Do norte ao sul, a Transjordânia divide-se em cinco partes. A mais setentrional dessas zonas, limitada a oeste pela cadeia do monte Hermon, é um vasto planalto que se estende do Jarmuk as imediações de Damasco, situada a nordeste. Imediatamente a norte do Jarmuk encontra-se uma região muito fértil, que o Antigo Testamento denomina a terra de Basan ou, mais simplesmente, Basan, ou seja, a “terra lisa”, portanto rica e sem pedras. Para além desta conotação geográfica, o termo “bashân” evoca boa alimentação, abundancia e força. Quando faz alusão aos inimigos que o assaltam de todos os lados, o salmista compara-os aos “touros de Basan” (Salmos 22, 13), ao passo que Amós chama “vacas de Basan” às mulheres afortunadas da Samaria que se abandonam ao luxo e à ociosidade (Amós 4, 1).

Um pouco mais a sul, entre o Jarmuk e o uádi Zarqa (Jaboq), encontra-se a, terra de Galaad. No Antigo Testamento, acontece, por vezes, que esta denominação seja atribuída a um território mais vasto, tanto para norte como para sul, onde desce então até o uádi Mujib (Arnon). Por razões de precisão geográfica, parece, entretanto, preferível atermo-nos à primeira definição da região. Assim delimitada, a terra de Galaad apresentava características físicas análogas às do montes arborizados de Guilboa e da Samaria setentrional. É isso que explica que os israelitas, que se tinham estabelecido lá, tenham podido manter-se, ao passo que os outros povos viram na impossibilidade de resistir às pressões das nações vizinhas. Ramot de Galaad situa a leste da massa montanhosa, nem por isso deixou de permanecer, no século IX, um objeto de litígio entre Israel e a Síria. Foi teatro de, pelo menos, duas grandes batalhas (1 Reis 22, 1-3; 2 Reis 8, 28).

A terceira parte da Transjordânia, compreendida entre o Zarqa (Jaboq) e o uádi Mujib (Arnon), corresponde à terra de Amon. Também aqui se trata de uma simplificação geográfica, porque, em certos períodos, os amonitas invadiram territórios situados mais a norte. Anteriormente, esta região, atribuída a Rúben, tinha pertencido a Seon, rei dos Amorreus, que foi vencido pelos israelitas sob o comando de Moisés (Números 21, 21-30). Foi no tempo do rei Mesa (Século IX a.C.), um soberano enérgico e poderoso, que os amorreus puderam estender a sua fronteira para norte. Com efeito, esta fronteira era muito instável, e, ao longo dos séculos, o território delimitado pelo Zarqa e pelo uádi Mujib mudou de nome varias vezes. A verdade é que esta região apresenta uma paisagem de falésias recortadas e de ravinas, tendo ao centro um planalto particularmente fértil.

A quarta parte da Transjordânia, entre o uádi Mujib (Arnon) e o uádi Hasa (Zered), constitui o essencial da antiga terra de Moab. Dominado por um planalto que culmina a 1.000 metros, tem 56 quilômetros de comprimento e 40 quilômetros de largura. Abundantemente irrigada pelas torrentes das montanhas, esta zona é tão fértil na época em que o seu soberano era vassalo dos reis de Israel, no século IX, pagava-lhe um tributo anual de “cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros” (2 Reis 3, 4). Na historia de Rute, diz-se que a fome que grassava na região de Belém de Judá tinha incitado Elimelec e a sua família a refugiar-se entre os moabitas (Rute 1, 1-2). Embora situada mais a leste do que as colinas de Hebron e de Belém, a terra de Moab, assim como o conjunto da Transjordânia, conhece invernos frios marcadas por quedas de neve e geadas, assim como Estios caracterizados por manhãs brumosas e nebulosas.

