Geografia física

O Jordão retoma o seu curso ligeiramente a oeste da extremidade sul do mar da Galiléia, onde, ao longo dos séculos, a sua zona de saída se deslocou um tanto para norte. Numa distancia de 105 quilômetros em linha reta, o seu leito acompanha o fundo da linha de fratura siro-africana, antes de se perder no Mar Morto. De fato, a extensão real desta seção do rio é de 322 quilômetros, se tiverem em conta os múltiplos meandros que ele desenha no seu vale, cuja largura é de 5 quilômetros a 22 quilômetros. Tendo em conta as variações próprias das estações do ano e a importância relativa das chuvas, o curso do rio em si mesmo nunca ultrapassa os 31 metros de largura e os 3 metros de profundidade. As palavras do negro spiritual que proclamam que o Jordão é largo e profundo não correspondem, portanto, à realidade.

A 7 quilômetros a sul do mar da Galiléia, a junção do Jordão e do Jarmuk, o seu afluente de nordeste, determina uma zona triangular que, de todas as regiões do vale, foi a que sofreu as transformações mais radicais ao longo das últimas décadas. Uma central hidrelétrica, constituída entre 1927 e 1932, na confluência dos dois cursos de água, levou à implantação de toda uma serie de barragens e reservatórios. No lado ocidental do triangulo foi criado certo numero de explorações agrícolas, notadamente os kibutzim Deganya Alef, em 1909, Deganya Beth, em 1921, conferindo assim a terra e à paisagem o aspecto de um miniparaíso.

O estudo dos principais locais de habitação do 2.° milênio revela que a região já nessa época era favorável à agricultura. Contudo, a sul do triangulo, verifica-se que a implantação humana só era possível na medida em que a água chegava à quantidade suficiente dos vales que rasgavam as vertentes leste e oeste da depressão do Jordão. O mais importante desses vales é o de Bet-San, não apenas em virtude da sua extensão, mas também porque domina o acesso à planície de Jezrael. Nessa época abrigava um numero considerável de locais de habitação. Estes se estendiam igualmente para sul, tornado-se gradualmente mais raros ma margem do Jordão, entre o uádi Mali e o uádi Faria. O mesmo não acontecia na margem leste, onde várias aldeias se tinham estabelecido perto do leito inferior do Nar ez-Zerqua (Jaboq). O vale do uádi Faria constituía uma importante via de passagem leste-oeste, entre a depressão oriental e a montanha da Samaria. Mas como o seu curso se lançava numa garganta rochosa, antes de se perder em Pântanos salobros nas proximidades do Jordão, as implantações humanas eram pouco numerosas.

Convem notar que a sul do uádi Faria os locais de habitação eram raros e espaçados. A média anual das chuvas, que é apenas de 100 milímetros nas imediações do mar Morto, é igualmente muito fraca na parte meridional da montanha da Judéia. Jericó, a mais célebre cidade da região, deve essencialmente a sua existência à presença de uma nascente particularmente importante: os Árabes chamam-lhe “fonte do Sultão” e os judeus “fonte de Eliseu”, em virtude do Milagre operado pelo profeta (2 Reis  2, 19-22). Após a ascensão de Elias (2 Reis 2, 1-12), Eliseu recolhera o manto do seu mestre, batera com ele nas águas do Jordão e atravessara o rio a pé enxuto, dando assim a entender aos outros profetas que doravante era ele o seu chefe. Depois, tendo purificado a fonte de Jericó, lançando-lhes sal, declara: “Isto diz o Senhor: Fiz saudáveis estas águas e elas não mais causarão nem morte, nem esterilidade” (2 Reis 2, 21).

