O Simbolismo do deserto

A exceção do episódio da saída do Egito, o período da vagueação no deserto é, incontestavelmente, aquele que de toda a história de Israel, mais marcou a imaginação dos autores da Bíblia. Não apenas este período é descrito no Êxodo, nos Números e no inicio do Deuteronômio, mas é objeto de múltiplas alusões em todo o Antigo Testamento. Para o salmista (Salmos 95, 8-9), a caminhada no deserto constituía uma advertência:

Não torneis duros vossos corações como em Meriba,

Como no dia de massa, no deserto,

Quando os vossos pais Me provocaram,

Me provocaram e puderam ver as minha ações.

O salmo 106, por seu turno, consagra 20 versículos a denunciar a desobediência dos hebreus no tempo da sua estrada no deserto.

Em contrapartida, Jeremias evoca essa época comparando-a à união de Deus e do seu povo:

Lembro-Me da tua fidelidade

No tempo da mocidade,

Do amor dos teus desposórios,

Quando me seguias no deserto…

Esta caminhada no deserto é por vezes identificada com um período de iniciação e quando Amós (5, 25) interpela o povo nestes termos: “porventura, ó casa de Israel, ofereceste-Me sacrifícios e oblações, no deserto, durante quarenta anos?”, é a verificação de um fato, muito mais do que um pergunta, que deve ver-se nesta interrogação. Parece que o objetivo do profeta era o de lembrar-se dos seus contemporâneos que a estada no deserto dos seus antepassados tinha ido uma dimensão normativa, na medida em que os principais sociais e morais, do mesmo modo que os preceitos religiosos que lhe tinham sido propostos nessa época, não lhes tinham sido impostos à força.

Jeremias 35, 1-11 alude aos recabitas, essa seita judaica que se esforçava por perpetuar aquilo a se convencionou chamar o “ideal do deserto”. Esses homens, que viviam em tendas, abstinham-se voluntariamente de construir casas, de plantas vinhas e de beber vinho. Embora nos faltem informações sobre as origens desta comunidade, o seu modo de vida e os seus princípios morais nem por isso são menos significativos do poder exercido sobre os espíritos por tudo o que o deserto podia representar.

Durante o exílio na Babilônia, a imagem do deserto cristalizava à sua volta a esperança dos deportados de verem, finalmente, terminadas as suas provações como os tempos gloriosos da saída do Egito. Há o apelo de Isaias (40, 3):

Preparai no deserto

Um caminho para o Senhor,

Aplanai no estepe

Uma estrada para o nosso Deus. 

Há também a visão da imensidade de areia que desabrocha à revelação da gloria de Deus (Isaías 35, 1-10):

O deserto e a terra alegrar-se-ão,

A terra desolada exultará e florescerá.

Florescerá como flor de narciso,

Alegrar-se-á com jubilo e alegria…

Porque as águas jorraram no deserto

E as torrentes na estepe.

A terra queimada converter-se á em lago,

E a terra árida em fontes.

No covil dos chacais

Crescerão canas e juncos…

Por ali passarão os remidos

E voltarão os que o Senhor tiver libertado.

Chegarão a Sião cantando cânticos de triunfo.

No Novo Testamento, Paulo refere-se a alguns episódios da estada no deserto a fim de pôr de sobreaviso a comunidade de corinto contra toda a fraqueza. Quando diz: “O povo sentou-se para comer e beber e levantou-se para folgar” (1 Coríntios 10, 7ss), não faz mais do que evocar o escândalo do bezerro de ouro (Êxodo 32, 6). Quando acrescentava que “caíram num só dia vinte e três mil” e evoca os que “pereceram pelas serpentes”, aludes à maneira como a idolatria e o deboche são condenados em Números 25, 1-18 e ao episodio da serpente de bronze (Números 21, 5-9). Este ultimo episodio é ainda mencionado no Evangelho de João: “Assim como Moisés levantou a serpente do deserto, assim também tem de ser levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que n’Ele crer tenha a vida eterna” (João 3, 14-15).

Assim, a imagem do deserto, muito particularmente Negueb e Sinai, implica uma dupla simbologia na Bíblia. Evoca um período normativo, período de desobediência que foi igualmente o de um primeiro amor fiel e de um ideal levado até o ponto mais alto. Para uns, os mais realistas, é provável que esta nostalgia da estada no deserto tivesse nascido do desencantamento da vida urbana geradora de impostos, de trabalhos servis e de injustiça social. Para os outros, por inconfortáveis que possam ter sido as suas condições de vida, aquela estada no deserto representava um vida de disciplina e de rigor, de estudo e de fé absoluta em Deus. Deuteronômio 8,3 lembrava à geração do deserto: Deus afez-te sofrer e passar fome; depois, alimentou-te esse maná que não conhecias e que os teus pais também não conheceram para te ensinar que o homem não vive somente de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor”.