A sul do uádi Hasa (Zered), o território que se estende até o golfo de Acaba, corresponde ao Antigo território de Edom, cuja espinha montanhosa culmina a 1700 metros. A leste desta cadeia encontra-se um planalto, cuja altitude varia entre 1.000 metros e 1100 metros. Os invernos são rudes, com períodos de nevadas e geadas que podem persistir até meados de março ou inicio de abril. G. A. Smith relata os comentários de viajantes que tinham ficado impressionados pela semelhança de paisagens entre este planalto e certas regiões da Europa. Sublinha, notadamente, uma observação de Doughty para quem “a charneca calcaria, a tal altitude, lembra a Europa; há bacias recobertas de carvalhos verdes que parecem parques”. No mapa onde figuram os vários tipos de vegetação que existiam em Israel nos tempos bíblicos, pode ver-se que, enquanto a oeste do Jordão a floresta mediterrânica pára a alguns quilômetros a norte de Bersabéia, a leste, no planalto de Edom, ela desce até cerca de 150 quilômetros mais a sul.

A narrativa bíblica.

No Antigo testamento, a Transjordânia é mencionada pela primeira vez a propósito da historia de Jacó e de Esaú. É a este último que a Bíblia atribui à fundação de Edom (Gênesis 36, 6-8). Quando Jacó regressou a Canaã, depois de ter fugido de casa de Labão, seu sogro, que vivia em Harran (Gênesis 29-31), passou pela Transjordânia, talvez na intenção de reconciliar-se com o seu irmão. Lobão alcançou-o na montanha de Galaad, provavelmente entre o Jarmuk e o uádi Zarqa (Jaboq), onde os dois homens concluíram uma aliança (Gênesis 31, 43-54). Depois, Jacó prosseguiu a sua viagem e para o sul. Foi no vau do Jaboq que, durante toda uma noite, ele lutou com uma misteriosa personagem, combate a seguir ao qual ficou, a saber, que doravante ficaria a chamar-se Israel (Gênesis 32, 22-32). Se tiver em conta a ordem segundo a qual os acontecimentos são relatados pelo texto bíblico, parece que Jacó se terá reconciliado com Esaú pouco tempo depois da travessia do Jaboq, porque voltou em seguida para Sucot, perto da confluência deste rio com o Jordão (Gênesis 33, 17). Por fim, foi estabelecer-se em Siquém (Gênesis 33, 18), depois de ter atravessado o Jordão e seguido o curso do uádi Faria.

A Transjordânia é de novo mencionada na última parte dos Números, onde se diz que, de Cades, Moisés enviou emissários ao rei de Edom, a fim de lhe pedir autorização para tomar a “estrada real” que atravessava os seus estados (Números 20, 17). Tendo sido rejeitada tal petição, os israelitas tiveram de contornar o território pelo sul, antes de obliquar para o norte, a fim de passar a leste da linha de fortificações que balizavam a fronteira oriental de Edom (Números 21, 4 e 10-13).

Entretanto, Números 33, 41-49, que recapitula as etapas percorridas pelos israelitas desde a sua saída do Egito, diz que estes teriam atravessado livremente o território de Edom. Alguns críticos sugeriram que esta passagem podia aludir a uma migração parcial que se teria verificado antes do século XIII, numa época em que a Transjordânia era ainda muito pouco habitada, a menos que se tratasse de uma peregrinação comemorativa que teria tido lugar, ulteriormente, numa altura em que as relações com Edom e Moab eram amigáveis. Seja como for, infirmando certas teorias anteriores, as descobertas arqueológicas efetuadas durante os últimos vinte anos tendem a provar que estes dois reinos existiam antes do século XIII. Sob o comando de Moisés, os israelitas atingiram “o vale que está nos campos de Moab, no cimo do Fasga, que domina o deserto” (Números 21, 20). Foi daí que foi enviada a mensagem a Seon, rei dos amorreus (o termo “amorreu” talves seja um sinônimo de “cananeu”), a fim de que ele permitisse que os israelitas passassem pela estrada real. Não apenas Seon recusou como reuniu o seu exército em Jasa, onde foi vencido pelos hebreus, que ocuparam o território desde o Arnon até ao Jaboq. Embora numerosos autores situem o Fasga a oeste do território de Ámon, a noroeste de Madaba, não foi possível localizar Jasa, nem o lugar exato onde estes acontecimentos se desenrolaram. Tentou-se situar Jasa nas proximidades de Dibon, a 25 quilômetros a sul de Madaba, mas parece mais lógico pensar que os israelitas atacaram Seon pelo Oeste. Seja como for, a verdade é que, na seqüência desta vitória, os hebreus retomaram a estrada do Norte e derrotou Og, rei de Basan (Números 21, 33-35). Estes dois feitos de armas tiveram tal ressonância na memória coletiva de Israel que acabaram, juntamente com alguns outros combates gloriosos, por simbolizar aquelas batalhas durante as quais Deus triunfava pelo seu povo. É assim que Salmos 135, 10-11 evoca como Deus

[...] derrotou grandes nações

E suprimiu reis poderosos:

Seon, rei dos amoritas,

E Og, rei de Basan.