O curso sinuoso do Jordão termina no mar Morto, que a Bíblia denomina igualmente mar do Sal (Gênesis 14, 3). Atualmente, o mar Morto tem 80 quilômetros de comprimento e 17,5 quilômetros de largura. É um mar fechado, cujo nível médio se situa a – 400 metros. Essencialmente alimentado pela água do Jordão e de outros rios menor importância, o seu nível é equilibrado pela considerável saída de água provocada pela evaporação, a uma temperatura que varia entre os 40°C, em julho e agosto, e 20°C, durante os meses de inverno. A conjugação desta evaporação e da natureza geológica da região tem como efeito conferir à água um índice de salinidade de 26%, ao passo que o da maioria dos mares abertos não chega a ultrapassar os 3,5%. Daí resulta que dele está excluída qualquer forma de vida. É mesmo impossível nadar lá. O turista moderno, que, cansado de nadar de costas, se aventura a esboçar algumas braçadas, não apenas sente as maiores dificuldades em mover-se apenas como corre igualmente o risco de introduzir água muito salgada nos seus olhos, com todos os incômodos que isso implica.

Na parte meridional da sua margem oriental, a dois terços do seu comprimento, uma península avança pelo mar Morto adentro. É a Lissan. Coisa curiosa, a profundidade de água, que atinge 400 metros a norte desta língua, não ultrapassa 6 metros a sul. Temos boas razões para pensar que nos tempos bíblicos esta extremidade meridional não estava imersa e que as cidades da planície, notadamente Sodoma, se encontravam na orla desta zona seca.

A narrativa bíblica

Com efeito, os primeiros acontecimentos que o Antigo Testamento situa no vale do Jordão e à volta do mar Morto relacionam-se com essas cidades da planície. Na sua descrição do território dos cananeus, Gênesis 10, 19 menciona quatro dessas cidades: Sodoma, Gomorra, Adma e Ceboim. Quando Abraão o convidou a escolher a sua parte do território, Lot “viu toda a planície do Jordão que era inteiramente regada. Antes de o Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra, estendendo-se até Çoar, a planície era como o jardim do Senhor, com a terra do Egito” (Gênesis 13, 10).

Çoar era a última das cinco cidades da planície. Seduzido pela fertilidade do solo, Lot escolheu então o vale e “ergueu as suas tendas até Sodoma” (Gênesis 13, 12).

Nos nossos dias, a região de Sodoma já não merece, de fato, ser comparada ao “jardim do Senhor” e não é de espantar que os arqueólogos tenham durante muito tempo procurado encontrar as cidades da planície a norte do mar Morto, onde o oásis de Jericó oferece uma imagem mais conforme a este tipo de comparação. Com efeito, o litoral ocidental, a sul de Lissan, é abundantemente irrigado por cursos de água e nascentes. Foi isso que acabou por incitar a maior parte dos especialistas a considerar que esta região podia ser o local dessas cidades da planície. A presença de Lot em Sodoma, e depois a sua captura pelos quatro reis em guerra contra essas cidades, estiveram na origem da expedição organizada por Abraão, operação que iria levá-lo até Dan e depois para além de Damasco, para terminar pela libertação de Lot e pela derrota dos referidos reis (Gênesis 14, 1-16).

O acontecimento mais retumbante ocorrido nesta região foi, sem contestação, a destruição de Sodoma e Gomorra (Gênesis 19). Dois dos três mensageiros que tinham vindo ter com Abraão a Hebron (Gênesis 18) dirigiram-se em seguida a Sodoma, onde foram recebidos por Lot. Os habitantes da cidade, que tinham costumes perversos, exigiram então que ele lhos entregasse, porque desejavam ter relações sexuais com eles. Os dois homens defenderam-se, ferindo os agressores de cegueira. Na manhã seguinte, Lot e os seus puderam fugir antes de Sodoma e Gomorra terem sido destruídas por uma chuva de fogo e de enxofre. Salvaram assim a sua vida, à exceção da mulher de Lot, que foi transformada em estátua de sal porque se voltara para trás.

