Geografia física

O nome “Galiléia” vem do hebraico galil, que designa um “ circuito” ou um “descrito”. Em Josué 20, 7 e 21, 32, a cidade de Quedes é situada na Galiléia. Em 1 Reis 9, 11, Salomão cede o rei Hiram vinte localidades mencionada, ao mesmo tempo que cidades do Norte (Abel-Bet-Maacã, Janoa, Quedes e Hasor),  como constituindo “toda a terra de Neftali” , que foi conquistada por volta de 734 a.C., pelo assírio Tiglate-Pileser. É em Isaias 8, 23 que encontramos esta célebre expressão: “a Galiléia das nações” (há-galil há-goyim).

Dividem-se as opiniões no que se refere à origem deste termo. Segundo uns, a expressão “Galiléia das nações” teria designado um distrito ocupado por várias tribos estrangeiras, sendo “Galiléia” (galil) a sua forma abreviada. Segundo outra região ter-se-ia chamado, desde o início, Galiléia. Na época do Novo Testamento estava compreendido entre o vale de Jezrael a sul, o rio itani a norte e a depressão do mar da Galiléia a leste.

Tratamos já da planície costeira, a norte do monte Carmelo. O vale de Jezrael será objeto de um estudo posterior. Em contrapartida, o Norte da depressão oriental, que se estende do lago de Tiberíades até Dan, perto da atual fronteira israelo-libanesa, pode ser considerado como fazendo parte da Galiléia e será estudado aqui.

Assim definida, a Galiléia compreende duas regiões principais, a Alta Galiléia e a Baixa Galiléia, que devem o seu nome ao fato de na primeira o relevo ser muito mais pronunciado do que na segunda. Na Alta Galiléia, alguns cumes atingem 1.208 metros, 1.071 metros e 1.048 metros, ao passo que na Baixa Galiléia a montanha se eleva apenas a 598 metros. Por outro lado, estas duas regiões apresentam características totalmente diferentes.

A Alta Galiléia é dominada pelo maciço do monte Meron. Orientado de norte para sul e ao longo de 10 quilômetros, este maciço sempre impediu a passagem de leste para oeste, oferecendo ao mesmo tempo um refugio aos fugitivos. Separado do Meron pelo profundo vale do Naal Amud, outro obstáculo à penetração leste-oeste, ergue-se outro maciço cujos principais cumes são o Har Canaã (995 metros) e o Har Bem Zimra (820 metros).

Embora a média anual das chuvas, que é a mais elevada de Israel, varie de 600 milímetros a 800 milímetros, consoante a altitude, o território mostrou-se hostil á implantação humana durante toda a Antiguidade. A linha de cumes estava coberta de florestas de azinheiras, de que restam alguns vestígios entre o Meron e o Sasa. As vertentes ocidentais e orientais estavam igualmente arborizadas. As aldeias só podiam instalar-se ao longo das estradas, nos contrafortes das montanhas, perto das nascentes. Mas como estas se encontravam muitas vezes em terras impróprias para a agricultura, esta região recebeu muitas poucas implantações humanas permanentes na época bíblica.

A Baixa Galiléia divide-se em três faixas orientadas de norte para sul. A faixa ocidental é constituída pelas colinas dos Alonim, uma cadeia montanhosa de calcário mole com a largura de 15 quilômetros a 20 quilômetros. O calcário mole esta recoberto de calcário duro, que pode atingir 5 metros de espessura, e que, ao mesmo tempo impede a formação dos solos, e a emergência das nascentes, nem por isso deixou de preservar as mais vastas extensões de carvalhos de folha caduca da região. A faixa central, que se alarga para leste e para oeste na sua parte setentrional, é composta por uma sucessão de maciços de calcário com 20 quilômetros de comprimento e 30 quilômetros a 10 quilômetros de largura. Os maciços estão separados por planaltos gredosos e bacias. O monte Tabor, na orla sudeste desta zona, é um pico isolado com a altura de 588 metros. A terceira faixa, com 34 quilômetros de comprimento e 14 quilômetros de largura, oferece uma paisagem cortada por correntes de basalto, entre as quais o Naal Tabor e os seus afluentes escavaram de noroeste para sudeste.

