos em Jerusalém e em outros santuários. Quando se considera que Salomão ofereceu 1.000 vitimas em holocaustos em Gabaon (1 Reis 3, 4) – e o texto hebraico dá a entender que tal gesto foi repetido várias vezes &#8211; , seria interessante calcular o numero de árvores que foi necessário abater para assegurar a sua combustão. Se tivermos igualmente em conta o sacrifício ritual que, durante 900 anos, se tinha desenrolado diariamente no templo, não é de surpreender que o potencial florestal da região tenha com isso ficado diminuído.</p>
<p>A cidade de Jerusalém esta situada na borda oriental da aludida baixa. O deserto da Judéia, de clima árido, começa apenas a alguns quilômetros a leste. No plano estratégico, Jerusalém estava longe de poder rivalizar com Láquis ou Meguido e se Davi não tivesse mantido como uma pequena povoação no cruzamento das estradas norte-sul e leste-oeste. Por outro lado, Jerusalém é dominada por colinas a leste; a oeste, na época de Davi, uma colina dominava o esporão rochoso que ele tinha tomado aos jebuseus. Era, talvez, esta aparente insignificância que incitava o salmista (Salmos 68, 16) a interrogar as montanhas de Basan:</p>
<p><em>Montanha de Deus, a montanha de Basan!</em></p>
<p><em>Montanha de altos picos, a montanha de Basan!</em></p>
<p><em>Ó montes escarpados, porque invejais a montanha</em></p>
<p><em>Que o Senhor elegeu para a sua morada?</em></p>
<p><em>O Senhor habitara nela eternamente!</em></p>
<p>Antes de abordar o estudo pormenorizado de Jerusalém, que se impõe, poderia ser interessante determo-nos um momento na região de que ela é o centro.</p>
<p><strong>A narrativa bíblica</strong></p>
<p>Convém, antes de mais, precisar que, embora por lá nunca se detivessem em Jerusalém para rezar. As cidades a que o seu nome se mantém ligado são essencialmente Siquém, Betel e Hebron, em que foram sepultados. O Gênesis (14, 18) assinala, entretanto, o encontro entre Abraão e Melquisedeque, rei de Salém. Identificar, como geralmente se faz, esta última cidade como Jerusalém é o único meio de ligar os patriarcas à capital de Davi.</p>
<p>As colinas de Jerusalém são mencionadas pela primeira vez em Josué 9, 3-27, a propósito de uma habilidade a que os homens de Gabaon tinham recorrido para que as cidades fossem poupadas no momento da conquista. Tinham conseguido concluir um tratado de aliança com Josué, fazendo-lhe crer que vinham de muito longe, quando a sua terra se encontrava penas a 30 quilômetros. Quando o logro foi descoberto, os gabaonitas lembraram a Josué que estavam ligados por um acordo. Entretanto, este acordo entre os hebreus e os gabaonitas, que foi firmado após a derrota de Ai, não podia deixar de inquietar o rei de Jerusalém, porque “Gabaon era, de fato, uma grande cidade, uma cidade real, muito maior que Ai, e todos os seus habitantes eram valorosos” (Josué 10, 2). Constitui, portanto, uma coligação para castigar os gabaonitas, coligação em que participam outros soberanos que, como o de Jerusalém, controlava as estradas da Judéia e da Sefela. Mas Josué foi a auxilio de Gabaon e venceu os reis.</p>
<p>Quando se deu a partilha do território entre as tribos, a fronteira setentrional de Judá, que seguia o curso do Naal Kesalon e do Naal Sorec, e englobava Quiriatiarim (Josué 15, 9), contornava Jerusalém pelo sul. Assim. A cidade encontrava-se, de inicio, fora do território de Judá, cujos homens não tinham podido desalojar os jebuseus que a ocupavam (Josué 15, 63). O traçado desta fronteira é confirmado por Josué 18, 11-28, que situa “Jebus, que é Jerusalém”, em território benjaminitas, do mesmo modo que Quiriatiarim, que, no entanto, é anteriormente designada como uma “cidade dos filhos de Judá”. É provável que estas discordâncias apenas reflitam as modificações de fronteira consecutivas às vicissitudes das relações entre Benjamim e Judá.</p>
<p>Foram, finalmente, os homens de Judá que se apoderaram de Jerusalém e a incendiaram (juízes 1, 8), mas os benjaminitas não expulsaram a população local: “Os filhos de Benjamin não expulsaram os jebuseus, que habitavam em Jerusalém, os quais, até hoje, têm habitado com os filhos de Benjamim” (juízes 1, 21). Estes acontecimentos parecem indicar que as duas tribos tinham decidido, por meios diferentes, restringir o controle exercido pelos jebuseus sobre a estrada norte-sul: Judá saqueando Jerusalém sem ocupá-la, Benjamim concluindo um acordo pacifico com os primeiros habitantes.</p>
<p>O capitulo 3 do livro dos Juízes relata as proezas de Aod, o benjaminita canhoto que libertou Israel depois de Eglon,  rei de Moab, ter ocupado a “cidade das palmeiras” (Jericó). Em hebraico, o termo que designa um canhoto subentende igualmente uma deformação congênita, mas no caso de Aod é precisamente essa particularidade que lhe permite dissimular uma espada de que ele se serviu para matar Eglon. Na seqüência deste assassínio, que verossimilmente ocorreu em Jericó, Aod reuniu os israelitas à volta dos vaus do Jordão, onde massacraram todos os moabitas que tentavam atravessar o rio. Juízes 18, 12 alude à cidade de Quiriatiarim, por ocasião do êxodo dos homens de Dan para o Norte do território. O texto precisa que os danitas levantaram as suas tendas em “Quiriatiarim, de Judá”, que fica a oeste da cidade, num lugar que denominaram Maané-Dan.</p>
<p>Os últimos capítulos do livro dos juízes são consagrados a um grave incidente e suas conseqüências que tiveram como teatro a região de Jerusalém. A personagem centra é um levita que vivia na montanha de Efraim. Como a sua concubina tivesse regressado há quatro meses para casa de seu pai, em Belém, ele resolveu ir procurá-la. Tendo a viagem de regresso começado à tarde o levita recusou-se a passar a noite em Jerusalém. Declarou ele: “Não entrarei numa cidade estrangeira que não é dos filhos de Israel. Iremos até Guibeá” (juízes 19, 12). Guibeá, que corresponde, provavelmente, à atual Tel el-Ful, encontrava-se a alguns quilômetros a norte de Jerusalém. O levita e os seus foram albergados durante a noite em asa de um velho, originário de Efraim, tal como ele. A noite, pessoas da cidade – israelitas, entre os quais o levita quisera precisamente albergar-se, preferindo-os aos estrangeiros – apresentaram-se em casa do velho. Parece que estariam animados de intenções homossexuais em relação ao levita. O hospedeiro desembaraçou-se deles entregando-lhes a concubina do seu convidado. Depois de terem abusado dela durante toda a noite, abandonaram-na morta na manhã seguinte. O levita recolheu o corpo da jovem mulher dentro de casa e depois o cortou em doze pedaços, que enviou a todo o território de Israel, a fim de reclamar justiça contra os homens de Guibeá.</p>
<p>Todas as cidades de Israel, à exceção de Jabes de Galaad, enviaram os seus representantes à assembléia que se reuniu em Mispá. Daí se dirigiu a Betel, a fim de consultar Deus. Depois de os israelitas se terem colocado em ordem de batalha, os benjaminitas, que se tinham levantado em massa para defender Guibeá, infligiram-lhes pesadas baixas. No terceiro dia, na seqüência de uma armadilha de guerra, os israelitas atraíram os benjaminitas a uma emboscada e apoderaram-se da cidade, que saquearam. O massacre foi tal que no fim dos combates apenas restaram 600 homens da tribo de benjamim. A fim de que esta tribo não desaparecesse, e também porque os outros israelitas se tinham comprometido a não darem suas filhas aos benjaminitas, foi decidido organizar uma expedição contra Jabes de Galaad, a única cidade que não tinha participado na operação punitiva. Aí, toda a população foi passada a fio de espada, à exceção das jovens que foram dadas como esposas aos sobreviventes de Benjamim. Subseqüentemente, 200 outras jovens foram raptadas com o mesmo objetivo, entre as que dançavam na festa anual de Silo.</p>
<p>Tais processos não podem deixar de surpreender. Embora as manifestações coletivas deste gênero pareçam ter sido relativamente raras no tempo dos juízes, alguns especialistas quiseram ver, nesta reação unânime das tribos, o indicio de uma organização político-militar de caráter anfictiônico. Seja como for, é evidente que nesta ocorrência a violação e a morte de uma mulher indefesa puderam apresentar-se como suficientemente odiosos aos olhos dos israelitas para incitá-los a desencadear uma operação concertada contra os culpados e aqueles que tinham tomado o seu partido.</p>
<p><strong>A época real</strong></p>
<p>Tal como nos últimos capítulos do livro dos juízes, os principais acontecimentos da primeira metade de 1 Samuel desenrolam-se à volta de Jerusalém. A sua personagem principal é Samuel, o último dos juízes e o iniciador da monarquia. Nascido em Silo, onde viveu durante toda a sua infância, Samuel exerceu a maior parte do seu ministério, em território benjaminita. Residia em Ramá (1 Samuel 7, 17) e as suas funções levavam-no com regularidade a Betel, Guilgal e Mispá. Em 1 Samuel 7, 5-14, o poder da sua intervenção espiritual e o raio enviado por Deus permitiram aos israelitas vencer os filisteus. Os anciãos do povo nem por isso deixaram de pedir ao profeta que lhes desse um rei “para nos governar, tal como se faz em todas as outras nações” (1 Samuel 8, 5). Foi em Ramá que eles lhe dirigiram esta petição. Foi também para lá que eles os remeteram, depois de lhes ter censurado por quererem um soberano terrestre. Foi finalmente, em Mispá que ele os reuniu de novo (1 Samuel 10, 17) para fazer aclamar Saul, designado como rei por respeito.</p>
<p>A maneira como Saul entra em cena situa-se num contexto geográfico mal definido. Saul andava à procura das jumentas de seu pai e só mais à frente, em 1 Samuel 10, 26, é que ficamos a saber que ele vinha de Guibeá. Tendo partido das colinas de Efraim, Saul percorreu as terras de Salisa, de Saalim e de Benjamim antes de chegar à de Suf. É provável que estas “terras” não fossem mais do que propriedades pertencentes a famílias efraimitas. Neste caso, se Baal-Salisa (2 Reis 4, 42) corresponde, de fato, a uma localidade que se encontra a leste de Kafr Malik, Saul  teria percorrido uns 20 quilômetros a nordeste de Guibeá, antes de fazer meia-volta em direção a Ramá (1 Samuel 9, 5-10). Com efeito, podemos supor que a terra de Suf e Ramá é uma e a mesma localidade, na medida em que sabemos, por outro lado, que o pai de Samuel era originário de Ramataim-Sofim (1 Samuel 1, 1), localidade cujo nome poderia significar a Ramá da família sufitas. Se esta hipótese é exata, Saul teria então percorrido um trajeto em forma de elipse, cuja chegada se teria encontrado a 4 quilômetros do ponto de partida. A verdade é que em Ramá, Saul, que não tinha ainda encontrado as suas jumentas, não estava à espera de ser recebido de braços abertos pelo profeta Samuel, que ele não conhecia, nem que este o ungisse “chefe” de Isael, segundo as instruções de Deus (1 Samuel 10, 1).</p>
<p>Samuel anunciou então a Saul que os dois homens viriam ao seu encontro, perto do tumulo de Raquel, para preveni-lo de que as suas jumentas tinham sido reencontradas. Esta alusão ao tumulo de Raquel levanta uma questão das mais interessantes. Os visitantes atuais podem contemplar o presumível local dessa sepultura em Belém, na estrada de Jerusalém, pouco após a bifurcação de Beit Jala. Esta localização tradicional funda-se nos textos do Gênesis 35, 19-20 e 48, 7: “Então Raquel morreu e foi enterrada no caminho de Efrata, que é Belém. Jacó levantou um monumento sobre o tumulo; é o monumento do tumulo de Raquel, que ainda hoje subsiste.” E ainda: “Sepultei-a ali, no caminho de Efrata, que é Belém.” Esta identificação de Belém em Efrata encontra-se na célebre passagem de Miquéias 5, 1:</p>
<p><em>Mas tu, Bet-Eafrata,</em></p>
<p><em>Tão pequena entre as</em></p>
<p><em>Famílias de Judá</em></p>
<p><em>É de ti que há de sair</em></p>
<p><em>Aquele que governará em Israel.</em></p>
<p>Esta tradição não deixa, no entanto, de ser contrariada pelo texto de 1 Samuel 10, 2, que situa o tumulo de Raquel em Selsa. Embora nos faltem informações para definir esse lugar com precisão, não é impossível de determinar a região na qual ele se encontrava. Samuel tinha dito a Saul, que fosse ao tumulo de Raquel em Guibeá-Eloim, onde havia uma guarnição filistéia (1 Samuel 10, 5). No caso de esta localidade poder ser identificada com Guibeá de Benjamim, onde também havia um posto militar filisteu (1 Samuel 13, 3), o tumulo de Raquel ter-se-ia encontrado na estrada de Ramá a Gaba. Quando 1 Samuel 10, 10 descreve Saul, a entrar em “Guibeá”, na companhia do grupo de profetas, tratar-se-ia ainda de Gaba. Depois, o texto o relato começado em 1 Samuel 8, 4-22. Vemos aí Samuel convocar os israelitas em Mispá, adverti-los contra os perigos da realeza e depois lançar as sortes que designarão Saul como primeiro rei. Este, depois de ter sido aclamado pelo povo, regressou a Guibeá.</p>
<p>Segundo 1 Samuel 11, Saul regressava dos campos à sua cidade de Guibeá quando mensageiros vieram anunciar-lhe que Jabes de Galaad estava diretamente ameaçada pelos exércitos de Naás, rei de Amon. De imediato, Saul cortou os seus bois em doze pedaços, que enviou através de todo o país, a fim de solicitar o auxilio do conjunto das tribos. É o contrario da situação descrita em Juízes 19, em que a violação e a morte da concubina do levita tinham tido como efeito reunir todos os israelitas contra Benjamim. Desta vez, era em auxilio, de Benjamim que Saul convocava todo o povo. Pôde assim obter uma brilhante vitória, na seqüência da qual foi proclamado rei em Guilgal. É difícil estabelecer uma ligação lógica entre a entronização de Saul em Guilgal, a sua eleição em Mispá e a sua unção em Ramá (para ser “chefe”, e não rei, admitindo que não tenha havido uma diferença entre os dois termos).</p>
<p>A historia do reinado de Saul começa, em 1 Samuel 13, pela evocação de acontecimentos que se verificaram nas colinas de Jerusalém. Desde o inicio, Saul selecionou os 3.000 melhores soldados de Israel, a fim de construir um exército permanente. Um contingente de 2.00 homens permaneceu com ele em Micmas, ao passo que os outros 1.00 eram colocados, sob as ordens de seu filho Jônatas, em Guibeá. Foi a partir daí que o príncipe atacou Gaba, ocupada pelos filisteus. Estes últimos, decididos a reagir (1 Samuel 13, 3-7), estabeleceram o seu acampamento “em Micmas, a oriente de Bet-Aven”, onde juntaram 30.00 carros de guerra e a infantaria de apoio, enquanto Saul recuava para Guilgal, no vale do Jordão. Parece que os filisteus terão, sobretudo, querido fazer uma demonstração de força. Esta teve como efeito a partida de Saul de Micmas, mas a sua nova posição, no vale do Jordão, permitia-lhe, se fosse caso disso, retirar-se para a Transjordânia. Na realidade, é muito pouco provável que os filisteus tenham podido reunir tais efetivos em Micmas: não tinham meios materiais para tal e o ligar não se prestava a uma movimentação tão considerável. Os números apresentados parecem, portanto, muito exagerados. Nem por isso deixa de depreender-se que eles tinham assumido o controle da estrada norte-sul, retirando assim a Saul toda a possibilidade de regresso ofensivo sobre Micmas ou colinas vizinhas. Como conseqüência desta intervenção do exército filisteu, os “israelitas [...] ocultaram-se nas cavernas, nos matos, nos rochedos, nas grutas e nas cisternas. Vários deles atravessaram o Jordão e foram para a terra de Gad e de Galaad” (1 Samuel 13, 6-7).</p>
<p>É neste ponto do relato que o texto lembra que, quando tinha sagrado Saul em Ramá (ver 1 Samuel 10, 8 e 13, 8), Samuel recomendara-lhe que o esperasse durante sete dias em Guilgal. 1 Samuel 13 apresenta-nos, portanto, Saul à espera do profeta, mas como este tardasse a chegar e como, por outro lado, os israelitas começavam a debandar, o novo rei assumiu a incumbência de oferecer o holocausto, o que lhe valeu, seguidamente, violentas censuras da parte do profeta. Parece, de fato, que a relação assim estabelecida entre estes dois acontecimentos tem, sobretudo como objetivo pôr em evidência a desobediência de Saul a apenas sete dias de reinado e, conseqüentemente, o bom fundamento da exprobração de Deus a seu respeito. Caso contrário, o fato de Saul ter decidido apresentar ele próprio o sacrifício poderia perfeitamente justificar-se pelo desejo de unir as suas trompas e de invocar o auxilio divino.</p>
<p>A seqüência da narrativa é obscura, pelo menos no texto hebraico, que relata o regresso de Samuel a Guibeá (Gaba, no texto hebraico), onde Saul parece tê-lo precedido, sem que se saiba em que circunstancia ele se dirigiu para lá. A este respeito, o sentido da frase clarifica-se quando se admite o fato de uma parte desta, conservada no texto grego, ter desaparecido do manuscrito hebraico. Daí resulta que, nas traduções, em 1 Samuel retirou-se, subindo de Guilgal [e prosseguiu o seu aminho. Acompanhando Saul, o resto do povo subiu de Guilgal e foi juntar-se ao exercito] a Guibeá de Benjamim. “E Saul, passando revista à gente que estava com ele, achou que havia cerca de seiscentos homens.” (A passagem entre colchetes representa a lacuna verificada no texto hebraico). Seja como for, parece que, apesar de duas forças reduzidas a 600 homens, Saul terá conseguido regressar a Guibeá. Nem por isso deixava de estar em situação de inferioridade, dado que já não controlava Micmas, de onde os filisteus estavam em condições de efetuar incursões em três direções, em ordem a obter os viveres necessários.</p>
<p>O relato prossegue com a proeza de Jônatas e do seu escudeiro contra a guarnição de Micmas. A despeito do caráter lacônico do texto, parece que os dois homens terão penetrado no vale alcantilado do uádi Suwenit com o objetivo de alcançar o posto filisteu (Micmas encontra-se a 1 quilometro da saída noroeste do desfiladeiro). Embora haja opiniões divergentes no que se refere à localização de Boses e Sene, os dois “altos rochedos denteados” (1 Samuel 14, 4-5), é provável que se encontrassem não longe desta saída do desfiladeiro. Jônatas e o seu escudeiro tinham-se colocado bem em evidencia, decididos a só passar à ação se os filisteus os provocassem. Ora, a partir do momento em que eles se aperceberam, estes os interpelaram troçando deles: “Eis os hebreus eu saem das cavernas onde se tinham escondido!” (1 Samuel 14, 11). Depois os desafiaram a subir até junto deles. Nada prova que os dois homens tenham iniciado imediatamente o combate. O fato de eles terem rastejado pelos rochedos, recorrendo às mãos e os pés, deixa supor que eles contornaram o posto de guarda, a fim de o tomarem de costas no momento em que os inimigos já os não esperassem. O seu ataque fulgurante provocou tal pânico entre estes últimos que as sentinelas de Guibeá se deram contra disso e informaram Saul. Este juntou então as suas forças e lançou um assalto geral contra Micmas, na seqüência do qual perseguiu os filisteus em debandada até o vale de Aialon. No momento de travar batalha, Saul tinha feito jurar a seus homens que não tomariam o mínimo alimento antes de terem obtido a vitoria. Assim, como tivessem entrado num bosque “onde havia mel à superfície do solo”, os soldados abstiveram-se de comer, à exceção de Jônatas, que ignorava por completo o juramento que os outros tinham feito. Daí se seguiu que Deus se recusou a responder ás perguntas postas por Saul, enquanto o “pecado” de Jônatas não fosse denunciado (1 Samuel 14, 24-30 w 36-46). A este respeito, convém precisar que o texto hebraico não permite afirmar com segurança que o episodio do mel se tenha desenrolado numa floresta. O resto da historia de Saul em Guibeá é dominado pelos seus ciúmes mortíferos que o incitaram a tentar matar Davi com a lança (1 Samuel 18, 11). Este se refugiou junto de Samuel em Ramá, para onde Saul enviou vários destacamentos para o capturarem. Perante o reiterado fracasso dos seus guardas, Saul resolveu dirigir-se ele próprio a Ramá, onde se deixou seduzir pela comunidade dos profetas, pondo-se a profetizar juntamente com eles (1 Samuel 19, 18-24). Davi fugiu em seguida para Nob, talves hoje a aldeia de El-Isawiya, a sudeste do monte Scopus. Foi lá que se deu um incidente a que Jesus viria a aludir. Aimelec, o sacerdote local, deu os pães consagrados a Davi e aos seus homens, porque não dispunha de mais nada para alimentá-los (1 Samuel 21, 3-6). O sacerdote tinha-se permitido agir daquele modo porque os fugitivos não podiam resistir mais e, segundo as leis da guerra, não tinham tido relações com as suas mulheres. Seria durante uma controvérsia a propósito da observância do sábado que Jesus viria a invocar o episodio dos Paes consagrados comidos por Davi e pelos seus homens, a fim de fazer compreender aos seus discípulos que as instituições religiosas tinham sido criadas para o homem e não o homem para essas instituições (Marcos 2, 23-28). Quando Saul soube o que Aimelec tinha feito, mandou massacrar todos os sacerdotes de Nov, assim como suas famílias, só Abiatar conseguiu escapar e refugiar-se junto de Davi.</p>