Diversas hipóteses, fundadas na particular configuração da região, foram propostas para tentar dar uma explicação para a destruição de Sodoma e Gomorra. Avançou-se, notadamente, a hipótese de as duas cidades terem podido ser imersas no momento em que o terreno abateu a sul da península de Lissan. Infelizmente, não somente essas duas cidades não foram engolidas pelas águas como tudo leva a crer que esta zona não estava ainda submersa no tempo das cruzadas. Se quiser absolutamente encontrar uma causa natural para catástrofe, seria, sem duvida, mais prudente tentar procurá-lá em qualquer sismo gigantesco que teria tido como efeito separar Sodoma de Lissan. Se tal foi o caso, e se o acontecimento teve testemunhas oculares, não é impossível que a memória coletiva dele tenha feito a base da historia de Sodoma e Gomorra, mesmo que se tenha verificado antes da época da Abraão e de Lot.

   Seja como for, o destino de Sodoma iria representar, na tradição bíblica, o próprio símbolo do julgamento divino fulminando o pecado. Já no século VIII, Amós evocava nestes termos as desgraças que se tinham abatido sobre Samaria (4, 11):

Causei no meio de vós uma confusão

Semelhante à de Sodoma e Gomorra.

É neste mesmo espírito que Isaías denunciava a perversidade de Jerusalém e dos seus dirigentes (1, 10):

Ouvi a palavra do Senhor,

Ó príncipes de Sodoma;

Escuta a lição do nosso Deus,

Povo de Gomorra. 

Quanto a Jesus iria igualmente referir-se a Sodoma para condenar a falta de fé do povo de Cafarnaum: “E tu, Cafarnaum, julgas que serás exaltada até ao Céu? Serás precipitada no inferno. Porque, se os milagres que em ti se realizaram tivessem sido feitos em Sodoma, ela ainda hoje subsistiria. Alias, digo-vos Eu, haverá mais tolerância no dia do juízo para os de Sodoma do que para ti” (Mateus 11, 23-24).

Jericó

O oásis luxuriante de Jericó, que o Antigo Testamento chama também “cidade das palmeiras” (juízes 3, 13), encontra-se a 13 quilômetros a nordeste do mar Morto. Tel es-Sultan, o local da Jericó bíblica, foi ocupado durante milhares de anos antes da chegada de Josué e ainda se pode ver uma torre de pedra que data no Neolítico pré-cerâmico, com perto de 7.000 anos. Apesar das escavações, os vestígios da cidade tomada por Josué ainda não foram encontrados. O mesmo sucede no que se refere à Guilgal, a localidade que tinha servido de base de apoio aos exércitos israelitas na altura da conquista de Canaã e onde Josué mandou levantar doze pedras após a travessia do Jordão (Josué 4, 19-24). Com hipótese, localizou-se com freqüência Guilgal em Khirbet el-Mefjer, o que poderia corresponder à descrição de Josué 4, 19, que a coloca a leste de Jericó. A Jericó bíblica e o presumível local de Guilgal encontram-se nas proximidades do uádi Makuk, ponto de partida de uma estrada que liga o vale do Jordão à montanha de Betel, e da cidade de Ai, que os israelitas foram inicialmente incapazes de submeter porque Acã, desobedecendo ás ordens recebidas, conservara uma parte dos despojos tomados em Jericó.

Quando se deu a partilha do território, Jericó dói atribuído a Benjamim (Josué 18, 21). Foi a partir desta “cidade das palmeiras” que os quenitas acompanharam os judeus para se instalarem a sul do deserto de Judá (juízes 1, 16). No tempo dos juízes, Jericó foi tomado por Eglon, rei de Moab (juízes 3, 12-13). Mas este encontrou a morte na seqüência de um estratagema imaginado por Adod, o Benjaminita, que se apresentou como tendo uma mensagem secreta para entregar ao rei. Como era canhoto, dissimulou encostada à sua coxa direita, uma espada que escapou à vigilância dos guardas. Quando se encontrou a sós com Eglon, Adod tirou a arma de sob a veste, atingindo-o mortalmente.