A média anual das chuvas na Baixa Galiléia é de 600 milímetros a 500 milímetros no oeste e no centro. Na zona oriental, o clima mais seco e o terreno basáltico constituíram desde sempre condições desfavoráveis para a agricultura. Com efeito, foi sobretudo na parte central que as aldeias se implantaram.

A leste das montanhas da Galiléia encontramos o mar da Galiléia e a parte setentrional da depressão siro-africana. Ao longo da história, o mar da Galiléia aparece sob diferentes nomes. O de Quineret (ou Quinerot) é talvez anterior à chegada dos israelitas e é geralmente assim que ele é no Antigo Testamento (Números 34, 11, Josué 12, 3 e 13, 27). O novo Testamento chama-o quer “lago de Genesaré” (Lucas 5, 1) quer “mar de Tiberíades” (João 6, 1), quer muito simplesmente “mar” (Marcos 4, 1 e 5, 1). Com 20 quilômetros de comprimento e 13 quilômetros de largura, ele apresenta mais ou menos a forma de uma lira. Situado na depressão oriental, atinge uma profundidade de 40 metros na sua parte norte; a sua superfície encontra-se a – 210 metros. Exceto no Sul e no Nordeste, o seu litoral é rodeado de falésias abruptas, com a altura de 200 metros a oeste e 300 metros a leste. É atravessado de norte a sul pelo curso do Jordão. Dada a sua situação geográfica abaixo do nível dos mares, a região beneficia de temperaturas relativamente elevadas, tanto no inverno como no verão.

A norte do mar da Galiléia, a depressão estende-se sobre uns 15 quilômetros antes de se alargar para formar o vale de Hula, com 25 quilômetros de comprimento e 7 quilômetros de largura. De toda a região, é, sem dúvida, a zona que sofreu mudanças mais impressionantes em relação ao que ela poderá ter sido nos tempos bíblicos. Antes dos trabalhos de enxugamento efetuadas de 1951 a 1958, um terço da superfície do vale era ocupado pelo lago e pelos pântanos de Hula, que, sempre, tinham constituído uma barreira intransponível. Outrora, as estradas leste-oeste tinham de contornar esta zona pelo norte ou pelo sul.

Thomson, que visitou a região no século XIX, deixou dela uma descrição pitoresca. Escreve ele a propósito dos pântanos de Hula: “O Jordão nascente parece a ponto de ficar abafado no meio daquela selva inexplicável de juncos e de silvas… É um lamaçal intransponível… “Depois relata um incidente de caça ao pato: “De repente, vi-me no meio de um lodaçal viscoso e sem fundo. Depois de ter atirado a minha espingarda para a borda, senti as maiores dificuldades que possam imaginar-se para chegar de novo a terra firme, muito decidido a desconfiar doravante deste terreno manhoso.” No que se refere ao litoral do lago, Thomson precisa que ele só era acessível em dois locais. Acrescenta que o conjunto da região, a planície e os pântanos, o lago e a montanha contígua constituíam “o mais belo terreno de caça da Síria [...]. É o domínio das panteras e dos leopardos, dos ursos e dos lobos, dos chacais e das hienas e de todas as espécies de animais pequenos e grandes, o paraíso dos javalis e das gazelas”. Os trabalhos de enxugo e os métodos fizeram deste vale uma das regiões agrícolas mais prosperas do país. Aí se praticam, notadamente, a fruticultura e a piscicultura intensivas.