<p>Saul é de novo mencionado, de maneira muito significativa, no fim de 2 Samuel, quando Deus explica a Davi que a fome que por lá grassava há três anos era “por causa de Saul e da sua causa sanguinária, porque matou os gabaonitas” (2 Samuel 21, 1). A narrativa precisa que, no seu zelo religioso, “Saul procurara eliminar” os gabaonitas, que, apesar de não serem israelitas, não deixavam de ser seus aliados desde a época da conquista. No entanto, Saul decidira não respeitar essa aliança. O massacre de que este povo tinha sido então vitima pode ter sido ditado por considerações religiosas ou políticas, que com a intenção de eliminar um enclave não israelita do seio do reino, que com o objetivo de suprimir um aliado potencial dos filisteus. Também não é impossível que Saul tenha querido abalar o poder de Gabaon, que era “uma grande cidade, uma cidade real” (Josué 10, 2), susceptível de tornar-se uma temível rival para a Guibeá, a sua cidade natal. Por outro lado, o texto bíblico (2 Samuel 21, 6 e 9) parece implicar que havia uma “montanha do Senhor” em Gabaon. Enfim, esta apresentava certa relação com Quiriatiarim (Josué 9, 17) onde a Arca da Aliança tinha sido guardada antes de Davi a mandar transferir para Jerusalém (1 Samuel 7, 2). Estes diferentes elementos poderiam dar a entender que estas duas cidades teriam sido os centros de certa forma de culto ao Deus de Israel. Tão-pouco é inconcebível que também, neste caso, Saul tenha agido por pura inveja. A verdade é que Davi decidiu a titulo de reparação, entregar aos gabaonitas sete filhos e netos de Saul, a fim de serem enforcados “diante do Senhor em Gabaon, no monte do Senhor”. É impossível que este “monte do Senhor” seja o impressionante Nabi Samwil, que se ergue a 2 quilômetros a sudoeste de Gabaon.</p>
<p>Gabaon foi teatro de uma batalha entre o exercito de Davi e o de Isboset, filho de Saul, pouco tempo após a morte deste (2 Samuel 2, 12-17). É provável que nesta altura Davi fosse ainda vassalo dos filisteus. Estes lhe permitiam, de fato, conduzir operações de manutenção da ordem nas colinas de Jerusalém contra as forças de Isboset, cuja base operacional se encontrava em Maanaim, no vale do Jordão. Os dois exércitos, comandados, respectivamente, por Joab e Abner, encontravam-se “perto da piscina de Gabaon”, onde uma grande cisterna foi encontrada em 1956-1957. Tal como por ocasião do combate de Davi e de Golias, os dois contendores escolheram campeões, doze de cada lado, que se confrontaram em campo fechado. Depois ambos os exércitos se lançaram um contra o outro. Abner foi vencido, mas, enquanto batia em retirada, matou Asael, irmão de Joab. Este se vingou a seguir apunhalando Abner em Hebron, onde tinha vindo negociar com Davi.</p>
<p><strong>A cidade de Davi</strong></p>
<p>Depois da morte de Abner e de Isboset, Davi foi proclamado rei pelas tribos do Norte (2 Samuel 5, 1-5). Decidiu então transferir a sua capital de Hebron, situada demasiado a sul, para Jerusalém, que se encontrava na fronteira setentrional de Judá. Estava assim em condições de controlar o Norte do seu novo reino, sem ter de perder o contato com a sua própria tribo. Por outro lado, Jerusalém, que controlava as grandes estradas da região, não estava ainda habitada por israelitas, o que evitara que aumentassem os sentimentos de inveja que opunham o Norte ao Sul do país.</p>
<p>Como já assinalamos, a posição estratégica de Jerusalém deixava a desejar sob muitos aspectos. É verdade que o esporão rochoso sobre o qual os jebuseus tinham construído a sua cidade estava protegido em três lados por profundas ravinas. Mas, a norte, estava ligado às colinas que sobre ele pendiam. Por outro lado, a leste e a oeste, o local era dominado por um anfiteatro montanhoso. Os recursos aqüíferos, se bem que abundantes, não era inesgotáveis. Entretanto, os jebuseus tinham fortificado de tal modo a cidade que quando Davi a sitiou julgou poder desafiá-lo nestes termos: “Não entrarás aqui, pois serás repelido por egos e coxos.” (2 Samuel 5, 6). A tática adotada por Davi para apoderar-se da cidade é mal conhecida, em virtude das dificuldades de tradução apresentadas pelo texto de 2 Samuel 5, 8, onde se diz que os israelitas passaram pelo <em>sinnor</em>. O sentido deste termo é obscuro. Para uns, tratar-se-ia de um “canal”, para outros, de um “conduto de água” subterrânea.</p>
<p>Seja como for, Davi estabeleceu-se em Jerusalém, “cercou-a de muralhas, de Milo para dentro (2 Samuel 5, 9). Este “Milo” coloca, igualmente, um problema de tradução. Esta palavra deriva de um verbo hebraico que significa “encher” ou “entulhar”. Neste caso, poderia tratar-se de entulhos destinados a alargar a superfície do promontório rochoso.</p>
<p>Dividem-se as opiniões no que se refere à cronologia exata dos acontecimentos relatados por 2 Samuel 5. O texto parece sugerir que Davi se apoderou primeiro de Jerusalém e depois travou dois combates vitoriosos contra os filisteus. Entretanto, alguns especialistas avançaram que Davi só terá podido apodera-se da cidade após essas duas vitorias. A sua teoria apóia-se no texto de 2 Samuel 5, 17, que precisa que “os filisteus se puseram todos em campanha para ir contra ele. Informado disto, Davi desceu à fortaleza”. Pode, de fato, pôr-se a questão de saber que fortaleza seria essa e donde é que vinha Davi quando para lá desceu. Essa fortaleza bem poderia ser Adulam, onde ele já se tinha refugiado no templo de Saul.</p>
<p>Em contrapartida, os fatos de os filisteus se terem estendido pelo vale dos Refaim (Gigantes) permite supor que eles procuravam bloqueá-lo em Jerusalém, dado que este vale é uma via de passagem da estrada leste-oeste que corre ao longo dos acessos meridionais da cidade. Se, como alguns afirmam, o quartel-general de Davi se encontrasse ainda em Hebron, poderemos interrogar-nos sobre as razões táticas que teriam levado os filisteus a tomar posição a 20 quilômetros desta cidade. Parecia mais lógico adiantar que os filisteus esperavam encontrar Davi em Jerusalém, mas este se entrincheirara, sem eles saberem, a sul, com o objetivo de atacá-los pelas costas. De resto, a ordem que ele recebe de Deus, em 2 Samuel 5, 23-24, é muito explicita a tal respeito: “Não vás ao encontro deles, mas dá volta por detrás e ataca-os do lado das amoreiras. Quando ouvires um rumor de passos, então começaras o combate.” Alguns exegetas sugeriam que os homens de Davi terão podido manobrar de noite e de o rumor nas árvores poderá ter sido o da brisa matinal. Tendo em conta o fato de os israelitas acreditarem que as forças da Natureza faziam parte dos exércitos celestes, podemos também imaginar que aquele “rumor de passos junto às amoreiras” significativo que o braço de Deus ia preceder Davi no combate que se preparava.</p>
<p><strong>A dimensão religiosa de Jerusalém</strong></p>
<p>A partir do momento em que se apoderou de Jerusalém, Davi mandou transportar para lá a Arca da Aliança (2 Samuel 6), que foi colocada num tabernáculo. Mandou igualmente levantar “um altar na eira do jebuseus Arauna” (2 Samuel 24, 18-25). Entretanto, o grande santuário da região continuava a ser Gabaon. Seria lá que Salomão viria a oferecer os seus sacrifícios antes de empreender a construção do templo de Jerusalém, “porque esse era o lugar alto mais importante” (1 Reis 3, 4). Foi lá igualmente que ele teve aquele sonho durante o qual, entre tudo o que Deus lhe propunha, escolheu a sabedoria (1 Reis 3, 5-9).</p>
<p>Só depois da construção do templo é que Jerusalém se tornou verdadeiramente a capital dos israelitas. De futuro, embora outras cidades, como Betes, tenham pretendido para si esse privilegio, Jerusalém viria a ser considerada na Bíblia não apenas como o centro político e religioso da nação, mas também como o símbolo do advento do reino de Deus.</p>
<p>No plano místico, este primado conferido a Jerusalém marca inicio de uma nova etapa, na medida em que o período em que se realizou corresponde à introdução de uma simbologia nova derivada das grandes correntes religiosas que atravessam então o Médio Oriente. A fé encontrou aí novos meios de expressão, nova imagens como podem comprovar com o modo com o salmista evoca a transferência do santuário de Deus do monte Sinai para Jerusalém. Esta transferência apresenta-se como a conclusão de uma serie de vitórias conseguidas por Deus sobre os seus inimigos: “Subis às alturas; capturais prisioneiros, recebeis os homens como tributo, ó Deus; até os rebeldes habitam na Vossa morada, Senhor!” (Salmos 68, 19). Segundo Efésios 4, 8, este versículo prefigura a Ascensão de Cristo. A presença de Deus em Jerusalém tinha-se tornado tal certeza que o Salmo 46, 4, não hesita em proclamar: “O Senhor dos exércitos está conosco, fortaleza para nós o Deus de Jacó!” E quando, no versículo seguinte, este mesmo salmo evoca “um rio cujos canais alegram a cidade de Deus”, alude, sem duvida, às duas fontes de Jerusalém, Gion e Em-Rogel, apresentadas como ressurgências do rio do paraíso, que, no Oriente antigo, se supunha correr sob as montanhas sagradas. Um simbolismo análogo encontra-se na visão de Ezequiel, em que um rio surgido do templo restaurado vem irrigar i deserto da Judéia e as proximidades do mais Morto (Ezequiel 47, 1-12). Quando os profetas anunciam o advento do reino de Deus, vêem-no sob o aspecto de uma Jerusalém idealizada:</p>
<p><em>Acontecerá no fim dos tempos:</em></p>
<p><em>O monte da casa do Senhor</em></p>
<p><em>Será estabelecido nó cimo dos montes,</em></p>
<p><em>Esse elevará sobre as colinas.</em></p>
<p><em>Os povos concorrerão a ele.</em></p>
<p><em>E numerosas nações ali afluirão, dizendo:</em></p>
<p><em>“Vinde, subamos ao monte do Senhor,</em></p>
<p><em>À casa do Deus de Jacó&#8230;</em></p>
<p>(Miquéias 4, 1-12; ver Isaías 2, 2-3.)</p>
<p>Paralelamente, desenvolveu-se uma concepção quase mística do papel do monarca, que fazia deste o ungido de Deus, colocado à cabeça do seu povo para fazer reinar a paz e a justiça e proteger os pobres e os fracos. É o salmo 2, 7 quem assegura ao rei que acaba de ser sagrado: “Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei.” Quanto ao salmo 110, 4, apresenta o soberano como o herdeiro dos direitos e dos privilégios dos sumos-sacerdotes de Jerusalém: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.</p>
<p>O Novo Testamento quis ver uma prefiguração de Cristo nestas duas passagens relativas à dignidade real: o primeiro, por ocasião do batismo de Jesus (Marcos 1, 11), e o segundo (Epistola aos hebreus 5, 6), no quadro da definição do caráter sacerdotal da sua missão.</p>
<p>Nada permite afirmar que esta concepção idealiza da Cidade Santa e do papel do rei já existia no tempo de Davi e de Salomão. Falaremos de novo disso quando abordamos a descrição do templo. A verdade é que, quando se medem as suas conseqüências espirituais, a transferência da capital de Hebron para Jerusalém apresenta-se como um dos acontecimentos mais significativos da Bíblia.</p>
<p>A derrota dos filisteus e a tomada de Jerusalém, longe de assegurarem à paz a prosperidade ao país, foram seguidas de um período de guerras, a mais cruel das quais foi, sem dúvida, a rebelião de Absalão. Foi em Hebron que este filho de Davi levantou o estandarte da revolta (2 Samuel 15). Apesar dos meios defensivos de que Jerusalém dispunha, o rei preferiu pôr-se em fuga quando soube a noticia: “Fujamos depressa, porque, de outro modo, não podemos escapar a Absalão! Apressemo-nos a sair, não suceda que ele nos surpreenda, se lance sobre nós e passe a cidade a fio de espada” (2 Samuel 15, 14). É provável que Davi temesse não poder agüentar um longo assédio contra todo um povo revoltado. Por outro lado, ao retirar-se assim de Jerusalém, Davi podia muito rapidamente retirar-se para o vale do Jordão antes de Absalão, que partira de Hebron, estar em condições de cortar-lhe a retirada. Esta facilidade de acesso para leste pode também explicar a decisão inicial de Davi de transferir a sua capital de Hebron para Jerusalém.</p>
<p>Davi deixou, pois, Jerusalém seguindo o vale do Cedron. Depois, “subiu, chorando, o monte das Oliveiras, com a cabeça coberta e os pés nus” (2 Samuel 15, 30). É interessante notar que o cume do monte das Oliveiras é apresentado como “o lugar onde se adora Deus” (2 Samuel 15, 32). A este respeito, o texto bíblico precisa que quando Josias reformou o culto (c. 622 a.C.), “profanou [...] os lugares altos situados em frente de Jerusalém” (2 Reis 23, 13). Esta medida permite supor que se celebravam então duas formas de culto, uma oficial e nacional, no templo de Jerusalém, e outra, mais simples e destinada às pessoas comuns, no monte das Oliveiras. Era lá que se encontrava a aldeia de Baurin, onde Davi sofreu os ultrajes de Semei, um membro do Clã de Saul (2 Samuel 16, 5). Foi também lá que Jônatas e Aimaás se dissimularam para observar os movimentos de Absalão e recolher informações que uma criada vinha comunicar-lhes em Em-Rogel (2 Samuel 17, 17-20).</p>
<p>A revolta fracassou e Absalão foi morto. Mas Davi teve de enfrentar outro levantamento, o de Seba e das tribos do Norte, que chegou ao fim na cidade setentrional de Abel-Bet-Maacá. Gabaon foi igualmente chamada a desempenhar um papel nesta questão. Davi retirara o comando das topas a Joab, a quem censurava o ter matado Absalão, para confiá-lo a Amasa, a quem perdoara a sua participação na rebelião de seu filho. Quando estalou a revolta de Seba, Davi ordenou-lhe que tivesse as tropas prontas num prazo de três dias (2 Samuel 20, 4). Por razões que permanecem obscuras, Amasa não se apresentou a tempo. Davi enviou então a sua guarda pessoal, conduzida por Abisai, em perseguição dos rebeldes. Joab e os seus homens, que se tinham também juntado à operação, encontraram-se com Amasa na grande pedra de Gabaon. Se o exercito não estava ainda em pé de guerra, a presença deste nesse lugar dificilmente se explicava. No caso contrario, explicava-se ainda menos. Quanto a Joab, que tinha tantas razões para detestar Amasa por ter ocupado o seu lugar como para pôr em duvida a sua lealdade para com o rei, aproximou-se dele, sob pretexto de abraçá-lo, e apunhalou-o. Depois foi dar o seu forte apoio à guarda real, empenhada no combate com os rebeldes do Norte.</p>
<p>Quando Davi envelheceu, Adonias, um dos dois filhos que lhe restavam, tentou, por sua vez, apossar-se do poder (1 Reis 1). À semelhança de Absalão, seu irmão mais velho, começou por afirmar as suas pretensões ao trono adquirindo um carro de guerra e cavalos, com uma escolta de 50 homens. Num dia convidou os seus partidários para uma cerimônia secreta, na fonte de Em-Rogel. Sacrificou carneiros e bois e em seguida os convidados gritaram: “Viva o rei Adonias” (1 Reis 1, 25). Mas os adeptos de Salomão reagiram de imediato, apoiando por Davi, que fez conduzir o seu segundo filho, montando na sua mula, à fonte de Gion. Aí recebeu a unção real das mãos do sacerdote Sadoc e do profeta Natan. As trombetas começaram a tocar e povo gritou: “Viva o rei Salomão!” (1 Reis 1, 39). A partir do momento em que teve conhecimento disso, Adonias, compreendeu que tinha perdido a partida e refugiou-se junto do altar. Salomão concedeu-lhe o seu perdão, mas nem por isso deixou de mandar matá-lo, depois, por sua falta. As pessoas que ouvem Sadoc, o sacerdote, o grandioso “hino de coroação”, de Handel, sem conhecerem a passagem bíblica que inspirou o seu argumento, ficariam, por certo, muito surpreendidas ao saberem que a sagração de Salomão se deu por perto de uma fonte, durante uma cerimônia improvisada, à pressa, em ordem a contrariar o projeto sedicioso de Adonias.</p>
<p><strong>A partilha do reino</strong></p>
<p>O primeiro templo de Jerusalém foi edificado durante o reinado de Salomão. Quanto ao reino unido, criado por Davi, não sobreviveu a Salomão. Os grandes trabalhos empreendidos por este tinham custado muito caro e o descontentamento popular custado grande. A fim de facilitar a cobrança dos impostos e a organização dos trabalhos públicos, as tribos do norte tinham sido divididas em doze circunscrições administrativas, cuja gestão tinha sido confiada a Jeroboão.  Um dia em que este saia de Jerusalém, encontrou o profeta Aias de Silo, que rasgou o seu manto em doze pedaços e lhe entregou dez, prefigurando assim a cisão do reino (1 Reis 11, 29-39). Pode pôr-se a questão de saber por que é que Jeroboão recebeu apenas dez pedaços do manto, e não onze. De fato, o reino do sul, que permaneceu fiel à casa de Davi, compreendia não apenas a tribo de Judá, mas também a de Benjamim. É isso que explica que, quando Roboão, filho de Salomão, tentou abater as tribos secessionistas do Norte, “reuniu toda a casa de Judá e a tribo de Benjamim” (1 Reis 12, 21). A aliança entre estas duas tribos era normal, se considerarmos a sua situação geográfica. Benjamim estava implantado a norte das colinas de Jerusalém e nenhuma fronteira natural a separava de Judá, que ocupava a parte sul. Em contrapartida, entre o norte destas colinas e a montanha de Betel essa fronteira natural existia de fato; ela correspondia, aproximadamente, ao limite setentrional do conjunto constituído pelos territórios de Judá e de Benjamim.</p>
<p>Logo depois de o cisma entre o reino do norte e o do sul se ter costumado, ambos tiveram de suportar; por volta de 924 a.C., uma invasão egípcia conduzida pelo faraó Sheshonk. A tradição bíblica reteve o acontecimento nestes termos: “No quinto ano do reinado de Roboão, Sesac, rei do Egito, marchou contra Jerusalém e tomaram os tesouros do templo do Senhor, os do palácio real, roubou tudo, até os escudos de ouro que Salomão tinha feito” (1 Reis 14, 25-26). Não é impossível que este texto seja um extrato dos arquivos do templo relativo ao estado dos objetos sacerdotais. Isso explicaria a razão pela qual ele apenas menciona Jerusalém, dando a entender que ela foi tomada pelos egípcios. Ora, a capital de Judá não figura na lista das cidades cuja captura Sheshonk reivindica. Em contrapartida, esta lista permite reconstituir a campanha do faraó que parece ter tido por objetivo principal as cidades fortificadas do Negueb, da planície costeira, da Samaria e dos vales do Jordão e de Jezrael. Nas proximidades de Jerusalém atacou Guezer, Aialon, Quiriatiarim, Bet-Horon, assim como Gabaon, à qual, provavelmente, exigiu um tributo, a menos que Roboão lho tenha vindo oferecer espontaneamente, a fim de incitá-lo a prosseguir as suas operações mais para norte.</p>
<p>Embora a invasão de Sheshonk tenha enfraquecido consideravelmente os dois reinos, estes últimos nem por isso deixaram de continuar a confrontar-se durante várias gerações, notadamente na região de Jerusalém. Foi assim que Abias (911-908), filho de Roboão, conseguiu alargar a sua fronteira setentrional para além de Betel (2 crônicas 13, 19-20). Em contrapartida, Baasa, rei de Israel (906-883), invertendo a situação, ocupou territórios a sul do seu país e “fortificou Ramá, a fim de impedir todas as suas comunicações com Asa, rei de Judá” (1 Reis 15, 17). O controle que exercia sobre a estrada norte-sul era tal que o reino do sul já não dispunha de nenhum meio de acesso em direção ao Norte. Foi em ordem a forçar este bloqueio que Asa (908-867) julgou dever pagar um tributo a Bem-Hadad, rei da Síria a fim de incitá-lo a atacar as cidades setentrionais de Israel. Para fazer face a este novo perigo, Baasa foi obrigado a evacuar os territórios ocupados no sul. Asa pôde então estabilizar a sua fronteira do norte, fortificando Mispá e Gaba, o que permitiu a Judá conservar o território de Benjamim até a sua destruição final.</p>