No que se refere ao lugar onde Moisés recebeu os dez mandamentos, ater-nos-emos à tradição que o situa no Djebel Musa, no Sul da península do Sinai. Outras hipóteses foram avançadas a este respeito. Elas variam em função das diferentes reconstituições do itinerário do Êxodo.

O Negueb tira o seu nome de uma palavra hebraica de origem incerta. Pode acontecer que ela derive do verbo nagav, que, em hebraico pós-bíblico, significa “dessecar-se”. No Antigo Testamento, este nome designava uma região árida de contornos mal definidos, situada a sul da montanha de Hebron. É aqui que 1 Samuel 27, 10 alude ao Negueb de Judá, ao Negueb de Jeremeel e ao Negueb dos cineus. Josué 15, 21-32, enumera 29 cidades de Judá (com as suas aldeias) situadas no Negueb, cidades cuja localização nem sempre é fácil de determinar. Acontece igualmente, no Antigo Testamento, que a palavra “Negueb” seja utilizada indicar o seu, por oposição aos outros pontos cardeais. Em Daniel 11, o termo é, curiosamente, bastante e empregado para designar o Egito.

Situado a sul da montanha de Hebron. O Negueb é uma vasta região em forma de triângulo, cuja orla ocidental corre ao longo da fronteira egípcia, do golfo de acaba à faixa de Gaza. A região divide-se em quatro grandes partes. A leste, a Arabá é um vale alcantilado que continua a fenda do mar Morto ao golfo de Acaba. A sul, o território interior de Elat é constituído por um maciço montanhoso. O limite entre as duas outras partes, os Negueb central e setentrional, é marcado pelo Naal Zin.

Arad

Arad ocupava, na vertente sudeste das colinas de Hebron, uma posição estratégica que controlava a estrada de Bersabéia para a região de Arabá. A implantação era dupla e incluía uma cidade baixa, habituada de 3000 a 2650 a.C., e uma cidade alta, ocupada do século XII ou XI ao século II a.C. Por outro lado, a Bíblia, tal como outras fontes, parece indicar que havia duas cidades com este nome. Alguns especialistas localizam em Tel Malata a Arad conquistada por Josué no século XIII a.C. (Números 21, 1-3). No século X, Salomão fez de Arad uma cidade fortificada, na qual as escavações arqueológicas permitiram trazer à luz os vestígios de um templo. Este parece possuir pontos comuns o primeiro Templo de Jerusalém, tal como ele é descrito em 1 Reis 6. Os dois santuários apresentam uma divisão tripartida e incluem um vestíbulo precedido de duas colunas (as de Jerusalém eram de bronze; ver 1 Reis 7, 15-22). O equivalente do santo dos santos no terriplo de Arad abrigava uma estela sagrada que ainda exibe os vestígios de tinta vermelha.

O Negueb setentrional

O Negueb setentrional subdivide-se em três zonas. A primeira delas, que continua a planície costeira, estende-se a sul do Naal Sicma, entre a margem do Mediterrâneo e as colinas calcárias que rodeiam Bersabéia. É uma planície de loess que se eleva em encosta suave, após o amplo cordão de dunas que rodeia o litoral até a sua franja oriental, onde atinge uma altitude média de 200 metros. O loess endureceu à superfície sob o efeito da chuva e a água de escoamento escorre para as torrentes cujas margens, periodicamente arrasadas por cheias brutais, são impróprias para a cultura. Em contrapartida, nas depressões onde a água pode ser captada, nas depressões onde a água pode ser captada em reservatórios é possível praticar a criação de gado. Esta zona não parece ter sido habitada de modo permanente, a não ser nas proximidades do litoral, perto da foz dos cursos de água. É esse o caso de Tel Sera, Tel Haror e Tel Saruen.