Narrativa bíblica

Embora a Galiléia, o seu mar e o vale de Hula sejam apenas objeto de algumas raras alusões no Antigo Testamento, a região nem por isso deixou de desempenhar um papel importante na história bíblica. Como a capital do reino do Norte se encontrava na montanha da Samaria, é compreensível que os cronistas da época se tenham interessado, sobretudo por esta zona. Tudo leva a crer que em 734 a.C., o rei da Assíria Tiglate-Pileser tenha ocupado toda a Galiléia. Durante os 600 anos que se seguiram, as populações locais que tinham permanecido na região viveram constantemente sob dominação estrangeira. No início do século II a.C., algumas comunidades judaicas da Galiléia tinham preservado a sua ortodoxia religiosa e os Macabeus concederam-lhes o seu apoio. É assim que 1 Macabeus 5, 21-23 precisa que Simão (142-134 a.C.) “partiu para a Galiléia e, depois de muitos combates com os gentios, derrotou-os [...]. Com grande júbilo, conduziu à Judéia os Judeus que se encontravam na Galiléia e em Arates, com suas mulheres, seus filhos e tudo quanto possuíam” . Há que deduziu daqui, sem duvida, que só os judeus que manifestaram esse desejo acompanharam Simão na Galiléia. A verdade é que, até o reinado de Aristóbulo I (104-103), a presença judaica na Galiléia deverá ter sido muito reduzida, porque este soberano, depois de tê-la anexado ao reino da Judéia, obrigou a população a converter-se ao judaísmo. Seria nesta região, à qual o Antigo Testamento dedica apenas uma atenção reduzida e cujos habitantes só eram judeus desde há um século, que Jesus iria exercer a maior parte do seu ministério.

A Galiléia é mencionada pela primeira vez na bíblia por ocasiões da operação montada por Abraão na região de Dan contra os reis que tinham capturado o seu sobrinho Lot (Gênesis 14, 14). Escavações recentes permitiram trazer à luz a entrada de uma cidade antiga que existia, provavelmente, no tempo dos patriarcas. Nessa época, a cidade chamava-se Laís. O nome de Dan só lhe foi atribuída depois do êxodo dos danitas, que, expulsos da Sefela, vieram instalar-se no Norte (juízes 19).

O livro de Josué faz menção de uma batalha decisiva, tratava pelos hebreus, “junto às águas de Merom”, contra uma coligação Cananéia comandada por Jabin, rei de Hasor (Josué 11, 1-9). Hasor foi identificada e foram lá efetuadas escavações. Encontrava-se numa importante encruzilhada. Dividem-se as opiniões no que se refere a Merom, assim como Madon e Simeron, duas outras cidades que faziam parte da coligação (e cujo nome hebraico tradicional difere ligeiramente do que é dado em grego a essas cidades). Contudo, se Meron corresponde a Tel Sevi (Horbat el-Hurreibé), a batalha junto às “águas de Merom” teria podido desenrolar-se no local onde o leito alcantilado do Naal Dison desemboca no vale de Hula. Os cananeus, equipados com carros, eram incapazes de subir as vertentes abruptas. É isso, sem dúvida, que lhe permite aos israelitas, entrincheirados nas colinas arborizados, atacá-los “de improviso” e derrotá-los (Josué 11, 7). Depois de terem posto em fuga os cananeus, Josué voltou-se contra Hasor, que tomou e destruiu pelo fogo. As descobertas arqueológicas confirmam que a cidade foi incendiada em finais do século XIII.

Quando se deu a partilha da Galiléia entre as tribos, a parte de leão coube a Neftali. Aser ficou com a planície costeira e uma parte dos Alonim. Quanto a Zabulão, estabeleceu-se no Sudoeste dos Alonim e no vale de Jezrael, até a margem do Naal Quison (Josué 19, 10-16 e 24-39). Não parece que Neftali tenha expulsado os habitantes de Bet-Semes e de Bet-Anat (juízes 1, 33), mas antes que os tenha submetidos a trabalhos forçados.

O livro de juízes (caps. 4 e 5) relata uma segunda batalha contra uma coligação Cananéia dirigida por Jabin, rei de Hasor. As analogias entre este combate e o das “águas de Merom” (Josué 11, 1-9), notadamente as alusões a Jabin, a Hasor e aos carros cananeus, levaram alguns exegetas a pensar que poderia tratar-se de um único e mesmo acontecimento. Esta teoria é, porem, infirmada pela análise geográfica. Se a Batalha travada por Josué teve, de fato, lugar a norte de Hasor, só poderá ter-se desenrolado a uma distancia considerável daquela que, segundo o livro dos juízes, se desenrolou na planície de Jezrael, não longe do monte Tabor, onde os israelitas se tinham reagrupado (juízes 4, 6 e 14). Por outro lado, se é verdade que o texto cita o nome de Jabin, rei dos cananeus e opressor dos israelitas, o papel do mau é sobretudo atribuídos a Sísera, seu general, que viria a parecer às mãos de Jael, a quenita. A cidade de Quedes, mencionada no relato dos juízes, é, provavelmente. Quedes em Neftali e não Quedes a norte de Hasor. Nos dois relatos da batalha, em prosa (juízes 4) tal como em verso (juízes 5), o mérito da vitoria é atribuído essencialmente a Deus. Estes dois versículos são significativos a este respeito (Juízes 5, 20-21):

Do céu, combateram as estrelas,

De suas órbitas combateram contra Sísera.