<p><strong>As invasões de Assur e de Babel</strong></p>
<p>Em 701 a.C., a região de Jerusalém foi invadida por Senaqueribe, ao mesmo tempo em que todo o território de Judá, cujo trono era então ocupado por Ezequias (727-698). Este mundo imprudente tinha conduzido uma política hostil à Assíria, da qual seu pai, Acaz tinha sido vassalo. Por outro lado, os assírios tinham esmagado o reino do Norte em 721. A rebelião de Ezequias, em 701, teve como resultado provocar uma intervenção assíria, desastrosa para Judá, que Isaías 1, 7 descreve assim:</p>
<p><em>A vossa terra esta deserta,</em></p>
<p><em>As vossas cidades incendiadas.</em></p>
<p><em>Os inimigos devastam diante de vós</em></p>
<p><em>O vosso país.</em></p>
<p>Foi durante esta campanha que Senaqueribe se apoderou de Láquis, proeza que foi imortalizada por um baixo-relevo. Isaias interpretou este desastre como um justo castigo de Deus pelos pecados do seu povo. Entretanto, uma parte da nação foi ocupada, pois que Jerusalém permaneceu inviolada, se bem que também ela não estivesse isenta de corrupção. No que se refere a estes acontecimentos, o relato bíblico não se harmoniza com a narrativa assíria e daí resultou toda uma serie de apaixonadas controvérsias entre especialistas, seja como for, o objetivo deste atlas não é determinar a historicidade dos fatos relatados pela bíblia, mas antes ilustrá-los no contexto do relato tal como ele no chegou. É por isso que temos por adquirido que Senaqueribe, depois de ter exigido um pesado tributo, foi obrigado a levantar o cervo de Jerusalém (2 Reis 18, 13-16). Em contrapartida, pode ser interessante determo-nos um instante sobre a maneira como o rei Ezequias organizou a defesa da sua capital.</p>
<p>Os preparativos de Ezequias são descritos em 2 Crônicas 32, 3-5: “Ele resolveu, de acordo com os seus chefes e oficiais, obstruir as águas das nascentes que se encontravam fora da cidade&#8230; Ezequias cheio de energia, reparou a muralha em ruína, levantou as torres, construiu um segundo muro exterior.” Ficamos igualmente sabendo que “foi Ezequias quem fechou a saída superior das águas do Gion, e dirigiu-as para as extremidades, a oeste da cidade de Davi” (2 Crônicas 32, 30). Este sistema adotado por Ezequias, que consistia em assegurar um abastecimento de água, ao mesmo tempo em que o inviabilizava ao inimigo, foi retomado, mais tarde, pelos defensores muçulmanos de Jerusalém, quando ela foi cercada pelos cruzados, em 1099. Runciman escreve: “A partir do momento em que soube que os francos se aproximavam, [Iftikar] tomou a preocupação de obstruir ou de envenenar os poços exteriores à cidade [...]. Os cruzados [...] ao tardaram a ficar à míngua de água&#8230; A única fonte de água potável à disposição dos sitiantes era o reservatório inferior de Siloé, situado sob a muralha sul e diretamente exposto ao tiro dos defensores. Para se abastecerem de água, tinham de percorrer mais de 10 quilômetros.” Foi em 701 a.C. que, no quadro dos trabalhos defensivos, Ezequias decidiu perfurar o canal de Siloé.</p>
<p>Com um comprimento de 535 metros, este canal, que passa sob a cidade, conduz a água da nascente de Gion ao reservatório superior de Siloé. Por razões indeterminadas, a canalização segue um traçado irregular. A perfuração foi efetuada por duas equipas, que partiram de cada uma das extremidades e acabaram por encontrar-se, guiadas pelo ruído das ferramentas, num ponto facilmente reconhecível nas ultimas correções de trajetória que precederam a junção final. Os homens que exploraram o canal, no século XIX, encontraram-no cheio de lodo. Em alguns locais, era preciso rastejar sob um teto, com a altura de 56 centímetros, dentro de uma água com a profundidade de 30 centímetros. Atualmente, o teto nunca desce mais baixo que 152 centímetros e os visitantes podem deslocar-se sem demasiadas dificuldades. Uma das questões que se põem refere-se à localização da muralha na época de Ezequias. Os resultados de algumas escavações deixam supor que o reservatório de Siloé se encontrava então no exterior da cidade, do lado oeste, e que tinham sido tomadas disposições para dissimular o deposito de água. Se fosse o caso, “o outro muro” a que alude 2 Crônicas 32, 5 teria tio por objetivo englobar o reservatório na cidade, o que permitiria, ao mesmo tempo, compreender melhor as razões pelas quais Ezequias mandou perfurar o canal subterrâneo.</p>
<p>Apesar da heróica resistência de Jerusalém, o reino de Judá não conseguiu liberta-se da dominação dos assírios, dos quais Manassés (698-642), filho de Ezequias, se manteve vassalo durante longos anos. Foi apenas sob o reinado de Josias, cuja entronização, em 640, com a idade de oito anos, coincidiu com o inicio do declínio assírio, que Judá recuperou a sua plena independência. A descoberta do “Livro da Lei”, em 621, marcou o inicio de uma reforma religiosa. Todos os lugares de culto exteriores a Jerusalém foram eliminados. Alguns desses “lugares altos” eram, verossimilmente, santuários locais freqüentados por israelitas. Outros datavam do reinado de Salomão, que os tinha consagrado às divindades das suas esposas estrangeiras (2 Reis 23, 13). Também se fizeram desaparecer todos os objetos desses cultos idolátricos. Quanto aos seus sacerdotes foram destituídos.</p>
<p>Foi sob o reinado de Josias que o profeta Jeremias começou o seu ministério. A bíblia apresenta-o como “filho de Helquias, um dos sacerdotes que viviam em Anatot, terra de Benjamim” (Jeremias 1, 1). Anatot, sem dúvida a atual Anata, encontrava-se a 3quilometros a nordeste de Jerusalém. Embora esta aldeia dependesse do reino de Judá desde o cisma, continuava, assim, a ser vista como situada “na terra de Benjamim”. Quanto aos sacerdotes de Anatot, talvez fossem descendentes de Abiatar, aquele sacerdote de Davi que apoiou a causa de Adonias contra Salomão, na altura da luta pela sucessão ao trono. Fora essa tomada de posição política que lhe valera, seguidamente, ser exilado para Anatot (1 reis 2, 26-27). O livro de Jeremias coloca numerosos problemas de interpretação, cujas soluções propostas são com freqüência objeto de controvérsias. Embora nos faltem informações a tal respeito, temos boas razões para pensar que o profeta não reservou um acolhimento caloroso às medidas religiosas tomadas por Josias. Com efeito, eles limitavam-se a reformas puramente formais, sem qualquer incidência sobre a vida espiritual. Também nada sabemos acerca das conseqüências dessas medidas sobre o estatuto e o modo de vida dos sacerdotes de Anatot, tal como ignoramos se na sua qualidade de benjaminita, Jeremias teria alguma razão de queixa relativamente aos soberanos de Judá. Seja como for, ele desempenhou um papel primordial antes e depois da destruição de Jerusalém em 587 a.C.</p>
<p>Em 597, Nabucodonosor, rei da babilônia, apoderou-se de Jerusalém e deportou o rei Joaquim, os dignitários, os oficiais de guerra e os operários qualificados, ou seja, cerca de 10.000 pessoas. Depois colocou no trono Sedecias, tio de Joaquim (2 Reis 24, 17), Hananias, um profeta originário de Gabaon, afirmava que o exílio não duraria mais de dois anos (Jeremias 28, 1-4). Jeremias, por seu turno, estava convencido do contrario e escrevia aos deportados: “Edificai casas e habitai-as; plantai pomares e comei os seus frutos. Tomai mulher, gerai filhos e filhas, daí mulheres aos vossos filhos, daí maridos a vossas filhas para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos em vez de diminuir” (Jeremias 29, 5-6).</p>
<p>Em 588, Sedecias revoltou-se e Nabucodonosor veio sitiar Jerusalém. Jeremias anunciou que a cidade ia cair, porque Deus não combatia do seu lado, pelo que a melhor solução era render-se. Acusado de traição e ameaçado de morte, Jeremias foi então preso. Todavia, se ele pensava que Jerusalém seria destruída, acreditava igualmente na renovação de Israel. Assim, depois de ter comprado, em Anatot, o campo de seu primo, procedeu à legalização do ato de aquisição e declarou: “[...] eis o que diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: Ainda se hão de comprar casas e vinhas desta terra” (Jeremias 32, 15).</p>
<p>Após a queda de Jerusalém, em 587, os babilônicos constituíram Godolias governador de Judá. A sua residência era em Mispá (Jeremias 40, 1-6). As opiniões divergem quanto à localização desta povoação. Algumas referencias bíblicas permitem situá-la em Tel Nazba, cerca de 11 quilômetros a norte de Jerusalém. Contudo, várias alusões contidas em Jeremias 40 e 41 permitem supor que havia outra cidade com o mesmo nome. Antes de mais, depois de Jeremias ter sido libertado em Ramá (Jeremias 40, 1), os babilônios disseram-lhe que “regressasse” para junto de Godolias. Como Ramá se encontra a sul de Tel Nazba, compreende-se mal esse “regresso” a uma cidade onde ele ainda não tinha estado. Por outro lado, após o assassínio de Godolias e dos seus partidários, Ismael, fugindo das represálias, decidiu atravessar o Jordão para procurar refugio entre os amonitas (Jeremias 41, 10). Foi então, perante a noticia do crime, que Joanan e os seus homens se lançaram na perseguição de Ismael, que alcançaram perto do grande lago de Gabaon (Jeremias 41, 12). Ora, esta cidade, situada a 5 quilômetros a sudoeste de Tel Nazba, parece bastante afastada da estrada de leste que o fugitivo deveria, logicamente, ter tomado para alcançar o Jordão. Donde essa hipótese plausível de a cidade de Mispá, onde Godolias tinha estabelecido a sua residência, encontrar-se, talvez, situada em Nabi Shemu’el. Tal eventualidade permitiria, pelo menos, compreender melhor certas referencias geográficas de Jeremias 40 e 41.</p>
<p>Durante perto de 50 anos, Jerusalém permaneceu como uma cidade em ruínas. No entanto, continuaram-se, ao que parece oferecer sacrifícios no mesmo local do santuário destruído (Jeremias 41, 4-5). Em 540, um édito de Ciro, rei dos persas, autorizou os judeus a regressar a Jerusalém e a reconstruir o templo (Esdras 1, 1-4). A este respeito, alguns críticos emitiram a hipótese segundo a qual os seis primeiros capítulos do livro de Esdras, notadamente as cartas (Esdras 4, 11-16 e 17, 22), teriam sido redigidos um século após o regresso do exílio. É precisamente esse regresso, sob a direção de Sassabaçar, que é descrito nesta parte do livro, que relata, por outro lado, os inícios dos trabalhos de reconstrução do templo e das muralhas, a interrupção momentânea desses trabalhos, como conseqüência da oposição dos samaritanos, e a sua retomada definitiva quando o decreto de Ciro foi confirmado. A restauração do templo foi concluída por Zorobabel, que celebrou a sua dedicação em 516 (Esdras 6, 15).</p>
<p>Nada sabemos acerca dos acontecimentos que ocorrem em Jerusalém entre esta data e a chegada de Esdras (458) e de Neemias (445). Também a este respeito foram emitidas duvidas no que se refere à época em que os livros atribuídos a estes dois homens foram escritos, assim como à ordem cronológica em que foram compostos. Seja como for, quando Neemias, vindo de Susa, visitou Jerusalém, encontrou a cidade num triste estado: “Saí à noite pela porta do Vale, e dirigi-me à fonte do Dragão e à porta da Estrumeira, e contemplei as muralhas de Jerusalém arruinadas e as suas portas consumidas pelo fogo. Passei, depois, pela porta da fonte e pela piscina do rei, mas não havia ali caminho para passar com a minha montanha. Subi então, à noite, pela torrente e examinei a muralha. Dei a volta, voltarei a entrar pela porta do Vele, e regressei” (Neemias 2, 13-15). Esta descrição, tal como o relato dos trabalhos de reconstrução (Neemias 3), permitem fazer uma idéia geral de Jerusalém do século V a.C. A cidade de Davi ainda era habitada, embora escavações tenham revelado que a muralha oriental passava no cimo da cumeada, e não já na vertente, o que reduzia a sua superfície. Em contrapartida, a norte, a cidade estendia-se em direção às colinas, para além do templo. A reconstrução das muralhas por Neemias, proclamação da Lei por Esdras, assim como a restauração do culto em Jerusalém, iriam constituir as bases de um novo futuro para o povo judeu. A Jerusalém de Esdras e de Neemias era, sob muitos, aspectos, diferente da do Novo Testamento. As primeiras modificações verificaram-se por volta de 17 a.C. À face do mundo antigo tinha sido mudada pelas conquistas de Alexandre Magno (334-323). A partir de 332, o território dos antigos reinos de Israel e de Judá iria ficar submetido a diversos déspotas gregos. Por volta de 175, judeus helenizados mandaram construir um ginásio em Jerusalém. Antioco IV estabeleceu um sumo sacerdote partidário da helenização dos usos e costumes. O cúmulo foi atingido em 167, quando este soberano profanou o Templo, consagrando-o a Zeus. Foi também nesta época que se constituiu uma cidade grega na colina ocidental, situada em frente da cidade de Davi. A fim de assegurar a proteção dessa cidade e dos deuses habitantes, partidários da helenização, foi erigida uma cidade (a Akra), cuja localização permanece hipotética. Durante os 26 anos que se seguiram, os filhos do sacerdote Matariam os Macabeus, travaram um encarniçado combate contra os dirigentes gregos e os judeus helenizados. Retomaram o templo e purificaram-no em 164, mas tiveram de esperar o ano de 141 para tomar e arrasar a cidadela que defendia a cidade grega. Após esta data, os Macabeus constituíram a volta de Jerusalém as Muralhas que lhe deram um aspecto próximo do que ela iria ter no inicio da era cristã.</p>
<p><strong>O Templo de Herodes</strong></p>
<p>Foi Herodes, o Grande, que deu a Jerusalém o aspecto que Jesus lhe conheceu. Foi ele que reconstruiu o Templo, alargando a sua esplanada para as dimensões que conservou até os nossos dias. Quando Jesus declarou que podia reedificar o Templo em três dias, recebeu uma resposta que continha uma referencia a esses trabalhos de Herodes: “Foram precisos quarenta e seis anos para edificar este santuário e Tu reedificá-lo-ás em três dias?” (João 2, 20).  Herodes mandou igualmente construir um palácio real na falda oeste da colina ocidental que dominava a cidade de Davi, assim como uma fortaleza a que chamou “Antônia”, em honra de Marco Antonio. Melhorou consideravelmente o sistema de condução de água, permitindo assim à cidade acolher uma população, potencial de 70.000 habitantes.</p>
<p>O templo é mencionado pela primeira vez, no Evangelho de Lucas, por ocasião da visita de Zacarias. O edifício era constituído por um conjunto de esplanadas e de recintos fechados. De um pátio exterior tinha-se acesso através de degraus e três portas a um pátio interior, o vestíbulo das mulheres, donde uma nova serie de degraus e a Porta Bela (ou porta Nicanor) permitiam penetrar no vestíbulo de Israel, cuja entrada só era autorizada aos homens em estado de pureza. No eixo da porta Bela encontrava-se o vestíbulo dos sacerdotes com o altar. Para além dele levantavam-se, sob o mesmo teto, o santuário e o Santo dos Santos, separados um do outro por um véu.</p>
<p>O Evangelho de Lucas (1, 5-22) relata as circunstancias em que Zacarias, tendo sido designado por sorteio para queimar o incenso no altar do santuário, teve a visão do anjo Gabriel, que lhe anunciou o próximo nascimento de um filho. Depois foi atacado de mutismo, estado que iria durar até o nascimento da criança. Quando saiu do santuário Zacarias privado de fala, explicou por sinais o que lhe tinha acontecido, à multidão reunida no vestíbulo das Mulheres. O relato prossegue com a viagem de Maria de Nazaré para uma “cidade de Judá”, para visitar Isabel, a esposa de Zacarias. Embora Lucas não dê qualquer precisão sobre essa localidade, ou seja, sobre a cidade natal de João Batista, a tradição situa-a em Ein Kerem, uma pequena aldeia a alguns quilômetros a sudoeste de Jerusalém. É igualmente no templo que Lucas situa a cerimônia da apresentação de Jesus, bem como o encontro que ele teve, aos doze anos, com os doutores da Lei (Lucas 2, 22-52). Essa apresentação a Deus do filho mais velho era uma obrigação ritual (Êxodo 13, 2). Era precedida, para a mãe, de um período de purificação, imposta pela Lei depois de cada nascimento, que devia ser acompanhado de sacrifícios (Levítico 12, 2-8). Na altura da apresentação, José e Maria trouxeram a oferta prescrita para os pobres, que tinham adquirido no vestíbulo exterior (a oblação normal era um cordeiro de um ano e uma orla ou um pombo). É provável que o encontro de Jesus com os doutores da Lei tenha também tido lugar neste vestíbulo exterior.</p>
<p>A narrativa evangélica alude de novo ao templo na altura da tentação de Jesus, quando o diabo o conduziu a Jerusalém, o colocou no pináculo do santuário e lhe disse: “Se tu és o filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a Teu respeito ordens aos anjos; eles suster-Te-ão em suas mãos para que os Teus pés não se firam nalguma pedra” (Mateus 4, 6; Lucas 4, 10-11). O ponto mais elevado do Templo era o edifício do santuário e do Santo dos Santos. Quanto ao “pináculo”, tratava-se provavelmente, do frontão que sobrepujava a fachada. Após a destruição do Templo, em 70 a.C., o ponto mais elevado do que restava da esplanada era o ângulo sudeste, que a tradição acabou por considerar como o “pináculo” do Templo.</p>
<p><strong>Jesus em Jerusalém</strong></p>
<p>Salvo os acontecimentos que marcou a última semana da vida de Jesus, os três primeiros Evangelhos não fazem nenhuma alusão à sua presença na região de Jerusalém, ao passo que João, por seu turno, assinala várias estadas. É, notadamente, o caso daquele durante o qual Jesus expulsou os cambistas e os negociantes do Templo (João 2, 13-22). Faltam as informações no que se refere à localização exata dos balcões daqueles comerciantes. A verdade é que o seu negocio era imprescindível ao bom funcionamento do serviço quotidiano. Na sua ausência, os fiéis se veriam obrigados a arranjar, pelos seus próprios meios, os animais destinados às oblações. Quanto aos cambistas, a sua presença justificava-se, na medida em que as oferendas em espécies só podiam ser adquiridas em moeda judaica. É evidente que essas pessoas obtinham algum lucro das suas atividades e que as autoridades religiosas deviam ficar com uma parte dele. Não era, pois, de condenar por isso. O fato de Jesus ter purificado o Templo, expulsando-os, deve ser considerado numa perspectiva essencialmente espiritual. O seu gesto tinha por objetivo proclamar a finalidade do seu ministério, anunciando ao mesmo tempo a instituição de relações diferentes entre Deus e os homens. Porque, não apenas o seu advento teria por efeito tornar inúteis esses sacrifícios rituais, mas ai igualmente criar uma ordem nova. O Evangelho de João nada diz do local onde Jesus ficava, nem quando se deu o incidente do templo, nem por ocasião da visita noturna de Nicodentos (João 3). Durante as suas outras estadas em Jerusalém, sabemos que ficava em Betânia.</p>
<p>O Evangelho de João menciona igualmente esta visita a Jerusalém, durante a qual Jesus curou um paralítico na piscina de Bethesda. O nome desta piscina varia com os diversos manuscritos: Bezetha em uns, torna-se Betsaida ou Bethesda em outros. Um dos rolos encontrados em Qumran, consagrado aos “tesouros escondidos”, fala de um local cujo nome alguns autores transcreveram sob a forma de <em>Beth-esh-daitan</em>, “lugar (casa) dos dois derramamentos”, o que corresponderia bastante bem a Bethesda. Entretanto, o texto é difícil de decifrar, e parece, em definitivo, que seria melhor ler <em>Beth-esh-daitan, </em>ou seja, “casa dos dois tanques”. Poderia, portanto, tratar-se efetivamente da piscina do milagre, o que deixa, no entanto, por resolver a questão do nome exato do local.</p>