Tel Haror é a antiga Gerar. Esta cidade é mencionada três vezes no Gênesis, duas das quais a propósito da esposa de um patriarca que suscitara a cobiça de um soberano estrangeiro. Ocupada desde a Idade do Bronze, Gerar estava na estrada que ligava o litoral a Bersabéia e a Láquis. Gênesis 26 relata que na seqüência de uma fome Isaac tinha ido ter Abimelec, o soberano de Gerar, igualmente designado sob o titulo de rei dos filisteus (sem duvida porque se tratava de uma região aonde os filisteus viriam a instalar-se mais tarde, por volta do século XII a.C.). Por outro lado, Gênesis 25, 11 diz-nos que Isaac se encontrava em Lahai-Roi, um lugar não identificado situado perto de Cades (Gênesis 16, 14). Na medida em que Gênesis 26 e Gênesis 25, 11 tratam do mesmo acontecimento, podemos supor que nesta época a fome empurrava as pessoas quer para o Egito, quer para o Norte. Abraão escolhera a primeira solução (Gênesis 12, 10-19), mas Isaac, tendo recebido a ordem de permanecer em Canaã, dirigiu-se para Gerar, a Norte, onde abundavam as nascentes. A narrativa bíblica relata que ele mandou escavar um poço antes de regressar a Bersabéia.

Em Gênesis 20, que descreve a estada de Abraão em Gerar, os acontecimentos apresentam uma certa semelhança com os de Gênesis 26. Contudo, não parece que a viagem tenha sido motivada pela fome. Por outro lado, se o rei Gerar é já Abimelec, não se faz menção dos filisteus, a não ser no fim do capitulo 21, onde podemos ler: “Abraão viveu durante muito tempo na terra dos filisteus” Gênesis 21, 25-33 parece implicar que o patriarca tenha regressado seguidamente a Bersabéia. Gerar e as cidades vizinhas viriam a ser, depois, o teatro de uma vitória de Asa, rei de Judá (908-867).

Siclag é precisamente uma das cidades vizinhas de Gerar. Identifica com Tel Sera, por uns, e com Tel Halif, a 15 quilômetros a noroeste de Bersabéia, por outros, Siclag é a cidade cujo comando Davi recebeu na época em que se pusera sob a proteção de Aquis, rei de Gat (1 Samuel 27, 6). Era também a partir de lá que, preparando-se para tomar o poder, no caso de Saul ser vencido pelos filisteus, ele organiza expedições mortíferas contra os amalecitas e outras tribos instaladas no Negueb (1 Samuel 27, 8-12). Durante estas operações, não deixava nenhum sobrevivente, a fim de que pudesse testemunhar contra ele. Quando Davi se movimentou para o monte Guilboa, aonde viria a desenrolar-se o confronto decisivo durante o qual Saul, vencido pelos filisteus, viria a encontrar a morte, os amalecitas aproveitaram a sua ausência para atacar Siclag. No seu regresso da batalha, na qual não tinha participado (1 Samuel 29, 3-11), Davi encontrou a cidade em chamas e vazia dos seus habitantes. De imediato, foi em perseguição dos agressores, à cabeça de um destacamento de 600 homens. Cerca de 200 deles, esgotados pela marcha forçada, abandonaram a perseguição ao fim de 25 quilômetros, no Naal Besor. As informações fornecidas por um espia permitiram a Davi surpreender os amalecitas precisamente na altura em que celebravam a sua vitória (1 Samuel 30, 9-20). Em seguida, contra a opinião dos que tinham efetivamente participado nos combates e que achavam que lhes cabia por direito a totalidade dos despojos capturados, Davi decidiu, num gesto de solidariedade, fazer também deles beneficiar os 200 homens que não tinham conseguido passar além do Naal Besor (1 Samuel 30, 21-24).

A segunda grande parte do Negueb setentrional é constituída por um planalto marcado por pequenas depressões. A cidade principal é Bersabéia, a sudoeste da qual se amontoa a mais vasta concentração de dunas que atualmente se pode encontrar em Israel. Esta zona arenosa é cortada em duas pelo vale de Naal Besor, ao sul do qual a paisagem de dunas é fechada por um maciço de colinas calcárias. Este maciço é, por sua vez, atravessado de leste para oeste pelo Naal Bersabéia, a norte do qual as colinas se confundem gradualmente com os contrafortes da montanha de Hebron. A própria Bersabéia está situada num pequeno vale, à beira do Naal que tem o seu nome. Mais a leste, o terreno abate-se para formar duas bacias, a de Bersabéia e a de Arad, um pouco mais a leste. Outrora estas duas cidades estavam ligadas por uma linha de cidades fortificadas, no número das quais se encontravam Tel Masos e Tel Malata cuja identificação com os lugares bíblicos permanece incerta.