A torrente de Quison os arrastou,

A torrente dos tempos antigos, a torrente de Quison.

Parece que uma violenta chuvarada engrossou o Naal Quison, cujas águas, ao transbordarem do seu leito, puseram os cananeus fora de combate. Tal como já vimos, a insuficiência da drenagem criou durante muito tempo dificuldade na região. Esta passagem exprime igualmente essa idéia, onipresente no Antigo Testamento, de que é Deus, que tem todo o poder sobre os elementos, quem combate pelo seu povo. Quanto a Haroset-Goim, nome do lugar de residência de Sísera (juízes 4, 2), pode ser interpretado como “a floresta habitada pelos gentios”.

A Galiléia é depois mencionada, sob o reinado de Davi, por ocasião da revolta das tribos do Norte conduzida por Seba, filho de Bicri (2 Samuel 20, 14-22). Estes foi perseguido por Joab e um “unidade de elite” (2 Samuel 20, 7) até Abel-Bet-Maacá. Foi uma mulher que salvou a cidade persuadindo os seus concidadãos a executar Seba e a lançar a sua cabeça aos sitiantes. Ela dirigira-se a Joab nestes termos: “escuta as palavras da tua serva… Tu, porém, procuras destruir uma cidade que é mãe de Israel. Porque queres aniquilar a Herança do Senhor?” (2 Samuel 20, 17-19). O general poupou a cidade, reconhecendo assim o fundamento da defesa da mulher: “outrora, costumava-se dizer: ‘Peça-se conselho a Abel e a Dan e os litígios resolver-se-ão! ’”

Uma outra revolta terá por quadro a Galiléia e, mais particularmente, as cidades de Dan e de Betel. Trata-se da rebelião dirigida por Jeroboão, chefe das tribos do norte, contra Roboão, filho de Salomão, que desembocará no cisma entre os dois reinos (1 Reis 12, 29). Alguns anos mais tarde, Baasa, que tinha tomado o poder na seqüência de um golpe de Estado (1 Reis 15, 25-30), teve de ceder toda a Galiléia ao sírio Bem-Hadad, aliado de Asa, rei de Judá. A bíblia precisa que nesta ocasião os sírios se apoderam de “Ijon, Dan, Abel-Bet-Maacá, todo o Quinerot e a terra de Neftali”. Embora não saibamos quanto tempo durou a ocupação estrangeira na Galiléia, é provável que esta região fizesse de novo parte do reino de Israel sob o reinado de Omri. Este soberano era um conquistador que, por outro lado, anexou a Transjordânia até as fronteias de Moab. Concluiu um tratado com Tiro e Sídon e seu filho Acab travaram várias batalhas contra o reino de Damasco. Tudo leva, portanto, a crer que foi nesta época que a Galiléia foi reconquistada por Israel.

As leis impostas por Omri e Acab puseram em perigo a própria existência da religião nacional de Israel. O perigo vinha, sobretudo, de Jezrael, a esposa fenícia de Acab, que era uma fervorosa adoradora de Melkart, o deus de Tiro. A apostasia da casa de Omri levantou uma viva oposição da parte de Elias, de Eliseu e dos outros profetas, que desembocou num golpe de estado. Jéu tornou-se então rei de Israel e todos os membros da antiga dinastia foram impiedosamente massacrados (2 reis 9-10). Mas este cima de lutas intestinas tinha enfraquecido o poder. Hazael, rei da Síria, tirou partido disso para devastar o país e apoderar-se de todos os territórios a leste do Jordão (2 Reis 10, 32-33). Posteriormente, os israelitas viriam a sofrer uma derrota ainda mais pesada, pois que, segundo 2 Reis 13, 7, apenas restaram a Joacaz, filho de Jéu, “… cinqüenta cavaleiros, dez carros e dez mil soldados de infantaria; o rei da Síria tinha-lhe aniquilado e pulverizado o resto, como o pó que se pisa sob os pés”.