Depois Israel levantou as suas tendas naquilo a que números 22, 1 chamam as “estepes de Moab”, provavelmente no vale do Jordão, em frente de Jericó. Esta situação inquietou Balac, rei de Moab, a ponto de ter mandado procurar o adivinho Balaão, a fim de que ele pronunciasse o anátema contra os israelitas. No plano topográfico, convem precisar que estes tinham estabelecido o seu acampamento a 40 quilômetros a norte do Arnon, que marcava a fronteira setentrional do território de Moab (ver Números 22, 36). O episodio da missão de Balaão e da sua jumenta que falava não deixou de suscitar animadas controvérsias sobre a maneira como convem interpretar os acontecimentos sobrenaturais relatados pela Bíblia. A verdade é que, para grande desengano de Balac, o adivinho o abençoou o povo cuja maldição lhe tinha sido encomendada:

Como são formosas as tuas tendas, ó Jacó!

As tuas moradas, ó Israel!

Estendem-se como os vales,

Como pomares ao longo de um rio;

Deus plantou-as como aloés,

Como cedros nas margens das águas.

(Números 24, 5-6)

E Balaão concluiu amaldiçoando Moab e anunciando que ele seria tal como Edom, submetido a Israel (Números 24, 17-18).

Naquele caso, Balaão agira como um verdadeiro profeta, pois que apenas pronunciara palavras ditadas pelo Deus de Israel. Mas, seguidamente, como os israelitas se entregaram ao deboche com mulheres de Moab e adoraram Baal-Fegor, o deus local (Números 25, 1-5), foi Balaão que foi responsabilizado pelo fato: “foram elas que, instigadas por Balaão, arrastaram os filhos de Israel a trair o Senhor com Baal-Fegor” (Números 31, 16). Esta apostasia de Israel viria a ser muito severamente julgada pela tradição bíblica, notadamente pelo salmista:

Ligaram-se a Baal-Fegor

E participaram nos sacrifícios a mortos.

Irritaram-n’O com os seus crimes,

Por isso, a peste irrompeu no meio deles.

(Salmos 106, 28-29)

Balaão déia conservar essa má reputação na literatura judaica do mesmo modo que no Novo Testamento, onde os falsos profetas e os seus discípulos são condenados nestes termos pelo apostolo Pedro: “Abandonaram o caminho reto e extraviaram-se Np caminho de Balaão… que amou o salário da iniqüidade.” (2 Pedro 2, 15). Assim, os acontecimentos das estepes de Moab marcaram profundamente o simbolismo religioso, tanto judaico como cristão.

Foi desta região, do cimo do monte Nebo, que Moisés pôde avisar a Terra Prometida, cuja entrada lhes estava proibida (Deuteronômio 34, 6). Quando se deu a partilha do território (Josué 13), parece que a tribo de Manassés terá recebido a terra de Galaad e de Basan, ao passo que Rúben e Gad partilharam entre si a região situada entre o Arnon e Jaboq. Convem, todavia, notar que a fronteira setentrional de Gad ia “até os confins do mar de Quineret” (Josué 13, 27). Quanto a Rúben e a Gad, verifica-se que sentiram grandes dificuldades em resistir à pressão das nações vizinhas. Gênesis 49, 19 declara o contexto das “Bênçãos de Jacó”:

Gad será assaltado pelo inimigo,

Mas ele assaltá-los-á por sua vez.

E em Deuteronômio 33, 6 é Moisés quem declara:

Que Rúben viva e seja imortal;

Que a sua descendência seja inumerável!

Com efeito, sobre tudo em Galaad que os israelitas conseguiram manter-se por mais tempo.