É incontestavelmente à sua posição geográfica que Bersabéia deve o ter-se tornado a capital da região. Situada no cruzamento das estradas que ligam o Negueb à planície costeira, à Sefela, à montanha de Hebron e à Arabá, encontra-se perto de duas bacias onde, apesar da fraca média anual das chuvas (200 milímetros), foi sempre possível praticar a agricultura.

Como já observamos, Bersabéia aparece no texto bíblico como lugar de residência dos patriarcas (Gênesis 21, 31-34; 22, 19; 26, 23). Tudo leva a crer, igualmente, que Isaac se encontrava lá (Gênesis 26, 33; 28, 10) quando, aproveitando a ausência de Esaú, que tinha partido para a caça, Jacó obteve pela astúcia a benção paterna que cabia por direito ao seu irmão mais velho (Gênesis 27, 1-29). Nada sabemos acerca do local onde Esaú ia caçar, nem da caça de que seu pai era apreciador: Se tivermos em conta o fato de rebeca, que tinha entrado no jogo de Jacó, ter preparado dois cabritos destinados a seu esposo (Gênesis  27, 9), acabamos por pensar que poderia tratar-se de cabras selvagens. Com efeito, estas desciam no inverno para certas zonas do Negueb, onde as chuvas favoreciam a vegetação. Pelo contrário, no verão regressavam à montanha de Hebron ou às encostas da Arabá.

A este respeito, as palavras pronunciadas por Isaac, quando abençoou cada um de seus filhos (Gênesis 27, 28-39), são reveladores do contraste que existia entre as férteis do norte de Bersabéia e os espaços áridos do Sul. Jacó foi abençoado nestes termos:

Que Deus te conceda o orvalho do céu

E a fertilidade da terra

Trigo e vinho em abundância!…

Quanto a Esaú, teve de contentar-se com isto que lhe foi dito:

Eis que…

A tua casa será privada da fertilidade da terra

E do orvalho que desce dos céus.

Para escapar à vingança de Esaú, Jacó foi então obrigado a fugir para Harran (Gênesis 28, 10). Só viria a rever Bersabéia quando lá parou no caminho para o Egito, onde ia encontrar-se com o filho José (Gênesis 46, 1). Foi nesta cidade que recebeu a garantia de que, no seu regresso do Egito, os seus descendentes iriam formar um grande povo. Esta promessa, assim como o lugar onde foi formulada, permite supor que esta localidade iria constituir a extremidade meridional do país que, segundo 1 Samuel 3, 20, deveria estender-se de “Dan a Bersabéia”.

Embora, posteriormente, Bersabéia não venha a ser mencionada na Bíblia com muita freqüência, as raras alusões de que é o objeto não deixam de ser reveladoras da sua importância.

Os dois filhos de Samuel, juízes em Israel, exerciam lá as suas funções (1 Samuel 8, 2). Joás, rei de Judá, cuja mãe era originaria da cidade (2 Reis 12, 1), mandou lá profanar os “lugares altos” (2 Reis 23, 8). Depois do exílio, a cidade e os seus arredores foram reprovados pelos judeus regressados da Babilônia (Neemias 11, 27). Esta última indicação foi confirmada pelas escavações arqueológicas. Tel Sheva, na extremidade da aglomeração moderna, é provavelmente o local da cidade antiga destruída no século VIII.

A sudoeste de Bersabéia, Tel Masos pode corresponder à antiga Horma. Foi lá que no tempo de Moisés, israelitas que tinham querido penetrar na Terra Prometida, sem a permissão de Deus, foram desbaratados pelos amalecitas e pelos cananeus, “que habitavam sobre o monte” (Números 14, 45). Tel Masos está situada na orla das colinas de Hebron, entre a bacia de Bersabéia e a de Arad. O fato de esta localidade se encontrar no lugar da antiga Horma parece confirmado por Números 21, 1-4 e 33, 40. O rei de Arad, prevenido da chegada dos israelitas, atacou-nos e fez prisioneiros. Mas os homens de Josué ripostaram destruindo as localidades da região. Arad, onde escavações permitiram descobrir um templo e óstracos (pedaços de terracota com inscrições), é ainda mencionada na Bíblia na lista dos soberanos derrotados durante a conquista (Josué 12, 14).

Entre os outros pontos estratégicos da região na época bíblica, convem citar Aroer, a sudeste de Horma. Esta cidade pertencia a Judá (Josué 15, 22, lendo “Aroer” por “Adada”). Foi para lá que Davi enviou uma parte dos despojos capturados aos amalecitas (1 Samuel 30, 28).