É provável que na seqüência deste desastre a Galiléia tenha sido de novo perdida para só voltar à posse de Israel no fim do século IX a.C. Nesta altura, os sírios, vencidos por Adad-Nirari III, não puderam impedir Joás, neto de Jéu, de retomar o controle da situação (2 Reis 13, 5 e 24-25). Sob Jeroboão II (789-748), o reino de Israel estendeu as suas fronteiras para norte, muito para além dos seus limites tradicionais. Mas este período de sucesso foi de curta duração. A partir de 734 a.C., o rei da Assíria Tiglate-Pileser devastou a Galiléia e conduziu os habitantes para o exílio (2 Reis 15, 29). Embora a região se tivesse tornado a província assíria de Meguido, Isaías continuava a chamá-la “Galiléia das nações” quando exprimia a esperança de que Deus, no futuro, Cobriria de homens os territórios perdidos (ver Isaías 8, 23).

Como já vimos, foi na seqüência das conquistas de Aristóbulo I que a Galiléia se tornou a província que Jesus viria a conhecer. Herodes, o Grande, anexou os territórios compreendidos entre a Judéia e a Galiléia, de maneira que esta deixou de ser um enclave judaico isolado no norte. Todavia, após a morte de Herodes, o seu reino foi partilhado entre seus filhos. A Galiléia coube a Antipas. É sem dúvida, isso que explica, no momento da Paixão, a decisão de Pilatos de remeter Jesus para Antipas, a partir do momento em que soube que ele era Galileu (Lucas 23, 6-12). Antipas foi tetrarca da Galiléia que mandou construir Tiberíades em honra de Tibério.

A Galiléia, qual Jesus passou a maior parte da sua vida, era uma região prospera. Os vestígios de uma dúzia de cidades foram encontrados nas margens do mar da Galiléia. Em 1971, Karmon observava que a julgar por estas ruínas, notadamente as das sinagogas e dos edifícios públicos, a população da região devia ser “muito mais importante que a de agora, que é de cerca de trinta e cinco mil habitantes”. A Galiléia era famosa pelas suas oliveiras, pela sua cerâmica. Salgava-se o peixe do mar da Galiléia e o basalto local servia para fabricar mós e prensas de largar. O artesanato da tinturaria era florescente.

Nazaré, onde Jesus passou a sua infância e a sua adolescência, era um povoado sem importância. Donde, sem duvida, esta exclamação de Natanael: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (João 1, 46). Esta opinião devia ser também a da população local quando se recusou a ouvir a mensagem de Jesus (Marcos 6, 1-76; Lucas 4, 16-30). Ela não podia conceber que um homem saído do seu seio pudesse encarnar a promessa de Isaias (61, 1-3):

O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu.

Enviou-me a levar a boa nova aos que sofrem,

A curar os de coração despedaçado,

A anunciar a anistia aos cativos,

E a libertação aos prisioneiros;

Proclamar um ano de graça da parte do Senhor,

O dia da vingança do nosso Deus;

A consolar os tristes,

A dar aos amargurados de Sião uma coroa em vez

De cinzas,

Óleo de alegria em vez de luto;

A glória em vez do desespero.

Serão chamados terebintos do justo,

Plantação do Senhor para a sua glória.

O ministério de Jesus

A maior parte do ministério de Jesus na região desenrolou-se à volta do mar da Galiléia. Depois de ter sido expulso de Nazaré, dirigiu-se a Cafarnaum (Mateus 4, 13). Foi lá que recrutou os seus primeiros discípulos (Mateus 4, 18-22), embora João 1, 35-42 deixe que já tinha encontrado André e Pedro perto de Jericó, onde João batista pregava e batizava.

A cidade de Cafarnaum, tal como Jesus a conheceu, datava, provavelmente, do século II a.C. Os seus habitantes eram pescadores, agricultores e comerciantes que viviam em casas rústicas construídas com o basalto negro da região.