Jefté, um dos grandes juízes em Israel (juízes 11, 1-12, 6), nasceu nesta região. Era galaadita e tinha sido expulso de sua casa. Refugiado na terra de Tob, a nordeste da Transjordânia, torna-se chefe de bando. Quando os amonitas atacaram Galaad, os seus concidadãos suplicaram-lhe que viesse em seu auxilio e colocaram-se sob o seu comando. Durante a batalha que travou contra os amonitas, Jefté formulou o voto imprudente de oferecer em holocausto, se saísse vitorioso, a primeira pessoa que viesse ao seu encontro na altura do seu regresso. Ora, aconteceu que essa pessoa foi a sua própria filha única. Durante as conversações que tinham precedido os combates, ele tinha lembrado ao rei dos amonitas, que reivindicava o território compreendido entre o Arnon e o Jaboq, a maneira como os israelitas tinham vencido Seon e os seus amorreus. Depois de ter vencido os amonitas, Jefté organizou uma expedição punitiva contra os Efraimitas, que, embora residindo em Galaad, não tinham participado, por razões que permaneceram obscuras, na luta contra o inimigo comum.

Durante o reinado de Saul, os amonitas tentaram de novo invadir os territórios israelitas da Transjordânia. Naãs, o seu rei, cercava Jabes de Galaad (1 Samuel 11), uma cidade que se encontrava provavelmente no local atual de Tel el-Maglub, à beira do uàdi Jabis (o curso de Carit). A posição que ele ocupava a norte do Jaboq, no centro de Galaad, permite pensar que Naás tinha já ocupado todo o Sul do território ou que o seu exercito, subindo o vale do Jordão, e depois o do uádi Jabis, dispunha-se a fazê-lo. A brilhante intervenção de Saul salvou a cidade e granjeou-lhe o reconhecimento da população. Esse reconhecimento viria a manifestar-se quando os habitantes de Jabes de Galaad, atravessando o Jordão, foram procurar o cadáver mutilado de Saul que os filisteus tinham pendurado nos muros de Bet-San (1 Samuel 31, 11-13).

Foi, de resto, para esta parte da Transjordânia que Abner, chefe do exercito de Israel, se retirou após a derrota e a morte de Saul em Guilboa. Foi lá, na cidade de Maanaim, mesmo junto do Jaboq, que ele proclamou Isboset, filho de Saul “rei de Galaad, de Aser, de Jezrael, de Efraim, de Benjamim e de todo o Israel” (2 Samuel 2, 9). Não há duvida de que essa realeza, pelo menos no que se refere à parte ocidental do território, era puramente teórica. A verdade é que o reinado de Isboset terminou com o seu assassínio, que sobreveio pouco tempo depois de Joab ter matado Abner em Hebron. Mais tarde, quando Davi quebrou o poder filisteu, assegurou o controle do conjunto da Transjordânia, desde Damasco a norte até Edom a sul. Na altura da revolta de Absalão, optou também ele, por refugiar-se em Maanaim. É provável que contasse com a lealdade da população local, que ele libertara da opressão dos estados vizinhos. A batalha decisiva entre o exército de Davi e o de Absalão desenrolou-se na floresta de Efraim. Contrariamente ao que se poderiam pensar, estas floresta não se encontrava, verossimilmente, a oeste, mas a leste do Jordão. Ela devia, sem duvida, o seu nome à presença dos Efraimitas, que se tinham instalado em Galaad, exatamente aqueles que tinham entrado em conflito com Jefté.