A historia de Davi comporta um incidente que teve Jericó com cenário. O soberano tinha enviado uma delegação para apresentar as suas condolências a Hanun, rei dos amonitas, cujo pai acabava de morrer (2 Samuel 10, 1-5). Mas Hanun tratou os embaixadores de maneira insultuosa, mandando-lhes rapar metade da barba e cortar uma parte das vestes. O texto precisa que Davi foi então juntar-se com os seus emissários em Jericó, que se encontra na estrada de Jerusalém a Amã, capital dos amonitas. Este gesto de benevolência da parte de Davi é significativo da sua lealdade para com os seus homens e do modo como ele sentira o ultraje que lhes tinha sido infligido. Foi também na região de Jericó que se deu a ascensão de Elias. Em 2 Reis 2 vemos como Elias e Eliseu se dirigiram de Guilgal, na montanha, a Betel e depois a Jericó. Aí atravessaram o Jordão a pé enxuto, depois, de Elias ter batido nas suas águas com o manto. Quando chegaram à outra margem, um carro de fogo arrebatou o profeta, ficando apenas em terra as suas vestes.

Depois de ter tomado e destruído Jericó, Josué voltara à cidade ao anátema: “Maldito seja diante do Senhor aquele que tentar reconstruir esta cidade de Jericó! Morra o seu primogênito, quando lhe lançar os primeiros fundamentos, e morra o último de seus filhos, quando lhe puser as portas!” (Josué 6, 26). Parece, entretanto, segundo o texto de Juízes 3 e 2 Samuel 10, que a cidade foi rapidamente reconstruída e ocupada por israelitas.  Contudo, a maldição de Josué não viria a ficar letra morta, portanto, sob o reinado de Acab (c. 873- 852), “Hiel de Betel reconstruiu Jericó. Ao lançar os seus alicerces, morreu-lhes Abiram, seu primogênito, e quando lhe pôs as portas, morreu-lhes Segub, o seu ultimo filho, conforme o Senhor predissera pela boca de Josué, filho de Nun” (1 Reis 16, 34). Tentou-se explicar este episodio dramático evocando uma antiga tradição dos habitantes de Jericó, que consistia em enterrar os seus mortos debaixo das suas causas em enterrar os seus mortos debaixo das suas casas. Todavia, é mais verossímil ver, neste caso, uma ressurgências dos costumes pagãos, revivificados sob o reinado de Acab, que impunham que se sacrificassem crianças quando se deu o lançamento dos alimentos de um edifício. Para além da menção dos “homens de Jericó”, que ajudaram Neemias a levantar de novo os muros e as portas de Jerusalém, a única outra referencia importante a Jericó no Antigo Testamento diz respeito ao assédio da capital por Nabucodonosor, em 587 (2 Reis 25, 4-7): foi na planície de Jericó que o rei Sedecias e a sua escolta, que tinham conseguido escapar da cidade atacada, foram alcançados e capturados pelos babilônios.

A Jericó do Novo Testamento não se encontrava no local de Tel es-Sultan, mas ligeiramente mais a sul, o lugar onde o uádi Qelt desemboca no vale do Jordão. Construída por Herodes, o Grande (em parte sobre as fundações asmonéia), e pelos romanos, a cidade que Jesus conheceu era uma estância de inverno muito freqüentada, em virtude da suavidade do seu clima. Os três primeiros Evangelhos, que apenas relatam uma única visita de Jesus no decurso do seu ministério, mencionam esta passagem em Jericó, tendo partido da Galiléia, desceu o vale do Jordão. Marcos assinala que ele curou o mendigo cego Bartimeu , quando partiu de Jericó (Marcos 10, 46-52), ao passo que Lucas situa o milagre na altura da sua chegada à cidade (Lucas 18, 35-43). Quando a Mateus, a sua versão concorda com a de Marcos, mas faz menção de dois cegos (Mateus 20, 29-34). Em contrapartida, Lucas é o único a contar a tocante história de Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, que era demasiado pequeno para ver Jesus, e, sem duvida, também demasiado impopular para se arriscar a misturar-se na multidão (Lucas 19, 1-10). Teve então a idéia de trepar a um Sicômoro. Foi nesta postura, pelo menos inesperada da parte de um homem da sua condição, que Jesus o avistou e compreendeu o seu desejo sincero de mudar de vida. Para surpresa e indignação dos que assistiam à cena, anunciou então que ficaria alojado em sua casa. Jesus vira com justeza, porquanto Zaqueu prometeu reembolsar no quádruplo os contribuintes, aos quais extorquira dinheiro indevidamente, e dar metade dos seus bens aos pobres. Foi então que Jesus declarou: “Veio hoje à salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois o filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.