Cafarnaum era igualmente uma cidade fronteira entre a Galiléia, feudo de Herodes Antipas, e o território de Felipe que se encontrava na margem oriental do Jordão; a norte do mar da Galiléia. Betsaida era a cidade principal. Era também a cidade natal de Pedro (João 1, 44), que tinha escolhido domicilio em Cafarnaum, a 4 quilômetros de distancia, quer porque se tinha casado (Marcos 1, 29-30), quer porque tinha optado por viver num meio especificamente judeu (João 12, 20-21). Entretanto, um centurião romano estava colocado em Cafarnaum (Mateus 8, 5-13), que, por outro lado, comportava instalações alfandegárias onde Jesus encontrou Mateus, de quem fez seu discípulo (Mateus 9, 9).

Cafarnaum foi o teatro de vários milagres, notadamente a sua sinagoga, onde, em dia de sábado, Jesus curou um homem possuído por “um espírito impuro” (Marcos 1, 21-28). Os restos dessa sinagoga não foram encontrados. Talves tenham sido recobertos pelo edifício atual, que data do século IV ou do século V d. C. Seja como for, a antiga sinagoga era de dimensões muito mais modestas. Não é impossível que tenha sido construída pelo centurião cujo escravo Jesus curou (Lucas 7, 1-10).

Foi na casa de Pedro que tiveram lugar dois outros milagres: a cura da sua sogra (Marcos 1, 29-30) e a do paralitico que fizeram descer pelo telhado, que tinha sido desmontado para esse efeito (Marcos 2, 1-12). A facilidade com qual a operação pôde ser realizada é reveladora da leveza da cobertura. A armação apoiava-se, de fato, sobre paredes constituídas por blocos de basalto simplesmente sobrepostos e incapazes de suportar um grande peso. Escavações permitiram trazer à luz uma casa cujas paredes tinham inscrições atestando a presença do cristianismo desde o fim do século I. A tradição cristã fez dela a casa de Pedro. Foi sobre o seu local que foi edificada, no século V, uma igreja de plano octogonal. Apesar da sua pregação e dos seus milagres, Jesus foi rejeitado por Cafarnaum, de tal modo que ele anunciou que o dia do juízo seria menos duro para Sodoma do que para esta cidade (Mateus 1, 24: “E tu, Cafarnaum… serás precipitada no inferno.”).

Faltam-nos informações para situar com exatidão um grande número de acontecimentos que marcaram o ministério de Jesus na Galiléia. A maldição com que Jesus Betsaida e Corozaim (Mateus 11, 20 -24) dão a entender que conhecia essas cidades. Mas ignoramos tudo que ele lá possa ter feito, a não ser que em Betsaida deu a vista a um cego (Mateus 8, 22-26). É verdade que a tradição atribuiu um local a cada um dos grandes acontecimentos. Assim, a multiplicação dos pães e a pesca miraculosa (Lucas 5, 1-11) teriam tido lugar na região de Tabga. Quanto ao sermão da montanha, teria sido pronunciado na colina onde se encontra atualmente o santuário do monte das Bem-Aventuranças. Com efeito, é impossível identificar esta “montanha” de que fala Mateus 5, 1, tanto mais que Lucas, por seu lado, precisa que Jesus “desceu” para um lugar plano antes de se dirigir à multidão (Lucas 6, 17). No que se refere à pesca miraculosa, podemos, quando muito, supor que ele se deu nas proximidades de Cafarnaum, onde os discípulos abrigavam as suas barcas. Quanto à multidão, que Lucas 9, 10 situa em Betsaida, é verossímil que se tenha desenrolado no litoral oriental do mar da Galiléia, em frente de Tiberíades, pois que João 6, 16-25 parece implicar que depois deste milagre Jesus atravessou o mar para se dirigir a Cafarnaum. João precisa igualmente que barcos vindos de Tiberíades se encontravam no local do prodígio. A questão da localização do lugar onde foi curado o endemoninhado possuído por “Legião” (Marcos 5, 1-3) será abordada no capitulo consagrado à Transjordânia.

