O deserto da Judéia está compreendido entre a franja ocidental da montanha da Judéia e a depressão constituída pelo mar Morto e pelo vale do Jordão. O presente capitulo refere-se apenas à parte desta região que se estende a sul de Belém. A este respeito, convém precisar que o “deserto” da Judéia, no seu conjunto oferece apenas uma semelhança muito longínqua com um deserto como o Sara e os seus vastos espaços de areia se estendem a perder de vista. Se for verdade que esta região inclui zonas semidesérticas, notadamente nas proximidades do mar Morto, nem por isso deixa de apresentar numerosas pastagens utilizáveis durante uma parte do ano.

A altitude do deserto da Judéia vai diminuindo gradualmente, de 1000 metros na sua franja ocidental até – 400 metros na sua extremidade oriental. De igual modo, a media anual das chuvas varia de 700 milímetros na sua parte oeste até 150 milímetros nas proximidades do mar Morto. O relevo é constituído por uma sucessão de planaltos em degraus, de 2quilometros a 3 quilômetros de largura, que descem de oeste para leste e terminam em falésias, por vezes com a altura de 100 metros a 200 metros, ao longo do litoral do mar Morto. Estas falésias áridas são entrecortadas por canhões que absorvem uma parte das águas de escoamento provenientes das águas do oeste. E isso que explica a presença das pastagens do inverno na base dessas falésias e dos planaltos inferiores.

Apesar das condições favoráveis nas imediações de Em-Gadi, onde foram encontrados vestígios de um templo cananeu, não parece que a região tenha sido habituada no 2.° milênio. Depois da conquista, a maior parte do deserto da Judéia coube a Judá. Incluía seis cidades com as suas aldeias (juízes 15, 61). Uma de entre era indiscutivelmente Em-Gadi; a identificação das outras continua a ser um pouco menos certa.

Em-Gadi (Tel Goren) encontra-se nas proximidades da foz do Naal Davi, num oásis irrigado por várias fontes. G.A.Smith sublinha o contraste entre “uma das regiões mais áridas e mais hostis do nosso planeta” e este oásis que lhe apareceu 400 pés mais abaixo, quando se encontrava à beira de um precipício, diante do mar morto, Foi pra ele como que “um rio de verdura surgido do rochedo e, depois de uma falésia com a altura de 300 pés, uma explosão de caniços, de arbustos, de arvores e de pomares ao longo da praia e do mar Azul”. No Antigo Testamento, Em-Gadi é famosa pelas suas palmeiras (2 Cr 20, 2), pelos seus cachos de hena e pelas suas vinhas (Cântico dos Cânticos 1, 14).

Narrativa bíblica.

Quando Davi se esforçava por escapar a Saul, encontrou refugio nas “elevações” e no “deserto” de Em-Gadi (1 Samuel 24, 1-2). Estas “elevações” são provavelmente a gruta no fundo da qual Davi e os seus homens estavam escondidos quando Saul veio satisfazer as suas necessidades (1 Samuel 24, 3). Davi aproveitou a circunstância para cortar sub-repticiamente um pedaço do monte do rei (1 Samuel 24, 1-7). Era a primeira vez que ele se recusava a matar Saul quando este estava perfeitamente à sua mercê. A alusão ao “rochedo dos cabritos” (1 Samuel 24, 3) parece confirmar a presença de rebanhos nesta parte do deserto da Judéia. É verossímil que os pastores fossem passar a noite em Em-Gadi, onde a temperatura era mais suave, depois de terem encerrado os seus rebanhos em cercas formadas por rochedos.

A sul de Em-Gadi encontra-se a célebre fortaleza de Massada. Levanta-se sobre um planalto de encostas abruptas a 410 metros acima do nível do mar Morto, muito próximo. O Próprio planalto, com 600 metros de comprimento por 320 metros de largura, é praticamente inexpugnável, mas a ausência de recursos naturais em água dificilmente lhe permite agüentar um longo assédio.

 Massada não é explicitamente mencionada no Antigo Testamento. Todavia, não é impossível que Davi aí tenha procurado refugio na altura na sua fuga. Em hebraico, a palavra “mesada” significa “fortaleza”. Se bem que Massada só apareça sob este nome no ano 50 a.C., é razoável pensar que, na Antiguidade, todo o fugitivo que lá viesse esconder-se lhe tivesse chamado mesada isto é, “fortaleza”. Ora, no texto hebraico relativo à fuga de Davi as palavras “mesada” aparecem várias vezes. É designadamente, esse o caso em 1 Samuel 23, 14, onde vemos o herói fugitivo refugiar-se nas “fortalezas” (mesadot) do deserto.