É igualmente na região de Jericó que a tradição situa o ministério de João Batista, assim como o batismo e a tentação de Jesus. Os três primeiros Evangelhos não dão nenhuma precisão sobre o local onde João Batista pregava e batizava. Marcos contenta-se em falar do “deserto” e do “Jordão” (Marcos 1, 4-5), ao passo que Mateus indica que esse deserto era o da Judéia (Mateus 3, 1). Quando a João, menciona uma aldeia, “Betânia, além do Jordão” (João 1, 28), cujo local Orígenes não conseguiu encontrar, no inicio do século III. A presença de João batista na região de Jericó não deixa de estar implícito pelo fato de as multidões virem até ele da Judéia e de Jerusalém (Marcos 1-5). Jericó era, de fato, um ponto de passagem obrigatório da estrada que conduzia ao vale do Jordão. Nestas condições, é pouco verossímil que ele tenha escolhido um local situado mais a norte. A tradição fixou em El-Maghtas, a 9 quilômetros a lés-sueste de Jericó, o lugar do batismo de Jesus. No inicio do cristianismo, supunha-se que esse lugar se situa na margem oriental do Jordão. Seguidamente, convencionou-se colocá-lo na margem ocidental, a fim de evitar aos peregrinos o incomodo de terem de atravessar o rio. Foi também neste local que os israelitas penetraram em Canaã sob o comando de Josué e que Elias foi arrebatado para o céu. Este local simbolizava, assim, a ligação mística entre Elias, João Batista (de quem se dizia era Elias, Mateus 11, 14) e o próprio Jesus. Quanto ao Evangelho de João, ele precisa que, antes da ressurreição de Lázaro, Jesus passou algum tempo no lugar onde João tinha primeiramente batizado (João 10, 40).

Ao fazer-se batizar, Jesus escolhera identificar-se com todos os que vinham receber o batismo em sinal de arrependimento. Todavia, tal como ele é apresentado pelos evangelistas, o batismo de Jesus apresenta-se mais como um ato de consagração em ordem ao seu ministério. Após este gesto ritual, que lhe trazia a confirmação intima da benção divina e da sua vocação, o Espírito conduziu-o ao deserto, onde permaneceu 40 dias, tentado por Satanás (Marcos 1, 12-13). A tradição situou o lugar da tentação não longe do batismo, na região árida que rodeia Jericó. É o monte da Tentação, perfeitamente visível de Tel es-Sultan, em cujo nome Jesus viu serem-lhe oferecidos todos os reinos do mundo na condição de aceitar prestar homenagem a Satanás (Mateus 4, 8-10). O nome árabe desta montanha, Deir el Quarantal, deriva daquele que os cruzados lhes tinham dado, monte da Quarentena, evocando os 40 dias da tentação.