A bíblia alude raramente à terceira parte do Negueb setentrional. É uma região montanhosa, cuja estrutura pregueada está orientada de nordeste para sudeste. Em alguns pontos, os anticlíneos, profundamente desgastados pela erosão, deixam aparecer voragens abertas semelhantes a crateras. Nos tempos bíblicos, uma estrada ligava Aroer (Adada) ao sul. Corria ao longo do Naal Aroer ao local onde atualmente se situa Dimona e depois obliquava por uma garganta para sudoeste antes de atingir o atual local de Sede Boquer. Parece que, sob o reinado de Salomão, esta estrada era protegida por uma série de fortificações, porque era a via que conduzia a Asion-Gaber no golfo de Acaba. É possível que esses fortes tenham sido destruídos durante as operações conduzidas por Sheshonk contra Judá e Israel, sob o reinado de Roboão (1 Reis 14, 25-28).

O Negueb central

O Negueb central divide-se em duas partes: o Alto Negueb e as bacias centrais. Como o nome indica, o Alto Negueb inclui o maciço mais elevado de toda a região. A cadeia está orientada de leste-nordeste para oeste-sudeste, com picos que culminam a 1033 metros. Na linha montanhosa principal, a erosão escavou a cratera Ramon, uma fenda com o comprimento de 40 quilômetros, a largura de 8 quilômetros e a profundidade de 500 metros. A oeste, a região é montanhosa. A leste, a altitude é menor e aparecem as planícies.

 No Antigo Testamento, a localidade mais importante da região é Cades-Barnea, no contraforte ocidental do alto Negueb, nas proximidades do Sinai. Dividem-se as opiniões quanto à localização de Cades-Barnea. Os especialistas hesitam entre Ein el-Kudeirat e Ein Kudeis. A diferença física entre estes dois locais foi perfeitamente definida por C. H .J. de Geus: “Em Kudeis encontra-se em terreno descoberto e, no estado atual das coisas, é pobre em água e em todos os outros recursos naturais. Ein el-Kudeirat, que é abundante em água e pastagens para cabras e ovelhas, situa-se no fundo de um vale estreito e profundo. “Não é nossa intenção intervir aqui no debate. No entanto, apesar da fertilidade de Ein el-Kudeirat, Geus precisa que não há nenhuma razão válida para não admitir que Ein Kudeis poderia muito bem ser a antiga Cades (cujo nome antigo teria conservado).

Qualquer que tenha sido a sua localização, Cades desempenhou, segundo o Antigo Testamento um papel capital durante o período de formação do povo de Israel. A primeira alusão significativa a Cades encontra-se em Números 13, 26. Ao cabo da sua missão em Canaã, os espiões “foram ter com Moisés, Arão e toda a assembléia dos filhos de Israel, no deserto de Faran, em Cades”. Já em Números 12, 16 e 13, 3 tinham sido precisados que os israelitas se encontravam neste deserto de Faran. Por outro lado, Deuteronômio 1, 19-26 confirma, de fato, que os espiões tinham partido de Cades.

No seu regresso a Cades, dez espiões em doze fizeram um relatório desfavorável sobre a Terra Prometida. Para castigar essa falta de fé, Deus decidiu que nenhum dos homens com mais de vinte anos presentes em Cades, à exceção de Josué e Caleb, entraria no país. O próprio Moisés caia assim sob a alçada daquela proibição.

Na medida em que é dado por certo que os diferentes acontecimentos relatados em Números 16-19 se desenrolaram efetivamente em Cades, é-nos possível reconstituir o seu encadeamento. Tudo começara por uma revolta dirigida por Coré, Datan, Abiram e On. Estes homens censuravam a Moisés não só o não tê-los feito entrar na Terra Prometida, mas também o ter reservado para si próprio e para o seu irmão Aarão o exclusivo da função sacerdotal. Durante o confronto que se surgiu, um sismo tragou os chefes da rebelião, ao mesmo tempo em que o fogo do céu exterminava os seus partidários (Números 16, 31-35). Depois, uma epidemia de peste veio dizimar aqueles de entre os israelitas que se tinham lamentado sobre a sorte de Coré e dos seus amigos.

Foi em Cades que Moisés bateu no rochedo para dele fazer jorrar água quando o povo se lamentou da sede (Números 20, 1-13). Foi também de lá que ele enviou emissários ao rei de Edom, em ordem a obter um direito de passagem sobre o seu território (Números 20, 14-21).