O reinado de Salomão terminou com o estilhaçar do próprio reino. Não apenas Edom e Damasco se tinham revoltado (1 Reis 11, 14-25), como, depois do cisma, os sírios fizeram aliança com Judá e invadiram o norte da Galiléia. Sob o reinado de Omri e da maior parte do de Acab (primeira metade do século IX a.C.), Moab ficou submetido a Israel. Esta situação é confirmada pelas inscrições da “Pedra de Moab”, descoberta em 1868, em Diban, a antiga Dibon (Números 21, 30). Trata-se de uma estela cujo texto, atribuído a Mesa, rei de Moab, nos diz que Omri oprimiu durante muito tempo esta terra, porque Camos, o deus local, estava irritado contra os seus fiéis. Estas indicações concordam com as de 2 Reis 3, 4, que precisam que Moab pagava a Israel um tributo anual, sob forma de lã e de cordeiros. Informam-nos igualmente de que Mesa se revoltara contra Acab e devastara as cidades de Atarot e de Nebo. Por outro lado, estas inscrições confirmam a presença dos Gaditas a norte do Arnon: “E os homens de Gad habitavam a terra de Atarot desde os tempos mais antigos”. Foi, sem duvida, com o objetivo de restaurar a autoridade perdida por seu pai que Joram, filho de Acab, fez aliança com os reis de Judá e de Edom contra Moab. Os seus exércitos contornaram então a extremidade meridional do mar Morto, a fim de atacar os moabitas pelo leste. Contrariamente às fronteiras do Norte e do Sul, protegidas pelos profundos vales do Arnon e do Zered, a de leste, apesar das fortificações de que provavelmente estaria guarnecida, não estava ao abrigo de uma ofensiva proveniente do deserto que não constituía, rigorosamente falando, um obstáculo natural intransponível. Quando os exércitos coligados vieram a sofrer da falta de água, Eliseu ordenou, depois de longamente instalado, que se escavassem valas. No dia seguinte, de manhã, estas estavam cheias de água que os reflexos do sol-nascente tingiam de uma coloração semelhante à do sangue. Convencidos de que os assaltantes se tinham matado entre si durante a noite, os moabitas lançaram-se a assalto, mas os aliados estavam prontos para o combate e infligiram-lhes uma pesada derrota. Os moabitas refugiaram-se então em Qui-Haroset, onde o seu rei, cercado por todos os lados, escapou ao desastre total oferecendo seu filho mais velho em holocausto. Impressionados por este sacrifício e temendo as conseqüências que daí poderia advir para eles, os israelitas retiraram-se para além do Jordão.

A Transjordânia é muitas vezes mencionada sob, o reinado dos soberanos da casa de Omri. Por outro lado, Galaad era a terra natal de Elias, inimigo jurado de Acab (1 Reis 17, 1), e foi na torrente de Carit, na margem leste do Jordão, que os corvos vieram alimentar o profeta durante a seca. Por outro lado, esta região foi o teatro de varias campanhas conduzido por Acab contra Damasco para o controle de Ramot de Galaad, situada na orla oriental do planalto central. Foi durante a morte (1 Reis 22). Quanto a seu filho Joram, foi ferido ao tomar a cidade aos sírios. Enquanto se recompunha dos seus ferimentos em Jezrael, um dos discípulos de Eliseu dirigiu-se a Ramot de Galaad e conferiu a unção real a Jeú, o chefe dos exércitos. Esta iniciativa marca precisamente o inicio da revolta dos profetas, que viria a terminar com o massacre de todos os membros da dinastia de Omri e de Acab.

Entre os outros acontecimentos que se desenrolaram na Transjordânia, após o cisma, convem nota essa campanha conduzida por Amasias, rei de Judá, durante a qual “derrotou dez mil edomitas no vale do Sal. Conquistou a cidade de Sela e deu-lhe o nome de Joteel, nome que conserva ainda hoje” (2 Reis 14, 7). A respeito de certas objeções, identificou-se Sela com Petra. Ambos os nomes significam “rochedo” e a cidade encontrava-se ao fundo de uma garganta estreita, o Siq. Tendo em conta a configuração do terreno, não é de espantar que Amasias tenha tido de tomá-la de assalto (literalmente “pelas armas”), o que constituía uma proeza notável. 2 Crônicas 25, 12 que relata igualmente o acontecimento, contenta-se com precisar que os judeus conduziram 10.000 edomitas ao cimo do rochedo, donde os precipitaram no vazio. Atualmente, Petra PE, sobretudo, conhecida pelas fachadas dos seus monumentos, que os artistas esculpiram entre o Século IV e o século II a.C., nas próprias falésias de arenito vermelho. Esta cidade foi à capital dos monarcas nabateus até o século I d.C., e o apostolo Paulo residiu lá durante vários anos.