<p>A suposta localização dessa piscina encontra-se na cerca da Basílica de Santa Ana, perto da Porta de Santo Estevão, onde escavações permitiram trazer à luz dois tanques, em parte escavados na rocha, assim como um santuário que data de cerca de 135 a.C. Alguns pormenores da narrativa evangélica permanecem obscuros e nada prova que um desses tanques corresponda, verdadeiramente, àquele de que falava o paralítico quando dizia: “Senhor [...], não tenho ninguém que me lance na piscina, quando a água começa a agitar-se; e, quando eu vou descer, desce outro antes de mim” (João 5, 5). Não há duvida de que a ação se desenrolou junto de um tanque, mas este poderia muito bem encontrar-se mais a leste numa serie de grutas que, durante o século II, dependiam de um santuário famoso pelas suas virtudes curativas. Entretanto, tal como é apresentado por João, neste milagre é significativo de um elemento novo na mensagem de Jesus. Põe em evidencia a fraqueza do homem, assim como a sua incapacidade para descer para a piscina na altura em que a água se agita. Para consegui-lo, falta-lhe precisamente o que só a cura poderia dar-lhe: a força e a mobilidade. De fato, o incidente simboliza a condição humana: só no instante em que Jesus se debruça sobre o infeliz é que ele reencontra ao mesmo tempo a saúde e a esperança.</p>
<p>Depois de ter escrito Jesus ensinado no Templo, o Evangelho de João relata outro milagre que se deu em Jerusalém. Trata-se da cura do cego de nascença, ao qual Jesus ordena que se dirija à piscina na de Siloé, a fim de lá lavar os seus olhos sobre os quais eles aplicara a lama (João 9, 6-7). Já sabemos que a água dessa piscina provinha da nascente de Gion através do túnel perfurado no tempo de Ezequias (701 a.C). Na época de Jesus, a piscina estava recoberta por um teto, aberto ao meio e sustentado por dezesseis colunas, cujas, bases mergulhavam na água. É provável que um pequeno muro de pedra dividisse a piscina em dois tanques, o primeiro dos quais, mais elevado, vertia para o segundo. Esta piscina já existia, provavelmente, na altura em que o rei Ezequias mandou perfurar o seu túnel. Situada a sudeste da cidade de Davi, era então alimentada por um canal escavado no flanco da colina que conduzia a água da nascente de Gion. Por razões evidentes, este canal, que podia ser utilizado por um eventual sitiante, foi atulhado por Ezequias em 701. Por outro lado, Lucas 13, 4 alude a uma torre de Siloé que se teria desmoronado, matando dezoito pessoas. Foram, provavelmente, os restos desse edifício, que a data dos Macabeus, que foram encontrados no vale do Cedron.</p>
<p><strong>A estrada de Jerusalém a Jericó</strong></p>
<p>Desde os tempos mais remotos, a estrada de Jerusalém a Jericó constituiu a passagem obrigatória de uma das mais importantes vias de comunicação oeste-leste que liga a planície costeira ao vale do Jordão. Atravessa o anfiteatro montanhoso, que se levanta a leste da cidade, onde, por um estreito desfiladeiro que a erosão escavou na argilosa e no arenito vermelho, desce bruscamente de uma altitude de 720 metros para atingir os 260 metros, 20 quilômetros mais adiante. Foi à colaboração vistosa do seu aspecto que lhe valeu o nome de Ma’ale Adummin (“a subida vermelha”) sob o qual já era designada em Josué 15, 7 e 18, 17. Entre as descrições, mas impressivas que dela foram feitas, convem citar a de H. B. Tristam: “Desde a saída da pobre aldeia de Betânia, que tínhamos deixado à nossa esquerda, a descida tornou-se cada vez, mas rápida, ao longo dos degraus rochosos que, em várias centenas de pés, fazem de estrada [...]. Durante três horas, seguimos a vereda sinuosa que se lança para os vales – se é que se podem designar sob este nome as gargantas das torrentes de inverno que sulcam os flancos dos inúmeros cabeços do deserto da Judéia. “Ao fundo desta descida, a paisagem muda de aspecto: “Afim de evitar ferir os pés no meio dos penedos que enchem o leito das torrentes, contornamos a garganta vertiginosa do uádi Qelt, cujas margens bordadas de juncos e de espirradeiras avistávamos às vezes [...]. Num meandro do caminho, duas milhas antes de chegar à planície, a garganta alarga-se bruscamente, e o viajante, dominado por uma falésia abrupta e recortado, encontra-se à beira de um precipício de 500 pés de profundidade, cuja parede é perfurada por numerosas grutas de anacoretas [...]. Foi da base destas falésias, donde a estrada serpenteia até o fundo do vale, que pudemos contemplar um dos mais belos panoramas da Palestina do Sul. A nossos pés estendia-se uma floresta verdejante, depois uma vasta planície acastanhada, e, por fim, o Jordão, cujo traçado se adivinhava pela longa linha verde que assinalava o seu curso.”</p>
<p>É neste cenário, familiar aos ouvintes de Jesus, que se situa a parábola que começa por estas palavras: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em poder dos salteadores&#8230;” (Lucas 10, 30). Nesse dia, Jesus estava precisamente a subir essa estrada para se dirigir a Betânia, a casa de Marta, Maria e Lázaro. Contudo, provavelmente não terá seguido pela estrada tomada por Tristram porque, para ir para Betânia, tinha de virar à esquerda, um pouco antes do monte das Oliveiras. Nos nossos dias, é possível visitar o “tumulo de Lazaro” em El Azarié. A cova encontra-se numa zona da aldeia que provavelmente já existia na época do Novo Testamento, mas nada prova que tenha sido, de fato, ela que abrigou os despojos do amigo de Jesus.</p>
<p>Os quatro Evangelhos são unânimes em situar em Jerusalém os últimos dias da vida de Jesus. Durante a sua ultima visita, na altura da Páscoa, ficou alojado em Betânia (Marcos 11, 11; João 12, 1). João precisa que ele se dirigiu para lá seis dias antes da celebração da festa, ao passo que os outros evangelistas de que ele fez a sua entrada na cidade, a cavalo num jumento, vindo diretamente de Jericó. Seja como for, não é impossível que, de uma maneira ou de outra, ele tenha passado primeiro por Betânia, quanto mais não fosse para arranjar uma montada em ordem àquela entrada triunfal. Por outro lado, por ocasião da Páscoa, Betânia era considerada como fazendo parte integrante de Jerusalém, a fim de permitir aos peregrinos, vindos para a circunstância, serem lá albergados segundo as prescrições da Lei. João 12, 1-8 situa a cena da unção de Jesus por Maria na casa de Marta e Maria, ao passo que Marcos 14, 3-9 fala de uma mulher desconhecida, que veio encontrar Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso. O primeiro coloca o acontecimento antes da entrada triunfal, ao passo que o segundo o menciona já depois.</p>
<p>No que se refere à própria entrada triunfal, Mateus 21, 1 a faz começar em Betfagé, mas Marcos 11, 1 e Lucas 19, 29, sem darem outros pormenores, aludem igualmente a Betânia. Quanto a João 12, 12, não indica nenhum lugar preciso, embora o contexto pareça implicar uma passagem por Betânia. Betfagé encontrava-se, provavelmente, no cimo do monte das Oliveiras, no local da atual aldeia de El-Taur. O cortejo atravessou-a, sem duvida, antes de descer para o vale do Cedron e de Subir para Jerusalém, penetrando nela pelo lugar da Porta de Santo Estevão. Seja como for, Mateus e João Sublinham o simbolismo do acontecimento ao citar Zacarias 9, 9: “Dizei à filha de Sião: Aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho, filho duma jumenta.</p>
<p><strong>A semana Santa</strong></p>
<p>Os acontecimentos que marcaram os últimos dias da vida de Jesus põem consideráveis problemas de localização. Conhecida em alguns casos, esta permanece puramente hipotética em outros. Assim, sabemos que Jesus ensinou no Templo e depois no monte das Oliveiras, onde anunciou a destruição de Jerusalém e os fins últimos (Marcos 13), antes de se retirar para o horto de Getsêmani, onde foi preso. Ainda que não seja possível determinar com exatidão o local do Templo onde ele falava, nem o do monte das Oliveiras onde ele fez o seu discurso escatológico, nem mesmo o lugar preciso do horto de Getsêmani, pelo menos tem uma idéia do enquadramento em que estes acontecimentos se verificaram. Em contrapartida, estamos reduzidos às conjecturas que se refere à localização exata da sala onde se desenrolou a Ceia, da casa de Caifás, onde se reuniu o sinédrio, da colina da Crucifixão e da gruta da Ressurreição. É verdade que, nos nossos dias, se pode visitar o Cenáculo, naquele que é erradamente denominado o monte Sião e onde a tradição situa a casa onde decorreu a última Ceia. Acontece o mesmo no que se refere à Getsêmani, arbitrariamente colocado no sopé do monte das Oliveiras, à sala do sinédrio, em cujo presumível lugar se ergue a Igreja de São Pedro <em>in Galli Cantu</em>, bem como à tradicional via-sacra, que se desenrola entre o local da torre Antônia e a Igreja do Santo Sepulcro. É evidente que esta via-sacra permite uma reconstituição dos acontecimentos que ocorreram entre a última Ceia e a Ressurreição. É assim que em São Pedro <em>in Galli Cantu </em>se pode admirar uma magnífica cisterna que podia servir de prisão. Vale a pena ser visitada, mesmo que nunca tenha sido calabouço em que Jesus foi encerrado antes, ou depois, do seu comparecimento perante o sinédrio.</p>
<p>A via-sacra tradicional foi estabelecida com base na hipótese segundo a qual Pilatos teria residido na Fortaleza Antônia, no ângulo noroeste do pavimento exterior do Templo. Ora, os críticos modernos têm tendência para colocar a residência do procurador romano no palácio de Herodes, que se levantava no lugar atual da cidadela, perto da Porta de Jafa. “Nesse caso, e na condição de a Igreja do Santo Sepulcro assinalar, de fato, o lugar da Crucifixão e da Ressurreição, esta via-sacra acusaria um desvio de 90 graus” Nem por isso fica resolvida a Questão de saber se a Igreja do Santo Sepulcro se encontra efetivamente no lugar do suplicio e da sepultura de Jesus. A tradição que identifica o tumulo a volta do qual se edificou esta igreja, com o de Cristo, remonta à sua “descoberta”, em 325, no reinado de Constantino. Parece, de fato, que antes de 135 este local era já considerado como sendo o da Ressurreição. Por outro lado, convem precisar que este lugar era, efetivamente, um lugar de sepultura no tempo de Jesus.</p>
<p>Dois elementos, pelo menos, contribuem para pôr em duvida a autenticidade das bases sobre as quais a tradição se fundamenta. Antes de mais, persiste uma ligeira incerteza quanto ao traçado exato do segundo muro setentrional da cidade, embora seja geralmente admitido que ele passava a sul da atual implantação da Igreja do Santo Sepulcro, o que teria como resultado deixar o lugar tradicional da crucifixão no <em>exterior </em>da muralha. Por outro lado, faltam-nos informações no que se refere a distancia real que separava o local do suplicio do da sepultura. João 19, 41 precisa, de fato, que “no lugar em que Ele tinha sido crucificado, havia um horto e, no horto, um tumulo novo, no qual ninguém fora ainda depositado”. Os outros evangelistas, porem, nada dizem a este respeito. Ora, na Igreja do Santo Sepulcro, o Calvário situa-se apenas a 38 metros do tumulo. Podemos, pois, perguntar-se, admitindo que o relato de João não tenha incorrido em erro, se será plausível que um horto, tratado por um hortelão (João 20, 15), se encontrasse tão perto de um lugar de execuções publicas. Pode-se argumentar, é certo, que Jesus e os dois ladrões poderão ter sido mortos num local diferente. Mas poderá de igual modo perguntar-se porque é que os romanos teriam feito uma exceção no caso de Jesus. Parece, de fato, que a tradição, que localiza a crucifixão no Calvário da Igreja do Santo Sepulcro, se apresenta como muito menos convincente do que a que identifica o tumulo com o da Ressurreição. A questão mantém-se de pé, tanto mais Constantino ignoravam, pouco após 325, o lugar real do calvário. Seja como for, se admite o que o tumulo da Igreja do Santo Sepulcro não esta, provavelmente, muito afastado do local onde Jesus ressuscitou, é difícil mostrarmo-nos tão afirmativos no que se refere à capela do calvário.</p>
<p>Não discutiremos aqui cerca dessa outra hipótese segundo a qual o sepulcro de Cristo teria podido encontrar-se no jardim do Tumulo, situado na estrada de Naplusa. O local merece, no entanto, uma visita, tal como os túmulos da família de Herodes, não longe do Hotel King Davi, e o hipogeu da rainha Helena de Adiabene (o “tumulo dos Reis”), perto da casa da Catedral de são Jorge. Poder-se-á assim fazer uma idéia dessas sepulturas do século I, cujo encerramento era assegurado por uma grossa pedra rolante.</p>
<p>O local onde os discípulos se instalaram em Jerusalém, entre o dia da Crucifixão e o do Pentecostes, foi fixado pela tradição onde está implantada a Igreja da Dormição. Foi lá que Cristo ressuscitado lhes apareceu e que o Espírito Santo desceu sobre eles. A localização de Emaús suscita também ela, um interessante problema. Era para essa cidade que os dois discípulos caminhavam, no domingo de Páscoa, na companhia de Jesus ressuscitado, que eles só reconheceram na altura em que ele partiu o pão (Lucas 24, 13-35), acontecimento a seguir ao qual regressaram de imediato a Jerusalém para dele darem testemunho aos seus amigos.</p>
<p>A partir do século IV, a primeira presumível localização de Emaús foi Nicópolis, que se encontrava no lugar atual da aldeia abandonada de Amwas, a 31 quilômetros de Jerusalém. Parece, entanto, difícil de admitir que depois de terem percorrido todo este caminho uma primeira vez e de terem dito a Jesus: “Fica conosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso” (Lucas 24, 29), os dois homens tenham podido fazer de novo os 31 quilômetros que os separavam de Jerusalém e encontrar lá os outros discípulos ainda reunidos. No tempo das Cruzadas, foram propostas Qubeiba, e depois Abu Gosh: estas localidades estão situadas a 11 quilômetros de Jerusalém, distancia que corresponde aos 60 estádios indicados por Lucas 24, 13. O autor desta obra fez o percurso de Qubeiba a Jerusalém, na companhia dos seus alunos mais resistentes, e, para surpresa geral, precisaram de perto de três horas para chegar ao destino. Entre os outros sítios propostos com hipótese, convém mencionar Moza, na estrada principal que conduz de Jerusalém à planície costeira. Desta cidade, cujo nome hebraico transcrito em grego pôde dar Ammaús, o trajeto a pé é mais fácil, mas representa cerca de 6 quilômetros mais, o que não quadra com as indicações de Lucas 24, 13.</p>
<p>A tradição situa a Ascensão, último acontecimento conhecido da vida de Jesus, no monte das Oliveira. Contudo, Lucas 24, 50 relata que Jesus “Se separou deles” em Betânia. Quanto aos atos dos apóstolos (1, 9-12), sem dar precisões sobre o lugar da Ascensão, assinalaram, a propósito dos discípulos, que”desceram então do monte chamado das Oliveiras, situado perto de Jerusalém, à distancia de uma caminhada de sábado, e foram para Jerusalém”.justapondo estas duas passagens razoavelmente deduzir que Jesus se separou dos seus discípulos em Betânia e que estes regressaram de lá passado pelo monte das Oliveiras.</p>
<p>No livro dos Atos dos Apóstolos, Jerusalém aparece como o berço do cristianismo nascente. Todavia, alguns elementos permanecem vagos ou carecem de maior precisão. Assim, “quando chegou o dia do Pentecostes”, o autor não nos diz onde é que os discípulos “se encontravam todos reunidos” (Atos 2, 1), nem em que local os estrangeiros vindos a Jerusalém nos ouviram falar nas suas próprias línguas, nem em que lugar Pedro pronunciou o seu famoso discurso. Sem que seja provável que as primeiras pregações tenham tido como quadro o Templo (Atos 3, 1-4, 4), a casa do Conselho (Atos 4, 5-22; 6, 9-7, 53) ou a prisão onde alguns discípulos foram encerrados (Atos 4,1-4; 4, 17-20).</p>
<p>A tradição bizantina situou a lapidação de Estêvão a norte da Porta de Damasco, que viria a ser depois, a Porta de Santo Estêvão, junto da qual se construiu uma igreja com o mesmo nome. As perseguições que se seguiram ao martírio de Estêvão dispersaram os primeiros cristãos. Em Atos 9, 36-10, 8, diz-se que Pedro se refugiou em Jafa (Jopé), mas não tardou a regressar a Jerusalém, onde se justificou da sua ação evangélica junto dos gentios (Atos 11). Foi lá que ele foi preso por Herodes Antipas (Atos 12, 1-17). “Foi também lá que o concilio apostólico teve de pronunciar-se sobre as obrigações dos pagãos convertidos para com a Lei: longe de “importunar os pagãos convertidos a Deus”, apenas se lhes pediria que se abstivessem sufocadas e da impudicícia” (Atos 15).</p>
<p>Jerusalém é mencionada uma última vez em Atos 21, 17-23, 35, quando Paulo, regressado da sua terceira viagem missionária, se dirigiu ao Templo com quatro homens, a fim de cumprir um voto. Esta diligencia provocou uma violenta reação dos judeus contra ele, que foi acusado de ter introduzido gregos no Templo (Atos 21, 27-29). O apóstolo foi então salvo de uma morte certa pela intervenção de um tribuno que ficou surpreendido ao saber que ele era cidadão romano. Tudo o que Paulo possa ter dito aos que tinham querido atentar contra a sua vida não obteve qualquer efeito. Tentaram de novo, matá-lo, mas a conjura foi frustrada pelo seu sobrinho. Os romanos decidiram então transferi-lo de noite para Cesaréia.</p>
<p><strong>A Jerusalém do Antigo Testamento</strong></p>
<p>A Jerusalém antiga distingue-se dos outeiros e elevações descritos até agora. A cidade de que Davi se apoderara encontrava-se, de fato, num promontório rochoso ligado a norte a uma colina e dominado a leste e a oeste por colinas mais altas. A partir do reinado de Salomão, Jerusalém iria, pouco a pouco, expandir-se para norte e para oeste. Posição estratégica nas estradas norte-sul e leste-oeste, a sua escolha como centro administrativo do país podia parecer discutível. Gabaon parecia mais indicada para desempenhar essas funções. Nem por isso Davi deixou de optar por estabelecer a sua capital em Jerusalém. Ao obedecer à ordem divina de construir um altar sobre a “eira do Jebuseus Araúna” (2 Samuel 24, 18-25), Davi consagrava o local do futuro Templo e dava inicio ao processo que faria desta colina um lugar sagrado para as três grandes religiões monoteístas.</p>
<p><strong>O templo de Herodes em Jerusalém</strong></p>
<p>Os historiadores têm o habito de referir-se aos períodos do primeiro Templo (c. 955-587 a.C.) e do segundo Templo (515 a.C.- 70 d.C.). Este último monumento, construído por Zorobabel em fins do Século VI a.C., foi consideravelmente modificado e aumentado por Herodes, o Grande, a partir do ano 20 a.C. Originariamente, o templo de Salomão era um santuário real essencialmente consagrado às cerimônias oficiais. O povo humilde, por seu turno, manifestava a sua piedade nos lugares altos locais. Foi à reforma de Josias (622 a.C.) que conferiu ao Templo o seu caráter nacional que iria conservar, após o regresso da Babilônia, quando Jerusalém se tornou o único santuário do conjunto do povo judeu.</p>
<p><strong>Jerusalém, no tempo de Jesus</strong></p>
<p>Á primeira vista, restam poucas coisas da Jerusalém que Jesus conheceu. É verdade que a descoberta de várias seções de um calçamento da época de Herodes fez ressurgir um passado que se julgava perdido. Por outro lado, verificou-se que o traçado de algumas das ruas da cidade velha correspondia ao que elas seguiam na altura do Novo Testamento. Não deixa de ser verdade, no entanto, que a cidade onde nasceu o cristianismo desapareceu, no seu conjunto, sob os escombros e as reconstruções ulteriores. O monte do Templo, atualmente ocupado pela Cúpula do Rochedo, dominava então os bairros do Nordeste. A cidade de Davi estava ainda dentro da cintura de muralhas. O promontório sobre o qual ela se encontrava, bem como a colina que se eleva a oeste, abrigava uma população muito mais densa do que atualmente. Escadarias permitiam a escalada dos flancos. Apesar da sua aparente prosperidade e dos trabalhos de embelezamento que Herodes acabava de concluir, a cidade não estava a durar (Lucas 21, 20-24). Flávio Josefo, que foi testemunha do cerco de Jerusalém por parte de Roma, apenas uma geração mais tarde, deixou um quadro impressionante da destruição a que se entregarem os soldados de Tiro. Tudo foi arrasado, à exceção de três torres de uma parte do muro ocidental.</p>
<p>Entretanto, com algumas indicações apropriadas e um pouco de paciência e de imaginação, o visitante moderno é perfeitamente capaz de reencontrar, sob a realidade atual, as grandes linhas da Jerusalém do século I da nossa era.</p>
<p><strong>O itinerário da Paixão</strong></p>