Os acontecimentos de Cades iriam marcar profundamente a tradição bíblica. É ao incidente do rochedo batido por Moisés que o salmista se refere quando exorta os fiéis no Salmo 95, 7-9:

Quem dera ouvísseis hoje a Sua voz:

“Não torneis duros vossos corações como em Meriba,

Como no dia de Massa, no deserto,

Quando os vossos pais Me provocaram,

Me provaram e puderam ver as Minhas ações.”

Meriba e Cades constituem apenas uma e a mesma localidade (ver Números 20, 13 e 27, 14). Quanto à revolta de Abiram e ao incidente do rochedo de Meriba, são igualmente mencionados no Salmo 106, 16-17 e 32-33.

Deuteronômio 1, 46 precisa que os israelitas efetuaram “uma longa estada” em Cades. Embora o Antigo Testamento não dê nenhuma precisão a esse respeito, os exegetas deduziram daí que foi ao longo deste período que o povo se afirmou na sua fé e na sua unidade nacional antes de partir à conquista da Terra Prometida. Com efeito, parece que, para os autores da Bíblia, Cades representa sobretudo uma advertência contra a tentação de pôr Deus à prova ou de duvidar da sua benevolência. Sem que se faça explicitamente menção de Cades, essa advertência nem por isso deixa de ser lembrada no Novo Testamento: “Tende cuidado, irmãos, que nenhum de vós tenha um coração mau e incrédulo a ponto de se apartar do Deus vivo. Admoestai-vos uns aos outros todos os dias [...] a fim de que nenhum de vós se endureça seduzido pelo pecado.” (Hebreus 3, 12-19).

Depois de terem deixado Cades, os israelitas dirigiram-se para o monte Hor, aonde Aarão viria a morrer. Embora as opiniões se dividam quanto à localização exata do monte Hor, estudos recentes tendem a situá-lo na estrada que, partindo de Cades, acompanha os contrafortes do Alto Negueb para descer de novo a Arabá, correndo ao longo do Naal Zin. Nesta hipótese, poderia encontrar-se quer no Djebel es-Saba, um grupo de colinas que culminam a 451 metros, quer em Imaret el-Koreisa. Os mapas modernos de Israel identificam-no com o monte Zin, a 50 quilômetros a leste dos dois locais anteriores. Neste caso, se Obot (Números 21, 10) corresponde a Mesad Rael, o episódio da serpente de bronze teve provavelmente lugar não longe do Naal Zin (números 21, 4-9).

A Arabá

Esta região do Negueb inclui duas localidades que desempenharam certo papel nos tempos bíblicos. Uma das cidades, Asion-Gaber, cujo nome atual é Tel el-Califa, encontra-se na margem jordana do golfo de Acaba. Embora o seu nome figure no itinerário do Êxodo (Números 33, 36 e Deuteronômio 2, 8), a primeira alusão significativa só aparece na época dos grandes trabalhos empreendidos por Salomão (1 Reis 9, 26). Este equipara uma frota em Asion-Gaber, em ordem a estabelecer relações comerciais com os países do Médio Oriente situados a sul do golfo de Acaba. 1 Reis 9.26 precisa que Asion-Gaber pertencia a Edom, o que parece confirmar a suserania exercida por Salomão sobre este povo. Escavações feitas em Tel el-Califa revelaram que a cidade tinha sido incendiada após a morte de Salomão. Josafá, rei de Judá (870-846 a.C.), controlou, por sua vez, a região e mandou reconstruir Asion-Gaber. Foi lá que um dos seus barcos naufragou (1 Reis 22, 47-49). Posteriormente, embora o Antigo Testamento não faça mais alusão a esta cidade, precisa que Ozias (785-733) mandou construir Elat (2 Reis 14, 22). Faltam-nos informações sobre a localização exata de Elat, mas o Deuteronômio 2, 8 dá a entender que não devia situar-se longe de Asion-Gaber. Elat viria a cair nas mãos dos edomitas sob o reinado de Acaz (733-727), neto de Ozias (2 Reis 16, 6).

A região de Tel el-Califa é particularmente inóspita. Foi pelo menos a impressão com que ficaram os arqueólogos que levaram a cabo uma primeira serie de escavações pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Tiveram de enfrentar ventos violentos vindos de norte pela Arabá e freqüentes tempestades de areia prejudicaram os trabalhos. O local encontra-se no limite meridional das nascentes de água doce. Marca igualmente a ponta extrema do avanço israelita em terra edomita. Quanto aos ventos violentos que sopram de norte, foram eles, sem dúvida, a causa do naufrágio do navio de Josafá.