Em 1 Samuel 22,4-5, lemos que Davi “apresentou os seus pais ao rei de Moab, e ficaram com ele durante todo o tempo Davi permaneceu naquela fortaleza. Mas o profeta Gad disse a Davi: “Não fiques na fortaleza, Parte e vai para a terra de Judá.” Davi partiu e veio para o bosque de Haret”. Tem-se o costume de situar em Adulam a fortaleza mencionada nesta passagem, por outro lado, porque 1 Samuel 22, 1, que o serve de introdução a este acontecimento, alude à “gruta de Adulam”,e, por outro lado, porque, em 2 Samuel 23, 13-14, o texto hebraico apresenta esta gruta como uma “fortaleza” (mesuda). Estudando a situação mais de perto, verifica-se que estava ainda no fortim quando lhe foi dada a ordem de se dirigir a terra de Judá, onde precisamente se encontrava Adulam. Por outro lado, segundo os pormenores geográficos do texto de 1samuel 22, 15 e 24, 8-22, parece de fato que este fortim estava situado nas proximidades do mar Morto. Na primeira dessas passagens, vemos Davi refugiar-se no fortim depois de ter conduzido os seus pais até Moab. Ora, Massada ergue-se não longe da estrada principal que liga o deserto da Judéia ao território de Moab, contornando a ponta sul do mar Morto. Na segunda passagem precisa-se que, depois de ter poupado Saul, Davi e os seus homens regressaram de novo ao seu refugio habitual, que, com toda a evidencia, se encontrava na região de Em-Gadi.

É verdade que nada prova que o “fortim” que servia de refugio a Davi era, de fato, Massada. No entanto, seria surpreendente que ele não tivesse conhecido e nunca lá tivesse ido. Se a fortaleza para qual Davi se retirou depois de ter posto os seus pais em segurança era efetivamente Massada, então a ordem expressa do profeta, impondo – lhe que deixasse aquele local para dirigir-se para o território de Judá, ganharia uma dimensão nova. O que constituía a força de Massada fazia também a sua fraqueza. O local era bem visível, fácil de localizar e de cercar na condição de se dispor de forças suficientes. Um grupo de homens assim sitiado era encontrado as maiores dificuldades em quebrar o cerco. Já numa primeira ocasião, Davi por pouco não foi capturado por Saul quando se entrincheira “no rochedo… no deserto de Maon” (1 Samuel 23, 24-27). Ao convidar Davi a abandonar Massada (se se tratava dessa “fortaleza”), é provável que o profeta quisesse evitar que ele caísse de novo na armadilha, na seqüência de uma traição.

Seja como for, restos de cerâmica encontrados em Massada indicam que o local era ocupado entre o século X e o século VII a.C. Construída pelo rei asmoneu Alexandre Janeu por volta de 100 a.C., a fortaleza foi inteiramente remodelada por Herodes, o Grande, que fez dela uma faustosa residência real. Mas Massada viria a ficar na historia como o ultimo refugio, em 73 a.C., dos judeus que se tinham revoltado contra Roma. Entre outros arranjos, Herodes tinha mandado talhar várias cisternas na rocha, a fim de captar as águas de escoamento provenientes das chuvas de inverno. Com efeito, durante as campanhas de escavações de 1963 a 1965 as violentas chuvaradas que caíram sobre Massada teriam podido encher essas cisternas em algumas horas se as condutas de água tivessem permanecido intactas.

Segundo Josué 15, 61, verifica-se que, além de Em-Gadi, Judá possuía cinco outras cidades no deserto: Bet-Arabá Medin, Sacacá, Nebsan e Ir-Hamela (cidade do Sal). Durante muito tempo, identificou-se esta cidade do sal com Qumran e as outras cidades locais das proximidades. Entretanto, segundo uma hipótese recente, parece que estas cinco localidades se teriam situado nas imediações de fontes, no litoral do mar Morto, a norte de Em-Gadi. Assim, a cidade do sal corresponderia a Ein ET-Turaba, Nebsn e Em El-Guveir, Sacacá a Qumran e Bet-Arabá a Ruim El-Bar. Foram lá descobertos vestígios de fortificações israelitas datando do século VIII ao século VI a.C., assim como a prova da passagem de João Hircano (134-104 a.C.). Não é impossível que estas cidades tenham feito então parte de uma linha de defesa destinada a proteger a fronteira oriental de Judá.

O mais conhecido desses locais é Qumran, em cujas proximidades foram descobertos os manuscritos do mar Morto, em 1947. A localidade de Qumran não é mencionada na Bíblia, pelo menos com este nome. Quanto à comunidade que aí se tinha instalado, e que está certamente na origem dos célebres manuscritos, parece que terá permanecido lá de 4 a.C. a 68 d.C. Este período corresponde ao da vida de Jesus e aos inícios da Igreja cristã. Embora a região do deserto da Judéia na qual os Evangelhos assinalaram a presença de João Batista (Lucas 1, 80) e de Jesus (Marcos 1, 12-13) corresponda ás proximidades de Jericó, não é inútil determo-nos um pouco sobre as semelhanças e diferenças que os ensinamentos da comunidade de Qumran poderiam apresentar relativamente aos de João Batista e de Jesus.