<p>A localização dos acontecimentos que marcaram a Paixão e a Ressurreição de Jesus constitui um tema de fundamental preocupação para todos os cristãos. A destruição de Jerusalém, em 70, e o estabelecimento no seu local da implantação da colônia romana de Aelia capitolina, em 135, fizeram, de fato, desaparecer a cidade que Jesus tinha conhecido. Com efeito, a partir da conversão de Constantino, no inicio do século IV d.C., foram empreendidas pesquisas em ordem a identificar os diversos lugares mencionados pela narrativa evangélica. A partir dessa época, uma igreja – substituída mais tarde pela do Santo Espírito – iria coroar o presumível local do tumulo da Ressurreição, ponto culminante da Paixão. A localização dos outros sítios ilustrados pelo ultimo ato do ministério de Jesus foi, por vezes, objeto de modificações ao longo dos séculos. Assim, o itinerário tradicional da via-sacra só foi estabelecido no século XIII, com base na hipótese segundo a qual o processo de Jesus se teria desenrolado na Fortaleza Antônia. Quanto às catorze estações da Via Dolorosa, que se escalonam do Convento franciscano da Flagelação à Igreja do Santo Sepulcro, só foi definitivamente fixado em meados do século XIX, ainda que algumas de entre ela já fossem veneradas pelos fiéis desde o século XIII. Entretanto, é cada vez mais verossímil que Pilatos estivesse instalado no palácio de Herodes quando pronunciou a condenação de Jesus. Admitindo que o lugar da Crucifixão se encontrava, de fato, nas proximidades da localização atual da Igreja do Santo Sepulcro, daí resultaria que a verdadeira via-sacra foi mais curta do que a tradição definiu. Por outro lado, se temos boas razões para pensar que os locais do horto de Getsêmani e da sala do Sinédrio foram corretamente identificados, persiste a dúvida no que se refere à localização da sala onde decorreu a última Ceia e da casa de Caifás.</p>
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		<title>A Sefela</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Aug 2011 12:04:03 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Geografia física Em hebraico, a palavra Shephéla significa “terras baixas”. Encontra-se com freqüência no Antigo Testamento. Em Josué 15, 20-63, este termo designa uma região que não é nem o “extremo sul” (negeb em hebraico, versículo 21), nem a “montanha” (harem hebraico, versículo 48). O texto apresenta uma lista de cidades da “Terra Baixa”, às quais juntas cidades habitualmente localizadas na “planície costeira” (versículos 45-47). É difícil definir com precisão os confrontos da Sefela. A Norte é limitada pelo vale de Aialon, uma fenda geológica que vai dar à planície de Lod. Na orla oriental, é rodeada por uma serie<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/a-sefela/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Geografia física</strong></p>
<p>Em hebraico, a palavra <em>Shephéla</em> significa “terras baixas”. Encontra-se com freqüência no Antigo Testamento. Em Josué 15, 20-63, este termo designa uma região que não é nem o “extremo sul” (<em>negeb</em> em hebraico, versículo 21), nem a “montanha” (<em>har</em>em hebraico, versículo 48). O texto apresenta uma lista de cidades da “Terra Baixa”, às quais juntas cidades habitualmente localizadas na “planície costeira” (versículos 45-47).</p>
<p>É difícil definir com precisão os confrontos da Sefela. A Norte é limitada pelo vale de Aialon, uma fenda geológica que vai dar à planície de Lod. Na orla oriental, é rodeada por uma serie de vales orientados de norte para sul até a Tarcumia (Iftá), antes de obliquar para sudoeste. Estes valores, assim como o contraste que eles proporcionam com os contrafortes montanhosos de leste, inspiram brilhantes descrições a G.A. Smith. A sul, o limite é representado pelo Naal Sicma e, a oeste, pela planície costeira. É este último limite que é o mais difícil de determinar, na medida em que esta planície tem muitas vezes tendência a confundir-se com os pequenos vales de Sefela. O conjunto da região constitui uma faixa de cerca de 45 quilômetros de comprimentos por 15 quilômetros de largura.</p>
<p>Na parte ocidental da Sefela, as colinas, com uma altura de 120 metros a 350 metros, são formadas de calcário mole e de greda. Uma serie de pequenos vales, orientados de norte para sul e desembocado no centro da região, separa as colinas de oeste e as de leste. Mais altas, estão últimas estão recobertas por uma camada de calcário duro, com a espessura de 1 metro a 2 metros. De forma mais arredondada que na parte ocidental, são também menos propícias à agricultura.</p>
<p>A freqüência das chuvas diminui à medida que se desce para sul. De 500 milímetros a norte, a média anual passa para 350 milímetros no centro da região, para cair para 250 milímetros na extremidade meridional. Estas variações do regime das chuvas se refletem, obviamente, na distribuição das localidades, muito mais numerosas a norte do que na parte sul.</p>
<p>No 2.° milênio a.C., os locais habitados estavam implantados junto da orla leste de Sefela – Adulam, Queia, Eglon (?) -, assim como ao longo de uma linha que corresponde ao limite entre as partes oriental e ocidental: Best-Semes, Jarmut,Moreset-Gat (?), Maresa, Láquis. A parte oriental parece ter sido muito pouco habitada, exceto nas suas franjas leste e oeste e nos vales que a recortam. Daí podemos razoavelmente deduzir que na época bíblica esta parte da Sefela estava coberta, a leste, de espessas florestas de azinheiras e, a oeste, de lentiscos e alfarrobeiras.</p>
<p>Não temos informações no que se refere à vegetação da Sefela ocidental. A verdade é que os solos destes vales continuam a ser muito rico e a agricultura era então muito próspera.  O Antigo Testamento precisa que Salomão tinha tornado os cedros “tão numeroso como os sicômoros da Sefela” (1 Reis 10, 27). Este Sicômoro era, verossimilmente, uma variedade local da figueira. Em 1 Crônicas 27-28, podemos ler que, no reinado de Davi, Baal-Hanan foi colocado à frente das “oliveiras e dos sicômoros da Sefela”. Não é, portanto, impossível que algumas partes da vertente ocidental tenham sido consagradas à cultura da oliveira, da figueira e da vinha (juízes 14, 5).</p>
<p>Nos tempos bíblicos, as principais estradas seguiam os diferentes vales orientados de leste para oeste e de norte para sul que quadriculam a Sefela. É assim que Láquis se encontrava na encruzilhada de duas estradas, uma orientada de norte para sul, provindo de Bet-Semes, e a outra, de leste para oeste, que corria ao longo do Naal Láquis em direção a Hebron. Foi provavelmente essa ultima estrada que Sansão tomou quando percorreu 70 quilômetros transportando as portas de Gaza até Hebron (juízes 16, 1-3).</p>
<p>A posição estratégica de Láquis, tal como a sua magnífica localização natural, devia fazer dela a segunda cidade de Judá. A sua conquista pelo rei assírio Senaqueribe, em 701 a.C., foi imortalizada por um baixo-relevo que se encontra atualmente no British Museum.</p>
<p><strong>A narrativa bíblica</strong></p>
<p>A Sefela é mencionada pela primeira vez em Josué 10. O rei de Jerusalém, alarmado pela aliança concluída entre a cidade de Gabaon e os israelitas, pediu a ajuda dos reis de Hebron, Jarmut, Láquis e Eglon (Josué 10, 3). É interessante notar a posição estratégica destas cidades. Hebron controlava a estrada do Sul, que ligava Jerusalém ao Negueb. Láquis e Jarinut encontravam-se na que atravessa a Sefela no sentido norte-sul. Quanto a Eglon, se trata, de fato, da Eglon da Judéia, atualmente Tel Eton (?), levantava-se na estrada que corre ao longo dos contrafortes montanhosos do Leste. Não é impossível que a aliança entre estes reis tenha, por outro lado, implicado um acordo mútuo em ordem a impor um direito de pedágio nestas que eles controlavam.</p>
<p>Na batalha que se seguiu, os cinco reis foram vencidos. Foi nesta altura que Josué pediu a Deus que tratasse o pôr do Sol a fim de que ele pudesse obter uma vitória total (10, 12-14). Os inimigos derrotados puseram-se em fuga ao longo do uádi Miquetli (Naal Bet-Horon) e no vale de Aialon. Depois tentaram, verossimilmente, chegar de novo a Láquis pelos vales do Nason, do Meir e do Sorec, passando por Bet-Semes. No caminho apanharam tal chuvarada de granizo entre Bet-Horon e Azeca que aí morreu um maior número de inimigos do que os que tinham perecido sob a espada dos israelitas (Josué 10, 11).</p>
<p>Seguidamente, Josué atacou as cidades cujos reis acabavam de vencer. O seu objetivo era assegurar o controle dos eixos de comunicação. Tendo submetido Libna (Josué 10, 29-30) – provavelmente a atual Hobat Lavnin, que se encontrava a 7 quilômetros a sudeste de Azeca -, apoderou-se de Láquis, que sucumbiu apesar dos reforços vindos de Guezer, situada a mais de 35 quilômetros, a norte (Josué 10, 31-33). Depois marchou sobre Eglon (Josué 10, 34-35). Se esta Localidade corresponde, de fato, à atual Tel Eton, é provável que Josué se tenha dirigido para sudeste, ao longo do Naal Láquis, para apanhar a estrada que se segue os contrafortes montanhosos, antes de atacar a cidade pelo leste. Uma vez assegurado o seu flanco, pôde lançar o seu exército sobre Hebron, a noroeste (Josué 10, 36-37), antes de “voltar-se” (Josué 10, 38) contra Debir (quer seja Tel Beit Mirsim que Horbat Rabud). O texto bíblico relato que Hebron e Debir foram igualmente tomadas por Caleb (Josué 15, 13-17). Pode tratar-se da mesma operação que é evocada em Josué 10, 36-39, ao longo da qual os israelitas beneficiaram do apoio dos calebitas, a menos que seja feita alusão a combates posteriores. Estes acontecimentos são igualmente relatados em Juízes 1, 10-13.</p>
<p>Faz-se de novo menção à Sefela no relato das proezas de Sansão. (O território da tribo de Dan compreendia dezessete cidades algumas das quais situadas ao longo da costa a sul da foz do Naal Jarcon Josué 19, 45). Tratava-se, notadamente, de Bené-Berac (Givat-há-Radar?) e de Gat-Rimon (Tel Gerisa?). As outras se encontravam no amplo vale do Naal Sorec. Foi aí, em Saréia, que nasceu Sansão (Juízes 13, 2).</p>
<p>O primeiro relato que se refere a Sansão adulto tem como quadro Timna (Juízes 14, 1), onde se vê o herói apaixonado por uma filistéia. Esta referência à presença dos filisteus naquela cidade israelita (ver Josué 19, 43) é significativa. Confirma que eles tinham subido de novo pelo vale do Sorec e se tinham instalado em terra. Esta jovem mulher, que Sansão desposara, é a mesma que lhes revelar a chave do enigma sobre o mel e o leão (juízes 14, 5-20). O desentendimento entre Sansão e a família de sua esposa incitou-o a incendiar as searas e os olivais nas imediações de Timna (juízes 15, 1-8).</p>
<p>Foi na seqüência deste incidente que os filisteus subiram até Leí, em Judá (Juízes 15, 9-20). Embora ignoremos tudo a respeito da localização desta povoação, o fato nem por isso é menos revelador do poderio crescente dos filisteus e da pressão que eles exerciam continuamente sobre a tribo de Dan. Os danitas já tinham sido expulsos de uma grande parte do território que lhes tinha sido atribuído por Josué (Josué 19, 40-46). O texto de juízes 18, 2 deixa entender que na época de Sansão Dan já só controlava duas cidades, Saréia e Estaol, antes do seu êxodo para o Norte e da sua instalação em Lais, perto da nascente do Jordão (Juízes 19, 27-29). Quanto à história  de Sansão e Dalila, o texto bíblico contenta-se em assinalar que ela se desenrolou no “vale do Sorec” (Juízes 16, 4).</p>
<p>O lugar do encontro entre Davi e Golias, o gigante filisteus, só pode determinar-se de modo aproximativo. Segundo 1 Samuel 17, 1-3, os inimigos de Israel tinham instalado o seu acampamento em Efes-Da-mim, um local não identificado entre Socó e Azeca. Como estas localidades se encontram, tanto uma como a outra, do mesmo lado do Naal ha-Ela, é provável que ambos os exércitos se tenham entrincheirado nas elevações de um lado e do outro da torrente. Essa posição permitia-lhes estar de atalaia contra todo o ataque imprevisto, ao mesmo tempo em que lhes dava a possibilidade de assistir ao combate que os seus campeões iriam travar no vale. Após a derrota de Golias, os israelitas perseguiram os filisteus, ao longo do Naal há-Ela, até Gat e Acaron (1 Samuel 17, 52).</p>
<p>Encontramos novas alusões às cidades da Sefela por ocasião da fuga de Davi, perseguido pela loucura mortífera de Saul. Segundo 1 Samuel 22, 1, o herói fugitivo reuniu um grupo de 400 marginalizados na “caverna de Adulam”. Adulam uma antiga cidade Cananéia (Josué 12, 15) na estrada que ligava a Sefela às montanhas do centro. Encontra-se junto do Naal ha-Ela, cujo vale se orienta de leste para oeste. Parece que Davi terá escolhido aquele lugar de refugio, não apenas por se encontrar numa encruzilhada, mas também porque as florestas próximas lhe ofereciam um abrigo suplementar em caso de necessidade.</p>
<p>Em 2 Samuel 23, 13-17, tomamos conhecimento de que Davi enviou três guerreiros de Adulam até Belém, ocupada pelos filisteus, para de lá trazerem água: Este texto implica que na altura da fuga de Davi os filisteus tinham estendido o seu domínio até o centro da terra de Judá. Também é verdade que se os homens de Davi tivessem tomado a estrada mais direta para se dirigirem a Belém teria seguido o vale do Naal ha-Ela antes de se meterem por um vale, menor, que os teria levado ao destino. Mas é provável que essa estrada estivesse guardada e que os guerreiros de Davi, que conheciam a região muito melhor que os filisteus, tenham preferido infiltrar-se por caminhos ocultos. Numa outra altura, quando os filisteus pilhavam Queila (1 Samuel 23, 2), Davi acorreu em defesa desta cidade, que se encontrava não longe de Adulam, na estrada que separava a parte oriental da Sefela das montanhas do centro.</p>
<p>Sefela é de novo mencionada nos textos relativos ao reinado de Roboão (928-911 a.C.). Este rei, neto de Davi, fortificou algumas regiões de Judá e, muito particularmente, a Sefela, onde os seus arquitetos militares se interessaram por cidades tais como Socó, Adulam, Gat Maresa, Láquis, Azeca, Saréia e Aialon (2 Crônicas 11, 6-10). Na realidade, ele transformou a estrada norte-sul, que atravessa a Sefela, numa fronteira fortificada. Entretanto, estes trabalhos revelaram-se insuficientes para as tropas egípcias de Sheshonk I (945-924), que invadiram o país em 924 a.C. Embora 1 Reis 14, 25-27 só faça alusão à tomada de Jerusalém, os textos egípcios dão a entender que o faraó lançou os seus exércitos ao longo da estrada norte-sul, a oeste da linha fortificada, e depois desencadeou uma operação em tenaz na direção de Jerusalém, situada a leste. Não parece que Sheshonk em pessoa se tenha dirigido a Jerusalém; contentou-se em cobrar um tributo a Gabaon, antes de ir atacar as cidades fortes de Israel.</p>
<p>No início do século VIII (c. 786 a.C), Bet-Semes, na Sefela, foi teatro de uma dura batalha entre Amasias, rei de Judá, e Joás, rei de Israel (2 Reis 14, 8-14). Vencedor dos edomitas (2 Reis 14, 7) e desejoso de assegurar a supremacia na região, Amasias desafiara Joás. Este lhe respondera por meio de uma parábola que viria a ficar célebre: “O espinho do Líbano mandou dizer ao cedro do Líbano: ‘Dá a tua filha por esposa a meu filho. ’ Mas os animais selvagens do Líbano passaram e pisaram o espinho.” (2 Reis 14, 9.) Amasias não quis compreender e os dois exércitos encontraram-se frente a frente em Bet-Seroes. Pode-se pôr a questão de saber que é que o rei de Israel, cuja capital, Samaria, estava situada a norte de Jerusalém, desceu até Bet-Seroes para enfrentar o rei de Judá. Com efeito, parece que se tratou de um combate de cavalaria e de carros cujos movimentos se tornavam mais fáceis na vasta planície, que se encontrava num nível inferior à cidade. Tudo leva a crer que, depois de tê-las feitos percorrer a estrada do litoral, o rei de Israel reagrupou as suas forças em Bet-Seroes, pondo assim um delicado problema tático ao seu rival. Se Amasias não o atacasse, Joás poderia então flagelar as cidades da estrada de Bet-Seroes a Láquis. Se, pelo contrário, travasse batalha, poderia ser vencido, abrindo assim a Joás o vale do Naal Refaim e a estrada de Jerusalém. Foi o que aconteceu. “Amasias foi batido e Joás apoderou-se de Jerusalém, em cujas muralhas fez uma brecha de 400 côvados” (2 Reis 14, 13).</p>
<p>A defesa de Sefela contra um inimigo vindo de oeste iria construir um grave problema estratégico para vários reis de Judá. Assim, sob o reinado de Acaz (c. 743-727), os filisteus invadiram a Sefela e a apoderaram-se de Bet-Seroes, Aialon, Gulderot, Socó e Timna (2 Crônicas 28, 18). Este desastre foi vingado pelo seu sucessor, Ezequias (c 727-698), que venceu os filisteus e os perseguiu até Gaza (2 Reis 18, 8). Mas este êxito foi de curta duração. O ataque contra os filisteus tinha sido apenas um episódio da rebelião de Ezequias contra a autoridade dos assírios, que dominavam a região desde que Acaz se tinha colocado sob a suserania de Tiglat-Pileser (2 Reis 16, 7-8). Agora tinha de enfrentar a cólera do filho e sucessor de Sargão II, Senaqueribe.</p>
<p>Os assírios efetuaram um movimento de tenaz. Um dos eixos do ataque, dirigido de norte contra Jerusalém, passava ao longo das montanhas do centro (ver Isaias 10, 27b-32). O outro, que se desdobrava na parte ocidental de Judá, tinha Láquis como objetivo. Após a queda desta cidade, os assírios puderam apoderar-se, sucessivamente, de Maresa, Moreset-Gat e Adulam, assim como de outras localidades da região (Miquéias 1, 10-15). A estrada de oeste iria igualmente ser utilizada por Nabucodonosor em 587 a.C., durante a sua segunda campanha contra Jerusalém. Jeremias 34, 7 dá-nos conhecimento de que só Jerusalém, Azeca e Láquis resistiram algum tempo aos assaltos assírios. O fato é confirmado pelas “cartas de Láquis”, notadamente a quarta, que evoca essa resistência: “Esforçamo-nos por captar os sinais de fogo ou de fumo de Láquis [...] porque não podemos ver Azeca.”</p>
<p>Após o regresso do exílio na Babilônia (597-540 a.C.), a Sefela só é mencionada uma única vez no Antigo Testamento, por Neemias (11, 29-30), por ocasião da enumeração das cidades habitadas por gentes de Judá.</p>
<p><strong>Láquis</strong></p>
<p>Láquis era a segunda cidade de Judá, depois de Jerusalém, mas, contrariamente a Hebron, nunca foi a capital. Nem por isso deixava de ocupar uma posição estratégica de eleição, no cruzamento das estradas norte-sul e leste-oeste. Fundada no fim do 3.° milênio antes de Cristo, viria a sucumbir, ao longo dos séculos, aos assaltos de numerosos invasores. Depois de Josué se ter apoderado dela (Josué 10, 30), tornou-se uma poderosa cidade fortificada, cujo cerco e tomada por Senaqueribe, em 701, foram imortalizados por um baixo-relevo assírio que se encontra atualmente no British Museum. Em 587, Láquis caiu nas mãos dos babilônios. De novo habitada por israelitas no regresso do exílio, tornou-se residência do governador persa da região antes de ser abandonada no século II a.C.</p>
<p><strong>A guerra nos tempos bíblicos</strong></p>
<p>A guerra devia constituir uma das calamidades permanentes dos tempos bíblicos. Já tinha sido pelas armas, sob o comando de Josué, que os hebreus tinham tomado posse do seu país. Seguidamente, foram necessárias todas as qualidades de estrategista do rei Davi para pôr fim à opressão devastadora dos filisteus. Por fim, ao longo de toda a sua historia, os reinos de Israel e de Judá viveram sob a ameaça constante dos seus poderosos vizinhos egípcios, assírios e babilônios, ou de outras nações de menor importância, como a Síria. Foi igualmente por meios guerreiros que os israelitas conseguiram, em certos períodos da sua historia, fazer recuar as fronteiras do seu país. Na época do Novo Testamento, os Judeus sofriam a ocupação militar de Roma, cujas legiões esmagaram impiedosamente todas as suas tentativas de revolta, notadamente em 73 e em 135 d.C. A guerra era onipresente no mundo bíblico e foi neste contexto de violência que se desenvolver a noção de povo eleito e de sacerdócio real.</p>
<p><strong>Faça uma viagem  à Terra Santa  ligue:(11) 3257-9211</strong></p>