A segunda localidade, Timna, que se encontra a 20 quilômetros a norte de Tel el-Califa, não é mencionada na Bíblia (há outra Timna na Sefela). Nem por isso deixa de apresentar certo interesse para os especialistas do Antigo Testamento, desde a descoberta de um templo de Hathor, entre 1969 e 1974. Desde sempre, Timna foi famosa pelas suas minas de cobre. Quanto ao templo de Hathor, atravessou várias épocas, das quais uma das mais interessantes é a dos madianitas (século XII a.C.). O templo incluía um santuário em forma de tabernáculo, no qual se encontrava uma serpente de cobre de cabeça dourada. A possível relação entre este santuário madianita e a fé primitiva de Israel é surpreendente,

A tradição bíblica não deixa qualquer dúvida sobre os laços que uniam Moisés aos madianitas. Depois de ter fugido do Egito (Êxodo 2, 11-15), ele veio refugiar-se na Terra de Mádian, onde desposou a filha do sacerdote madianita Jetro. Depois de Moisés ter feito sair o seu povo do Egito, o seu sogro veio ter com ele e reconheceu o Deus de Israel (Êxodo 18, 10-12). Depois de ter recebido os dez mandamentos, Moisés depositou-os na Arca da Aliança que foi ela própria colocada num santuário em forma de tabernáculo (Êxodo 40, 16-21). Posteriormente, Moisés ergueu uma serpente de bronze a fim de livrar o povo atacado por répteis venenosos. Embora seja impossível estabelecer uma relação de causa e efeito entre todos estes elementos, não poderá tratar-se, em caso nenhum, de simples coincidências, sobretudo se tiver em conta os laços existentes entre Moisés e o sacerdote madianita Jetro.

O Sinai

Os israelitas passaram numerosos anos nos desertos do Negueb e do Sinai. Contudo, as localidades onde eles estacionaram são muito difíceis de identificar, tanto mais que as opiniões dos peritos continuam divididas quanto ao itinerário do Êxodo. A este respeitos, há pelo menos, duas hipóteses quanto à localização do mar que se abriu miraculosamente diante do povo. O mesmo acontece quanto à localização exata do monte Sinai.

A primeira questão que se põe é a de saber se o monte Sinai da bíblia se encontrava na ponta sul da península ou muito mais a norte, na região de Cades. Alguns especialistas identificam0-no como o Djebel Halal, que se levanta a 60 quilômetros a oeste de Cades. Esta teoria é, a priori, infirmada pelo texto bíblico que sublinha que o monte Sinai (também chamado Horeb) estava situado a uma distância considerável de Cades. Deuteronômio 1, 2 precisa, de fato: “são onze dias de jornada desde o Horeb até Cades-Barnea, passando pelo monte Seir.” Seria uma duração demasiado longa para um tão curto trajeto. Por outro lado, quando o profeta Elias foge para escapar à cólera de Jezabel (1 Reis 19, 1-8), precisou de “quarenta noites” para ir da região de Bersabéia ao monte Horeb. Mesmo que não tomemos esta indicação em sentido literal, nem por isso deixa de indicar um lapso de tempo superior aos escassos dias necessários para percorrer os 130 quilômetros que separam Bersabéia do Djebel Halal.

Se admitirmos, pelo contrário, que o monte Sinai (Horeb) se encontrava a sul da península, a dificuldade em localizá-lo nem por isso ficará resolvida. Embora a tradição o coloque no Djebel Musa, outras localizações foram propostas. É designadamente, o caso do Djebel Serbal, a 35 quilômetros a noroeste do Djebel Musa. Esta hipótese é sustentada pelo egiptólogo alemão Karl Richard Lepsius, que explicou, depois de ter visitado a região em 1845: O Djebel Musa é invisível de longe. Perdido no meio da massa montanhosa, não se distingue nem pela sua atura, nem pela sua forma, nem pela sua posição, nem por nenhuma outra particularidade que pudesse ter-lhe valido o título de “Monte (do deserto) de Sin” da parte das tribos ou dos egípcios. Em contrapartida, o Serbal, que, de muito longe e de todos os lados, se impõe à vista, domina incontestavelmente o conjunto da cadeia montanhosa setentrional. “Ao mesmo tempo em que serve de ponto de referência às populações dispersas da região, sempre atraiu a atenção e suscitou o interesse dos viajantes…” Não nos compete dirimir a questão, tanto mais que a escolha do Djebel Serbal choca, por outro lado, contra sólidos argumentos. Seja como for, o que é indiscutível é a importância capital do monte Sinai (Horeb) na região da Bíblia. Foi ao monte Horeb que Moisés foi chamado para libertar os israelitas da escravidão (Êxodo 3, 1-12)  e foi para lá que ele os conduziu após a saída do Egito (Êxodo 19). Depois, quando ele partira, para receber os dez mandamentos, o povo, cansado de esperar, renegou o seu Deus e Fabricou o bezerro de ouro (Êxodo 32, 1-6).