Na primeira metade do século VIII a.C., Judá e Israel conheceram várias décadas de prosperidade, durante as quais reforçam a sua presença na Transjordânia. Os amonitas pagavam um tributo a Ozias (2 Crônicas 26, 8), ao passo que Jeroboão II controlava um território que se estendia para além de Damasco (2 Reis 14, 23-28). Entretanto, o poderio assírio desenvolvia-se e, em 733/2, Tiglate-Pileser III apoderou-se de Galaad e do Norte da Galiléia. Em 588, quando Nabucodonosor marchou contra o reino de Judá, numerosos judeus foram refugiar-se nas terras de Ámon, de Moab e de Edon (Jeremias 40, 11). Após a queda de Jerusalém, regressaram à sua terra para apoiar a ação do governador Godolias. Mas este foi assassinado, verossimilmente por ordem de Baalis, rei dos amonitas (Jeremias 40, 14), e os edomitas tiraram partido desta situação de crise para se apoderarem de uma parte do território de Judá. Foi este reino de Edom, que se tornou a Iduméia, que João Hircano (135-104) converteu à força ao judaísmo. Herodes, o Grande, descendia de uma dessas famílias iduméias às quais tinha sido imposta a conversão.

A Transjordânia no tempo de Jesus.

Durante os séculos que precederam o nascimento de Jesus, a Transjordânia tinha importantes modificações políticas. Entre o Arnon e o Jaboq, e provavelmente até o Jarmuk, estendia-se a Peréia, a “terra de além”, segundo a sua etimologia grega. A parte meridional desta região estava essencialmente povoada por judeus que se tinham instalado ao mesmo tempo em que a família dos Tobíades. Embora situada a leste do Jordão, a Peréia constituía, para os judeus, uma ligação territorial entre a Judéia e a Galiléia. Permitia, assim, aos habitantes de Jerusalém visitar os seus correligionários do Norte, sem ter de passar pela Samaria. Bastava-lhes tomar a estrada da margem oriental.

A norte da Peréia encontrava-se a Decápole, cujo nome provinha das dez cidades fundadas pelos gregos a partir do fim do século IV a.C. (deka poleis significa “dez cidades”, em grego). As mais célebres dessas cidades eram Filadélfia (no local de Raba dos amonitas, atualmente Amã, capital da Jordânia), Gerasa (a moderna Jerash, que conservou magníficos vestígios romanos), Pela (onde os cristãos se refugiaram antes da destruição de Jerusalém no ano 70), Gadara (local provável da cura de “Legião”) e Scytópolis (a Bet-San da Bíblia, e também a única cidade da Decápole na margem ocidental do Jordão). Damasco fazia igualmente parte desta liga de dez cidades. A maior parte desta região, que tinha sido submetida pelos soberanos Asmoneus (século II e I a.C.), escapou ao controle de Jerusalém após a conquista romana, em 63 a.C., e, sobretudo após a morte de Herodes, o Grande, no ano 4 a.C. Apesar da presença de comunidades judaicas, as cidades da Decápole eram essencialmente cosmopolitas e helenísticas de cultura e de região.

A exceção da região de Gadara e de Hipos, que tinham sido ligadas à Síria, todo o território situado a norte do Jarmuk viria a constituir, entre 4 a.C. e 34 d.C., a província governada pelo tetrarca Filipe. Era nesta província que se encontrava Cesaréia de Filipe, assim denominada para distingui-las da Cesaréia mediterrânica. A cidade tinha sido constituída perto de uma das nascentes do Jordão, no local onde existia uma gruta dedicada ao “deus Pã e às ninfas”. Antes de se chamar Cesaréia, tinha o nome de Panéias, denominação que parece ter sido conservada sob a forma de Banias, que designa a localidade atual. A leste da Peréia, da Decápole e da tetrarquia de Filipe, a vasta zona que englobava o território de Edom, a sul, e se estendia para norte até damasco, era domínio dos nabateus. Estes povos do deserto, cuja implantação em Edom tinha, provavelmente, começado a partir do século VI a.C., viria a desempenhar um papel preponderante na Transjordânia, notadamente sob o reinado do seu rei Aretas IV (9 a.C. – 40 d.C.).

Se nos ativermos à estrita cronologia dos fatos, a Transjordânia foi o teatro do ministério de João Batista, antes de ser o Jesus. Segundo Marcos 1, 14, Jesus só começou a pregar depois da prisão de João. Se bem que os Evangelhos não digam nada sobre o lugar do seu encarceramento, Flávio Josefo situa-o em Maqueronte, uma fortaleza reconstruída por Herodes, que, em ordem de importância, vinha imediatamente depois de Massada. Dominado o mar Morto, a 14 quilômetros do Arnon, este palácio fortificado erguia-se na orla oeste da montanha, donde, em tempo claro, se pode avistar o monte das Oliveiras e uma parte de Jerusalém. O episodio célebre da dança de Salomé (cujo nome não figura nos Evangelhos), na seqüência da qual a jovem mulher reclamou a cabeça de João Batista (Marcos 6, 14-29), deu-se num banquete que Herodes Antipas oferecera aos seus e às autoridades civis e militares da Galiléia. Podemos pensar que Herodes, que reinava ao mesmo tempo sobre a Peréia e a Galiléia, ou terá organizado a sua recepção em Maqueronte ou então terá mandado trazer a cabeça de João Batista para Galiléia, para o local onde se desenrolavam as festividades (talvez Tiberíades).