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		<title>A geografia de Israel nos Tempos Bíblicos</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Aug 2011 11:47:45 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O melhor meio para se representar o país da Bíblia é imaginar seis faixas justapostas orientadas de norte a sul. A primeira dessas faixas é constituída pela planície costeira. Esta começa 20 quilômetros a norte de Aco, onde a sua largura não ultrapassa 5 quilômetros, para atingir gradualmente 13 quilômetros por alturas da baía de Haifa. Aí é cortada pelo monte Carmelo, a sul do qual é retomada, com uma largura de 4 quilômetros, num comprimento de 30 quilômetros. A sul do Naal Tanimim, a planície costeira alarga-se de novo para atingir 20 quilômetros na intersecção do vale do Aialon,<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/a-geografia-de-israel-nos-tempos-biblicos/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O melhor meio para se representar o país da Bíblia é imaginar seis faixas justapostas orientadas de norte a sul. A primeira dessas faixas é constituída pela planície costeira. Esta começa 20 quilômetros a norte de Aco, onde a sua largura não ultrapassa 5 quilômetros, para atingir gradualmente 13 quilômetros por alturas da baía de Haifa. Aí é cortada pelo monte Carmelo, a sul do qual é retomada, com uma largura de 4 quilômetros, num comprimento de 30 quilômetros. A sul do Naal Tanimim, a planície costeira alarga-se de novo para atingir 20 quilômetros na intersecção do vale do Aialon, que constitui uma via de penetração para a zona interior montanhosa. Mais a sul, na orla oriental, confunde-se pouco a pouco com a segunda faixa constituída pela Sefela. A sul de Gaza é com o Negueb que ela acaba por confundir-se.</p>
<p>Na época bíblica, o litoral da baía de Haifa ficava mais para trás relativamente ao que ele é nos nossos dias, rodeado de pântanos nas extremidades norte e sul. A sul do Carmelo, a zona costeira era formada por praias e lagunas, mas podiam lá instalar-se aldeias, notadamente na foz dos rios e dos uádis. A sul de Naal Tanimim, a terra era arborizada com carvalhos de folhas caducas e alfarrobeiras, e habitado na sua parte oriental no sopé das colinas.</p>
<p>A segunda faixa, a Sefela, proporciona uma transição entre a planície costeira e as montanhas do centro. Inclui uma sucessão de outeiros e de vales que ligam a planície à montanha. Outros vales orientados de norte a sul, ao mesmo tempo em que abrem vias de passagem, separam esta região em duas partes, ocidental e oriental.</p>
<p>A terceira faixa é constituída por uma longa aresta montanhosa. A norte, a Alta Galiléia é um maciço compacto, bastante e elevado, com alturas superiores a 1.000 metros e afloramentos complexos na sua vertente oriental. As passagens são raras e as pistas antigas evitaram esta região. Na Baixa Galiléia, o relevo é menos acentuados e numerosos vales, orientados de oeste para leste, ligam a planície costeira ao litoral do mar da Galiléia.</p>
<p>O maciço montanhoso do centro é cortado pelo vale de Jesrael, uma vasta planície triangular com quase 25 quilômetros de largura que, de noroeste para sudeste, une a planície costeira ao vale do Jordão. No sul, e relevo acentua-se progressivamente entrecortado por pequenos vales até os montes da Samaria, que culminam a 900 metros. A sul de Naplusa, um longo vale estreito desce de norte para sul até os montes de Betel, no centro do maciço. Os vales rareiam aqui e a estrada principal inclui numerosos ziguezagues. A aresta central prossegue pela depressão de Jerusalém, constituída a norte por uma estreita peneplanície e de leste para oeste por uma serie de pequenos vales que facilitaram a passagem. A sul de Belém, o relevo acentua-se para atingir um altitude média de 1.000 metros, antes de decrescer gradualmente à aproximação do Negueb.</p>
<p>A quarta faixa consiste numa fenda longa e profunda que constitui, de fato, a extremidade norte da depressão siro-africana. Esta depressão começa no mar da Galiléia, cujo nível se situa a- 200 metros. Quanto a mar Morto, situado mais a sul e com 400 metros de profundidade máxima, o seu nível é de – 400 metros. Excetuando as proximidades imediatas do Jordão, trata-se de uma região desértica ou semidesértica.</p>
<p>A quinta faixa é representada pela zona montanhosa que se levanta a leste da depressão. A nordeste do mar da Galiléia, o relevo atinge 1.100 metros antes de formar um planalto que se estende até Damasco. No sul encontra-se um maciço acidentado semelhante aos montes da Samaria e de Betel, que desemboca em altos planaltos de 800 metros a 900 metros de altitude. Em toda a região, os rios escavaram profundos vales. Na sua orla oriental, esta quinta faixa confunde-se com a sexta, constituída pelo deserto da Síria.</p>
<p>O país bíblico é uma terra de contrastes. Cada uma das “faixas” apresenta características que lhe são próprias e quando se percorrem de oeste para leste surgem impressionantes diferenças de relevo. O Nível da planície costeira quase não ultrapassa o do mar. Depois, a aresta central eleva-se a uma altitude de 1.00 metros, modulada no sul pelos vales da Sefela, antes de se lançar bruscamente na depressão oriental, cujo nível mais baixo se situa a – 400 metros. Finalmente, a montanha surge de novo a uma altitude de 1.100 metros antes de se perder no deserto. Outro traço marcante desta paisagem acidentada é o fato de a planície costeira e a espinha central serem cortadas de oeste para leste, uma pelo monte Carmelo e a outra pelo vale de Jesrael.</p>
<p>As variações de temperaturas são consideráveis. A este respeito, os contrastes mais notáveis manifestam-se na margem ocidental do Jordão, entre os montes da Judéia e o litoral do mar morto. Não é de espantar que, desde sempre, os privilegiados da fortuna tenham optado por passar o inverno nas margens do mar Morto e o verão nas regiões montanhosas do Centro. A leste, no planalto da Transjordânia, o clima muda de novo: os verões são temperados por brisas refrescantes e os invernos são mais rudes do que na Judéia.</p>
<p>As diferenças podem ser muito consideráveis dentro de uma mesma faixa. É, designadamente, esse o caso da Judéia, onde as condições de vida e de circulação se acham, por vezes, consideravelmente afetadas. O contraste mais marcante verifica-se quando, partindo de Jerusalém, nos deslocamos para os montes de Betel e da Samaria. Depois de termos seguido por uma estrada praticamente retilínea, metemo-nos bruscamente numa interminável serie de ziguezagues montanhosos para alcançar, de súbito, uma região em que impressionantes pequenos vales vêm intercalar-se entre os outeiros.</p>
<p><strong>A paisagem Bíblica.</strong></p>
<p>O turismo que visita atualmente Israel e Transjordânia não pode deixar de comprovar a vastidão das transformações ocorridas desde há 60 anos na paisagem de certas regiões do país. Essas transformações são particularmente evidentes ao longo da planície costeira, a sul do mar da Galiléia e em redor de Jerusalém. Mesmo depois de ter deixado essas regiões marcadas pela indústria, pela urbanização e pela agricultura intensiva, será que o visitante atual vê de fato o país tal como ele era nos tempos da Bíblia? Por exemplo, quando sobe os montes de Betel ou os da Judéia, a sul de Belém, ou a montanha da Alta Galiléia, terá realmente sob os seus olhos paisagens “bíblicas”?</p>
<p>Antes de mais, convém precisar que o período bíblico durou cerca de 1.300 anos, desde a conquista de Canaã pelos israelitas até o fim do século I da era cristã. Esse período pode ser mais longo ainda se admitirmos que os patriarcas (Abraão, Isaac e Jacó) viveram a tradição, entre 1750 e 1500 a.C. É verdade que durante todos esses séculos, notadamente na seqüência dos grandes trabalhos empreendidos nos reinados de Davi e Salomão, a paisagem se tinha já modificado um tanto. Nem por isso se deixa de afirmar correntemente que no início dos tempos bíblicos a terra devia assemelhar-se aquilo que atualmente vemos quando contemplamos essas montanhas despidas de vegetação ou essas colinas cobertas de culturas em socalcos ou cheias de arbustos selvagens.</p>
<p>É indiscutível que o país da bíblia já não apresenta nos nossos dias o aspecto que podia ter 4.00 anos antes da era cristã. Nessa época, a espinha montanhosa que se estende ao longo da margem ocidental do Jordão estava coberta de diferentes variedades de azinheiras, ao passo que carvalhos do Tabor (<em>Quercus Ithaburensis</em>) cresciam ao longo da planície costeira e no monte Carmelo. É igualmente indiscutível que foi o desaparecimento dessas árvores que permitiu a erosão crônica dos solos, ainda patente nos nossos dias nas zonas que não foram rearborizadas. A estação das chuvas, que dura, em principio, de outubro a abril, é caracterizada por violentas chuvas. As árvores de folhas persistentes têm como efeito quebrar o impacte da chuva. Quanto às raízes, afrouxam o escoamento da água. Uma vez desaparecidas as árvores, já nada impede que a água arraste consigo a terra das colinas para os vales. No que se refere ao clima propriamente dito, não parece que ele tenha mudado muito desde os tempos bíblicos.</p>
<p>Em contrapartida, não sabemos se as árvores já tinham desaparecido nem em que medida a erosão já tinha começado a sua ação na época bíblica (por volta de 1200 a.C.). A questão merece ser tomada em consideração, mesmo que só possamos responder por hipóteses. Nem por isso ela deixa de revestir uma importância capital quando se trata de determinar as condições da chegada dos israelitas a Canaã, assim como as suas estruturas sociais. Com efeito, é mais fácil a um povo fixar-se numa região em que a erosão abriu vias de acesso ás montanhas afastadas das cidades do que instalar-se numa zona florestal em que a implantação sedentária tem de ser precedida de um trabalho sistemático de desarborização e de arroteamento. Tal tarefa exige um esforço coletivo que implica uma organização social mais complexa que no caso de um tribo que vagueia à procura de pastagens. Numerosos autores contemporâneos aventaram a hipótese de os primeiros israelitas serem pastores nômades que constituíam um grupo social no qual o exercício do poder era partilhado entre os chefes das diferentes famílias. Entretanto, é igualmente verossímil supor que, por escolha ou por necessidade em virtude da natureza do terreno, esses homens se tenham tornado agricultores e se tenham instalado nas regiões arborizadas, onde constituíram uma sociedade na quais indivíduos dispunham do poder de organizar trabalhos coletivos. Atualmente, os problemas relativos à ecologia, os meios de subsistência, a importância da população e o <em>habitat</em> no início da idade do ferro (1200 a.C.) tornaram-se outros tantos temas de pesquisas e de discussões que parecem destinados a entrar, em larga medida, no quadro dos estudos bíblicos durantes os próximos anos. Neste estádio preliminar dos debates, para além dos objetivos principais que são os seus, o presente atlas pretende trazer a sua modesta contribuição, avançando algumas hipóteses no que se refere à extensão das florestas por volta de 1200 a.C.</p>
<p>Na altura da preparação dos mapas destinados a este atlas, passamos em revista todos os principais locais de habitações conhecidos que datam do 2.° milênio antes de cristo. De fato, alguns deles parecem ter sido ocupados desde o início do 3.° milênio. Por outro lado, pode acontecer que esses locais não tenham sido sempre utilizados de modo permanente. Finalmente, verifica-se que o <em>habitat </em>conheceu importantes modificações ao longo deste período.  O essencial, no que se refere à nossa pesquisa, e que esses locais nos permitem determinar os pontos onde era possível instalar-se nessa época, mesmo que por um tempo limitado. Ora verifica-se, apenas com algumas exceções, que esses locais encontravam na orla das zonas montanhosas, em colinas sobrepujando vales ou no sopé das montanhas. Os maciços montanhosos e as vastas regiões acidentadas estavam desabitados, não apenas porque os recursos de água eram insuficientes e o terreno não se prestava à agricultura, mas também – pelo menos é o que supomos – porque eles estavam cobertos de florestas. Trata-se de um ponto a que nos propomos voltar de novo à medida que abordamos cada uma das regiões.</p>
<p>O turismo que visita hoje o país da bíblia não pode deixar de maravilhar-se à medida que vai descobrindo tal variedade de paisagens num quadro tão reduzido. Todavia, terá também de ter em conta o fato de os homens e as mulheres cujos nomes o texto bíblico reteve vivido numa terra em que as regiões arborizadas eram muito mais numerosas do que nos nossos dias. Essas florestas eram o refúgio das feras: leões, leopardos, ursos, para apenas citar os mais temíveis. Constituíam também o domínio do mistério e do medo, o antro das forças do caos e da dúvida que se encarniçavam contra o homem e as suas boas intenções. Embora, pelo menos neste ponto, estejamos reduzidos a hipóteses, o leitor da bíblia poderá medir, fazendo apelo à sua sensibilidade e à sua cultura, até que o ponto a vizinhança destas florestas infestadas de feras pôde influenciar a vida e o simbolismo literário ao longo desta época.</p>
<p><strong>Cartografia da Terra Santa.</strong></p>
<p>De todas as regiões do mundo, a Terra Santa é, sem duvida, aquela da qual se estabeleceu o maior número de mapas. Desde o triunfo do cristianismo em Roma, no início do século IV, até a sua conquista pelo Islã. Na seqüência das cruzadas, entre os séculos X e XII, ela encontrou-se de novo, durante uma centena de anos, sob o controle da cristandade ocidental. A partir do século XIX conheceu um afluxo impressionante de peregrinos e de visitantes vindos da Europa e da América. Nunca, durante este longo período, o interesse apaixonado das comunidades judaicas por esta terra deixaria de manifestar-se. Numerosos são os peregrinos e os viajantes que publicados relatos das suas estadas na Terra Santa e em todos os seus escritos o estudo dos lugares encontra-se em estreita relação com a bíblia. A partir do século XIV, fez-se um esforço no sentido de traçar mapas do país, ou de algumas das suas regiões, notadamente de Jerusalém. Contudo, os primeiros levantamentos realizados segundo métodos científicos datam apenas do século XIX.</p>
<p><strong>A fauna da Bíblia. </strong></p>
<p>Numerosas passagens da Bíblia aludem a animais, cujos costumes são freqüentemente citados como exemplo. É assim que Isaias sublinha a fidelidade do boi e do burro para opô-la a ingratidão de Israel para com o seu Deus: “O boi conhece o seu possuidor, o jumento, o estábulo do seu dono; mas Israel nada conhece, o meu povo nada entende” (Isaías 1, 3). Quanto ao autor dos Provérbios, dá este conselho ao preguiçoso: “Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, observa o seu proceder e torna-te sábio” (Provérbios 6, 6). Os animais domésticos, quer se trate das ovelhas ou das cabras, dos bois ou dos jumentos, ocupavam então um lugar importante na vida quotidiana. Por outro lado, os animais selvagens, tais como os leões, os ursos ou os javalis, constituíam um perigo constantes, a que os pastores estavam muito particularmente expostos quando conduziam os seus rebanhos em pastagem isolada.</p>
<p>É por vezes muito difícil saber com exatidão a que tipo de animal o autor quer referir-se. As traduções nem sempre concordam de uma versão para outra. É assim que um versículo que citamos abaixo (Ezequiel 16, 10) se fala de sapatos de “pele de texugo”, segundo a <em>Authorized Version</em> inglesa. Mas outras propõem o golfinho, a foca, o dugongo para traduzir o hebraico <em>tahahs, </em>que a bíblia de Jerusalém traduz por “couro fino”, solução que aqui seguimos.</p>
<p><strong>A flora da Bíblia</strong></p>
<p>Tal como para os animais, a identificação das espécies vegetais citadas na Bíblia é por vezes bastante difícil. É, designadamente, esse o caso do “fruto proibido” que causou a queda de Adão e Eva. Embora as escrituras não nos dêem qualquer precisão sobre a sua natureza, a tradição sempre identificou com maçã, o que provocou doutas discussões sobre o problema de saber se esse fruto era de fato conhecido em Israel na época bíblica. O mesmo sucede no que se refere ao “lírio dos campos”, que, no fim de contas, poderia não ser a mais do que uma anêmona. A Bíblia menciona mais de uma centena de variedades de plantas, assim como o seu emprego pelos homens. A vinha permitia produzir o vinho e as oliveiras o azeite. As terebintáceas, tais como a <em>Boswellia sacra</em>, forneciam o incenso e diverso perfumes. O balsameiro (<em>Commiphora gileadensis</em>) era utilizado pelas suas virtudes curativas, e a hena (<em>Lawsonia inermis</em>) para a tinturaria.</p>
<p><strong>Faça uma viagem  à Terra Santa  ligue:(11) 3257-9211</strong></p>
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		<title>Vale do Jordão e Mar Morto</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jul 2011 12:51:00 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Geografia física O Jordão retoma o seu curso ligeiramente a oeste da extremidade sul do mar da Galiléia, onde, ao longo dos séculos, a sua zona de saída se deslocou um tanto para norte. Numa distancia de 105 quilômetros em linha reta, o seu leito acompanha o fundo da linha de fratura siro-africana, antes de se perder no Mar Morto. De fato, a extensão real desta seção do rio é de 322 quilômetros, se tiverem em conta os múltiplos meandros que ele desenha no seu vale, cuja largura é de 5 quilômetros a 22 quilômetros. Tendo em conta as variações<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/vale-do-jordao-e-mar-morto/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Geografia física</strong></p>
<p>O Jordão retoma o seu curso ligeiramente a oeste da extremidade sul do mar da Galiléia, onde, ao longo dos séculos, a sua zona de saída se deslocou um tanto para norte. Numa distancia de 105 quilômetros em linha reta, o seu leito acompanha o fundo da linha de fratura siro-africana, antes de se perder no Mar Morto. De fato, a extensão real desta seção do rio é de 322 quilômetros, se tiverem em conta os múltiplos meandros que ele desenha no seu vale, cuja largura é de 5 quilômetros a 22 quilômetros. Tendo em conta as variações próprias das estações do ano e a importância relativa das chuvas, o curso do rio em si mesmo nunca ultrapassa os 31 metros de largura e os 3 metros de profundidade. As palavras do <em>negro spiritual </em>que proclamam que o Jordão é largo e profundo não correspondem, portanto, à realidade.</p>
<p>A 7 quilômetros a sul do mar da Galiléia, a junção do Jordão e do Jarmuk, o seu afluente de nordeste, determina uma zona triangular que, de todas as regiões do vale, foi a que sofreu as transformações mais radicais ao longo das últimas décadas. Uma central hidrelétrica, constituída entre 1927 e 1932, na confluência dos dois cursos de água, levou à implantação de toda uma serie de barragens e reservatórios. No lado ocidental do triangulo foi criado certo numero de explorações agrícolas, notadamente os <em>kibutzim</em> Deganya Alef, em 1909, Deganya Beth, em 1921, conferindo assim a terra e à paisagem o aspecto de um miniparaíso.</p>
<p>O estudo dos principais locais de habitação do 2.° milênio revela que a região já nessa época era favorável à agricultura. Contudo, a sul do triangulo, verifica-se que a implantação humana só era possível na medida em que a água chegava à quantidade suficiente dos vales que rasgavam as vertentes leste e oeste da depressão do Jordão. O mais importante desses vales é o de Bet-San, não apenas em virtude da sua extensão, mas também porque domina o acesso à planície de Jezrael. Nessa época abrigava um numero considerável de locais de habitação. Estes se estendiam igualmente para sul, tornado-se gradualmente mais raros ma margem do Jordão, entre o uádi Mali e o uádi Faria. O mesmo não acontecia na margem leste, onde várias aldeias se tinham estabelecido perto do leito inferior do Nar ez-Zerqua (Jaboq). O vale do uádi Faria constituía uma importante via de passagem leste-oeste, entre a depressão oriental e a montanha da Samaria. Mas como o seu curso se lançava numa garganta rochosa, antes de se perder em Pântanos salobros nas proximidades do Jordão, as implantações humanas eram pouco numerosas.</p>