O vale do Jordão

Depois de ter deixado Jericó, e quando se sobe o vale do Jordão para norte, chega-se à cidade de Tel Deir Alla, a antiga Sucot, a saída do vale do uádi Zarqa. Esta cidade é mencionada em juízes 8, 4-9 e 13,  16. Tendo vencido os madianitas no vale de Harod, Gedeão perseguiu-os para sul, ao longo do vale do Jordão. Tendo chegado diante de Sucot, pediu aos notáveis da cidade que lhe fornecessem viveres paras os seus homens. Mas a sua petição foi rejeitada nestes termos: “Tens já acaso em teu poder o punho de Zeba e de Salmuna, para que possamos dar à tua tropa?” Estes notáveis temiam, sem duvida, as represálias dos dois reis de Mádian, no caso de aquela operação, conduzidas pelos israelitas, falhar. Num primeiro tempo, Gedeão contentou-se em dirigir-lhes ameaças, e depois, quando regressou vitorioso, pôs as suas ameaças em execução e fustigou-os com espinheiros do deserto e silvas.

Nos tempos bíblicos, a orgulhosa cidade de Bet-San levantava-se sobre um promontório que dominava a estrada mais freqüentada da planície de Jezrael, no cruzamento do vale do Jordão e do de Bet-San. Era a esta cidade que os homens da tribo de José aludiam, notadamente quando se lamentava do fato de o seu território ser demasiado arborizado, ao passo que “todos os cananeus que habitam a planície possuem carros de ferro, tanto os de Bet-San e suas cidades dependentes como os que vivem no vale do Jezrael” (Josué 17, 16). Com efeito, a tática posta em ação “pelos de Bet-San e suas cidade dependentes”, em ordem a controlar as estradas da região, consistia em espalhar os seus carros e a sua cavalaria no terreno. A configuração deste convinha perfeitamente a tal método de combate, contra o qual os israelitas não dispunham de nenhum meio eficaz. Não é, pois, surpreendente a noticia de que no tempo dos juízes, “Manassés não expulsou os habitantes de Bet-San, com as suas cidades dependentes” (juízes 1, 27).

Sob o reinado de Saul, a cidade era vassala dos filisteus, quando estes não a ocupavam pura e simplesmente. Depois da derrota e da morte do rei de Israel na batalha de Guilboa, foi dos seus muros que eles penduraram o seu cadáver mutilado (1 Samuel 31, 10). Ao lado dos restos mortais de Saul, eles tinham igualmente exposto os de Jônatas (2 Samuel 21, 12), mas ambos foram retirados de noite e sepultados na sua terra pelos habitantes de Jabes, em Galaad. Eles exprimiam, assim, o seu reconhecimento aos israelitas que recentemente os tinham libertado na tirania de Naás, rei dos amonitas (1 Samuel 11). Foi Davi quem trouxe as ossadas dos dois heróis para a terra de Benjamim, onde os mandou enterrar no sepulcro da família de Saul (2 Samuel 21, 13-14). Salomão controlava Bet-San (1 Reis 4, 12).

Na época bíblica, os matagais que recobriam as margens do Jordão constituíam domínio dos leões. Jeremias evoca a presença dessas feras, ao mesmo tempo em que o destino de Sodoma e Gomorra, quando anuncia: “Edom será um objeto de espanto [...] Repetir-se-á a catástrofe de Sodoma e Gomorra, e das cidades vizinhas [...], nenhum homem ali morará [...]. Com um leão, subira dos espinheiros do Jordão às pastagens perenes. Num instante, farei que [Edom] fuja de lá [...]” (Jeremias 49, 18-19). Zacarias vê ai uma prefiguração do juízo divino (11, 3):

Ouve-se o rugido dos leões,

Porque foi destruída a magnificência do Jordão!

Por seu lado, Ezequiel 47 faz da planície do Jordão um símbolo das bênçãos que viriam, quando prediz que as águas do mar Morto serão tornadas salubres pelas nascentes miraculosas que jorram do Templo. Com efeito, o simbolismo bíblico associa estreitamente estes dois conceitos de juízo e de benção à evocação do vale e do mar Morto. Seria neste contexto místico, nesta solidão propicia à meditação, que Jesus iria começar o seu ministério.

Faça uma viagem  à Terra Santa  ligue:(11) 3257-9211