Naim é uma das raras localidades da Galiléia da qual podemos afirmar, com certeza, que foi testemunha da passagem de Jesus. Situada a sul do mar da Galiléia, na vertente norte das colinas do Givat Hamoré, que rodeiam o vale de Jezrael, Naim é a aldeia onde Jesus ressuscitou o filho único de uma viúva (Lucas 7, 11-7). É interessante notar que, não longe daí, na vertente sul das mesmas colinas, se encontra Sunam, onde Eliseu chamou de novo à vida o filho da sunamita (2 Reis 4, 8-37). O texto do Novo Testamento menciona igualmente Caná de Galiléia. Foi lá que Jesus mudou a água em vinho (João 2, 1-11) e que um oficial de Cafarnaum veio pedir-lhe que curasse seu filho moribundo (João 4, 46-54). Dividem-se as opiniões sobre a localização desta aldeia. O arqueólogo inclina-se para Kirbet Kana, mas a tradição cristã localiza-a em Kafr Kana na estrada de Nazaré para Tiberíades.

É também a tradição cristã que situa a transfiguração (Marcos 9, 2-8) no monte Tabor. Este cume é sem duvida, o mais elevado da região e é coerente afirmar que Jesus e seus discípulos “atravessaram a Galiléia” para alcançarem Cafarnaum após este milagre (Marcos 9, 30-33). Entretanto, é geralmente admitido que a transfiguração se deu após a confissão de fé de Pedro em Cesaréia de Filipe (Marcos 8, 27-33), que se encontra a 70 quilômetros em linha reta do monte Tabor. Se os evangelhos precisam, de fato, que passou cerca de uma semana entre os dois acontecimentos (Marcos 9, 2; Lucas 9, 28: “Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar.”), nada neste relato permite supor que lapso de tempo foi utilizado para ir ao monte Tabor. Portanto, não é impossível que a Transfiguração tenha tido lugar a norte de Cesaréia de Filipe, talves na região do monte Hermon.

Foi observado com freqüência que um dos traços característicos do relevo evangélico residia no fato de ele nunca mencionar as grandes cidades da Galiléia. Vimos já que algumas passagens implicam que Jesus pode ter-se dirigido a Corozaim, sem, no entanto, precisar as circunstâncias da sua visita. Somos, pois, forçados a admitir que o relato do ministério de Jesus na Galiléia é incompleto. Nada indica, de fato, que Jesus tenha ido a centros importantes, como Zipori, a 6 quilômetros de Nazaré, Tiberíades, a 10 quilômetros de Cafarnaum, Gabara ou Magdala (a cidade de Maria Madalena). Não nos compete debater aqui acerca das razões pelas quais Jesus evitou as grandes cidades (se é que verdadeiramente as evitou). Entretanto, uma abordagem regional da questão chega à constatação de que não foi, sem duvida, por um mero efeito do acaso que Jesus se manifestou em certas localidades e não noutras.

Hasor

Hasor compreendida, de fato, dois conjuntos. A cidade alta, fundada na primeira metade do 3.° milênio, manteve-se ativa até o século II a.C. A cidade baixa, por seu turno, só se manteve ocupada entre o século XVII e o século XIII a.C.Ambas foram queimadas no século XIII (ver Josué 11, 10). Só a primeira foi reconstruída, após a conquista do território. Seguidamente, Salomão, e depois Omri e Acab, fizeram dela uma poderosa praça fortificada, à medida da posição estratégica que ela ocupava na encruzilhada das estradas norte-sul e leste-oeste. Entre as notáveis remodelações de que a cidade se beneficiou o seu engenhoso sistema de condução de água não foi certamente a menor. A importância internacional de Hasor é confirmada pela menção do seu nome em textos egípcios e norte – mesopotâmicos do 2.° milênio.

Cafarnaum

Situada na margem do mar da Galiléia, não longe da fronteira que separa a Galiléia do território de Filipe, Cafarnaum viria a desempenhar um papel importante no ministério de Jesus. Era lá que ele se tinha estabelecido, após a sua partida de Nazaré, talvez incitado pelos seus primeiros discípulos que, à semelhança de Pedro, eram dela originários. Apesar dos milagres de que foi testemunha, a cidade manteve-se reticente à mensagem de Jesus, que lhe predisse uma sorte ainda mais lamentável do que a de Sodoma (Mateus 11, 23-24). Foram nela encontrados vestígios de uma tradição cristã continua que remonta ao fim do século IV, Cafarnaum tornou-se mesmo um centro de peregrinação. Uma casa identificada como sendo a de Pedro foi muito rapidamente incorporada em edifícios religiosos.

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