<p>Convem notar que a sul do uádi Faria os locais de habitação eram raros e espaçados. A média anual das chuvas, que é apenas de 100 milímetros nas imediações do mar Morto, é igualmente muito fraca na parte meridional da montanha da Judéia. Jericó, a mais célebre cidade da região, deve essencialmente a sua existência à presença de uma nascente particularmente importante: os Árabes chamam-lhe “fonte do Sultão” e os judeus “fonte de Eliseu”, em virtude do Milagre operado pelo profeta (2 Reis  2, 19-22). Após a ascensão de Elias (2 Reis 2, 1-12), Eliseu recolhera o manto do seu mestre, batera com ele nas águas do Jordão e atravessara o rio a pé enxuto, dando assim a entender aos outros profetas que doravante era ele o seu chefe. Depois, tendo purificado a fonte de Jericó, lançando-lhes sal, declara: “Isto diz o Senhor: Fiz saudáveis estas águas e elas não mais causarão nem morte, nem esterilidade” (2 Reis 2, 21).</p>
<p>O curso sinuoso do Jordão termina no mar Morto, que a Bíblia denomina igualmente mar do Sal (Gênesis 14, 3). Atualmente, o mar Morto tem 80 quilômetros de comprimento e 17,5 quilômetros de largura. É um mar fechado, cujo nível médio se situa a – 400 metros. Essencialmente alimentado pela água do Jordão e de outros rios menor importância, o seu nível é equilibrado pela considerável saída de água provocada pela evaporação, a uma temperatura que varia entre os 40°C, em julho e agosto, e 20°C, durante os meses de inverno. A conjugação desta evaporação e da natureza geológica da região tem como efeito conferir à água um índice de salinidade de 26%, ao passo que o da maioria dos mares abertos não chega a ultrapassar os 3,5%. Daí resulta que dele está excluída qualquer forma de vida. É mesmo impossível nadar lá. O turista moderno, que, cansado de nadar de costas, se aventura a esboçar algumas braçadas, não apenas sente as maiores dificuldades em mover-se apenas como corre igualmente o risco de introduzir água muito salgada nos seus olhos, com todos os incômodos que isso implica.</p>
<p>Na parte meridional da sua margem oriental, a dois terços do seu comprimento, uma península avança pelo mar Morto adentro. É a Lissan. Coisa curiosa, a profundidade de água, que atinge 400 metros a norte desta língua, não ultrapassa 6 metros a sul. Temos boas razões para pensar que nos tempos bíblicos esta extremidade meridional não estava imersa e que as cidades da planície, notadamente Sodoma, se encontravam na orla desta zona seca.</p>
<p><strong>A narrativa bíblica</strong></p>
<p>Com efeito, os primeiros acontecimentos que o Antigo Testamento situa no vale do Jordão e à volta do mar Morto relacionam-se com essas cidades da planície. Na sua descrição do território dos cananeus, Gênesis 10, 19 menciona quatro dessas cidades: Sodoma, Gomorra, Adma e Ceboim. Quando Abraão o convidou a escolher a sua parte do território, Lot “viu toda a planície do Jordão que era inteiramente regada. Antes de o Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra, estendendo-se até Çoar, a planície era como o jardim do Senhor, com a terra do Egito” (Gênesis 13, 10).</p>
<p>Çoar era a última das cinco cidades da planície. Seduzido pela fertilidade do solo, Lot escolheu então o vale e “ergueu as suas tendas até Sodoma” (Gênesis 13, 12).</p>
<p>Nos nossos dias, a região de Sodoma já não merece, de fato, ser comparada ao “jardim do Senhor” e não é de espantar que os arqueólogos tenham durante muito tempo procurado encontrar as cidades da planície a norte do mar Morto, onde o oásis de Jericó oferece uma imagem mais conforme a este tipo de comparação. Com efeito, o litoral ocidental, a sul de Lissan, é abundantemente irrigado por cursos de água e nascentes. Foi isso que acabou por incitar a maior parte dos especialistas a considerar que esta região podia ser o local dessas cidades da planície. A presença de Lot em Sodoma, e depois a sua captura pelos quatro reis em guerra contra essas cidades, estiveram na origem da expedição organizada por Abraão, operação que iria levá-lo até Dan e depois para além de Damasco, para terminar pela libertação de Lot e pela derrota dos referidos reis (Gênesis 14, 1-16).</p>
<p>O acontecimento mais retumbante ocorrido nesta região foi, sem contestação, a destruição de Sodoma e Gomorra (Gênesis 19). Dois dos três mensageiros que tinham vindo ter com Abraão a Hebron (Gênesis 18) dirigiram-se em seguida a Sodoma, onde foram recebidos por Lot. Os habitantes da cidade, que tinham costumes perversos, exigiram então que ele lhos entregasse, porque desejavam ter relações sexuais com eles. Os dois homens defenderam-se, ferindo os agressores de cegueira. Na manhã seguinte, Lot e os seus puderam fugir antes de Sodoma e Gomorra terem sido destruídas por uma chuva de fogo e de enxofre. Salvaram assim a sua vida, à exceção da mulher de Lot, que foi transformada em estátua de sal porque se voltara para trás.</p>
<p>Diversas hipóteses, fundadas na particular configuração da região, foram propostas para tentar dar uma explicação para a destruição de Sodoma e Gomorra. Avançou-se, notadamente, a hipótese de as duas cidades terem podido ser imersas no momento em que o terreno abateu a sul da península de Lissan. Infelizmente, não somente essas duas cidades não foram engolidas pelas águas como tudo leva a crer que esta zona não estava ainda submersa no tempo das cruzadas. Se quiser absolutamente encontrar uma causa natural para catástrofe, seria, sem duvida, mais prudente tentar procurá-lá em qualquer sismo gigantesco que teria tido como efeito separar Sodoma de Lissan. Se tal foi o caso, e se o acontecimento teve testemunhas oculares, não é impossível que a memória coletiva dele tenha feito a base da historia de Sodoma e Gomorra, mesmo que se tenha verificado antes da época da Abraão e de Lot.</p>
<p>   Seja como for, o destino de Sodoma iria representar, na tradição bíblica, o próprio símbolo do julgamento divino fulminando o pecado. Já no século VIII, Amós evocava nestes termos as desgraças que se tinham abatido sobre Samaria (4, 11):</p>
<p><em>Causei no meio de vós uma confusão</em></p>
<p><em>Semelhante à de Sodoma e Gomorra.</em></p>
<p>É neste mesmo espírito que Isaías denunciava a perversidade de Jerusalém e dos seus dirigentes (1, 10):</p>
<p><em>Ouvi a palavra do Senhor,</em></p>
<p><em>Ó príncipes de Sodoma;</em></p>
<p><em>Escuta a lição do nosso Deus,</em></p>
<p><em>Povo de Gomorra.</em><em> </em></p>
<p>Quanto a Jesus iria igualmente referir-se a Sodoma para condenar a falta de fé do povo de Cafarnaum: “E tu, Cafarnaum, julgas que serás exaltada até ao Céu? Serás precipitada no inferno. Porque, se os milagres que em ti se realizaram tivessem sido feitos em Sodoma, ela ainda hoje subsistiria. Alias, digo-vos Eu, haverá mais tolerância no dia do juízo para os de Sodoma do que para ti” (Mateus 11, 23-24).</p>
<p><strong>Jericó</strong></p>
<p>O oásis luxuriante de Jericó, que o Antigo Testamento chama também “cidade das palmeiras” (juízes 3, 13), encontra-se a 13 quilômetros a nordeste do mar Morto. Tel es-Sultan, o local da Jericó bíblica, foi ocupado durante milhares de anos antes da chegada de Josué e ainda se pode ver uma torre de pedra que data no Neolítico pré-cerâmico, com perto de 7.000 anos. Apesar das escavações, os vestígios da cidade tomada por Josué ainda não foram encontrados. O mesmo sucede no que se refere à Guilgal, a localidade que tinha servido de base de apoio aos exércitos israelitas na altura da conquista de Canaã e onde Josué mandou levantar doze pedras após a travessia do Jordão (Josué 4, 19-24). Com hipótese, localizou-se com freqüência Guilgal em Khirbet el-Mefjer, o que poderia corresponder à descrição de Josué 4, 19, que a coloca a leste de Jericó. A Jericó bíblica e o presumível local de Guilgal encontram-se nas proximidades do uádi Makuk, ponto de partida de uma estrada que liga o vale do Jordão à montanha de Betel, e da cidade de Ai, que os israelitas foram inicialmente incapazes de submeter porque Acã, desobedecendo ás ordens recebidas, conservara uma parte dos despojos tomados em Jericó.</p>
<p>Quando se deu a partilha do território, Jericó dói atribuído a Benjamim (Josué 18, 21). Foi a partir desta “cidade das palmeiras” que os quenitas acompanharam os judeus para se instalarem a sul do deserto de Judá (juízes 1, 16). No tempo dos juízes, Jericó foi tomado por Eglon, rei de Moab (juízes 3, 12-13). Mas este encontrou a morte na seqüência de um estratagema imaginado por Adod, o Benjaminita, que se apresentou como tendo uma mensagem secreta para entregar ao rei. Como era canhoto, dissimulou encostada à sua coxa direita, uma espada que escapou à vigilância dos guardas. Quando se encontrou a sós com Eglon, Adod tirou a arma de sob a veste, atingindo-o mortalmente.</p>
<p>A historia de Davi comporta um incidente que teve Jericó com cenário. O soberano tinha enviado uma delegação para apresentar as suas condolências a Hanun, rei dos amonitas, cujo pai acabava de morrer (2 Samuel 10, 1-5). Mas Hanun tratou os embaixadores de maneira insultuosa, mandando-lhes rapar metade da barba e cortar uma parte das vestes. O texto precisa que Davi foi então juntar-se com os seus emissários em Jericó, que se encontra na estrada de Jerusalém a Amã, capital dos amonitas. Este gesto de benevolência da parte de Davi é significativo da sua lealdade para com os seus homens e do modo como ele sentira o ultraje que lhes tinha sido infligido. Foi também na região de Jericó que se deu a ascensão de Elias. Em 2 Reis 2 vemos como Elias e Eliseu se dirigiram de Guilgal, na montanha, a Betel e depois a Jericó. Aí atravessaram o Jordão a pé enxuto, depois, de Elias ter batido nas suas águas com o manto. Quando chegaram à outra margem, um carro de fogo arrebatou o profeta, ficando apenas em terra as suas vestes.</p>
<p>Depois de ter tomado e destruído Jericó, Josué voltara à cidade ao anátema: “Maldito seja diante do Senhor aquele que tentar reconstruir esta cidade de Jericó! Morra o seu primogênito, quando lhe lançar os primeiros fundamentos, e morra o último de seus filhos, quando lhe puser as portas!” (Josué 6, 26). Parece, entretanto, segundo o texto de Juízes 3 e 2 Samuel 10, que a cidade foi rapidamente reconstruída e ocupada por israelitas.  Contudo, a maldição de Josué não viria a ficar letra morta, portanto, sob o reinado de Acab (c. 873- 852), “Hiel de Betel reconstruiu Jericó. Ao lançar os seus alicerces, morreu-lhes Abiram, seu primogênito, e quando lhe pôs as portas, morreu-lhes Segub, o seu ultimo filho, conforme o Senhor predissera pela boca de Josué, filho de Nun” (1 Reis 16, 34). Tentou-se explicar este episodio dramático evocando uma antiga tradição dos habitantes de Jericó, que consistia em enterrar os seus mortos debaixo das suas causas em enterrar os seus mortos debaixo das suas casas. Todavia, é mais verossímil ver, neste caso, uma ressurgências dos costumes pagãos, revivificados sob o reinado de Acab, que impunham que se sacrificassem crianças quando se deu o lançamento dos alimentos de um edifício. Para além da menção dos “homens de Jericó”, que ajudaram Neemias a levantar de novo os muros e as portas de Jerusalém, a única outra referencia importante a Jericó no Antigo Testamento diz respeito ao assédio da capital por Nabucodonosor, em 587 (2 Reis 25, 4-7): foi na planície de Jericó que o rei Sedecias e a sua escolta, que tinham conseguido escapar da cidade atacada, foram alcançados e capturados pelos babilônios.</p>
<p>A Jericó do Novo Testamento não se encontrava no local de Tel es-Sultan, mas ligeiramente mais a sul, o lugar onde o uádi Qelt desemboca no vale do Jordão. Construída por Herodes, o Grande (em parte sobre as fundações asmonéia), e pelos romanos, a cidade que Jesus conheceu era uma estância de inverno muito freqüentada, em virtude da suavidade do seu clima. Os três primeiros Evangelhos, que apenas relatam uma única visita de Jesus no decurso do seu ministério, mencionam esta passagem em Jericó, tendo partido da Galiléia, desceu o vale do Jordão. Marcos assinala que ele curou o mendigo cego Bartimeu , quando partiu de Jericó (Marcos 10, 46-52), ao passo que Lucas situa o milagre na altura da sua chegada à cidade (Lucas 18, 35-43). Quando a Mateus, a sua versão concorda com a de Marcos, mas faz menção de dois cegos (Mateus 20, 29-34). Em contrapartida, Lucas é o único a contar a tocante história de Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, que era demasiado pequeno para ver Jesus, e, sem duvida, também demasiado impopular para se arriscar a misturar-se na multidão (Lucas 19, 1-10). Teve então a idéia de trepar a um Sicômoro. Foi nesta postura, pelo menos inesperada da parte de um homem da sua condição, que Jesus o avistou e compreendeu o seu desejo sincero de mudar de vida. Para surpresa e indignação dos que assistiam à cena, anunciou então que ficaria alojado em sua casa. Jesus vira com justeza, porquanto Zaqueu prometeu reembolsar no quádruplo os contribuintes, aos quais extorquira dinheiro indevidamente, e dar metade dos seus bens aos pobres. Foi então que Jesus declarou: “Veio hoje à salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois o filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.</p>
<p>É igualmente na região de Jericó que a tradição situa o ministério de João Batista, assim como o batismo e a tentação de Jesus. Os três primeiros Evangelhos não dão nenhuma precisão sobre o local onde João Batista pregava e batizava. Marcos contenta-se em falar do “deserto” e do “Jordão” (Marcos 1, 4-5), ao passo que Mateus indica que esse deserto era o da Judéia (Mateus 3, 1). Quando a João, menciona uma aldeia, “Betânia, além do Jordão” (João 1, 28), cujo local Orígenes não conseguiu encontrar, no inicio do século III. A presença de João batista na região de Jericó não deixa de estar implícito pelo fato de as multidões virem até ele da Judéia e de Jerusalém (Marcos 1-5). Jericó era, de fato, um ponto de passagem obrigatório da estrada que conduzia ao vale do Jordão. Nestas condições, é pouco verossímil que ele tenha escolhido um local situado mais a norte. A tradição fixou em El-Maghtas, a 9 quilômetros a lés-sueste de Jericó, o lugar do batismo de Jesus. No inicio do cristianismo, supunha-se que esse lugar se situa na margem oriental do Jordão. Seguidamente, convencionou-se colocá-lo na margem ocidental, a fim de evitar aos peregrinos o incomodo de terem de atravessar o rio. Foi também neste local que os israelitas penetraram em Canaã sob o comando de Josué e que Elias foi arrebatado para o céu. Este local simbolizava, assim, a ligação mística entre Elias, João Batista (de quem se dizia era Elias, Mateus 11, 14) e o próprio Jesus. Quanto ao Evangelho de João, ele precisa que, antes da ressurreição de Lázaro, Jesus passou algum tempo no lugar onde João tinha primeiramente batizado (João 10, 40).</p>
<p>Ao fazer-se batizar, Jesus escolhera identificar-se com todos os que vinham receber o batismo em sinal de arrependimento. Todavia, tal como ele é apresentado pelos evangelistas, o batismo de Jesus apresenta-se mais como um ato de consagração em ordem ao seu ministério. Após este gesto ritual, que lhe trazia a confirmação intima da benção divina e da sua vocação, o Espírito conduziu-o ao deserto, onde permaneceu 40 dias, tentado por Satanás (Marcos 1, 12-13). A tradição situou o lugar da tentação não longe do batismo, na região árida que rodeia Jericó. É o monte da Tentação, perfeitamente visível de Tel es-Sultan, em cujo nome Jesus viu serem-lhe oferecidos todos os reinos do mundo na condição de aceitar prestar homenagem a Satanás (Mateus 4, 8-10). O nome árabe desta montanha, Deir el Quarantal, deriva daquele que os cruzados lhes tinham dado, monte da Quarentena, evocando os 40 dias da tentação.</p>
<p><strong>O vale do Jordão</strong></p>
<p>Depois de ter deixado Jericó, e quando se sobe o vale do Jordão para norte, chega-se à cidade de Tel Deir Alla, a antiga Sucot, a saída do vale do uádi Zarqa. Esta cidade é mencionada em juízes 8, 4-9 e 13,  16. Tendo vencido os madianitas no vale de Harod, Gedeão perseguiu-os para sul, ao longo do vale do Jordão. Tendo chegado diante de Sucot, pediu aos notáveis da cidade que lhe fornecessem viveres paras os seus homens. Mas a sua petição foi rejeitada nestes termos: “Tens já acaso em teu poder o punho de Zeba e de Salmuna, para que possamos dar à tua tropa?” Estes notáveis temiam, sem duvida, as represálias dos dois reis de Mádian, no caso de aquela operação, conduzidas pelos israelitas, falhar. Num primeiro tempo, Gedeão contentou-se em dirigir-lhes ameaças, e depois, quando regressou vitorioso, pôs as suas ameaças em execução e fustigou-os com espinheiros do deserto e silvas.</p>
<p>Nos tempos bíblicos, a orgulhosa cidade de Bet-San levantava-se sobre um promontório que dominava a estrada mais freqüentada da planície de Jezrael, no cruzamento do vale do Jordão e do de Bet-San. Era a esta cidade que os homens da tribo de José aludiam, notadamente quando se lamentava do fato de o seu território ser demasiado arborizado, ao passo que “todos os cananeus que habitam a planície possuem carros de ferro, tanto os de Bet-San e suas cidades dependentes como os que vivem no vale do Jezrael” (Josué 17, 16). Com efeito, a tática posta em ação “pelos de Bet-San e suas cidade dependentes”, em ordem a controlar as estradas da região, consistia em espalhar os seus carros e a sua cavalaria no terreno. A configuração deste convinha perfeitamente a tal método de combate, contra o qual os israelitas não dispunham de nenhum meio eficaz. Não é, pois, surpreendente a noticia de que no tempo dos juízes, “Manassés não expulsou os habitantes de Bet-San, com as suas cidades dependentes” (juízes 1, 27).</p>
<p>Sob o reinado de Saul, a cidade era vassala dos filisteus, quando estes não a ocupavam pura e simplesmente. Depois da derrota e da morte do rei de Israel na batalha de Guilboa, foi dos seus muros que eles penduraram o seu cadáver mutilado (1 Samuel 31, 10). Ao lado dos restos mortais de Saul, eles tinham igualmente exposto os de Jônatas (2 Samuel 21, 12), mas ambos foram retirados de noite e sepultados na sua terra pelos habitantes de Jabes, em Galaad. Eles exprimiam, assim, o seu reconhecimento aos israelitas que recentemente os tinham libertado na tirania de Naás, rei dos amonitas (1 Samuel 11). Foi Davi quem trouxe as ossadas dos dois heróis para a terra de Benjamim, onde os mandou enterrar no sepulcro da família de Saul (2 Samuel 21, 13-14). Salomão controlava Bet-San (1 Reis 4, 12).</p>
<p>Na época bíblica, os matagais que recobriam as margens do Jordão constituíam domínio dos leões. Jeremias evoca a presença dessas feras, ao mesmo tempo em que o destino de Sodoma e Gomorra, quando anuncia: “Edom será um objeto de espanto [...] Repetir-se-á a catástrofe de Sodoma e Gomorra, e das cidades vizinhas [...], nenhum homem ali morará [...]. Com um leão, subira dos espinheiros do Jordão às pastagens perenes. Num instante, farei que [Edom] fuja de lá [...]” (Jeremias 49, 18-19). Zacarias vê ai uma prefiguração do juízo divino (11, 3):</p>
<p><em>Ouve-se o rugido dos leões,</em></p>
<p><em>Porque foi destruída a magnificência do Jordão!</em></p>
<p>Por seu lado, Ezequiel 47 faz da planície do Jordão um símbolo das bênçãos que viriam, quando prediz que as águas do mar Morto serão tornadas salubres pelas nascentes miraculosas que jorram do Templo. Com efeito, o simbolismo bíblico associa estreitamente estes dois conceitos de juízo e de benção à evocação do vale e do mar Morto. Seria neste contexto místico, nesta solidão propicia à meditação, que Jesus iria começar o seu ministério.</p>
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		<title>Planície costeira a Norte do Monte Carmelo</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jul 2011 13:09:11 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Geografia física Aos olhos do turista moderno, a zona compreendida entre o Carmelo e Rosh Hanicra apresenta-se como uma zona marcada pela implantação de fábricas, com uma estação balneária e culturas intensivas de frutos. Imediatamente a norte do Carmelo encontra-se o complexo industrial de Haifa, com a sua refinaria de petróleo. A estrada principal que liga Haifa a Aco está assinalada, na sua primeira metade, por pequenas empresas que se estendem até o mar. Em seguida, está rodeada de uma série de tanques dedicados à piscicultura intensiva. A meio caminho atravessa-se Naaria. Esta localidade, que em 1934 era apenas uma<a href="http://www.terradabiblia.com.br/viagem-terra-santa/planicie-costeira-a-norte-do-monte-carmelo/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Geografia física</strong></p>