Assim, o monte Sinai é ao mesmo tempo o símbolo da misericórdia de Deus e da desobediência dos homens:

Fizeram um bezerro de ouro no Horeb

E adoraram um ídolo de meta fundido,

Trocando assim a Sua glória pela estátua

De um touro que come feno.

(Salmos 106, 19-20.)

Segundo outra tradição do Antigo Testamento, o Sinai é uma montanha que tremeu ao mesmo, tempo que as outras quando “Deus surgiu dos campos de Edom” (Juízes 5, 4-5). Foi no monte Horeb que Elias se refugiou sob o reinado de Acab (873-851) e foi lá que Deus lhe falou, não no meio de raios e trovões, como no tempo de Moisés (Êxodo 19, 16), mas no “murmúrio de uma leve brisa” (1 Reis 19, 12). Esta relação entre Moisés e Elias, que aparece em Malaquias 3, 22-23, reencontra-se no Novo Testamento, por ocasião da transfiguração (Marcos 9, 2-8), quando, numa outra montanha, Moisés e Elias se juntam a Jesus para lhe falarem “da Sua morte, que ia dar-se em Jerusalém” (Lucas 9, 31).

Arad

Arad ocupava, na vertente sudeste das colinas de Hebron, uma posição estratégica que controlava a estrada de Bersabéia para a região de Arabá. A implantação era dupla e incluía uma cidade baixa, habituada de 3000 a 2650 a.C., e uma cidade alta, ocupada do século XII ou XI ao século II a.C. Por outro lado, a Bíblia, tal como outras fontes, parece indicar que havia duas cidades com este nome. Alguns especialistas localizam em Tel Malata a Arad conquistada por Josué no século XIII a.C. (Números 21, 1-3). No século X, Salomão fez de Arad uma cidade fortificada, na qual as escavações arqueológicas permitiram trazer à luz os vestígios de um templo. Este parece possuir pontos comuns com o primeiro templo de Jerusalém, tal como ele é descrito em 1 Reis 6. Os dois santuários apresentam uma divisão tripartida e incluem um vestíbulo precedido de duas colunas (as de Jerusalém eram de bronze; ver 1 Reis 7, 15-22). O equivalente do santo dos santos no terriplo de Arad abrigava uma estela sagrada que ainda exibe vestígios de tinta vermelha.

Bersabéia

O nome Bersabéia está indissoluvelmente ligado à historia de Abraão, Isaac e Jacó. Nos nossos dias, o local do acampamento dos patriarcas, está recoberto, segundo todas as probabilidades, pelas construções da cidade moderna. Quanto ao Tel Bersabéia, cuja ocupação remonta ao século XI a.C., foi transformado em praça forte sob o reinado de Salomão. Desmantelado no século X, verossimilmente pelo egípcio Sheshonk, esta foi posteriormente reerguida das suas ruínas para tornar-se de novo uma das cidades fortificadas da fronteira meridional de Judá. Destruída de novo por Senaqueribe por volta de 701 a.C., jamais voltaria a encontrar o seu passado esplendor.

Timna

As minas de cobre de Timna era exploradas no 4.° milênio. Após uma interrupção de mais de 1000 anos, a extração e o trabalho deste metal recomeçaram no século XIII a.C. as décadas que se seguiram, os egípcios manifestaram um interesse persistente pela cidade. Mas esta se tornou propriedade dos madianitas, aliados dos israelitas na seqüência do casamento de Moisés com a filha de Jetro, o sacerdote de Mádian (ver Êxodo 3, 1). Foi nesta época que um templo de Timna, dedicado pelos egípcios à deusa Hathor, foi transformado em santuário madianita. Este apresentava analogias surpreendentes com o tabernáculo israelita do tempo de vagueação no deserto.

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