Nada sabemos sobre os inícios da comunidade do mar Morto, a não ser que ela era, provavelmente, constituída por essênios. As suas origens tanto podem remontar ao exílio da babilônia (587 a.C.) como à deposição do grande sacerdote Onias III (175 a.C), ou ao reinado do Macabeus Jônatas (160-143) ou Simão (143-134). Ocupada entre 160 e 134, parece que Qumran foi abandonada antes de ser de novo habitada sob João Hircano (134-104). Destruído por um tremor de terra em 31 a.C., o local viria a ser reocupado por volta do ano 4 a.C.

Os membros da comunidade definiam-se como os filhos da luz, titulo que Deus lhes tinha concedido ao escolhê-los para servi-lo e conduzi o combate contra os filhos das trevas. A sua doutrina religiosa era fundamentalmente dualista. Estavam convencidos de que Deus tinha momentaneamente entregado o mundo às forças do mal, mas que no fim dos tempos o Espírito de Verdade, atrás do qual se tinham enfileirado os Filhos da Luz, acabaria por triunfar sobre o Anjo das Trevas. Os membros da seita punham todos os seus bens em comum após um período de iniciação. Viviam em grupos de dez ou doze e tomavam as suas refeições em conjunto. Consideravam que a sua comunidade era uma resposta ao apelo de Isaías 40, 3: “Preparai no deserto um caminho para o Senhor.”

Os preceitos religiosos da comunidade de Qumran apresentam interessantes analogias com os de João Batista e de Jesus. É assim que, segundo Marcos 1, 3, João se apresenta como o precursor anunciado por Isaías 40, 3. Quanto a Jesus, viria a reunir um grupo de doze discípulos que tomavam as suas refeições em comum. O seu ensino dá a entender que os tempos presentes são dominados pelas forças do mal, notadamente quando exclama: “Eu via Satanás cair do céu como um raio” (Lucas 10, 18). Por outro lado, este ensino implica certo dualismo, em particular João 1, 5 e 8, 12, 2 Coríntios 6, 14 e 7, 1, e, sobretudo em Efésios 6, 12, onde se precisa que “temos de lutar [...] contra os Principados, Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares”.

É grande a tentação de procurar laços de parentesco espiritual entre a comunidade de Qumran e o cristianismo. Foi-se mesmo ao ponto de afirmar que Jesus e João Batista eram essênios. No entanto, as semelhanças entre os dois movimentos não devem encobrir as diferenças, que são igualmente importantes. Não encontramos nada nas regras de Qumran que lembre o batismo de arrependimento administrado uma vez por todas por João. Por outro lado, ao passo que os membros da comunidade eram puros que tinham o dever de amar os filhos da luz e de odiar os filhos das trevas, Jesus ensinava o amor dos inimigos (Mateus 5, 44) e não hesitava em mostrar-se em companhia de pecadores (Marcos 2, 15-17). Provavelmente não foi para encontrar-se com a seita de Qumran que Jesus se retirou para o deserto da Judéia, mas antes para lá refletir sobre os perigos de conduzir o seu rebanho numa terra hostil. Este deserto apresenta-se, de fato, como um quadro ideal para imaginar o pastor que deixa o seu rebanho protegido numa cerca a fim de ir à procura da ovelha que se tresmalhou (Lucas 15, 4).

Massada.

Massada é um dos lugares altos da história do povo de Israel. Foi lá que no fim da revolta de 67-73 d.C., algumas centenas de judeus opuseram uma derradeira e heróica resistência ao ocupante romano. Embora o fato não esteja especificado na Bíblia, não é impossível que Davi lá tenha encontrado refugio. Massada representa, por outro lado, uma das obras-primas arquiteturas e artísticas da Judéia da época herodiana, ao mesmo tempo em que testemunha a fria determinação dos sitiantes romanos. As escavações confirmam neste ponto o relato de Flávio Josefo (século I d.C.): Inacessibilidade do lado do mar Morto, salvo pela vereda da Serpente, e construção de uma rampa de assalto a oeste.

Qumran.

Qumran, tal como acontece com Massada, também não é mencionada na Bíblia, a menos que ela corresponda a Sacacá ou Ir-Hamela (cidade de Sal) Josué 15, 61-62. Contudo, tal como em Massada, descobertas feitas em Qumran a partir do fim da segunda Guerra Mundial permitiram compreender melhor certos aspectos do mundo no qual o cristianismo nasceu. A existência, no século I a.C., da seita judaica dos essênios era conhecida desde a Antiguidade. Flávio José em particular descreve o seu modo de vida e apresenta-os como uma das três grandes componentes do judaísmo da época, juntamente com os saduceus e os fariseus: os documentos e os objetos encontrados no próprio Qumran e nas grutas vizinhas não fizeram, portanto, mais do que confirmar o que já se sabia sobre esta comunidade. No número das descobertas arqueológicas figuravam importantes pedaços do Antigo Testamento em hebraico “manuscritos do mar Morto”, cuja cópia remonta ao século I a.C.

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