<p>Aos olhos do turista moderno, a zona compreendida entre o Carmelo e Rosh Hanicra apresenta-se como uma zona marcada pela implantação de fábricas, com uma estação balneária e culturas intensivas de frutos. Imediatamente a norte do Carmelo encontra-se o complexo industrial de Haifa, com a sua refinaria de petróleo. A estrada principal que liga Haifa a Aco está assinalada, na sua primeira metade, por pequenas empresas que se estendem até o mar. Em seguida, está rodeada de uma série de tanques dedicados à piscicultura intensiva. A meio caminho atravessa-se Naaria. Esta localidade, que em 1934 era apenas uma aldeia agrícola, tornou-se uma importante estação balneária.</p>
<p>No século XIX, esta região apresentava-se sob um aspecto um tanto diferente. A noroeste de Aco havia apenas pomares onde se cultivam laranjas, limões, romãs e figos. A Sul estendia-se uma pantanosa formada pela difluencia das águas do Naal Naaman e do Naal Hilazon, que não conseguiam escoar-se para o mar: O areal que liga Haifa a Rosh Hanicra constituía um terreno ideal para os passeios a cavalo. Contudo, a foz do Naal Quison obrigava o cavaleiro a fazer a travessia de barco, ao mesmo tempo em que a Montada atravessava a nado para a outra margem. A sul da foz formara-se uma laguna, que foi drenada a fim de permitir a construção da zona industrial de Haifa. Quanto aos pântanos do Naaman, a norte do Quison, foram transformados em tanques de piscicultura.</p>
<p>De sul para Norte, a região compreende a baía de Haifa, cuja curva vai dar a Aco, depois a costa da Galiléia, que se estende até Rosh Hanicra, onde a planície costeira, com cerca de 5 quilômetros de largura, é bruscamente cortada por um esporão rochoso orientado de oeste para leste. Esta planície costeira atinge uma largura de 15 quilômetros por alturas de Aco. Constituída por uma terra rica e fértil, é abundantemente irrigada por seis cursos de água e beneficia de uma pluviosidade média anual de mais de 600 milímetros. A sul, entre Aco e Haita, a planície estreita-se de novo (de 6 quilômetros a 9 quilômetros de largura por um comprimento de 20 quilômetros): é o vale de Zabulão.</p>
<p>Não sabemos até que ponto, nos tempos bíblicos, o litoral da baía de Haita tinha o mesmo traçado que nos nossos dias. É verdade que importantes vestígios de habitações do 2.° milênio foram descobertos ao longo da costa, a perto de 4 quilômetros do interior das terras. Estes locais encontravam-se, na origem, no litoral ou na margem de uma laguna navegável. Ao longo dos séculos as aluviões e a areia acumularam-se ao longo da margem sob a ação combinada do Naal Quison e das correntes marítimas.</p>
<p>No 2.° milênio, os principais locais de habitação encontravam-se nas proximidades do mar ou, um pouco mais a leste, perto das fontes e das ribeiras, a uma distância da costa que não ultrapassa os 15 quilômetros. Os homens que aí viviam eram pescadores ou agricultores.</p>
<p>Pode supor-se que as colinas da Baixa Galiléia, a leste da zona habitada, estavam cobertas de azinheiras da palestina (<em>Quercus calliprinos</em>) e da vegetação associada.</p>
<p><strong>A narrativa bíblica</strong></p>
<p>Na bíblia, a primeira referencia significativa a esta região encontra-se em Josué 9, 24-31, quando a tribo de Aser vê ser-lhe atribuído um território com 22 cidades, compreendido entre o Carmelo e Tiro, atribuição mais teórica do que real, porquanto o livro dos juízes (1, 31) precisa: “Aser não expulsou as geristes de Aco, nem as de Sídon, nem as de Aalab, de Aczib, de Helba, de Afec e de Reob.” Entretanto, parece que no fim do reinado de Davi todas estas cidades eram israelitas. É pelo menos, o que ressalta do recenseamento efetuado por Joab (2 Samuel 24, 4-8). Por outro lado, quando Salomão se encontrou com dificuldades de dinheiro, para financiar a construção do templo, cedeu a Hirão vinte cidades do Norte da Galiléia, em cujo número se encontrava, provavelmente, as cidades costeiras situadas entre o Carmelo e Aalab.</p>
<p>Haifa é atualmente o porto marítimo mais importante de Israel. Na época bíblica, o local devia ser inabordável pelo leste, em virtude dos terrenos pantanosos do delta do Quison. Em contrapartida, Aco, com um acesso mais fácil, era o grande porto do Norte. Mencionado no livro dos Atos (21, 7), sob o seu nome grego de Ptolemaida, encontrava-se, encontrava-se, na época, a 2 quilômetros do litoral atual.</p>
<p>A norte de Rosh Hanicra, a planície costeira cede o lugar a uma sucessão de colinas que se interrompem a 8 quilômetros a sul de Tiro. São chamadas “Escalas de Tiro”. Na época do Antigo Testamento, Tiro, que era uma ilha situada a perto de 700 metros da costa, era a cidade mais importante e o grande centro comercial da Fenicia meridional. Foi a Hirão (969-936 a.C.), seu rei, que Salomão teve de dirigir-se para obter os matérias necessários à construção do Templo de Jerusalém (1 Reis 9, 11). Quando o profeta Ezequiel invectiva o rei de tiro (Ezequiel 28), traça, na mesma altura, um quadro notável dos faustos e das belezas da cidade. Tiro viria a desempenhar um papel nefasto na história do reino do Norte, por culpa de Jezabel, a esposa de Acab (c. 873-852 a.C), que se esforçou por substituir o culto do deus de Israel pelo do seu deus originário de Tiro. Sídon, outra cidade fenícia, que a narrativa bíblica associa muitas vezes a Tiro, está situada a 35 quilômetros a norte desta. A meio caminho entre ambas, na costa, encontra-se Sarepta, a cidade para onde Elias foi convidado a dirigir-se na época da seca, quando estava em conflito aberto com Acab e Jezabel (1 Reis 17,8). A ordem era explicita: Elias devia ir a “Sarepta de Sídon”. A situação não deixa de ser surpreendente. O profeta foi procurar alimento junto de uma pagã e de seu filho, quando numerosos israelitas morriam de fome. O Novo Testamento relata um caso análogo: segundo Mateus 15, 21-28 e Marcos 7, 2-1-30, Jesus retirou-se também ele para o “país de Tiro e de Sídon”, onde fez um milagre beneficiando um mulher não judia cuja filha estava possessa por um demônio. Foi esta “pagã, siro-fenicia de origem”, que replicou a Jesus a propósito do pão dos filhos que não deve lançar-se aos cães: “Mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.”</p>
<p><strong>Tiro e Sídon</strong></p>
<p>Porto marítimo de primeira importância na época bíblica: Tiro manter-se-ia uma ilha até que, para facilitar a sua conquista, Alexandre Magno a ligou ao continente por meio de um dique. Centro comercial florescente forneceu a Salomão uma parte dos materiais necessários à construção do templo. A sua proverbial riqueza permitiu-lhe tornar-se um grande centro de arte de cultura. Juntamente com Sídon, esteve na origem de um império comercial que estendia os seus balcões a todo o mediterrâneo. Sídon, a norte da fenícia, ocupava um local bem fornecido de água; as suas instalações portuárias eram protegidos por um rosário de ilhotas. Por vezes foi dominada por Tiro e Freqüentemente ocupada pelos grandes impérios conquistados da região. Contrariamente a Tiro, que resistiu Sídon  reservou a Alexandre Magno um acolhimento pacifico.</p>
<p><strong>Planície costeira a sul do Monte Carmelo</strong></p>
<p><strong>Geografia física</strong></p>
<p>A sul do esporão rochoso do Carmelo, a planície costeira divide-se em três partes principais. A primeira, dita “costa do Carmelo”, tem a largura de 3 quilômetros e estende-se por um comprimento de 30 quilômetros até o Naal Tanimim. É rodeada a leste pelos contrafortes do monte Carmelo.</p>
<p>A segunda parte é constituída pela planície de Saron (um nome hebraico mencionado, notadamente, em Isaias 35, 2), que se estende do Naal Tanimim à ribeira de Jarcon, que se lança no mar precisamente a norte de Tel Aviv. (Alguns autores preferem, no entanto, fixar-lhe como limite o Naal Aialon e o Naal Nason.) Com 50 quilômetros de comprimento, alarga-se bruscamente a sul do Tanimim para atingir uma largura média de 12 quilômetros. A terceira parte, a planície da Judéia, inclui duas seções distintas: uma seção setentrional, que se desdobra sobre 85 quilômetros, entre o Naal Tanimim e o Naal Láquis, cujo foz se encontra a norte de Asdod, e uma seção meridional cuja extremidade sul se confunde pouco a pouco com a região semidesértica do Neguev. O Naal Sicma, que se lança no mar, a meio caminho entre Áscalon e Gaza, é geralmente considerado como o limite entre a planície costeira e a costa do Neguev.</p>
<p>Os viajantes que visitaram esta região no século XIX praticamente não a reconheceriam nos nossos dias. Em 1857, Thomson escrevia  a propósito percurso de Haifa a Cesaréia: “É mais útil e muito mais agradável passar nove horas a segui-lo com o pensamento do que percorrê-lo a cavalo.” Em seguida, até Atlit, viu apenas aldeias e ruínas sem interesse. Contudo Smith viria a encontrar lá bosques de carvalhos e restos de florestas.</p>
<p>Thomson descreve Taritura (Dor) como uma “aldeota triste e em ruínas&#8230; numa praia descarnada e separada das colinas orientais por uma zona pantanosa”. Entre Cesaréia e Gaza, chamou-lhe, sobretudo a atenção a barreira de dunas com 5 quilômetros de largura e, a leste do local atual de Netânia, as florestas de pinheiros que cresciam na areia e que considerou como os mais belos espécimes que tinha encontrado na Palestina. A sul do Jarcon, designadamente na planície de Lod (ver á frente), G.A. Smith viria a assinalar “culturas muito mais numerosas, campos de trigo e de melão, pomares, laranjas e pequenos bosques de palmeiras.</p>
<p>Nos nossos dias, esta região, que continua a ser predominantemente agrícola, é também a do aeroporto internacional de Lod, dos grandes nós rodoviários e ferroviários e da mais importante concentração urbana do país, em particular à volta de Tel Aviv.</p>
<p>A fim de se imaginar melhor o que poderia ser a região na época bíblica, não é inútil considerar certos aspectos da sua geologia, da sua ecologia e também a implantação dos antigos locais de habitação.</p>
<p>Nos tempos geológicos, o litoral avançou e recuou várias vezes, o que teve como efeito dar origem a três linhas paralelas de argila arenosa <em>Kurkar </em>ao longo do litoral. A mais ocidental constitui o litoral atual, exceto a norte de Adit, onde sofreu a erosão marítima. A sul do jarcon é protegida por uma barreira continua de dunas. Em contrapartida, entre o jarcon e o Naal Hadera, reveste o aspecto de uma longa sucessão de falésias, cuja altura pode atingir de 50 metros a 60 metros nos seus pontos mais elevados, notadamente nas proximidades de Netânia. Interrompida na foz das ribeiras e das torrentes (Alexander, Poleg, Jarcon), a falésia está largamente afetada pela erosão entre o Naal Hadera e Atlit.</p>
<p>A segunda linha de <em>Kurkar </em>estende-se a 1 quilometro da primeira. Com 300 metros de largura, o seu nível varia entre 20 metros e 30 metros a norte da planície de Saron e entre 40 metros e 50 metros a sul. A terceira estende-se a3 quilômetros da anterior; está recoberta por uma camada de areia vermelha, cuja espessura média é de 10 metros a 20 metros, podendo, no entanto, atingir 50 metros a 80 metros a norte e a sul de Saron. Com uma largura que pode atingir 8 quilômetros, esta terceira faixa é cortada por ribeiras e torrentes que se lançam diretamente para o mar e também pela planície de Lod. A sul do Naal Sorec está recoberta por uma terra fértil, característica da planície que se estende da planície de Lod a zona semidesértica.</p>
<p>A presença destas Linhas de arenito exerceu certa influencia sobre a vegetação e as condições de vida. Entre o litoral e a segunda linha havia uma faixa de areia onde podiam instalar-se aldeias perto dos pontos de água. Entre a segunda e a terceira encontrava-se uma zona de pântanos causados pela difluencia das ribeiras e das torrentes. A terceira linha estava coberta de carvalhos e daqueles pinheiros e daqueles pinheiros tão admirados por Thomson. Alguns carvalhos de folhas caducas (carvalhos do Tabor) subsistiram até a primeira Guerra Mundial, durante a qual os Turcos se Aproveitaram deles fazerem andar as suas locomotivas. A leste da última linha e das suas florestas estendia-se uma planície fértil até o sopé das montanhas.</p>
<p>O estudo dos locais de implantação humana no 2.° milênio mostra que a ultima linha nunca foi praticamente ocupada. Isso apenas vem reforçar a hipótese segundo a qual ela estaria coberta de florestas que formariam barreira entre as aldeias do litoral e as que se encontravam no sopé dos contrafortes montanhosos. Estas ultimas, estabelecidas perto das fontes, abrigavam agricultores atraídos pela planície fértil. Quanto às aldeias do litoral, parece que terão praticado igualmente uma economia agrícola, ao mesmo tempo em que se dedicavam à pesca e ao comercio. O mesmo se passava com as aldeias da planície de Lod, constituída por uma pequena bacia triangular, de solo particularmente rico.</p>
<p>A este respeito, convém precisar que as maiorias dos locais de habitação indicadas no mapa só existiram como tais durante uma parte do 2.° milênio. Figuram no atlas com o objetivo de por em evidencia as zonas onde a implantação do homem era possível, tendo em conta a natureza geológica e ecológica do terreno. Essa implantação fazia-se igualmente em função das grandes linhas de comunicação da época. (A estrada principal do Egito para o Norte seguia o traçado da costa, passava por Gaza, Asdod e Jopé Qafa), para inflectir para o nordeste, no vale do Jarcon, antes de atravessar Afec, para se espiar ao longo dos contrafortes montanhosos. Contudo, havia outras estradas que serviam todo o litoral e que, também elas, desempenharam o seu papel na implantação e na distribuição das provações.</p>
<p><strong>A narrativa Bíblica</strong></p>
<p>Segundo o Antigo Testamento, esta região da planície costeira foi partilhada entre as tribos de Judá, Efraim e Manassés. É impossível determinar com precisão o limite dos diferentes territórios. Todavia, sabemos que Judá se instalou a sul do Naal Sorec (Josué 15, 11-12) e Efraim, entre o Sorec e o Jarcon ( Josué 16, 8, na condição de o Caná ser, de fato, o uádi Caná, afluente do jarcon), Quanto a Manassés, tomou posse do resto da planície costeira até o Carmelo. É igualmente provável, segundo Josué 19, 46, que Dan tenha recebido o porto de Jopé com uma parte da zona interior.</p>
<p>Verificar-se que estas tribos encontraram algumas dificuldades em controlar o conjunto dos seus territórios respectivos. Apesar da sua vitória sobre Gaza, Judá não conseguiu “desapossar os habitantes da planície, que tinham carros de ferro” (juízes 1, 18-19). Efraim “não expulsou os canáceos de Guezer” (Juízes 1, 29). Quanto a Manassés, fracassou diante de Dor (Juízes 1, 27).</p>
<p>É verossímil que Efraim e Manassés se tenham implantado, sobretudo na parte da planície compreendida entre a zona arborizada da terceira linha de <em>Kurkar</em> e a montanha, conservando o Egito o controle do litoral e da estrada do Norte, até a chegada dos assírios, no século VIII a.C. A parte setentrional da planície, atribuída a Judá, foi ocupada pelos filisteus a partir do século XII a.C. Apesar das vitórias de Davi e de Salomão, não parece que Judá tenha alguma vez conseguido subjugar completamente esta região, exceto, talvez, sob o reinado de Ozias (785-733), que instalou cidades judaicas em território filisteu depois de ter desmantelado as muralhas de Gat, Jabnia e Adod (2 Crônicas 26, 6) ou quando o rei Ezequias (727-698) bateu “os filisteus até Gaza, devastando o seu território, desde as simples torres de vigia até as cidades fortificadas” (2 Reis 18, 8).</p>
<p>No Antigo Testamento, as principais referências a esta região encontram-se no relato das proezas de Sansão, o herói da tribo de Davi. E assim que tomamos conhecimento de que Sansão desceu até Ascalon, onde matou 30 homens, cujos despojos deram aos filisteus, que, na seqüência da traição de sua esposa, tinham encontrado a chave do enigma sobre o mel e o leão (Juízes 14, 5-20). Há também aquela historia das portas de Gaza que Sansão transportou até Hebron (Juízes 16, 1-3). Enfim, foi em Gaza que Sansão, cego e prisioneiro, derrubou as colunas do templo e morreu esmagado sob os escombros, juntamente com 300 filisteus (Juízes 16, 23-30).</p>
<p>Durante o período de lutas territoriais anterior ao reinado de Saul, os filisteus levaram a melhor sobre os israelitas em Afec, onde tinham conseguido juntar as suas forças. Esta vitória abriu-lhes o acesso à montanha pelo vale do uádi Caná (1 Samuel 4, 1-11).A arca da Aliança, de que se tinham apoderado durante a batalha, foi então transportada para Asdod, depois para Gat e para Acaron, antes de ser restituída aos israelitas (1 Samuel 5, 1-12). Gat, que era a cidade natal de Golias, serviu igualmente de refúgio a Davi, quando ele temia as intenções mortíferas de Saul (1 Samuel 27, 1-12). Quanto a Jopé, é o porto onde Jonas embarcou para um destino diametralmente oposto ao que Deus lhe tinha assinalado (Jonas 1, 3). Foi igualmente em Jopé que foram desembarcados os materiais destinados à construção do primeiro e do segundo Templo de Jerusalém (2 Crônicas 2, 16; Esdras 3, 7).</p>
<p>O Novo Testamento atesta as transformações verificadas na região, na seqüência da ocupação pelos romanos, em 63 a.C. O fato mais notável a este respeito foi a fundação de Cesaréia. É verdade que tinha sido criado um porto, não longe dali, em fins do período persa (c. 340 a.C.), mas a construção daquele de que fala o Novo Testamento data de Herodes, o Grande. Começando em 22 a.C., foi inaugurado uma  dúzia de anos mais tarde. No ano 6 d.C., Cesaréia iria tornar-se a capital da província romana da Judéia e residência dos seus governadores. A cidade dispunha de um notável sistema de adução de água. Quanto ao porto em si, era protegido, a norte e a sul, por dois molhes em arco de circulo, com o comprimento de 600 metros e 250 metros, respectivamente. A água potável era transportada até a cidade por dois aquedutos, o maior  dos quais, com o comprimento de 9 quilômetros, foi edificado sob o governo de Herodes.</p>
<p>Quando Pedro chegou a Cesaréia, aonde viria a converter Cornélio, o centurião romano (Atos 10, 1-48), penetrava, de fato, na mais prestigiosa cidade pagã da província. A conversão de Cornélio, precedida da visão da toalha cheia de animais impuros (Atos 10, 9-16), foi para Pedro a ocasião de colocar o problema do acesso dos pagãos aos ensinamentos de Jesus. A comunidade cristã de Cesaréia é mencionada várias vezes nos Atos. Foi nesta cidade que Paulo, vindo de Tiro, no fim da sua terceira viagem (Atos 21, 8), residiu na casa de Filipe, um dos sete diáconos (ver Atos 6, 5). Foi lá igualmente que esteve preso durante dois anos (Atos 24, 27) e teve de apresentar a sua defesa diante de Festus, Agripa 11 e sua irmã Berenice (Atos 25-26), antes de ser enviada a Roma, à guarda do centurião Julius (Atos 27-28), para aí ser julgado.</p>
<p><strong>Cesaréia</strong></p>
<p>A construção de Cesaréia, no fim do século I a.C., atesta os progressos técnicos realizados nesta época. A fundação e a prosperidade de cidades mais antigas, como Jopé ou Dor, tinham dependido essencialmente da sua situação na costa e dos recursos locais em água potável. A criação de Cesaréia, cuja situação natural não predispunha de modo nenhum para tornar-se capital de província, iria representar uma autêntica proeza da parte dos seus engenheiros e dos seus arquitetos. No lugar de uma antiga aldeia de pescadores, Herodes edificou, entre 22 e 9 a.C., não apenas o mais importante porto da região mas também uma cidade que viria a tornar-se a residência principal dos reis judeus e dos procuradores romanos da Judéia. No número destes últimos é oportuno mencionar Pôncio Pilatos (26-36 d.C.), que governou o país na época em que Jesus foi crucificado, e Félix (52-60 d.C), que durante dois anos manteve Paulo na prisão da cidade. Cesaréia viria a conversar a sua importância estratégica até o tempo das cruzadas. Os vestígios antigos, que as escavações não cessam de revelar; ao mesmo tempo em que suscitam a admiração dos visitantes, não fazem mais do que confirmar o seu passado esplendor.</p>
<p><strong>Faça uma viagem  à Terra Santa  ligue:(11) 3257-9211</strong></p>
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