Se excetuarem as “grandes multidões, vindas [...] da Decápole” (Mateus 4, 25), o primeiro acontecimento marcante do ministério de Jesus na Transjordânia foi à cura do endemoninhado denominado “Legião”. O local exato onde foi feito o exorcismo é incerto. Mateus 8, 28, que alude a dois homens possuídos pelos demônios, situa-o na região dos gadarenos, ao passo que Marcos 5, 1 e Lucas 8, 26 o colocam na dos gesarenos. Este ultimo lugar não pode se identificado. Em contrapartida. Gadara encontra-se a 10 quilômetros a sul do mar da Galiléia, não longe do Jarmuk. Seja como for, é verossímil que o incidente se tenha desenrolado na Decápole, quanto mais não seja porque, a partir do momento em que se viu liberto dos seus demônios, o homem “retirou-se e começou a apregoar na Decápole o que Jesus fizera por ele” (Marcos 5, 20). Por outro lado, é provável que o local fosse habitado por gentios, porquanto, depois de terem deixado o endemoninhado, os espíritos impuros foram refugiar-se numa vara de porcos, animais que os judeus abominavam.

Cesaréia de Filipe viria a ser testemunha de um dos momentos capitais do ministério de Jesus. Foi lá que ele perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que Eu sou:” (Marcos 8, 27). E os discípulos responderam que o tomavam por João batista, Elias ou um dos profetas. Como Jesus insistisse, Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Cristo. Tempos depois ao dirigir-se de Cafarnaum para Jerusalém, Jesus entrou na região “para além do Jordão” (Marcos 10, 1), isto é, na Peréia, para lá ensinar.

Depois do dia do pentecostes, o acontecimento mais significativo para a Igreja nascente foi, sem duvida, a conversão de Saulo de Tarso, mais conhecido sob o nome de Paulo. A visão fulgurante que o cegou, mudando há mesmo tempo o curso da sua vida e a sorte da igreja, aconteceu quando ele se aproximava de Damasco (Atos 9, 3), onde se dirigia com a intenção de prender os judeus que se tinham convertido ao cristianismo. Atingido pela cegueira, teve de ser conduzido à cidade, onde ficou nesse estado até que Ananias, um cristão de origem judaica, veio ter com ele e o acolheu nestes Termos: “Saulo, meu irmão, foi o Senhor que me enviou esse Jesus que te apareceu no caminho em que vinhas, para recobrares a vista e ficares cheio do Espírito Santo”. (Atos 9, 17). O entusiasmo com que Pulo se pôs então a anunciar o Evangelho em Damasco confundiu todos os que tinham conhecido na época em que ele se encarniçava contra os cristãos. Decidiram então matá-lo. Mas ele fugiu de Damasco, descendo de noite num cesto pela muralha abaixo (Atos 9, 25). Mais tarde, numa das suas epistolas, Paulo viria a evocar ele próprio essa aventura: “Em Damasco, o etnarca do rei Arestas mandou guardar a cidade para me prender; então, desceram-me num cesto, por uma janela da muralha, e assim escapei às suas mãos” (2 Crônicas 11, 32-33). De fato, esta evocação pode igualmente referir-se a uma situação similar que se teria apresentado após o seu regresso da “Arábia”, onde se tinha refugiado (Gálatas 1, 17). Trata-se, na realidade, do reino de Nabatéia, para onde Paulo se retirou, talvez para meditar na solidão sobre a sua nova vida. Pode também suceder que ele tenha levado a sua pregação junto dos judeus de Nabatéia, atraindo assim a animosidade do rei Aretas, que teria procurado mandá-lo prender. A verdade é que nos faltam informações quanto à extensão dos poderes de Aretas em Damasco.